Sentei na grama molhada, aquela noite estava especialmente fria, especialmente escura.

-Ficar aqui não é inteligente, principalmente com o que temos por aqui, vem comigo que eu te levo pro seu quarto- Percy disse se aproximando.

-Não preciso de babá, eu posso me virar muito bem, e se teme que eu vá embora pode ficar tranqüilo, não vou sair daqui enquanto não for à hora- eu murmurei zangada.

-Por que você faz isso hein?Por que repele quem quer te ajudar?- ele perguntou.

-Já parou pra pensar que eu não quero ajuda?Me deixa em paz- eu rebati.

-Orgulhosa e arrogante igualzinha ao pai- ele sussurrou.

Aquilo fez meu sangue fervilhar loucamente, tudo que eu via tinha se toldado, eu sentia raiva, ódio e tudo mais. Involuntariamente invoquei minha lança chegando a quase rosnar de raiva, quem ele pensava que era pra me falar aquilo?

-Não tenho pai, nunca conheci ninguém fora Deidara, eu nunca saí definitivamente daquele orfanato maldito, não tenho nenhuma lembrança, nada me vem à cabeça, nada, então não venha me dizer que eu sou igual a um verme nojento que se esconde atrás de sua divindade!- eu sibilei.

Ouvi um estrondo descomunal, um raio cortou os céus iluminando tudo, levantei minha mão fazendo outro estrondo em resposta, dessa brincadeira eu não sairia perdendo.

-Não pode desafiar um deus, mesmo ele sendo seu pai Annice- Percy disse botando as mãos na cabeça.

Dei a volta por ele e corri até o dormitório, em frente ao quarto tinha um deck extenso que dava pro rio, não pensei duas vezes e me joguei na água, nadei até o mais fundo que agüentei e fiquei olhado tudo, o silêncio dali era maravilhoso, a água estava morna, ali éramos somente eu e meus pensamentos.

Meu ar acabou eu voltei à superfície, ali, sentada no deck me encarando tinha um tipo de peixe, mas que ao mesmo tempo parecia uma garota escamosa, ela me encarou enquanto eu fazia a volta.

-Por favor, não tenha medo- ela pediu.

Virei-me e olhei de novo, e no lugar da escamosa ali tinha uma garota pequena e rolicinha, seus cabelos negros pendiam em cachos até sua cintura.

-Desculpe se te assustei- ela disse.

-O que é você?- eu perguntei enquanto saía da água.

-Sou um tipo especial de Náiade, vivo tanto na água quanto longe dela- Ela respondeu.

-Entendi... E o que você faz aqui?- eu perguntei me distanciando.

-Fui enviada pra ficar com você, sou sua dama de companhia!- ela exclamou alegre- sou Jennifer, prazer- ela disse estendendo-me sua pequenina mão.

-Você?Perto de mim?Não mesmo!- eu disse andando.

Ela veio atrás de mim.

-Dá pra parar de me seguir?Não quero um peixe andando comigo pra lá e pra cá, acho que ninguém aqui se tocou que quero ficar sozinha não é?Então dá o fora!- eu gritei.

Ela tinha redondos olhos castanhos, que agora estavam marejados, ela soluçava calidamente enquanto pulava na água. Entrei no quarto e deitei-me na cama coberta por um dosséu transparente, depois é claro de me assegurar que ninguém mais estava por perto e que as portas estavam devidamente trancadas.

Tive um sonho estranho, onde dois homens gigantes se digladiavam, um com um tridente e outro com uma lança quase igual a minha.

“nunca, eu não permitirei, nunca!”- o da lança gritava

“Você não tem escolha, aceite!”- o outro berrava.

Eu tentava gritar pra que eles parassem, mas nenhum som saía da minha boca, tentei correr pra impedi-los e algo me segurava. Olhei pra um lado e Percy segurava meu pulso firmemente, do outro lado um cara imenso e queimado de sol me puxava pra ele.

ela é minha!”- Percy gritava.

“minha!”- o outro rebatia.

Seus olhos eram negros, sua pele era muito quente, enquanto Percy era gelado como o mar. Olhei pra frente, e ao lado dos dois homens se digladiando estava uma linda criança, eu senti que precisava ir até ela, pois a criança chorava esticando seus bracinhos rechonchudos pra mim. Do nada um buraco no chão aparecia e a criança caía e eu estava gritando desesperada pra me soltarem.

“venha, venha buscar, está aqui, venha buscar”- uma voz velha e sombria ecoava do buraco onde a criança caía.

Um raio violento estourou e eu pude correr até a criança e puxá-la a tempo. Todos dali corriam pra nos pegar, os homens, Percy, o cara; e eu corria a toda abraçada com a criança chorando em meus braços.

-Não! -Eu gritei me sentando.

Passei as mãos pelos cabelos e percebi que estava trêmula, olhei pros lados e minhas portas continuavam fechadas.

Fui pro banheiro e ali tinha uma banheira dourada imensa no centro, em volta tinha um pia um lavabo com um espelho enorme, ao lado do espelho tinha um armário e a privada. Abri o armário e ali tinha de tudo, xampus e condicionadores, sabonetes; sais de banho e vários outras coisinhas.

Ouvi um barulho de água e olhei pra banheira que estava quase cheia, dei um passo pra trás esbarrando em alguém. Olhei pra trás e duas senhoras me encaravam.

-Bom dia senhorita,que bom que acordou,está pronta pro seu banho matinal?- elas perguntaram em uníssono.

Gritei agudamente e desci as escadas correndo, notei que a janela estava aberta e pulei-a sem nem pensar, continuei correndo até ver Deidara e Percy conversando embaixo de uma árvore. Quando me viram os dois pareciam confusos, Percy após alguns segundos parecia me analisar. Olhei pra baixo e eu vestia um pijama prateado minúsculo, minhas pernas estavam à mostra e a parte de cima quase visível. Peraí! Eu me lembro de ter me jogado na cama depois de trancar tudo, e eu estava de camiseta e jeans!

-Deidara, o que é que tá rolando aqui?- eu perguntei assustada.

Ouvi passos e olhei pra trás, as senhoras e a escamosa (que agora não tinha nenhuma escama) vinham pra perto.

-Senhorita, não pode sair assim!Está de pijamas!- as velhas disseram em uníssono.

-Mais hein?Deidara, o que é que tá acontecendo aqui?!- eu perguntei quase pronta pra correr.

-São suas damas de companhia Annice, elas foram enviadas pra cá ontem à noite pra te servir!- Percy disse se curvando de tanto rir.

-Ah não, não mesmo!Não quero ninguém na minha cola, Deidara, as faça ir embora!- eu pedi desesperada.

-A senhorita está nos... Dispensando?Por quê?Não cumprimos vossas expectativas?- as senhoras perguntaram com os olhos marejados- talvez se usarmos nossa verdadeira forma isso funcione melhor.

Não acreditei no que eu estava vendo, as duas senhoras agora eram duas belíssimas mulheres exatamente iguais.

-Nossa imagem agora é digna da senhorita?- elas perguntaram.

Não sei o que aconteceu depois, e vi tudo girar e depois não vi mais nada, tinha desmaiado.

Abri os olhos de volta ao quarto, olhei pro teto e me sentei.

-Está melhor?- as duas perguntaram.

Levantei num rompante e corri até o deck, joguei-me na água fria e tentei nadar o mais rápido e o mais forte possível, eu não tinha sonhado, aquelas duas tinham se transformado na minha frente. Parei só movimentando as pernas, respirei fundo e comecei a nadar de novo, só que mais devagar, vi um tipo de mini ilha e sentei-me ali. Se aquilo não fosse super estranho, eu diria que a vista dali era surreal.

Ouvi barulhos na água, e não eram sons comuns, eram movimentos rápidos de alguma coisa grande, realmente grande.

Levantei e joguei minhas mãos pra frente, fiquei com a lança e o escudo a postos, pronta pro que viesse, mas com certeza não pro que vi.

A criatura era imensa, e levantou-se sobre mim poderosamente, parecia um tipo de serpente de olhos vermelhos e dentes pontudos e letais, o cheiro de sua boca era nauseante, cheiro de coisa morta. Em sua cabeça imensa caía água e um tipo de coroa de couro abriu-se a fazendo parecer mais assustadora, seus olhos cor de morte me encaravam imóveis.

Leviatã”- uma voz gritou em minha mente.

Movi-me bruscamente pra tentar fugir dali, a criatura abriu sua boca ainda mais como se isso fosse possível,sua língua bifurcada quase me puxou pra dentro.

Pulei na água, agora a pequena ilha não existia mais, o imenso monstro ao tentar me comer acabou por comer pedra, ao virar-se, ele me encarou e se jogou na água, eu sabia que ali eu seria presa fácil pra ele.

Afundei a cabeça na água e via criatura investindo violentamente contra mim, virei meu corpo a tempo de desviar se seus dentes e segurar em sua calda, meu braço doía demais, no mínimo quebrado depois daquele impacto. Eu queria matá-lo por ter me machucado, eu daria um jeito de transformar aquela coisa em sushi.

Eu estava grudada em sua cauda enquanto a coisa rodopiava na água, eu quase não tinha mais fôlego pra ficar embaixo d’água. Peguei minha lança e cravei o mais forte que pude em sua cauda, a criatura subiu pulando fora d’água quase me lançando pra longe.

Ela pulava e quase me jogava pra longe, eu me segurava firme.

“Tempestade”- eu gritei quando saí da água.

Ela afundou e pulou de novo, o tempo já estava fechando.

“Relâmpagos”- eu berrei afundando na água de novo.

Esperei enquanto não subia, aquela cora maldita estaria frita daqui a pouco, isso se eu não caísse e ela me devorasse.

“Raios na água, muitos raios na água!”- eu gritei.

Senti o controle, mesmo dentro da água eu podia controlar o que aconteceria,concentrei-me em agrupar a maior concentração possível de raios, era arriscado, mais eu tinha que tentar.

Afundamos de novo e quando ela pulou de novo, eu dei meu golpe final.

“Pode soltar!”- eu gritei com toda a força.

Uma carga dourada de pura eletricidade caiu na água, o choque passou por mim sem nem fazer efeito, quanto ao Leviatã eu não pude dizer o mesmo, a criatura espasmou incontrolavelmente até parar de lutar, imóvel ele e eu começamos a boiar, eu fui escalando com a lança seu imenso corpo até sua cabeça, peguei a lança em pura fúria.

-Isso é por ter machucado meu braço!- eu gritei.

A lâmina da lança decapitou a criatura, sangue jorrava ali deixando o rio quase que todo vermelho. Caí novamente na água e nadei tentando não usar o braço machucado, eu cheguei até a beira e me senti sendo puxada por alguém.

Levantei-me e olhei ao redor, todos estavam ali e me olhavam atônitos, o homem cavalo se aproximou me encarando.

-Como você matou um Leviatã?- ele perguntou.

-Eletricidade e água, que é?Ele mereceu!- exclamei tentado sair dali, mas ele me puxou pelo braço.

Gritei agudamente enquanto ele me soltava, caí de novo no chão de tanta dor.

-Hey, você está bem?- ele perguntou se abaixando.

-Não me toque!- eu gritei entre lágrimas.

Levantei e saí correndo entre lágrimas de dor, o que eu sentia era lacerante, e por vezes me turva a os sentidos.

Sentei-me apoiando numa árvore e arquejando de dor, eu não agüentava mais, aquilo doía imensamente. Segurei meu braço com o que estava bom e senti algo quente,olhei pro braço e vi sangue escorrendo,senti náuseas na hora e se eu tivesse alguma coisa no estômago com certeza teria voltado.

Os raios, use os raios”- a voz me disse.

Estava fraca, cansada e com frio, soltei o braço machucado gritando de dor, levantei minha mão torcendo pra que um raio chegasse perto o bastante.

“raio”- eu sussurrei.

Um débil raoizinho caiu parando em minha mão, toquei o braço machucado pelos dentes do Leviatã amaldiçoando-o a queimar no mais profundo inferno. Meu braço doía menos, o sangue tinha parado, mas ainda não era o suficiente, eu não tinha mais forças. Comecei a chorar enquanto caía no chão lamacento, eu não era o suficiente, eu nuca fui, não tinha nem forças o bastante pra me curar, não tinha forças nem pra me levantar.

Fraca, isso que eu era, uma fraca, mais ao menos uma fraca teimosa. Usei o resto do que me restava em ruindade e teimosia praticamente me arrastei até o mais próxima que consegui do acampamento, ouvi passos se aproximarem e tentei focalizar melhor quem corria até mim. Percy estava ali e ao longe eu o escutava gritar por ajuda, ouvi mais passos, mas cada vez mais distantes de mim, eles aproximavam-se, mas minha mente ficava cada vez mais distante.