A Filha do meu chefe
10 Capítulo 12: O Fantasma de Tóquio
O Japão era o último lugar no mundo onde Lucas queria estar. Cada letreiro em neon de Tóquio e cada som de anúncio no aeroporto de Narita serviam como um lembrete cruel da viagem que Isadora nunca completou. No entanto, o dever profissional e a necessidade de encerrar os contratos que ela havia iniciado o forçaram a atravessar o mundo.
Ao seu lado, operando como uma sombra eficiente e silenciosa, estava Beatriz.
O ar em Tóquio era frio e cortante. Lucas e Beatriz se instalaram em um hotel de luxo em Shinjuku. A dinâmica entre eles era puramente funcional: trocavam apenas informações sobre planilhas, fusos horários e horários de reuniões. Beatriz parecia ter entendido que qualquer tentativa de aproximação emocional seria repelida com violência.
— Os executivos da Mitsubishi esperam por nós em uma hora — disse Beatriz, entrando na sala de reuniões da suíte de Lucas. Ela vestia um sóbrio terno azul-marinho. — Eu revisei as notas que a... que a equipe jurídica da Isadora deixou. Está tudo em ordem.
Lucas, que observava a chuva bater contra o vidro da janela, apenas assentiu. Ele parecia ter envelhecido dez anos em seis meses.
— Vamos acabar com isso, Beatriz. Quero assinar esses documentos e sair deste país o mais rápido possível.
A Reunião e o Gatilho
A reunião com os parceiros japoneses foi exaustiva. No final, o CEO japonês, um homem idoso e tradicional, curvou-se para Lucas e entregou-lhe uma pequena caixa de madeira laqueada.
— Esta caixa foi deixada em nosso escritório por Isadora-san na visita anterior — explicou o tradutor. — Ela pretendia levar para o Brasil como um presente para o senhor e para o herdeiro que viria. Guardamos com honra.
Lucas segurou a caixa. Suas mãos começaram a tremer. O controle que ele mantinha há meses começou a rachar ali mesmo, no meio da sala de conferências. Ele sentiu o ar faltar nos pulmões.
— Lucas? — Beatriz deu um passo à frente, notando a palidez dele. — Você está bem?
Ele não respondeu. Apenas saiu da sala apressadamente, deixando os executivos confusos. Ele precisava de ar, precisava de fuga.
O Confronto na Chuva
Beatriz o seguiu. Ela o encontrou no jardim zen do terraço do edifício, sob uma chuva fina e gelada. Lucas estava sentado em um banco de pedra, a caixa de madeira aberta. Dentro, havia um pequeno par de sapatinhos de seda feitos à mão e um bilhete que ele não conseguia ler porque as lágrimas — as primeiras que ele se permitia em meses — finalmente transbordaram.
— Lucas... — Beatriz se aproximou devagar, parando a uma distância segura. — Eu sinto muito. Eu sei que nada do que eu disser vai diminuir essa dor.
— Por que você está aqui? — Lucas gritou, a voz rouca de agonia, levantando os olhos vermelhos para ela. — Por que você tinha que ser a pessoa a presenciar isso? Você, que tentou destruir minha vida, agora está aqui assistindo eu me despedaçar por causa da mulher que eu realmente amei!
Beatriz não recuou. Ela deixou a chuva molhar seu rosto e suas roupas caras.
— Porque eu sou a única que sabe o quanto você é capaz de amar, Lucas. E eu sou a única que sabe o monstro que eu fui. Eu não estou aqui como sua vice-presidente agora. Estou aqui como alguém que viu você no seu melhor e no seu pior... e que carrega a culpa de ter desperdiçado o tempo que tínhamos com ódio.
Ela deu mais um passo, ficando ao lado dele.
— Você não precisa ser forte o tempo todo. A Isadora não gostaria de ver você se transformando em uma pedra de gelo.
O Pacto de Silêncio
Lucas chorou por um longo tempo, um choro seco e doloroso que parecia arrancar as entranhas. Por um breve momento, ele permitiu que Beatriz colocasse a mão em seu ombro. Foi um toque sem segundas intenções, sem sedução, apenas um amparo humano no meio do abismo.
— Amanhã assinamos o encerramento — Lucas disse, recuperando a voz, embora ainda trêmulo. — E depois voltamos para o Brasil.
— Sim — ela respondeu, retirando a mão. — Voltamos.
— E Beatriz... — ele a olhou, a guarda ainda alta, mas com um brilho de humanidade que não existia antes. — Obrigado por não ter tentado usar este momento para... qualquer outra coisa.
— Eu aprendi a lição, Lucas — ela disse, com um sorriso triste. — A duras penas, eu aprendi.
Eles voltaram para o hotel em silêncio. A viagem ao Japão, que deveria ser apenas um fechamento de contrato, tornou-se o fechamento de uma ferida aberta. Lucas ainda amava Isadora, e o luto o acompanharia para sempre, mas a sombra de ódio que existia entre ele e Beatriz começava a dar lugar a um respeito melancólico.
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