Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e favoritos. Boa leitura.

— Da próxima vez que quiser sair beijando alguém, faça isso longe da minha casa e fora do seu horário de trabalho! — exclamou Regina.

— Perdão?

— Não se faça de boba! Eu vi perfeitamente você e minha prima se agarrando.

— Com todo respeito, senhorita Mills, ninguém estava agarrando ninguém — Emma replicou.

— Ah, não…claro. Eu estou vendo coisas!

— Certamente.

— Não quero ouvir mais nada — Regina lhe interrompeu a fala. — Da próxima vez falarei com papai para demiti-la.

— Não esperava outra atitude da senhorita.

— Como? — indagou Regina, aparentemente chocada mediante o comentário.

— Não vai se repetir, senhorita Mills.

— Vamos! — ela exclamou, caminhando apressadamente.

— Para onde? — Emma perguntou. Seus olhos desceram rapidamente às coxas de Regina e logo voltaram ao rosto, enquanto suas sobrancelhas se juntavam em confusão.

— Para o meu ateliê, mas se quiser ficar aqui aos beijos com minha prima, fique à vontade. Não faço questão alguma da sua presença — ela alfinetou, e em resposta, Emma apenas revirou os olhos.

Nenhuma palavra foi dita em todo o percurso, e por alguns instantes, Emma chegou pensar que Regina estivesse com ciúmes, entretanto, a julgar pela forma que ela a tratava, esse pensamento logo foi descartado. Chegando ao ateliê, como de costume, Emma examinou o local com sua pistola em punho, retirando-se somente depois de constatar que o ambiente se encontrava seguro. Poucos minutos se passaram e do outro lado da porta, um barulho vindo de dentro do cômodo lhe chamou a atenção. Rapidamente ela sacou sua arma e adentrou o lugar, porém, deparou-se com uma dúzia de quadros espalhados pelo chão.

— Está tudo bem, não foi nada… — disse Regina, recolhendo o material.

— Se sente bem? — indagou Emma, colocando a pistola sobre uma mesa e se abaixando para ajudá-la. Ao fazer menção de apanhar um dos quadros do chão, sua mão acabou pousando sobre a mão de Regina. Foi então que os olhares se cruzaram, tão próximos. Dava pra ouvir a respiração uma da outra. Sem dizer uma palavra, Regina quebrou o contato e se levantou. E ao perceber que a pistola de Emma se encontrava em cima de uma mesa, ela se aproximou e não hesitou em pegá-la.

— Não sabia que uma arma pesava tanto… — ela comentou, enquanto analisava o objeto.

— Senhorita Mills, tenha cuidado com isso…devolva-me, por favor — disse Emma, aproximando-se lentamente.

— Quero que você me ensine a usar uma arma — ela falou.

— Não posso fazer isso.

— Sim, você pode. Ensine-me a atirar.

— Não creio que seu pai aprovaria essa ideia.

— Não é você quem zomba de mim quando digo que falarei com meu pai sobre certas coisas?

— É diferente…são situações diferentes.

— Por favor…estou cansada de tantas proibições, de tantos cuidados…eu prometo que farei do jeito que você disser.

— Está bem. Mas agora, devolva-me essa arma — Emma pediu, e sem relutâncias, Regina lhe devolveu o objeto.

Emma dirigiu em silêncio até um campo afastado onde a circulação de carros e pessoas eram nulas. Embora imaginasse que o senador jamais permitiria que sua filha tocasse numa arma, ela não conseguiu negar aquele pedido a Regina e isso não era nada bom.

— Não pense que atirar é tão simples como vemos nos filmes de Hollywood — Emma falou, enquanto retirava o pente da pistola.

— Porque está descarregando a arma? — indagou Regina.

— Porque você precisa pelo menos saber segurar uma arma sem que isso lhe cause danos — ela explicou, entregando-lhe a pistola.

Depois de explicar rapidamente o processo correto para manusear uma pistola, Emma se acomodou atrás de Regina e sem que pudesse evitar, todos os seus pelos se eriçaram quando seu corpo encostou levemente no corpo dela.

— Assim…você só pode segurar a arma com os dedos médio e anular — disse Emma. Seus lábios por pouco não roçaram na orelha de Regina. — Segure firmemente…como se estivesse dando um aperto de mão no qual você tem que provar sua força — acrescentou, suas mãos cobriram as mãos de Regina e pela primeira vez, ela pôde sentir a delicadeza da pele dela em um só toque. — Faça força a ponto de sua mão chegar a tremer um pouco, e então você relaxa…assim…esse é o ponto certo de tensão entre sua mão e a arma — disse por fim, quase inebriada pelo perfume dos cabelos dela.

Em silêncio, Regina sentiu um fio de prazer correndo pela sua espinha. A proximidade do corpo de Emma, seu hálito quente batendo contra sua pele e o toque firme e ao mesmo tempo suave das mãos dela sobre as suas, ´causaram-lhe uma sensação indescritível. Sua respiração ficou presa na garganta e o coração começou a acelerar.

— Eu entendi… — Regina sussurrou, afastando-se rapidamente. Sorrindo, ela tentou esconder seu nervosismo. — Eu quero fazer um disparo.

— Está bem — Emma falou, pegando a pistola de sua mão para logo em seguida, recarregá-la. — A mão não dominante deve dar apoio a mão que está segurando a arma — acrescentou, entregando-lhe a pistola.

Depois de orientá-la sobre a posição de seu corpo e a forma como deveria equilibrar a pistola, Emma recuou alguns passos e fez sinal para que Regina atirasse. Efetuado o disparo, ela sorriu satisfeita pelo que acabara de fazer.

— Está vendo? Não aconteceu nada! — Regina falou.

— A senhorita já fez o que queria, agora me devolva a pistola e vamos embora.

— Posso atirar mais uma vez?

— Não.

— Só mais um…

— Não. Me dê a pistola agora…

— E se eu não der?

— Senhorita Mills, por favor…isso não é brincadeira — disse Emma, aproximando-se lentamente, e ao tentar tirá-la das mãos de Regina, a arma acabou disparando.

…

— Emma! — exclamou Regina, claramente assustada ao se dar conta de que disparara acidentalmente contra sua guarda-costas. — Me desculpe…por favor, me desculpe…eu não sei como essa arma disparou, me desculpe Emma — dizia ela, claramente assustada, enquanto Emma tentava se manter de pé, ao mesmo tempo em que pressionava o local do ferimento com a própria mão. — Meu Deus, Emma…não morra, por favor…me perdoa…

— Fique calma…apenas leve-me a um hospital… — Emma sussurrou, apoiando-se no ombro de Regina.

A cada minuto que passava, o desespero de Regina aumentava mediante a quantidade de sangue que Emma perdia. Suas mãos suavam e tremiam ao mesmo tempo, seu coração em disparada estava prestes a sair pela boca, mas felizmente, Emma continuava consciente, impedindo-a de se render a desesperação.

— Estamos chegando…por favor, não fecha os olhos… — ela dizia, alternando entre olhar para a estrada à sua frente e para Emma ferida ao seu lado.

Alguns minutos depois, finalmente chegaram ao hospital. Emma foi levada para um quarto enquanto Regina, permaneceu no corredor à espera de notícias. Atordoada e ainda nervosa, ela ligou para o seu pai relatando o ocorrido e pouco tempo depois, Henry Mills apareceu acompanhado de Cora e dois seguranças.

— Filha…mas o que foi que aconteceu? — indagou Cora, claramente preocupada.

— Foi um acidente…ela estava me ensinando a atirar e a arma disparou.

— Mas com que direito essa mulher se atreveu a colocar uma arma em suas mãos?! — Cora falou, perplexa com aquela revelação.

— A polícia foi acionada, papai…

— Não se preocupe, meu amor. Nada acontecerá com você. Foi só um acidente — disse Henry, envolvendo-a num abraço apertado.

Pouco tempo depois o delegado de polícia apareceu, e na presença do senador, ele sequer cogitou a possibilidade de interrogar Emma para confirmar o depoimento de Regina.

— Filha, vamos para casa… — disse Cora.

— Eu só vou quando o médico trouxer notícias — disse ela.

— Mas porque se preocupa tanto com essa moça?

— Por minha causa ela está nesse hospital, mamãe.

— Cora, por favor — Henry interveio. — Vá para casa com Will e assim que tivermos notícias, levarei nossa filha para casa.

Aproximadamente meia hora após a saída de Cora, o médico finalmente apareceu informando que o projétil havia sido extraído e que Emma se encontrava fora de qualquer perigo. Enquanto Henry trocava algumas palavras com ele, Regina pediu autorização para visitá-la e sem qualquer objeção, ela foi acompanhada até o quarto por uma das enfermeiras.

— Oi… — ela disse, quando seus olhos castanhos cruzaram com os olhos verdes.

— Oi… — Emma respondeu, explodindo de felicidade ao perceber que Regina permanecera no hospital.

— Como se sente?

— Já estive melhor…

— Eu sinto muito…eu não queria que isso tivesse acontecido.

— Está tudo bem, foi apenas um acidente.

— Espero que se recupere logo.

— Ansiosa para me acertar outro tiro?

— Claro que não!

— Eu estou brincando.

— Nossa, você brinca? — indagou Regina. Seu tom de voz estava carregado de ironia.

Emma estreitou os olhos em total confusão, e ao notar seu desconserto, Regina não conteve o riso.

— Você é sempre tão séria com essa pose de durona....

— Ah…faz parte do trabalho — Emma se justificou.

— Bom, eu vou deixar você descansar então… — Regina falou, e ao fazer menção de se retirar, Emma lhe segurou a mão.

— Eu preciso te dizer…uma coisa.

— Pode falar…

— Poderia se aproximar um pouco mais?

— Assim está bom? — Regina perguntou, parcialmente debruçada sobre ela.

— Sim, está… — Emma sussurrou, segurando-lhe a nuca e se inclinando para beijá-la. Seu coração retumbava no peito e nem o corpo e nem a mente permitiram que mais um minuto se passasse sem que ela satisfizesse seu desejo.

Regina abriu os lábios em protesto, mas a queixa se transformou num gemido quando a boca de Emma cobriu a dela. Regina sentiu-se mergulhar no prazer daquele beijo enquanto o sabor da língua de Emma destruía suas certezas e o último resquício de autocontrole. Apesar da confusão em sua cabeça, o corpo decidia por ela. Emma a beijava como se já tivesse feito isso mil vezes, a língua tomando toda a sua boca. Essa era a forma que ela imaginou que a beijaria desde o momento em que seus olhos pairaram sobre ela, desde o momento em que soube que a desejava.

De repente, Regina ficou perturbada sem saber exatamente o que estava fazendo e em consequência disso, ela interrompeu o beijo. Ainda que seu corpo tivesse reagido de forma positiva, ela precisava parar.

— Senhorita Mills…eu estou… — Emma tentou se pronunciar, todavia recuou quando a porta se abriu e o médico acompanhado do senador adentraram o cômodo.

De sobressalto, Regina se afastou mediante a presença do seu pai. Passando a mão pelos cabelos, nervosa pelo que acabara de acontecer, ela se virou, segurou a maçaneta da porta e simplesmente saiu.

— Como se sente, Emma? — indagou o médico.

— Me sinto bem — ela disse. Seus olhos verdes dilatados e trêmulos de desejo após aquele beijo, pairaram sobre a figura do senador. — Senhor Mills, sei que eu não deveria…

— Não se preocupe, Swan. Eu conheço a minha filha o suficiente para saber que essa ideia partiu dela, mas peço-lhe que não volte a se repetir — ele a interrompeu.

— Não voltará a se repetir.

— Muito bem…visto que a minha filha provocou tudo isso, não se preocupe com as despesas do hospital, já está tudo pago.

— Não precisava, senhor senador.

— É claro que precisava. Bom, espero que se recupere logo, Swan. Até breve.

— Até breve, senhor senador.

Após a saída de Henry, Emma manteve o olhar fixo na porta com a esperança de que Regina entrasse pelo menos para ouvir o que ela tinha a dizer, ou simplesmente para se despedir ou questioná-la sobre o beijo. Mas ela não apareceu. Ela não retornou.

[…]

— Filha, está tudo bem? — Henry perguntou, tão logo chegaram à mansão. — Você não disse uma palavra por todo o caminho…

— Eu só fiquei assustada pelo que aconteceu, mas estou bem.

— Vá descansar. Amanhã conversaremos sobre o que aconteceu.

— Não quero mais falar sobre isso, papai.

— Então nunca mais toque numa arma. Se aquele disparo tivesse sido em você…

— Não vai se repetir, papai. Eu prometo.

— Obrigado, querida.

— Vou para o meu quarto, com licença.

Acomodada dentro da banheira, Regina fez de tudo para não arfar quando as lembranças do beijo trocado com Emma lhe invadiram a mente. Aquele beijo fora devastador, doce, eufórico, do jeito que ela havia imaginado que seria.

— Maldito beijo… — ela murmurou, enquanto seu coração batia frenético, como um animal tentando escapar da jaula que era seu peito.

[…]

— Você beijou a filha do senador? — indagou Mérida, num misto de surpresa e incredulidade.

— Sim. Eu a beijei…na boca — Emma respondeu.

— E depois? O que aconteceu? O que ela disse?

— O pai dela chegou acompanhado do médico e ela simplesmente saiu do quarto e não voltou mais.

— Bom…ela deve ter se assustado com a presença dele.

— Ou só correspondeu ao meu beijo por se sentir culpada pelo que aconteceu. Ou talvez ela nem goste...entende?

— Sim, entendo. Mas…você está apaixonada por ela?

Foi então que a história paradoxal sobre amor à primeira vista que seu pai lhe contava desabou sobre sua cabeça de supetão: “ela está em algum lugar por aí. Ela atrairá todos os seus instintos sem o menor respeito pela ordem natural das coisas, e quando você a encontrar, saberá no instante em que a vir”.

— Eu me apaixonei no instante em que a vi… — ela revelou.

— Acho que é impossível não se apaixonar por uma beldade daquela.

— Pois é…mas isso não deveria ter acontecido.

— E por que não?

— Ela é a filha do senador do estado. E eu? O que eu sou, Mérida?

— Você é uma pessoa maravilhosa, linda, educada, inteligente! O que mais ela quer?

— Não é tão simples assim…e como eu já disse, talvez ela goste de algum rapaz e eu me atrevi a beijá-la.

— Bom, converse com ela, fale sobre os seus sentimentos e se ela não corresponder, bola pra frente. Agora me fala, quando vai receber alta?

— Acho que amanhã mesmo.

— Me liga e eu venho te buscar, certo?

— Certo…

Nas horas que se seguiram, Emma não desejou outra coisa que não fosse uma visita de Regina. Os minutos se arrastavam, e conforme o tempo se passava, sua esperança se esvaía ao se dar conta de que Regina não viria.