A Filha do Senador
15 Capítulo 15
— Você sabe que o relacionamento entre eles era falso, não sabe? — indagou Ruby, enquanto assistia a reportagem ao lado de Emma.
— Sim, eu sabia.
— Isso significa que você está pouco se lixando para o que vão dizer de agora em diante, não é?
— Exatamente. Só não quero que essas fofocas afetem Regina.
— Não vai me afetar, meu amor — ela disse, aparecendo de surpresa. — A imprensa não perderia essa oportunidade, mas logo eles esquecem — acrescentou, sentando-se entre Emma e Ruby.
— Tenho medo que se sinta pressionada, ofendida…não sei…e acabe se arrependendo de…
— Emma… — ela a interrompeu. — Eu tirei um peso de cima das minhas costas…me sinto leve, livre, e já não me importa o que as pessoas e principalmente a imprensa dirá a respeito disso. Eu te amo, e tudo o que eu quero é ser feliz com você.
— Bom, gente…o que acham de mandarmos a imprensa se foder e esquecermos esse assunto? — Ruby sugeriu. — Podemos pedir algumas pizzas, comida japonesa e tomarmos algumas cervejas, tequilas enquanto esse bando de idiota brincam de fazer fofocas.
— Não é uma má ideia… — disse Regina, virando-se para Emma enquanto Ruby se retirava com o telefone em mãos. — Meu amor, essa noite eu vou dormir aqui e queria que você também ficasse e dormisse comigo.
Pegando a mão de Regina gentilmente, ela a levou até a boca depositando um beijo suave. Seus olhos verdes estudaram o rosto dela e seus lábios se curvaram num sorriso amargo ao perceber os traços de dor que ela apresentava, mas que tentava a todo custo esconder.
— Claro que eu fico aqui com você… — ela falou, acariciando-lhe os lábios com os polegares, e em seguida, beijou-lhe a testa. — Você…ficará aqui por alguns dias ou…
— Eu vou para o meu apartamento.
— Regina, o que sua mãe disse a respeito?
— Emma, está tudo bem. Eu estou bem, nós estamos bem, então vamos esquecer esse assunto, certo?
— Certo — ela assentiu, e o som da campainha encerrou definitivamente aquela conversa.
Emma se levantou para abrir a porta, já que Ruby arrumava a mesa para comerem. Era o serviço de entrega do restaurante.
Regina observou Emma desaparecer com as sacolas cozinha adentro, e finalmente ela respirou fundo, tentando diminuir a tensão do corpo. Não queria lhe dar detalhes sobre aquele final de tarde, muito menos repetir as palavras duras do seu próprio pai direcionadas a ela. Reviver tudo aquilo só serviria para prolongar a cicatrização de suas feridas, e enfurecer os nervos de Emma além do seu limite. Apesar de se mostrar um tanto calma, Regina havia percebido que Emma continuava lutando contra o instinto de ir atrás do senador, e por esse motivo, ela achou melhor esquecer o assunto e se manter em silêncio.
A ideia de passar a noite no apartamento de Ruby havia sido de grande ajuda para Regina. Naquele instante, enquanto jantava ao lado da mulher que amava e de sua melhor amiga, ela conseguiu esquecer os piores momentos vividos dentro de sua própria casa. Quando o sono chegou, os braços firmes de Emma lhe manteve aquecida por toda a noite, e então ela se deu conta de que seu lugar era ali, nos braços dela, para sempre.
[…]
Na manhã seguinte, Emma despertou duas horas mais cedo do que geralmente despertava. Precisava ir para casa tomar banho e trocar de roupa para se dirigir ao departamento de polícia. Regina ainda dormia, tão linda. Parecia um anjo, enroscada de lado, com as mãos enfiadas embaixo do travesseiro. Resistindo a tentação de tocá-la, Emma se limitou a escrever um “Eu te amo” sobre um pequeno pedaço de papel.
Chegando ao departamento, Emma foi recebida por olhares curiosos e inquisitivos, e por onde passava, os burburinhos dos colegas de profissão a acompanhavam.
— Aqui não se fala de outra coisa — disse Graham, fechando a porta da sala.
— Percebi — ela se limitou a dizer.
— Mas…é mesmo verdade que você e a filha do senador estão tendo um romance? — Graham perguntou, e ao perceber o olhar gélido de Emma em sua direção, ele pigarreou. — Estou perguntando porque o senador disse que era mentira, que eram fotos falsas…
— Quando foi que ele disse isso?
— Hoje de manhã na porta do senado. Passou na TV…tinha uma pilha de repórteres esperando por ele.
— Independente do que ele e a imprensa digam, Regina e eu ficaremos juntas porque nos amamos. E eu não quero mais falar sobre disso — disse ela, e em silêncio, Graham assentiu.
Nas horas que se seguiram, Emma evitou dar importância aos cochichos e risadas que se espalhavam pelos corredores cada vez que ela passava. Felizmente, era sexta-feira e como ela trabalhava dentro do departamento e não nas ruas, os finais de semana eram sempre livres. Um telefonema de Regina acalmou seu péssimo humor, e pela primeira vez depois que começaram aquele relacionamento, elas sairiam juntas para almoçar.
…
Ao abrir a porta do restaurante escolhido por Regina, Emma logo a avistou e como sempre acontecia, sua respiração falhou ao vê-la sentada a uma mesa mexendo no telefone celular, e de repente, com se sentisse sua presença, ela ergueu a cabeça e sorriu. Foi então que Emma se deu conta de que não havia uma única coisa da qual não abriria mão por ela. Caminhando lentamente em sua direção, Emma só desejava conseguir remover as marcas do coração dela e livrá-la das cicatrizes deixadas pelas palavras e rejeição de Henry Mills. Ruby lhe havia contado de manhã cedo tudo o que sabia sobre a conversa de Regina com seus pais, e foi preciso reunir todo o seu autocontrole para resistir a tentação de procurá-lo dentro ou fora do senado, e fazê-lo engolir cada palavra dura que ousara dizer contra a própria filha.
Enquanto Emma se aproximava, Regina ignorou os olhares direcionados a elas e foi encontrá-la no meio do restaurante repleto de gente. Os murmúrios que as cercavam ficaram abafados porque a respiração de Emma era o único som que Regina conseguia escutar. Em silêncio, e sem se importar com todo aquele amontoado de gente à sua volta, Regina enlaçou-lhe o pescoço e a puxou para um beijo rápido e discreto, sem o contato das línguas.
— Desculpe o atraso. O trânsito está um caos hoje… — disse Emma, feliz e ao mesmo tempo surpresa mediante aquele gesto de Regina.
— Pensei que pontualidade fosse uma das suas qualidades — disse Regina, segurando-lhe a mão enquanto caminhavam até a mesa.
— E é. Mas hoje…
— Estou brincando, amor — ela a interrompeu. — Por você eu esperaria o tempo que fosse preciso.
— Senhorita Mills…eu vou acabar me apaixonando mais do que já estou apaixonada.
— Nada me deixaria mais feliz — disse Regina, e segundos depois, o garçom apareceu para anotar os pedidos.
[…]
— Eu quero falar com a minha filha! Eu quero vê-la e você não pode me impedir de fazer isso, Henry! — dizia Cora, claramente aflita.
— Já disse que não vou tolerar essa vida libertina que ela resolveu seguir! Mas não se preocupe, Regina voltará para casa…
— E se ela não voltar, Henry?
— Ela voltará! Quando ela se der conta de que viver ao lado de uma policialzinha morta de fome não lhe dará futuro nenhum, ela voltará…e eu mesmo vou me encarregar de fazê-la enxergar a burrice que está cometendo — disse ele, se retirando para o escritório.
Através do computador, Henry sentiu o sangue ferver em suas veias ao se dar conta de que os noticiários continuavam divulgando imagens e informações sobre a vida de sua filha.
“A filha do senador finalmente saiu do armário”
“Romance entre a filha do senador e sua ex guarda-costas, é destaque em toda América”
“Minha filha não é lésbica” declara o senador. Mas romance com a ex guarda-costas segue estável"
Enraivecido, ele atirou o notebook contra a parede enquanto a raiva e a vergonha se apoderavam do seu corpo. Nunca, em toda sua vida, o seu sobrenome estivera envolvido em escândalos ou fofocas. E agora, além do sobrenome, a imagem de sua filha aos beijos com uma outra mulher circulava pelos quatro cantos da América. Uma careta de nojo se formou em suas feições ao se dar conta de que Regina não lhe daria os netos que ele sempre desejara, e que não provaria do orgulho e da emoção de conduzi-la até o altar quando chegasse o momento do matrimônio.
— Não posso permitir que você arruíne sua própria vida, Regina…eu não posso… — ele murmurou, consigo mesmo.
[…]
Depois do agradável almoço na companhia de Emma, Regina finalmente pegou sua bagagem no apartamento de Ruby e ao lado da amiga, se dirigiu ao próprio apartamento. Embora a incompreensão dos seus pais tivesse lhe atingido em cheio, ela não podia negar que o alívio e a sensação de pura liberdade havia dado um sentido a mais à sua monótona vida. Respirando fundo e com arrepios tomando conta de cada centímetro do seu ser, ela se jogou no confortável sofá e sorriu.
— Eu estou feliz, Ruby…eu me sinto a mulher mais feliz desse mundo — disse ela, enquanto encarava o teto.
— E eu fico feliz em te ver feliz, amiga. Finalmente você escapou da teia que era a sua vida — disse ela.
— É verdade… — ela disse, sentando-se lentamente. — E sinto muito ter demorado tanto para…
— Ei… — Ruby a interrompeu. — Não sinta. Você o fez no momento certo, com a pessoa certa — acrescentou, segurando-lhe as mãos com delicadeza. — Emma te ama de verdade, você também a ama e é isso que conta.
— Tem razão…
— Regina, eu não queria tocar no assunto…mas e sua mãe? Ela não disse nada?
— Mamãe não tem coragem de enfrentar papai. Portanto, não creio que manteremos algum contato.
Enquanto Regina organizava suas roupas no devido lugar, Ruby fazia planos para o final de semana onde segundo ela, a presença de Mérida, amiga de Emma, era de extrema importância. A tensão de minutos atrás havia desaparecido, dando lugar ao riso que por tanto tempo, Regina reprimiu por medo de mostrar seu verdadeiro eu.
No final da tarde, Emma apareceu e após uma breve conversa, Ruby foi embora deixando-as a sós.
— Como foi o seu dia? — Emma perguntou, rodeando-lhe a cintura com seus braços.
— Melhor do que eu imaginava…e agora que você chegou…
— E agora que eu cheguei…o que acha de me acompanhar no banho e depois sairmos para jantar, hum?
— Antes de irmos para o banho, você ligará para sua amiga e a convidará para jantar conosco no apartamento de Ruby — disse Regina, desvencilhando-se do abraço dela. — Ruby quer conhecê-la melhor.
— Mérida tem namorado — Emma falou.
— Oh, céus! E agora? — questionou Regina, arqueando as sobrancelhas ao mesmo tempo em que tapava a própria boca.
— É brincadeira!
— Ai, Emma! — ela exclamou, dando-lhe um pequeno tapa no ombro. — Liga pra ela, vai…
— Está bem, eu vou ligar.
Depois de curtirem uma chuveirada longa e quente, Emma e Regina deixaram o apartamento e em poucos minutos, estacionaram em frente ao edifício de luxo onde Ruby residia. Mérida que havia aceitado o convite, chegou somente meia hora depois.
— Desculpem o atraso…o GPS do meu carro me levou por outra avenida e…eu conheço você — ela disse, desviando o olhar de Emma e pairando sobre Ruby.
— Ah…nós nos vimos na praia uma vez…
— Não, não. Você não é a garçonete que foi ao meu apartamento pedir o endereço da minha amiga Emma?
— Vejam só! Então foi assim que você conseguiu meu endereço, senhorita Mills? — indagou Emma, cruzando os braços em seguida.
— Gente, foi uma mentirinha que eu me vi obrigada a falar por causa de Regina. Ela sempre me coloca em encrenca — disse Ruby, tentando disfarçar seu desconserto.
— Não se preocupe, Mérida. Apesar de gostar de contar mentirinhas, Ruby é uma boa pessoa — disse Emma, não contendo o riso.
— Acho melhor começarmos pela forma tradicional então. Eu sou Mérida — ela disse, estendendo a mão na direção de Ruby.
— Bom..e eu sou Ruby, muito prazer e me desculpe pela mentirinha — ela falou, retribuindo o cumprimento.
— Agora que todo mundo já se conhece, vamos comer porque estou faminta! — disse Emma.
Enquanto saboreavam a comida caseira que Ruby fez questão de preparar, Emma relatava um pouco da história de sua vida na pacata cidade de Storybrooke onde conheceu Mérida, e que apesar das mudanças inesperadas que aconteceram em suas respectivas vidas, a amizade entre elas se manteve constante.
— E então, Mérida. Como foi a sua primeira vez? — indagou Ruby, e todos os olhares se arregalaram antes dela acrescentar rapidamente: — Em Boston! Sua primeira vez em Boston. Quero dizer, você é britânica, não é?
— Sim, eu sou britânica — ela disse, as bochechas tão coradas quanto as de Ruby. — E quanto a minha primeira vez…em Boston. Bom…foi estranha. A primeira vez é sempre estranha pra algumas pessoas, quer dizer, eu… — ela piscou compreensivelmente confusa, perdendo completamente o fio da meada daquela conversa.
— Quem vai querer sobremesa agora? — questionou Regina, quebrando a confusão formada por aquele diálogo.
[…]
— Eu fiz o maior papelão, não é? Droga! Eu fico muito idiota perto dela — dizia Ruby, enquanto retirava os pratos da mesa ao lado de Regina.
— Acho que você deveria convidá-la para sair e talvez, as duas sozinhas fiquem mais à vontade — Regina falou, e antes que Ruby pudesse pensar naquela possibilidade, Emma e Mérida invadiram a cozinha com o restante dos pratos nas mãos.
— Ajuda pra lavar? — Emma perguntou.
— Não, Emma. Obrigada. A senhora que faz a limpeza pra mim coloca tudo na lava louças amanhã.
— Bom, então acho que é hora de irmos.
Alguns minutos se passaram enquanto as quatro se despediam. Ao longo do percurso de volta para casa, Emma não escondeu a satisfação que sentia em ter Regina ao seu lado, sem mentiras, sem ocultações, e nem nada do gênero. Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta do elevador se abriu, e diante da porta do apartamento de Regina estava o senador, esperando-a.
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