Fechando os olhos por alguns instantes, Emma tentou se concentrar apenas no motivo de estar ali, mas o perfume inebriante de Regina, tão perto, tornava essa tarefa quase impossível.

— Boa noite! Hoje a minha rainha não precisará dos seus “cuidados” — disse Robin. — Vou levá-la para jantar e eu mesmo cuidarei dela — acrescentou, rodeando a cintura de Regina com seus braços.

— Com todo respeito, independe de com quem ela esteja, eu a acompanharei — Emma falou, abrindo a porta do carro para que Regina entrasse.

— Escuta aqui…

— Robin! — Regina o interrompeu. — Você sabe que são ordens de papai… — acrescentou, e sem dirigir seu olhar à Emma, ela entrou no veículo e só então informou o local exato onde jantariam.

[…]

— Ela tem namorado? — indagou Mérida, claramente surpresa.

— Isso mesmo. Um babaca idiota — dizia Emma, enquanto bebericava sua xícara de café.

— Talvez seja apenas um amigo…

— Ele a beijou na boca.

— Você também a beijou na boca.

— Não é a mesma coisa! Eles foram jantar, como um casal…

— Nesse caso, é melhor você esquecer essa mulher.

— Sim, é o melhor a se fazer.

No dia seguinte, Emma iniciou a jornada de trabalho travando uma dilacerante batalha para manter em segurança o seu autocontrole. Como se não fosse o suficiente suportar a presença de Regina pulsando dentro de si, e o seu inebriante perfume ardendo fundo na mente, ainda tinha que tolerar aquele homem, o suposto namorado dela.

Passava das quinze horas quando ao lado de Robin, Regina deixou o restaurante no centro de Boston. Sem razão aparente, Robin acabou se envolvendo numa discussão que resultou numa troca de socos entre ele e um desconhecido, e embora Regina tivesse praticamente exigido que Emma o defendesse, ela se recusou terminantemente a fazê-lo.

— Ele está apanhando! — Regina exclamou, e ao fazer menção de se aproximar, Emma a puxou pelo braço em direção ao carro.

— Isso é problema dele, não meu — disse Emma, abrindo a porta para que ela entrasse.

— Como pode dizer isso?

— Digo e repito se quiser. Meu trabalho é cuidar da sua segurança, não da segurança dele — dito isso, ela fechou a porta do veículo e em seguida, deu partida.

— Eu exijo que você pare esse carro agora! Você não pode deixá-lo…

— Não me diga que o seu namoradinho não tem dinheiro para pegar um táxi… — Emma a interrompeu.

— É claro que ele tem! Ele não é um morto de fome feito você! — Regina falou, e embora sua condição financeira nunca tivesse sido um problema, naquele momento, Emma se sentiu desconfortável com aquela verdade.

Durante os minutos seguintes, Emma não proferiu uma única palavra, tampouco Regina.

Alguns dias se passaram e durante quase uma semana, Robin não apareceu na mansão. Segundo Zelena, prima de Regina, ele se encontrava em casa se recuperando da surra que levara àquele dia ao sair do restaurante. Todavia, a tranquilidade sentida por Emma mediante a ausência daquele homem, foi-se por água abaixo quando na manhã seguinte, ele apareceu, mais arrogante e prepotente do que nunca.

— Ele é insuportável, não é? — Zelena comentou, interrompendo-lhe os pensamentos. — Regina não é tão diferente…e por isso formam um lindo casal — acrescentou, e após alguns segundos em silêncio, Emma lhe dirigiu o olhar.

— Você já o conhecia? — ela perguntou, esforçando-se para não soar interessada demais.

— Sim…é um idiota, mas a minha tia Cora e o marido sempre o quiseram como genro.

Emma respirou fundo, o nó em seu peito foi se desfazendo ao se dar conta de que estivera prendendo a respiração enquanto observava Regina caminhar de mãos dadas com ele até a piscina. Mais uma vez ela teve seus pensamentos interrompidos quando a voz de Ruby que acabara de chegar, cumprimentando-as, lhe tirou daquele transe.

Alguns minutos se passaram e Zelena se retirou. A expressão de Emma tornou-se ainda mais fechada enquanto observava o sorriso de Regina direcionado a ele. Seu relógio de pulso marcava meio dia em ponto, e ao fazer menção de se retirar para usufruir do seu horário de descanso, ela foi surpreendida pela voz de Robin lhe chamando.

— Pois não — Emma falou, parada diante dele.

— Quero que saiba que não fiquei chateado por você ter permitido que aquele idiota me agredisse. Mas se fosse o contrário, eu teria lhe ajudado — ele disse.

— Mais alguma coisa? — indagou Emma, ignorando todo aquele discurso enquanto Regina e Ruby observavam a cena em silêncio.

— Como prova da minha sinceridade, quero convidá-la para um banho de piscina. Afinal de contas, você deve estar morrendo de calor nessas roupas, não? — disse ele, e antes que Emma pudesse responder, ele a empurrou, fazendo-a cair dentro da piscina.

Enquanto Robin gargalhava, Regina rapidamente se levantou irritada pela péssima brincadeira feita por ele. Aproximando-se da borda da piscina, ela estendeu a mão para Emma, todavia, seu gesto fora ignorado e o riso de Robin cessado pelo soco que Emma acertou em seu rosto.

Caído sobre a grama, Robin tentou se levantar, no entanto, o punho fechado de Emma lhe golpeou a cara mais uma vez, e depois outra, e outra, e mesmo com o sangue escorrendo do nariz e da boca dele, ela continuou com os golpes. Mesmo com os apelos de Regina e Ruby, ela continuou, parando apenas quando um dos seguranças da casa interrompeu a briga.

— Calma, Emma! — dizia Will, agarrando-lhe pela cintura.

— Você está louca? — indagou Regina. — Olha o que você fez! — acrescentou, horrorizada pela quantidade de sangue espalhada pelo rosto de Robin.

— Diga ao seu namoradinho que ele pense mil vezes antes de se meter comigo! — Emma falou, num tom exaltado, desvencilhando-se de Will e se retirando em seguida.

…

— Eu relevei o que aconteceu na saída do restaurante porque você não tinha obrigação nenhuma de defender o namorado da minha filha, embora tivesse o poder de ter evitado aquela confusão. Mas agredi-lo brutalmente dentro da minha própria casa e diante de Regina? Isso eu não admito. Portanto, a partir de agora, não preciso mais dos seus serviços — disse Henry.

— Eu sinto muito, senhor senador. Mas em minha defesa, fiz o que fiz porque tive os meus motivos — Emma falou. — Com licença — acrescentou, se retirando em seguida.

[…]

— Mas que filho da puta escroto! — exclamou Mérida.

— É um idiota…mas eu quebrei a cara dele!

— No seu lugar eu teria feito o mesmo. Agora vem aqui, deixa eu colocar um pouco de gelo na sua mão.

— Não precisa…eu tô bem.

— Deixa de teimosia, Emma — ela disse, segurando-lhe a mão para logo em seguida, acomodá-la dentro de um balde com gelo. — Mas e agora você ficou sem trabalho.

— Isso é o de menos. Eu já não estava mais a fim de trabalhar para…aquela gente.

— Claro…além disso, você é jovem, linda, inteligente. E se eu fosse você, pensaria seriamente em entrar para a polícia.

Quando a noite caiu e Emma apoiou a cabeça no travesseiro, de imediato a imagem de Regina surgiu em sua mente. Inevitavelmente, ela se perguntou por quanto tempo aquela mulher iria assombrá-la.

Tão logo amanheceu, Emma ligou seu notebook e ao verificar sua conta, se surpreendeu ao constatar que os poucos meses que havia trabalhado para o senador do estado lhe renderam um bom dinheiro. Faltava poucos dias para o verão acabar, e por esse motivo, ela decidiu que aproveitaria os dias de sol sem aborrecimentos ou preocupações.

— Que bom que já está acordada! — exclamou Mérida. — Vem, vamos tomar um café porque logo depois, quero que me ajude a escolher uma boa prancha de surf!

— Você sabe surfar? — indagou Emma.

— Não, mas você sabe — ela disse. — Já que não está mais trabalhando, vai aproveitar e me dar umas aulinhas. Você me prometeu, lembra?

— Sim, eu lembro…

— Não faça cara feia e vem logo!

[…]

— Não vai terminar seu café, filha? — Henry perguntou.

— Estou atrasada, papai. Esqueci completamente que hoje precisaria entregar um quadro e ainda nem terminei o restauro — ela disse, levantando-se em seguida. Após se despedir de Cora e Henry com um beijo no rosto, Regina se retirou em passos apressados, todavia, minutos depois, ela retornou com a mesma pressa com que havia saído.

— Aconteceu alguma coisa, filha? — indagou Cora.

— Quem são aqueles dois lá fora? — Regina perguntou.

— São os novos guarda-costas — disse Henry.

— E onde está Emma Swan?

— Eu a demiti.

Regina ficou com uma expressão confusa enquanto seu cérebro processava aquela informação.

— Porque a demitiu, papai?

— Como assim, por que a demiti? Depois do que ela fez com seu namorado você ainda me pergunta isso?

— Tudo bem, ela exagerou…mas Robin provocou.

— É impressão minha ou você está a favor daquela selvagem e contra o seu namorado? — foi a vez de Cora questionar.

— Não estou a favor e nem contra ninguém! E quer saber? Eu cansei! Cansei dessa história de segurança, de proteção, disso e daquilo! Sou maior de idade e sei me cuidar perfeitamente sozinha, então eu exijo que parem de me tratar como se eu fosse uma criança!

— Regina, minha filha…

— Já chega, papai! A partir desse momento, eu vou sair para onde eu quiser e com quem eu quiser, sem nenhum cão de guarda no meu encalço! E se algum de vocês insistirem nisso, eu vou embora dessa casa e nunca mais voltarei!

— Filha, por favor…

— Está decidido, papai! Pode dispensar aqueles homens ou eu juro que farei minhas malas agora mesmo!

…

— Nossa! Se não fosse você me contando eu não acreditaria…mas você fez bem. Essa proteção dos seus pais já se tornou um exagero desnecessário — dizia Ruby, enquanto lhe servia uma bebida.

— Exagero é pouco! — exclamou Regina.

— Teve notícias do seu “namorado”?

— Está se recuperando em casa…

— Que mão pesada é aquela, hein? Nunca imaginei que uma mulher tivesse tanta força assim. Alias, pensei que esse tipo de cena só poderia ser visto nos filmes.

— É uma selvagem.

— Desculpa, Regina…mas Robin mereceu.

— É, eu sei.

— Já que Emma não é mais sua segurança, você pretende terminar com ele?

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Qual é, Regina. Você aceitou namorar com ele pra fazer ciúmes a Emma.

— O que? De onde tirou isso?

— Vai negar?

— É claro! Isso não é verdade!

— E por que aceitou então?

— Apenas…para que papai e mamãe não ficassem me enchendo.

— Se você diz…mas mudando de assunto, o que acha de irmos à praia esse final de semana? Estou enjoada da piscina da sua casa.

— É uma ótima ideia! Quero começar a desfrutar da minha liberdade.

Na manhã seguinte, enquanto tomava uma xícara de café extremamente forte, as palavras de Ruby martelavam em sua cabeça: Qual é, Regina. Você aceitou namorar com ele pra fazer ciúmes a Emma. Caminhando até uma janela, ela contemplou o céu tomado por nuvens cinzentas combinando perfeitamente com a confusão em sua cabeça. Uma crescente agitação perturbava sua mente desde o dia em que sentira os lábios de Emma contra os seus, e agora, a ausência dela provocava um emaranhado de emoções e conflitos internos.

— Eu não estou apaixonada por ela… — Regina murmurou consigo mesma, enquanto a culpa por estar “usando” Robin ardia quase tanto quanto o desejo acalorado por Emma, mas que ela insistia em negar.

Claramente confusa, ela retornou para o quarto e se jogou novamente sobre a cama. E sem que pudesse evitar, a lembrança do beijo invadiu sua mente mais uma vez. Aquele beijo dominante, porém suave, o cheiro do perfume e os olhos verdes implacáveis fixados em si acabavam com todas as suas tentativas de afastar quaisquer pensamentos que por tantas noites, quase a levaram ao orgasmo. Por enquanto, pelo menos a razão ia vencendo a guerra contra o corpo, e com Emma longe de sua visão, talvez não demorasse muito para tirá-la da cabeça definitivamente.

— Maldito beijo… — ela murmurou, perdida em pensamentos.

[…]

— Ainda não acredito que estou tomando sol na praia com você — Ruby comentou.

— Nem eu acredito! — exclamou Regina, não contendo o riso.

— Acho que no fundo você gostava daquela proteção toda dos seus pais e por isso, demorou tanto pra sair da gaiola.

— Eles nunca tinham me sufocado tanto…estou bem melhor agora, livre!

— Ih, olha lá…aquela não é a sua ex guarda-costas?

— Emma? Onde? — indagou Regina, erguendo a cabeça e no mesmo instante, retirou os óculos escuros enquanto seu olhar percorria o corpo de Emma e suas curvas perfeitas num traje de surf.

Tentando esconder a luxúria que ela sabia estar estampada em seu rosto, Regina desviou o olhar, incapaz de continuar observando-a. Um nó se formou em sua garganta deixando-a quase sem ar.

— Ei! Emma! — exclamou Ruby, acenando para ela.

— O que você está fazendo? Para com isso… — murmurou Regina, por entredentes.

Com a respiração acelerada, Regina rapidamente colocou os óculos de sol a fim de disfarçar seu embaraço mediante a presença daquela mulher coberta com uma roupa extremamente colada ao corpo.

— Senhorita Lucas, como vai? — questionou Emma.

— Ah, por favor…não me chame de senhorita Lucas. Ruby está perfeito! — disse ela. — E quanto a sua pergunta, vou muito bem, e você?

— Melhor, impossível! — Emma falou, esboçando um meio sorriso. — Senhorita Mills… — acrescentou, fazendo um rápido meneio de cabeça.

— Olá… — Regina limitou-se a dizer, pegando rapidamente uma revista qualquer que se encontrava ao seu lado.

— Não sabia que você surfava — Ruby comentou.

— É um bom passa tempo nesses curtos verões…

Regina deixou escapar o ar enquanto pensava numa forma de se desculpar com Emma tanto pelo comportamento de Robin, quanto pela demissão, uma vez que se sentira culpada pelo que havia acontecido, e ao fazer menção de se pronunciar, Mérida apareceu tomando-lhe a vez.

— Aqui está sua água, meu amor! — disse Mérida, entregando-lhe uma garrafa.

— Obrigada — Emma falou, um tanto desconsertada. — Com licença e bom final de semana — acrescentou, se retirando ao lado da amiga enquanto Regina tentava processar aquela cena, ao mesmo tempo em que buscava desesperadamente um ritmo normal para sua respiração.