Passava das nove e trinta da manhã quando Mérida chegou ao hospital. Emma já aguardava no corredor e abatida, ela seguiu a amiga em direção ao carro.

— Ela não veio te visitar? — Mérida perguntou, rompendo o silêncio entre elas.

— Não… — Emma limitou-se a dizer.

— Do jeito que ela é cheia de frescuras, talvez não tenha se agradado de nenhum segurança para acompanhá-la…

— É, talvez tenha sido isso.

— Bom, e quanto tempo você ficará de repouso?

— Uma semana apenas.

[…]

— Sua guarda-costas te beijou? — indagou Ruby, claramente surpresa.

— Sim…me beijou na boca — Regina respondeu.

— Eu sabia que ela sentia algo por você. A forma como ela te olha é…

— Para, Ruby!

— Qual o problema?

— Você sabe perfeitamente qual é o problema.

— Até quando você pretende esconder sua verdadeira orientação sexual?

— Não sei…não estou preparada para me assumir diante dos meus pais, da mídia, dos amigos…além disso, Emma é minha guarda-costas.

— E…?

— Somos de “mundos” diferentes.

— Está se referindo às classes sociais?

— Sim, não que eu me importe com isso…mas meus pais se importam e mesmo que aceitassem a minha orientação sexual, jamais permitiriam que eu me envolvesse com uma subordinada.

— Me fala…você gostou do beijo?

— Pois é…eu gostei.

— Isso significa que você…

— Isso significa que eu não quero mais falar sobre isso.

A semana nem havia terminado e Emma já se encontrava totalmente recuperada. Aproveitando os dois dias que ainda lhe restavam em casa, ela aproveitou para se exercitar na tentativa de afastar Regina de sua cabeça, mas apesar dos seus esforços, ela não conseguia. Nessa ótica, ela decidiu que seguiria os conselhos de sua melhor amiga: revelaria seus sentimentos a Regina, e se não fosse correspondida, buscaria uma forma de esquecê-la.

— Bom dia, senhor senador — disse Emma, cumprimentando-o com um meneio de cabeça.

— Bom dia, Swan. Fico feliz que tenha se recuperado rápido.

— Obrigada — ela disse, e o coração disparou em seu peito quando Regina atravessou o jardim em direção à casa da piscina.

— Senhor, o carro já está pronto — informou o motorista.

— Obrigado. Tenha um bom dia e cuide bem da minha filha — ele disse, esboçando um meio sorriso e se retirando em seguida.

Emma esperou que Henry Mills deixasse a mansão e discretamente, seu olhar percorreu o jardim e tudo o que estava à sua volta. Não havia ninguém por perto, apenas um segurança no portão de entrada. E com o coração palpitando acelerado em seu peito, ela caminhou rapidamente até o local onde Regina se encontrava. Ao abrir a porta, Emma engoliu em seco quando seu olhar cruzou com o olhar dela, e naquele momento, ela se mostrou incapaz de acreditar que apenas uma semana havia se passado desde que vira seu lindo rosto pela última vez. Parecia uma eternidade.

— Bom dia, senhorita. Eu gostaria… — Emma fez uma pausa, tentando organizar as ideias. — Bom…será que podemos conversar?

— O que temos para conversar? — Regina perguntou, e tentando esconder o nervosismo, ela desviou o olhar do dela, sem querer pensar o quão sexy Emma ficava naquele terno escuro contrastando com o tom claro de sua pele.

— Acho que está claro…quero dizer, nós nos beijamos e…

— Você me beijou. — Regina a interrompeu.

— E você correspondeu.

— E…?

— Por que correspondeu?

— Veja bem, Emma Swan…foi um grande atrevimento de sua parte me beijar, e se eu correspondi como você está dizendo, foi simplesmente porque fui pega de surpresa — Regina explicou, num fôlego só. — Não pense que estou morrendo de amores por você. Portanto, esqueça o que aconteceu pelo seu próprio bem — acrescentou, e Emma mergulhou no fundo dos seus olhos, incapaz de acreditar nas palavras amargas que saíam daquela boca tão doce.

Fez-se um longo silêncio durante o qual Emma olhou mais uma vez para Regina, daquele jeito intenso e interrogativo. Ela sabia que talvez tivesse ido longe demais ao beijá-la e questioná-la a respeito disso. Regina era sua patroa, a filha do senador do estado, e embora não tivesse menosprezado o seu beijo àquele dia no hospital, estava claro que nada havia significado para ela. Por fim, Emma assentiu como se estivesse satisfeita com a resposta, ainda que a realidade fosse bem diferente. No entanto, não ia insistir mais no assunto.

— Minhas sinceras desculpas pelo incômodo. Com licença — disse Emma, se retirando em seguida.

[…]

— Mas você disse a ela que estava apaixonada? — indagou Mérida.

— Pra que? Já foi um atrevimento de minha parte beijá-la. Além disso, ela deixou claro que não sentiu nada — Emma falou.

— Então não se martirize e bola pra frente.

— Não estou me martirizando…eu apenas…deixa pra lá.

— E a tal prima dela? Aquela que quase te beijou?

— O que tem?

— Porque não “investe” nela?

— Não é assim que as coisas funcionam e eu não sinto nada por ela…Quer saber? É melhor deixar as coisas como estão.

No dia seguinte, Emma tomou conhecimento de que na época de veraneio, Regina raramente se dirigia ao ateliê, e por esse motivo, ela evitaria às proximidades da piscina onde a mulher de seu infortúnio geralmente passava suas manhãs de sol. Seus pensamentos foram interrompidos quando Ruby apareceu cumprimentando-a, e em seguida, apressou os passos na direção de Regina.

— Ela te perguntou a respeito do beijo? — indagou Ruby, enquanto colocava o biquíni no banheiro da casa da piscina.

— Sim…deve ter pensado que o fato de eu ter correspondido, significou algo para mim.

— E não significou? — ela perguntou, aproximando-se devagar.

— Eu não quero falar sobre isso, Ruby.

— Você sempre foge desses assuntos como o diabo foge da cruz, mas tudo bem…vamos aproveitar esse sol maravilhoso então.

Embora não quisesse, Emma não conseguiu evitar que seus olhos observassem Regina caminhando majestosamente em direção às espreguiçadeiras próximas à piscina. Olhou até a vista doer. Ainda que Regina estivesse totalmente fora do seu alcance, Emma a desejava. Seu corpo ansiava por ela e não era apenas luxúria. Entretanto, teria que se contentar em tê-la somente como sua patroa.

— Oi, Emma! — exclamou Zelena, interrompendo-lhe os devaneios.

— Bom dia, senhorita Mader.

— Quero te fazer um convite — ela disse.

— Convite? — indagou Emma, nitidamente confusa.

— Essa noite tenho um coquetel com uns amigos e todos irão acompanhados. Então gostaria de saber se você faria a gentileza de me acompanhar.

— Fico feliz pelo convite, mas infelizmente eu não posso. Tenho que ficar a disposição da senhorita Mills e…

— Não seja por isso! — disse ela, puxando-a pela mão em direção à piscina onde Regina e Ruby se encontravam.

— Senhorita Mader, por favor… — Emma tentou protestar, todavia, Zelena a impediu.

— Priminha! — ela exclamou. — Você poderia me fazer o imenso favor de liberar a sua guarda-costas meia hora mais cedo hoje? Alguns amigos darão uma festinha e eu não gostaria de ir desacompanhada — acrescentou, sem conter o sorrisinho ao notar a expressão enfadonha de Regina.

— Claro, priminha! Faça bom proveito! — Regina falou. Seu tom de voz estava carregado de desprezo.

— Agora você não tem desculpas para recusar o meu convite! — disse Zelena, direcionando seu olhar a Emma. — Obrigada, prima! Te espero às vinte em ponto, aqui mesmo na mansão! — dito isso, ela se retirou.

Um silêncio desconfortável pairou naquele momento antes que Regina se recolhesse para dentro da mansão. Sentindo uma dor de cabeça súbita, ela tentou analisar os próprios sentimentos a fim de encontrar uma razão para que seu subconsciente continuasse gritando para ela voltar atrás na sua decisão de “liberar” Emma mais cedo.

— Nunca desejei tanto que a senhorita Mills prolongasse a minha carga horária quanto hoje — Emma murmurou.

— Porque não recusou o convite então? — indagou Ruby.

— Eu recusei, mas ela insistiu e me arrastou até aqui.

— Se te serve de consolo, tentarei convencer Regina a inventar algum pretexto para não te liberar mais cedo — Ruby falou, esboçando um sorriso amigável.

— Agradeço desde já, mesmo sabendo que ela não voltará atrás na sua decisão.

…

— Já disse que não, Ruby! Se ela não quisesse ir, não teria aceitado! — exclamou Regina.

— Ela não queria ir, aliás, ela não quer ir, Regina! Mas você sabe como sua prima é quando quer uma coisa!

— Quero mais que Emma e Zelena se explodam!

— Tudo bem, se não quer fazer por Emma, faça por mim…

— Merda, Ruby! Achei que você já tivesse tirado a minha prima da cabeça.

— Eu tentei, mas não consigo. Desde que a vi pela primeira vez, não consigo tirá-la da cabeça.

— Pois deveria! Você está vendo que ela não presta! Acabou de chegar e já está dando em cima da minha guarda-costas.

— Eu sei que ela não presta, mas o que posso fazer se gosto dela? — disse Ruby, e após um longo minuto de uma óbvia discussão interna, Regina bufou.

— Está bem…inventarei uma desculpa para que Emma não vá com ela.

Algumas horas depois…

— Sinto muito, priminha! Surgiu um imprevisto e eu terei que sair, o que consequentemente requer a presença da minha guarda-costas — dizia Regina, enquanto terminava a maquiagem.

— Não se preocupe, prima…eu já esperava por isso.

— Ah, é? Não me diga.

— Sim, eu digo…por mais que você tente, não consegue disfarçar os ciúmes.

— Ciúmes? Você acha mesmo que eu estou com ciúmes de você? — indagou Regina, num tom zombeteiro.

— De mim não…de Emma! — exclamou Zelena, e de imediato, o sorriso de Regina desapareceu. — Acha que não sei seu segredinho? — acrescentou, caminhando em direção à porta.

— Do que você está falando, sua idiota?

— De nada, prima! Aproveite a noite com sua guarda-costas enquanto pode! — dito isso, Zelena se retirou.

Depois de alguns minutos buscando compreender sobre qual “segredinho” Zelena se referia, Regina deixou o seu quarto e após se despedir dos pais, seguiu em direção ao jardim onde Emma se encontrava a postos, esperando-a. Seus olhos pousaram sobre a figura loira de feições duras e delicadas ao mesmo tempo, e sem saber como, ela tentava mascarar a excitação que sentia pelo simples fato de vê-la ali, à sua espera como um cão fiel. Emma, por sua vez, sentiu o corpo ficar tenso à medida em que Regina se aproximava.

— Ainda que eu não te deva explicações, sinto muito por estragar sua noite com a minha prima — disse Regina.

— A senhorita não estragou, pelo contrário…

— Não me diga! — Regina a interrompeu. — Eu já entendi qual é o seu propósito!

— E qual é o meu propósito?

— Se infiltrar em minha família! Não sei por qual razão você imaginou que conseguiria isso ao me beijar, mas como não deu certo comigo, está tentando com minha prima.

Muda como uma estátua, Emma tentava se recuperar do choque provocado por aquelas palavras. Em silêncio, ela abriu a porta do carro para que Regina entrasse, e no mesmo silêncio, ela fez todo o percurso até a casa de Ruby.

— Zelena ficou furiosa… — dizia Regina, servindo-se de uma dose de bourbon. — Até me ameaçou dizendo que sabia do meu “segredinho”.

— Que segredinho? — questionou Ruby.

— Não sei exatamente ao que ela se referiu.

— Deve estar se referindo a sua verdadeira orientação sexual.

— Ela não sabe disso. Nunca me viu com nenhuma mulher.

— Talvez ela só tenha jogado verde. Enfim…o que acha de convidarmos Emma para…

— Nem pensar! — Regina a interrompeu.

— Qual o seu problema com ela, Regina? Ela é tão gentil.

— Se você não sabe separar as coisas, eu sei! Emma é minha segurança, não minha amiguinha.

— Está bem, calma.

— Mudando de assunto…Robin me convidou para jantar com ele amanhã.

— Você não aceitou, não é?

— Sim, eu aceitei.

— Por quê? Você não o suporta!

— Não é bem assim. Ele é meu amigo e meus pais gostam dele, além disso…

— Além disso? — indagou Ruby.

— Apesar de tudo, ele é um cavalheiro comigo e talvez eu devesse dar uma chance a ele.

— Mas o que você está dizendo? Você vai continuar mentindo pra você mesma? Porque não assume de uma vez por todas a sua sexualidade e o resto que se dane?!

— Pra você é fácil falar! — disse ela, caminhando de um lado para o outro. — Você não tem que dar satisfação a ninguém, mas eu tenho!

— Regina, sua vida privada só diz respeito a você mesma…

— Ruby, por favor. Eu não quero falar sobre isso.

Quase uma hora se passou até que Regina resolveu ir embora. Nos vinte minutos de percurso até a mansão, Emma se manteve em silêncio. As palavras de Regina ainda martelavam em sua cabeça e machucaram seu peito profundamente, e naquele momento, ela se perguntou o porquê de continuar ali, aguentando seus insultos quando deveria estar nas ruas, cuidando da segurança das pessoas que sem dúvida nenhuma, lhe agradeceriam por isso. Já havia cogitado a possibilidade de largar aquele trabalho e entrar para o departamento de polícia de Boston, afinal, ela já era graduada na academia de polícia.

Ao deixá-la na mansão, Emma foi informada de que sua presença só seria necessária no final da tarde, o que para ela foi um alívio e ao mesmo tempo uma tortura porque apesar de tudo, ela gostava de contemplar a figura de Regina.

No dia seguinte, Emma aproveitou para procurar um apartamento, mesmo que sua amiga insistisse para que ela permanecesse ao seu lado. Embora conhecesse Mérida desde criança e em todos esses anos nenhuma mínima discussão tivesse acontecido entre elas, Emma desejava encontrar um lugar para torná-lo seu, apenas seu.

No final da tarde, no horário informado por Regina, Emma chegou a mansão. A julgar pelo horário, ela deduziu que Regina certamente sairia à noite, e diferente do que havia imaginado, não seria Ruby a sua companhia.

— Você está linda! Linda como sempre! — Robin exclamou, beijando-lhe a mão para logo em seguida, beijá-la na boca.

Emma sentiu um nó na garganta ao presenciar a cena. E naquele segundo, com o coração no estômago, ela teve certeza de que aquela imagem de Regina se beijando com um até então desconhecido, ficaria cauterizada em sua lembrança e a assombraria por muito tempo.