A Filha do Senador
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Da próxima vez que quiser sair beijando alguém, faça isso longe da minha casa e fora do seu horário de trabalho! — exclamou Regina.
— Perdão?
— Não se faça de boba! Eu vi perfeitamente você e minha prima se agarrando.
— Com todo respeito, senhorita Mills, ninguém estava agarrando ninguém — Emma replicou.
— Ah, não…claro. Eu estou vendo coisas!
— Certamente.
— Não quero ouvir mais nada — Regina lhe interrompeu a fala. — Da próxima vez falarei com papai para demiti-la.
— Não esperava outra atitude da senhorita.
— Como? — indagou Regina, aparentemente chocada mediante o comentário.
— Não vai se repetir, senhorita Mills.
— Vamos! — ela exclamou, caminhando apressadamente.
— Para onde? — Emma perguntou. Seus olhos desceram rapidamente às coxas de Regina e logo voltaram ao rosto, enquanto suas sobrancelhas se juntavam em confusão.
— Para o meu ateliê, mas se quiser ficar aqui aos beijos com minha prima, fique à vontade. Não faço questão alguma da sua presença — ela alfinetou, e em resposta, Emma apenas revirou os olhos.
Nenhuma palavra foi dita em todo o percurso, e por alguns instantes, Emma chegou pensar que Regina estivesse com ciúmes, entretanto, a julgar pela forma que ela a tratava, esse pensamento logo foi descartado. Chegando ao ateliê, como de costume, Emma examinou o local com sua pistola em punho, retirando-se somente depois de constatar que o ambiente se encontrava seguro. Poucos minutos se passaram e do outro lado da porta, um barulho vindo de dentro do cômodo lhe chamou a atenção. Rapidamente ela sacou sua arma e adentrou o lugar, porém, deparou-se com uma dúzia de quadros espalhados pelo chão.
— Está tudo bem, não foi nada… — disse Regina, recolhendo o material.
— Se sente bem? — indagou Emma, colocando a pistola sobre uma mesa e se abaixando para ajudá-la. Ao fazer menção de apanhar um dos quadros do chão, sua mão acabou pousando sobre a mão de Regina. Foi então que os olhares se cruzaram, tão próximos. Dava pra ouvir a respiração uma da outra. Sem dizer uma palavra, Regina quebrou o contato e se levantou. E ao perceber que a pistola de Emma se encontrava em cima de uma mesa, ela se aproximou e não hesitou em pegá-la.
— Não sabia que uma arma pesava tanto… — ela comentou, enquanto analisava o objeto.
— Senhorita Mills, tenha cuidado com isso…devolva-me, por favor — disse Emma, aproximando-se lentamente.
— Quero que você me ensine a usar uma arma — ela falou.
— Não posso fazer isso.
— Sim, você pode. Ensine-me a atirar.
— Não creio que seu pai aprovaria essa ideia.
— Não é você quem zomba de mim quando digo que falarei com meu pai sobre certas coisas?
— É diferente…são situações diferentes.
— Por favor…estou cansada de tantas proibições, de tantos cuidados…eu prometo que farei do jeito que você disser.
— Está bem. Mas agora, devolva-me essa arma — Emma pediu, e sem relutâncias, Regina lhe devolveu o objeto.
Emma dirigiu em silêncio até um campo afastado onde a circulação de carros e pessoas eram nulas. Embora imaginasse que o senador jamais permitiria que sua filha tocasse numa arma, ela não conseguiu negar aquele pedido a Regina e isso não era nada bom.
— Não pense que atirar é tão simples como vemos nos filmes de Hollywood — Emma falou, enquanto retirava o pente da pistola.
— Porque está descarregando a arma? — indagou Regina.
— Porque você precisa pelo menos saber segurar uma arma sem que isso lhe cause danos — ela explicou, entregando-lhe a pistola.
Depois de explicar rapidamente o processo correto para manusear uma pistola, Emma se acomodou atrás de Regina e sem que pudesse evitar, todos os seus pelos se eriçaram quando seu corpo encostou levemente no corpo dela.
— Assim…você só pode segurar a arma com os dedos médio e anular — disse Emma. Seus lábios por pouco não roçaram na orelha de Regina. — Segure firmemente…como se estivesse dando um aperto de mão no qual você tem que provar sua força — acrescentou, suas mãos cobriram as mãos de Regina e pela primeira vez, ela pôde sentir a delicadeza da pele dela em um só toque. — Faça força a ponto de sua mão chegar a tremer um pouco, e então você relaxa…assim…esse é o ponto certo de tensão entre sua mão e a arma — disse por fim, quase inebriada pelo perfume dos cabelos dela.
Em silêncio, Regina sentiu um fio de prazer correndo pela sua espinha. A proximidade do corpo de Emma, seu hálito quente batendo contra sua pele e o toque firme e ao mesmo tempo suave das mãos dela sobre as suas, ´causaram-lhe uma sensação indescritível. Sua respiração ficou presa na garganta e o coração começou a acelerar.
— Eu entendi… — Regina sussurrou, afastando-se rapidamente. Sorrindo, ela tentou esconder seu nervosismo. — Eu quero fazer um disparo.
— Está bem — Emma falou, pegando a pistola de sua mão para logo em seguida, recarregá-la. — A mão não dominante deve dar apoio a mão que está segurando a arma — acrescentou, entregando-lhe a pistola.
Depois de orientá-la sobre a posição de seu corpo e a forma como deveria equilibrar a pistola, Emma recuou alguns passos e fez sinal para que Regina atirasse. Efetuado o disparo, ela sorriu satisfeita pelo que acabara de fazer.
— Está vendo? Não aconteceu nada! — Regina falou.
— A senhorita já fez o que queria, agora me devolva a pistola e vamos embora.
— Posso atirar mais uma vez?
— Não.
— Só mais um…
— Não. Me dê a pistola agora…
— E se eu não der?
— Senhorita Mills, por favor…isso não é brincadeira — disse Emma, aproximando-se lentamente, e ao tentar tirá-la das mãos de Regina, a arma acabou disparando.
…
— Emma! — exclamou Regina, claramente assustada ao se dar conta de que disparara acidentalmente contra sua guarda-costas. — Me desculpe…por favor, me desculpe…eu não sei como essa arma disparou, me desculpe Emma — dizia ela, claramente assustada, enquanto Emma tentava se manter de pé, ao mesmo tempo em que pressionava o local do ferimento com a própria mão. — Meu Deus, Emma…não morra, por favor…me perdoa…
— Fique calma…apenas leve-me a um hospital… — Emma sussurrou, apoiando-se no ombro de Regina.
A cada minuto que passava, o desespero de Regina aumentava mediante a quantidade de sangue que Emma perdia. Suas mãos suavam e tremiam ao mesmo tempo, seu coração em disparada estava prestes a sair pela boca, mas felizmente, Emma continuava consciente, impedindo-a de se render a desesperação.
— Estamos chegando…por favor, não fecha os olhos… — ela dizia, alternando entre olhar para a estrada à sua frente e para Emma ferida ao seu lado.
Alguns minutos depois, finalmente chegaram ao hospital. Emma foi levada para um quarto enquanto Regina, permaneceu no corredor à espera de notícias. Atordoada e ainda nervosa, ela ligou para o seu pai relatando o ocorrido e pouco tempo depois, Henry Mills apareceu acompanhado de Cora e dois seguranças.
— Filha…mas o que foi que aconteceu? — indagou Cora, claramente preocupada.
— Foi um acidente…ela estava me ensinando a atirar e a arma disparou.
— Mas com que direito essa mulher se atreveu a colocar uma arma em suas mãos?! — Cora falou, perplexa com aquela revelação.
— A polícia foi acionada, papai…
— Não se preocupe, meu amor. Nada acontecerá com você. Foi só um acidente — disse Henry, envolvendo-a num abraço apertado.
Pouco tempo depois o delegado de polícia apareceu, e na presença do senador, ele sequer cogitou a possibilidade de interrogar Emma para confirmar o depoimento de Regina.
— Filha, vamos para casa… — disse Cora.
— Eu só vou quando o médico trouxer notícias — disse ela.
— Mas porque se preocupa tanto com essa moça?
— Por minha causa ela está nesse hospital, mamãe.
— Cora, por favor — Henry interveio. — Vá para casa com Will e assim que tivermos notícias, levarei nossa filha para casa.
Aproximadamente meia hora após a saída de Cora, o médico finalmente apareceu informando que o projétil havia sido extraído e que Emma se encontrava fora de qualquer perigo. Enquanto Henry trocava algumas palavras com ele, Regina pediu autorização para visitá-la e sem qualquer objeção, ela foi acompanhada até o quarto por uma das enfermeiras.
— Oi… — ela disse, quando seus olhos castanhos cruzaram com os olhos verdes.
— Oi… — Emma respondeu, explodindo de felicidade ao perceber que Regina permanecera no hospital.
— Como se sente?
— Já estive melhor…
— Eu sinto muito…eu não queria que isso tivesse acontecido.
— Está tudo bem, foi apenas um acidente.
— Espero que se recupere logo.
— Ansiosa para me acertar outro tiro?
— Claro que não!
— Eu estou brincando.
— Nossa, você brinca? — indagou Regina. Seu tom de voz estava carregado de ironia.
Emma estreitou os olhos em total confusão, e ao notar seu desconserto, Regina não conteve o riso.
— Você é sempre tão séria com essa pose de durona....
— Ah…faz parte do trabalho — Emma se justificou.
— Bom, eu vou deixar você descansar então… — Regina falou, e ao fazer menção de se retirar, Emma lhe segurou a mão.
— Eu preciso te dizer…uma coisa.
— Pode falar…
— Poderia se aproximar um pouco mais?
— Assim está bom? — Regina perguntou, parcialmente debruçada sobre ela.
— Sim, está… — Emma sussurrou, segurando-lhe a nuca e se inclinando para beijá-la. Seu coração retumbava no peito e nem o corpo e nem a mente permitiram que mais um minuto se passasse sem que ela satisfizesse seu desejo.
Regina abriu os lábios em protesto, mas a queixa se transformou num gemido quando a boca de Emma cobriu a dela. Regina sentiu-se mergulhar no prazer daquele beijo enquanto o sabor da língua de Emma destruía suas certezas e o último resquício de autocontrole. Apesar da confusão em sua cabeça, o corpo decidia por ela. Emma a beijava como se já tivesse feito isso mil vezes, a língua tomando toda a sua boca. Essa era a forma que ela imaginou que a beijaria desde o momento em que seus olhos pairaram sobre ela, desde o momento em que soube que a desejava.
De repente, Regina ficou perturbada sem saber exatamente o que estava fazendo e em consequência disso, ela interrompeu o beijo. Ainda que seu corpo tivesse reagido de forma positiva, ela precisava parar.
— Senhorita Mills…eu estou… — Emma tentou se pronunciar, todavia recuou quando a porta se abriu e o médico acompanhado do senador adentraram o cômodo.
De sobressalto, Regina se afastou mediante a presença do seu pai. Passando a mão pelos cabelos, nervosa pelo que acabara de acontecer, ela se virou, segurou a maçaneta da porta e simplesmente saiu.
— Como se sente, Emma? — indagou o médico.
— Me sinto bem — ela disse. Seus olhos verdes dilatados e trêmulos de desejo após aquele beijo, pairaram sobre a figura do senador. — Senhor Mills, sei que eu não deveria…
— Não se preocupe, Swan. Eu conheço a minha filha o suficiente para saber que essa ideia partiu dela, mas peço-lhe que não volte a se repetir — ele a interrompeu.
— Não voltará a se repetir.
— Muito bem…visto que a minha filha provocou tudo isso, não se preocupe com as despesas do hospital, já está tudo pago.
— Não precisava, senhor senador.
— É claro que precisava. Bom, espero que se recupere logo, Swan. Até breve.
— Até breve, senhor senador.
Após a saída de Henry, Emma manteve o olhar fixo na porta com a esperança de que Regina entrasse pelo menos para ouvir o que ela tinha a dizer, ou simplesmente para se despedir ou questioná-la sobre o beijo. Mas ela não apareceu. Ela não retornou.
[…]
— Filha, está tudo bem? — Henry perguntou, tão logo chegaram à mansão. — Você não disse uma palavra por todo o caminho…
— Eu só fiquei assustada pelo que aconteceu, mas estou bem.
— Vá descansar. Amanhã conversaremos sobre o que aconteceu.
— Não quero mais falar sobre isso, papai.
— Então nunca mais toque numa arma. Se aquele disparo tivesse sido em você…
— Não vai se repetir, papai. Eu prometo.
— Obrigado, querida.
— Vou para o meu quarto, com licença.
Acomodada dentro da banheira, Regina fez de tudo para não arfar quando as lembranças do beijo trocado com Emma lhe invadiram a mente. Aquele beijo fora devastador, doce, eufórico, do jeito que ela havia imaginado que seria.
— Maldito beijo… — ela murmurou, enquanto seu coração batia frenético, como um animal tentando escapar da jaula que era seu peito.
[…]
— Você beijou a filha do senador? — indagou Mérida, num misto de surpresa e incredulidade.
— Sim. Eu a beijei…na boca — Emma respondeu.
— E depois? O que aconteceu? O que ela disse?
— O pai dela chegou acompanhado do médico e ela simplesmente saiu do quarto e não voltou mais.
— Bom…ela deve ter se assustado com a presença dele.
— Ou só correspondeu ao meu beijo por se sentir culpada pelo que aconteceu. Ou talvez ela nem goste...entende?
— Sim, entendo. Mas…você está apaixonada por ela?
Foi então que a história paradoxal sobre amor à primeira vista que seu pai lhe contava desabou sobre sua cabeça de supetão: “ela está em algum lugar por aí. Ela atrairá todos os seus instintos sem o menor respeito pela ordem natural das coisas, e quando você a encontrar, saberá no instante em que a vir”.
— Eu me apaixonei no instante em que a vi… — ela revelou.
— Acho que é impossível não se apaixonar por uma beldade daquela.
— Pois é…mas isso não deveria ter acontecido.
— E por que não?
— Ela é a filha do senador do estado. E eu? O que eu sou, Mérida?
— Você é uma pessoa maravilhosa, linda, educada, inteligente! O que mais ela quer?
— Não é tão simples assim…e como eu já disse, talvez ela goste de algum rapaz e eu me atrevi a beijá-la.
— Bom, converse com ela, fale sobre os seus sentimentos e se ela não corresponder, bola pra frente. Agora me fala, quando vai receber alta?
— Acho que amanhã mesmo.
— Me liga e eu venho te buscar, certo?
— Certo…
Nas horas que se seguiram, Emma não desejou outra coisa que não fosse uma visita de Regina. Os minutos se arrastavam, e conforme o tempo se passava, sua esperança se esvaía ao se dar conta de que Regina não viria.
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