A Filha de Érebo
22 Capítulo 22
Notas iniciais
A rotina dos semideuses chegara a ser cansativa. Mas Lis já estava se acostumado.
Era derrubada da cama às quatro. Se arrumava e rumava ao refeitório juntamente com Alice e Katy, guiadas por sua treinadora. Tomava café e logo depois já era guiada para a sala de treinamento (havia uma para as meninas e outra para os meninos). Depois tinha o almoço. Mais treinamento. O jantar. E, finalmente, ia dormir.
O treinamento, no começo, era bem básico, fazia praticamente o que faziam no acampamento: escalada com lava, combate contra bonecos, esgrima... Mas a cada dois dias havia algo diferente.
Em vez de dormirem as oito da noite, eles tinham um “treinamento especial”. Se chamava “Caçada”. A filha de Deméter não chegou a gostar do “jogo”, mas era bem “simples”.
Eles entravam num labirinto que tinha ali mesmo, armados com pistolas carregadas de dardos tranquilizantes e com facas nas botas. Havia um uniforme próprio para o jogo: era uma roupa simples cinza (constituída de uma blusa de manga comprida e uma calça) e acompanhada de botas pretas.
Eles eram largados no labirinto, e sua missão era achar Mel e “colocá-la para dormir”.
Mas tinha um simples problema: era quase impossível vencer. Quando achavam que estavam prestes a vencer, ela dava um jeito.
E Lis não se importava muito com aquilo, afinal, era só um “jogo”.
Ela se preocupava pelo fato de seus amigos, as vezes, desaparecerem e depois de algumas horas, reaparecerem de novo. Era bem estranho. E isso não acontecia em qualquer horário, era sempre de madrugada, de manhã e a noite. Só não havia acontecido aquilo com ela e Isaac, ainda.
Mas seus treinamentos continuavam, dificultando cada vez mais, e ela não podia se preocupar muito com isso. Já haviam se passado uns quatro dias desde que entraram ali. Os combates corpo-a-corpo, e sem armas, já haviam começado. E naquela manhã eles lutariam uns contra os outros, e a tarde, treinariam usar suas armas.
Era de madrugada e a garota revirava-se na cama. Ficou pensando no porque ela e Isaac ainda não terem desaparecido como os outros. Se lembrava de um dia ter acordado mais cedo que o comum e ver Katy entrando no quarto e arrastando a perna direita, de (no mesmo dia) ver Lucas com o antebraço enfaixado no almoço, de Mika com o olho roxo e inchado no jantar, de Alice com um curativo na testa e nas têmporas no café da manhã no dia anterior.
Agora estava ansiosa e nervosa para saber quando seria sua vez.
De repente a porta se abriu e uma sombra entrou no quarto, a garota fingiu estar dormindo. Uma mão tocou seu braço e balançou levemente
– Louise?! – era Ally
– Hm?! – respondeu a garota, fingindo um tom sonolento
– Venha – disse Ally, que logo se afastou e saiu do quarto
A filha de Deméter ficou confusa, mas colocou apenas seus tênis e saiu de pijama mesmo. A lacaia esperava-a do lado de fora
– Me siga, em silêncio – Lis assentiu e começou a segui-la pelo corredor
Depois de andarem metros, dobrarem uma esquina ou outra, chegaram em frente uma porta, quase igual a porta do dormitório, mas menor.
– Entre – disse Ally, abrindo um pouco a porta
Lis assentiu. Empurrou a porta, adentrou no cômodo e fechou-a logo em seguida. Quando se virou para o centro do cômodo, viu Mel. Ela lutava contra um saco de areia, pendido no ar por uma corrente.
Ela socava o saco com ferocidade e agilidade, para logo depois, desferir chutes. Desta vez estava sem a jaqueta, apenas de regata, leggin e descalça, deixando á mostra suas queimaduras ainda presentes. Seus cabelos curtos reunidos num coque desajeitado e com mais fios soltos que presos.
Já Lis, estava com seu pijama, calça moletom verde e blusa de malha rosa claro, e com seus costumeiros tênis.
– Oh! Lis! – Mel parou de lutar, percebendo agora que a garota havia entrado no cômodo – Venha cá, se aproxime
– O que é isso, Mel? – perguntou a garota
– Aqui é “o meu lugar”, é onde fico o dia todo
– Por que não fica conosco?
– Vocês precisa de concentração e já tem seus treinadores, não precisam de mim. Mas acredite, acompanho cada treinamento. E eu acho que está indo muito bem
– Então é para cá que o pessoal vem?
– Aham
– Mel... O que você faz com eles? Vai fazer comigo também?
– Fique calma, vai se sair muito bem – a garota deu um sorriso de canto
A filha de Érebo puxou o saco de areia para baixo e logo o soltou, eles recolheu ate o teto, deixando a área livre. Ela secou o suor da testa e lançou outro sorriso de canto
– Fique como preferir lutar. Descalça ou de tênis, cabelo soltou ou preso... Você que decide
Lis assentiu e prendeu os cabelos num rabo de cavalo alto, depois tirou os tenis e as meias
– Pronta? – perguntou Mel, tomando a posição de defesa, assim que ela parou a sua frente
– Pronta! – disse Lis, atacando
Ela tentou chutar Mel, mas essa desviou do chute e deu uma rasteira na oponente, derrubando-a no chão. Lis se levantou e atacou novamente, dessa vez com um soco. Mas Mel desviou e socou-lhe o estomago
– Se esforce mais Lis. Não tenha medo de me machucar. Não tenha compaixão. Lá fora, eles não terão de você. Desconte a raiva que sente! Desconte todos os sentimentos ruins de medo e angustia que tem ai dentro!
Os olhos de Lis escureceram e ela desferiu um soco no queixo de Mel. A mesma cuspiu um pouco de sangue no chão
– É disso que eu estava falando! – ela exclamou, sorrindo, e atacou
Ela desferiu um soco, acertando a bochecha de Lis, que cuspiu sangue no chão. A filha de Deméter tentou socar seu rosto novamente, mas Mel defendeu com seu braço e acertou uma joelhada no estomago da garota, que arfou se jogando para frente.
Mel soltou o braço da garota, mas antes acertou um chute em sua canela. Lis atacou. Tentou socar o estomago de Mel. Mas essa defendeu com o braço, mas Lis o chutou e Mel arfou para frente.
As duas se afastaram um pouco e ficaram se encarando, em posição de defesa. Seus olhos estavam escuros
Um gritou saltou da garganta de Lis e essa correu até Mel, que só teve tempo para se defender, usando seus braços para segurar os de Lis. As duas ficaram numa disputa de força até que Lis da uma rasteira em Mel e essa cai no chão, num baque surdo.
Mas a Filha de Érebo não se da por vencida, e puxa Lis, fazendo-a cair também, e sobe em cima da garota. Ela segura o pescoço da que estava em baixo de si e prepara sua mão para socar seu rosto.
Antes de sua mão descer de encontro com o rosto da filha de Deméter, a porta se abre
– Mel, acabou o tempo – disse Ally, colocando somente a cabeça para dentro – Daqui a pouco os outros acordarão
A garota assentiu e saiu de cima da outra, rolando para o lado e em seguida se levantando
– Vem, Lis – ela estendeu a mão para a caída no chão – Acabou. Você se saiu muito bem
Essa aceitou a ajuda e se levantou. Pegou seus tênis e os colocou. Logo em seguida saiu com Ally, deixando Mel lutando contra o saco de areia, sozinha
– Ally? – perguntou Lis, já na enfermaria, com a lacaia cuidando de seus hematomas roxos – Por que Mel fica isolada de nós?
– Porque ela também esta em treinamento – respondeu, dando um copo de plástico com água e algumas aspirinas para ela – Mas o dela e mais intensivo que o de vocês, então ela pratica seu treinamento separada de vocês
– Mas quem a treina, sendo que você e Jason treinam a gente? – perguntou antes de jogar as aspirinas na boca e tomar a água logo em seguida
– Ela mesma aplica seu próprio treinamento, que é treinar sem parar, por horas. Sem dormir e sem comer – Ally suspirou – Chegou a ser uma “paranóia” dela. Ela fala que tem o dever de proteger vocês
– Achei que ela fosse a prioridade e nós que devíamos protegê-la, assim como vocês
– Antes era isso, mas agora tem vocês. Ela diz que a vida de cada um de vocês, vale mais que a dela. Agora a prioridade são vocês. Mel daria a sua vida por cada um de vocês. E isso a deixa paranóica para ficar cada vez melhor e para proteger vocês a todo custo.
– Mas...
– Vamos logo para o dormitório, Louise. Seus amigos vão acordar a qualquer momento
Lis assentiu e desceu da maca, soltou seus cabelos e voltou ao corredor
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– Por que tem tantos hematomas? – perguntou Isaac na hora do jantar, se aproximando de Lis
“Não conte á ninguém o que aconteceu lá” – ecoava a voz de Ally em sua cabeça
– Nada de mais – disse a garota
– Como nada de mais? Você esta cheia de hematomas roxos!
– Fica calmo, Isaac, eu estou bem – ela sorriu para ele
– Esta bem – ele passou um braço pelos ombros dela e beijou de leve uma de suas têmporas, e logo depois se afastou para ir ao dormitório, já havia aprendido como andar por aqueles corredores
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Poderia ser umas nove da noite, ou duas da manhã. Mas ele não se importava, não conseguia dormir mesmo.
“Todos já voltaram de algum lugar, e machucados, até Lis. Menos eu.” – isso rondava pela cabeça do filho de Nyx, mas logo parou quando sentiu uma mão gelada tocar-lhe o braço
– Osbourne? – sussurrou uma voz rouca e fria
– Hm? – respondeu ele
– Vista uma roupa qualquer e me encontre no corredor – sussurrou a mesma voz, e o dono da voz, logo saiu do local
Isaac ficou curioso, então resolveu ir.
Vestiu suas costumeiras roupas pretas e seus tênis, para logo sair do quarto. Ele encontra a garota de olhos roxos, com suas costumeiras roupas pretas e cinzas (desta vez estava de jaqueta e tênis).
– Helden? – disse o garoto
– Venha – disse simplesmente e começou a andar pelo corredor.
Ela parecia pronta para ir embora, estava vestida como sempre se vestia para viajar pela Metaforá e com sua mochila preta nas costas.
Andaram pelo corredor em silencio, até chegarem à porta de entrada e saírem para o jardim. Atravessaram-no e também atravessaram a rua deserta. Pararam perto dos trilhos do trem
– Por que estamos aqui? É para cá que todos vem quando “desaparecem”? – Mel balança a cabeça – Então, por que estou aqui?
Ouviu-se o apito do trem e logo em seguida pode-se ver as luzes no meio do nevoeiro que tomava a madrugada
– Quando eu disser “PULA!”, você pula para dentro do trem, entendeu?
– Ahn?
– 1...
– Espera!
– ... 2...
– Calma Helden!
–... 3! PULA!
E os dois pularam para dentro do vagão do trem de carga. Eles caíram num baque surdo e rolaram um pouco pelo chão do vagão
– O QUE FOI ISSO?! – gritou Isaac
– Isso se chama “pegar carona com um trem em movimento”
Mel andou ate a parte aberta do vagão, por onde eles entraram, e sentou-se na ponta, com as pernas pendias e observando o nada. Isaac sentou-se ao seu lado, tentando descobrir para onde estavam indo
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– COMO ASSIM ELE SUMIU?! – gritou Lis – ELE NÃO PODE TER SIMPLESMENTE SUMIDO!
– Ally! – gritou Jason, chegando mais perto dos Escolhidos e de Ally, que tentava acalmar Lis – Mel também não esta aqui
Um sorriso mínimo brotou nos lábios da lacaia, mas ao mesmo tempo, o medo tomou seu peito
– Eles não sumiram. Vão voltar – ela sabia o que Mel ia fazer, mas não tinha certeza de que OS DOIS iriam voltar para o centro de treinamento
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