"Ela estava perdida.

Não sabia da onde vinha ou para onde iria. Tudo o que sabia era que precisava seguir em frente.

Precisava sempre seguir em frente...

Não importava o que deixara para trás ou o que a aguardaria adiante. Tinha que continuar correndo.

Correndo, correndo, correndo... Até não poder mais.

Seus pés descalços estavam calejados por pequenas pedras escondidas nas folhas das samambaias que se alastravam pelo chão e continuavam subindo pelos troncos robustos das árvores que a cercavam.

Desviava-se da densa floresta de faias que a sobrepunha em intervalos quase regulares. De vez em quando tropeçava nos galhos mais baixos de amieiros, em troncos tombados, em rochas salientes ou nas declividades do terreno.

E caia.

Mesmo não havendo ninguém lá para assistir sua queda, envergonhava-se de seu pequeno equívoco. Levantava-se o mais rápido possível... que sua estrutura lhe permitia pois seus ossos cansados pediam descanso. Limpava a poeira dos esfolados em seus joelhos.

E Continuava.

Sempre Correndo...


De repente, deparou-se com uma imensa clareira florida no meio da mata. Havia flores de todos os tipos: Lírios, Tulipas, Petúnias, Cravos, Ficóides, Sálvias, Broválias, Álissos, Cestos-de-ouro, Dálias, Bocas de Leão, Hortênsias, Plumerias... Lindas Orquídeas cresciam sobre o tronco caído de um carvalho. E havia Lavandas. Lavandas e mais Lavandas. Elas se espalhavam pelo campo, contaminando o horizonte com seus tons arroxeados.


Regando alguns Dentes-de-Leão perto de uma dos estrondosos cedros que margeavam a campina e que sombreavam a antiga casa de madeira tomada pelas trepadeiras estava uma pequena mulher de pele amarelada. Seus cabelos negros e curtos eram amassados por um gigantesco chapéu de palha. Como se percebesse sua presença, a senhora se virou e ao vê-la abriu o mais belo sorriso que a jovem já vira. Era tão belo que pareceu iluminar seu rosto vazio de marcas de idade. Seus olhos puxados refletiram a luz como um espelho negro.

– Jennifer! — ela disse seu nome com carinho. A voz atravessando a campina.

– Senhora Sasaki... — disse com uma voz tristonha.

– Sabe, Jenny, querida... — disse enquanto deixava o regador no chão e caminhava nos arredores do imóvel — Eu estou tão cansada...

Jenny sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Seus pelos arrepiaram-se. Uma brisa suave espalhou o perfume pelo ar.

Ainda com um semblante iluminado Amaya-san disse:

– Preciso descansar um pouco.

Ao dizer essas palavras os ramos das ervas a envolveram como cordas e começaram a puxá-la contra a parede.

Ela não resistiu.

Estava cansada demais de lutar...

Por um instante Jenny ficou aturdida. Não sabia o que deveria fazer. O mais puro pavor afligia-lhe a alma.

Quando o corpo exausto da senhora começou a desaparecer como se estivesse preso em areia movediça, ela percebeu que precisava tentar algo.

Rápido.

E, apesar do medo ter transformado seus ossos em cartolina, ela correu pelas pedras que levavam até a entrada do prédio. Que levavam até ela. Quanto mais corria em direção a casa mais distante ela parecia ficar. Parecia se afastar a cada passo que dava. Quando finalmente chegou a 3 metros tudo o que restava dela era seu rosto e seu braço esquerdo estendido em sua direção.

Antes que pudesse tocá-la, ela — ainda sorrindo — disse que a amava e seu rosto sumiu entre a vegetação.

Jennifer agarrou a mão dela com ambas as suas e puxou-a com todas as suas forças.

Mas não era forte o suficiente.

E senti-a escapando por entre seus dedos... Desaparecendo por completo.

A garota ainda não se dava por vencida. Tateou a parede tentando achar a fenda por onde a senhora desaparecera.

Não havia nada ali.

Nada além de madeira e ervas.

Madeira e Ervas.

Sentiu um choro de dor e de frustração formando-se em sua garganta. Fechou seus olhos, espremendo uma gota de sal líquido que escorreu pelo seu rosto.

Tornou a abri-los...

A Casa, a clareira, o jardim... Tudo havia desaparecido.

Havia voltado a floresta.

Sentiu uma vertigem poderosa tomar conta de seu corpo. Teve que apoiar as suas mãos no pinheiro que surgira no lugar da casa para não cair.

Estava desnorteada.

Toda sua noção de tempo, espaço e direção se fora.


E ela estava mais perdida do que nunca.


Seus joelhos cederam. O peso era demais para ela suportar.

Levou seu olhar ao alto numa desesperada tentativa de ver o sol. No mínimo, nuvens brancas enfeitando um céu turquesa. Tudo o que viu fora galhos e mais galhos se entrelaçando nas sombras.

Não conseguia se mover. Seu corpo pesava toneladas.

Sua respiração era pesada.

Seu coração partido batia lentamente.

E num ritmo cada vez menor.

Os cacos penetravam sua alma. Rasgando-a em pedaços...

Sentiu uma fisgada no peito. Era uma Escuridão sombria que começava a apoderar-se dela, preenchendo o vazio da alma ferida. Jennifer quis gritar. Não havia voz. A Escuridão era fria como o bisturi de um legista. Dolorosa como um tiro. Assustadora... Como a própria morte.

Ela queria tirar Aquilo de dentro dela. Arrancá-la com as próprias mãos. Ela tinha medo Daquilo. Muito medo. Mas Ela se espalhava por entre suas entranhas. A Escuridão fazia parte dela agora.

A Escuridão era ela.

Jenny sentia sua consciência ruir. Estava no limiar da dor...


Um grito de horror ecoau na mata.

Jenny desperta de sua lertargia, abre os olhos, embora não lembrasse de tê-los fechado.

A escuridão se dissipa.

Seu coração volta a bater. A adrenalina queima suas veia. Ela se levanta num sobressalto. A respiração ofegante.

- Senhora Sasaki? – sussurra ao vento, buscando o local de onde havia partido o berro..

Decidida, Jenny põe-se a correr rápido como se fosse um carro. Vários gritos se seguem, guiando-a. Conforme avança sente a úmidade aumentar e logo pode ouvir o ruído das correntezas de um rio. Os gritos enfraqueciam e ela sabia que em pouquíssimo tempo cessariam.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.