A Filha Do Sol - Parte II
9 Capítulo VIII
Notas iniciais
CAPÍTULO VIII
LEO
Depois da vitória de Pattie, veio a festa. Antes disso, Percy também tinha ganhado do garoto do chalé de Nice. Foi uma luta razoavelmente fácil para Percy, pois o menino não era muito agressivo. Juro que nunca vi Annabeth gritar tão alto quando Percy ganhou. Se eu não fiquei surdo, devo ter quebrado algumas costelas, porque Tyson me apertou forte e me levantou como se eu fosse o próprio Percy. É, digamos que eu não sou nem um pouco parecido com o filho bonitão de Poseidon.
Foi tudo muito bem, tudo muito legal, mas ninguém parecia cogitar que a final seria entre Percy e Pattie. Cara, eu podia prever os dois se matando naquela arena. Mesmo sabendo que Percy era um cara legal e etecetera, eu tinha consciência que aquilo era um torneio. Todos competidores querem ganhar. Duvidava que alguém queria isso mais do que Pattie, mas Percy também estava sedento para ganhar uma coroa de louros e cinquenta dracmas. É claro que continuava torcendo para Pattie, independente da minha amizade com o cabeça de alga. Afinal, a Pattie é a Pattie.
Todos nós rumávamos para as coxias. Os irmãos da Pattie continuavam pintados, mas tinham deixado os tambores e bumbos de lado. Annabeth conversava animadamente com Tyson, e o mesmo só ria, como sempre fazia. Que criança feliz esse ciclope.
– O que você está pensando? – Piper perguntou ao meu lado. Ela, como todos os outros, continuava enfeitada com um chapéu e pinturas no rosto. Parecia uma árvore de Natal.
– Estou pensando sobre a final do torneio: A filha de Apolo versus o filho de Poseidon.
Piper sorriu.
– Bem, vai ser uma luta épica. Mas não se preocupe, sua amada não vai morrer. Só vai ganhar alguns hematomas.
Piper saiu rindo. Ela tem essa coisa de sempre me deixar envergonhado. Sério, Piper as vezes é meio sinistra e parece adivinhar seus sentimentos por mais que você tente esconder ao máximo. Pensando bem, o meu “esconder ao máximo” estava mais para um “Ei, eu gosto de você, mas não tenho certeza se quero que você saiba, entretanto, eu ajo que nem um retardado na sua companhia”. Era mais ou menos isso. Não culpo as garotas por se assustarem comigo; no lugar delas eu também me assustaria com um filho de Hefesto raquítico, manipulador de fogo e que tem cara de elfo.
Nós encontramos Pattie e Percy saindo das coxias no momento em que nos aproximávamos. Os dois já haviam tirado a armadura e o elmo. Minha vontade era de fazer o mesmo que Annabeth fez quando viu Percy: correr até a Pattie e dar um abraço de urso. Só que é claro que eu não fiz. Optei por uma coisa mais Leo Valdez style.
Johnny lançou um olhar maroto para mim, mas eu fiquei meio em dúvida se ele queria dizer alguma coisa ou se só estava me fitando. Ele sempre ostentava esse olhar de atentado. Porém, digamos que depois de tanto tempo juntos (vivendo no mesmo lugar, ok? Não mantendo um relacionamento amoroso), eu passei a distinguir o que se passava na cabeça dele só de olhá-lo.
Pattie se virou para mim e no instante seguinte eu me joguei no chão. Johnny pegou um pedaço de galho da grama e apontou para o meu peito.
– Levante-se, Leo Valdez – ele exclamou, numa péssima imitação da voz da Pattie. – eu não vou deixar um tropeço tirar minha glória.
Todos riam da nossa encenação. Eu me ajoelhei aos pés de Johnny e tentei imitar Ryler. Ou pelo menos o que gostaríamos de ter visto.
– Ó, misericórdia, Johnny! Por favor, não me mate! Eu me rendo!
Johnny fingiu jogar os cabelos para trás, como se fossem compridos como os de Pattie, e repetiu as palavras proferidas por ela.
– Um grande guerreiro respeita seu oponente. Um grande guerreiro aceita a derrota e se torna mais sábio com ela. Eu espero que você tenha aprendido, Leonardo Valdez.
Se possível, eles riram mais ainda e Johnny me ajudou levantar. Pattie estava gargalhando, e isso fez toda a minha encenação patética valer a pena. Para você analisar, caro leitor, o nível que um ser humano do sexo masculino é capaz de atingir para fazer a menina que gosta rir.
– Eu e Leo formamos um ótimo par, não é? – Johnny fez uma voz gay e tentou me abraçar.
– Sai daqui seu raquítico, você vai me sujar de tinta! – reclamei.
Ele fez uma cara de afetado e colocou a mão em cima do coração. Uma palavra: ridículo.
Os irmãos de Pattie foram parabeniza-la. Quase esmagaram a coitada, mas isso era normal. Toda e qualquer atitude vinda deles era sempre exagerada. Depois foi a vez de Piper, Annabeth e eu. Quando eu a abracei, tive medo de perder a noção do tempo e não soltá-la nunca mais (essa era minha real vontade), mas eu logo quebrei o abraço. Surpreendentemente, Pattie não estava com nenhum arranhão. Ela sorria de orelha a orelha, como se dar uma surra no ex fosse a coisa mais prazerosa de toda sua vida. E deveria ter sido mesmo. Tanto para ela, quanto para mim, foi delicioso ver Ryler comendo terra.
– Pare de sorrir um pouco, eu vou ficar cego. –falei.
Ela abriu um sorriso maior ainda, ou seja, quase rasgou o rosto.
– Não dá. – ela falou, claramente eufórica – Bater no Ryler foi a sensação mais libertadora que eu já tive o prazer de sentir. Me segurei para não enfiar minha espada no ombro dele naquele último golpe.
– Falando nesse golpe, como você aprendeu ele? Foi você quem ensinou a ela, Percy? – Annabeth perguntou. Ela estava ao nosso lado, junto de Percy e todo mundo.
– Eu? Não tenho nada a ver com isso. – ele respondeu, levantando as mãos em sinal de rendimento. – Mas de qualquer jeito, você tem a obrigação de me ensinar ele.
Pattie riu sem graça e mexeu no cabelo.
– É...eu inventei sozinha. – seu sorriso diminuiu um pouco. – Não sei como eu consegui. Acho que a adrenalina do momento me deixou assim.
– E fez muito bem feito, pelo visto. – Will comentou, olhando para um ponto fixo a nossa frente.
Nós olhamos para a direção que ele fitava e entendemos o que quis dizer. Eu tentei me segurar para não rir, mas não deu. Ryler estava passando, rodeado pelo seus irmãos godzillas, e mesmo assim não conseguiu disfarçar o estrago. O braço que Pattie havia prendido no escudo estava enfaixado e envolto em uma tala. Sem contar que ele tinha uma porção de arranhões. Nunca vi um filho de Ares num estado tão deplorável como o dele. Se é que dava para chamar ele assim depois da luta.
Johnny riu alto.
– Mana, esse foi o estrago mais bem feito que você poderia ter feito.
Pattie travou o maxilar. Cara, como eu queria saber o que se passava na cabeça dela. Daria tudo para ser um telepata.
– Ele mereceu isso. O que ele fez comigo foi pior.
– Vocês acham que ele quebrou o braço? – Piper perguntou, sem tirar os olhos da cena que chamou nossa atenção.
– Provavelmente. – Will respondeu. – Mas é estranho ele estar conseguindo se movimentar com tanta facilidade. A dor quando se quebra alguma parte do corpo é quase insuportável. É preciso uma porrada de analgésicos para melhorar a situação. Quíron deve ter cuidado dele.
Eu dei risada.
– Acho que levar um boxe da ex-namorada e pupila já é humilhação demais, não?
Todos concordaram entre risos, inclusive Pattie. Nos dirigimos até a área comum e cada um foi para seu chalé. Todos precisavam descansar antes do almoço, principalmente Pattie e Percy. Depois disso, só nos encontramos na hora da refeição e na fogueira. A noite foi de comemoração. Todos estavam ansiosos para o confronto final entre Pattie e Percy, mas os mais próximos a eles pareciam nem se importar ou até mesmo lembrar disso. Eu, provavelmente, era o único que me importava e refletia sobre a questão.
O chalé de Apolo, como de costume, fez uma tradicional fogueira de acampamento transformar-se numa festa colegial. Os chalés estavam animados, exceto o de Ares e Nice, é claro. Até os meus irmãos interagiram com outros campistas! Pattie cantou e eu fiz o meu melhor para não babar e não bater muitas palmas no final. Não queria deixar o óbvio tão escancarado assim. Afinal, eu não tinha nenhuma pista dos sentimentos dela. Entre levar um tapa na cara e ficar quieto, eu preferia, sem dúvidas, ficar na minha e mais uma vez, fingir que ela não era nada mais que minha amiga.
Passaram-se três dias desde a luta de Pattie e Ryler. Eu quase não a vi nesses dias, pois estava muito focada em treinar com um boneco de palha. Não, o Percy não virou palha. Os dois combinaram que não treinariam juntos, justamente porque iriam se enfrentar na final. Apesar de cada um saber as táticas e golpes do outro, eles decidiram assim.
Eu continuei a trabalhar na finalização da biga. Graça a Hefesto, ela já estava quase pronta. Precisava terminar alguns detalhes, que me tomariam mais alguns dias. Não pensei que uma biga me daria tanto trabalho. Muito menos Buford. A mesa andante ficou viciada em música, tudo por causa de Pattie. Então, tornou-se impossível trabalhar sem música no Bunker, porque Buford começava a me cutucar com os seus pés de ferro e me machucava. Inclusive, ganhei hematomas em virtude isso. Nada que um pouco de néctar não curasse.
Em certa tarde, Piper ficou comigo no Bunker, para me fazer companhia e falar pelos cotovelos, como costumávamos fazer. E é lógico que ela sempre realizava a proeza de levar a conversa para o campo ‘meus sentimentos’ . Pff, como se eu precisasse disso. Tudo bem, talvez eu precisasse um pouco, mas não estava desesperado. Numa outra tarde, Johnny me foi minha companhia. Ele e algum instrumento musical, é claro. Ele tinha essa péssima mania de levar uma guitarra ou um violão a qualquer lugar. Mas no final das contas, as companhias mais presentes naquele ambiente vazio e cinzento, que escutaram meus desabafos horas a fio, foram Buford e Festus. As vezes, um adolescente hiperativo como eu, precisa de algum tempo sozinho. São muitas ideias para por no lugar, e não dá para fazer isso com uma pessoa tagarelando no seu ouvido sem parar. Eu sei que nunca estou realmente sozinho, porém, eu me sinto sozinho. Difícil de entender, eu sei. Estou longe de alcançar algum tipo de entendimento sobre meu ‘eu’.
Ao longo desses dias, senti falta de conversar com a Pattie. Acho que nós trocamos algumas palavras no almoço e na hora da fogueira , no máximo, e ela insistia em pedir desculpas por não poder me ajudar. Realmente se encontrava muito focada em praticar, e eu não gostava de atrapalhar. Já bastava Pattie ter que aguentar os olhares mortíferos de todo o chalé de Ares cada vez que rumava para a arena. Ah, se eu fosse forte, arrancaria os olhos de todos e faria um colar. Mas, infelizmente, minhas dimensões são muito desproporcionais comparadas àqueles ogros. A verdade é que nem no meio dos meus irmãos eu me encaixo. Eles são todos fortes, largos e alguns até meio corcundas, enquanto eu sou magrelo, baixo e pareço um troll selvagem com uma pitada de acne. Sinceramente, não sei nem por que eu tentava dizer a mim mesmo que, um dia, me tornaria namorado da Pattie .O ex-namorado dela era um cara bombado, alto e bonito. Por que diabos ela iria se apaixonar por mim, o oposto dele? Ela nunca iria desenvolver um sentimento amoroso por mim, muito menos embarcar em um relacionamento comigo. E eu tinha que lidar com a verdade, a cruel e dolorosa verdade. Eu nunca deixaria de ser apenas Leo Valdez, o melhor amigo de Pattie, aquele menino que faz piada de tudo e é um bundão. O único filho de Hefesto magrelo, e provavelmente, o único adolescente virgem de 17 anos naquele acampamento todo. É, a teoria de que preciso de um antidepressivo só se reforça.
Agora, prefiro voltar ao presente e deixar esses pensamentos desanimadores para trás. Eu estava caminhando em direção a floresta, para passar o resto do meu dia enfiado no Bunker, e finalmente terminar aquela maldita biga. Mas, como sempre, algo atrapalhou meus planos. Ou melhor, alguém.
– Leo! – alguém chamou atrás de mim. Parei. A voz não era da Pattie e muito menos da Piper ou de Annabeth. Então, quem seria?
Um garota loira surgiu ao meu lado e sorriu. Carregava uma sacola de plástico rosa e vestia a camiseta do acampamento com uma saia branca de renda. Ela tinha os olhos verdes, algumas sardas, e era alguns centímetros menor que eu. Parecia ter a idade de Pattie, mas de algum modo, sua aparência era a de um bebê. Também, não é por menos, ela é filha da deusa da juventude.
– Oi, Daisy.
– Oi, Leo. Como você está? Estava a caminho da sua caverna? Posso ir junto?
O fato de uma garota vir conversar comigo poderia se comparar a aparição de um tigre da tasmânia, então, eu devia aproveitar essa oportunidade raríssima. Daisy era até que bonitinha, mas falava muito e não tinha a voz mais agradável do mundo. Mas a garota era legal. Eu já havia conversado com ela antes, uma ou duas vezes.
– Hãm...claro.
Comecei andar e ela me seguiu. Tive a leve impressão que ela ficava me encarando e eu não me sentia nem um pouco confortável com isso.
– Então, Leo... – ela começou. – o que você achou das últimas lutas?
– Se você estiver falando sobre Ryler, eu acho que ele deveria ter apanhado mais.
Daisy riu. As filhas de Hebe eram parecidas com as de Afrodite, levando em conta que eram mais sociáveis e menos frescurentas. Mas tinham a mesma mania de ficar mexendo no cabelo e usar muita maquiagem. Coisa que Pattie não fazia. Na verdade, ela não era nem um pouco parecida com essas garotas.
– Eu também acho. – ela comentou. – Sem ofensas, mas Ryler é um gorila. O que ele fez para a sua amiga, a Pattie, foi horrível. Sem contar o jeito que ele atacou ela lá na arena. Parecia que ele estava lutando com um minotauro. Nem um pouco cavalheiro.
Eu ri. Cara, o jeito que Daisy falava era hilário. Era um misto de choque com desprezo. Engraçado demais para não rir. Ela parecia uma boneca de corda.
Daisy pigarreou e mexeu no cabelo, mais uma vez.
– Olha, Leo... eu vim até você para lhe pedir uma coisa.
– Diga.
– Hãm...será que você pode concertar o meu secador? – ela perguntou um tanto receosa. – Eu emprestei para uma de minhas irmãs e ela fez o favor de ligá-lo na tomada errada. Ou seja, ele queimou.
– Claro, por que não? – respondi, tentando ser simpático. Conclui que o secador estava dentro da sacola rosa que carregava. Nós já estávamos atravessando o riacho para chegar até o Bunker. – Eu devo ter alguma peça que dê para usar nisso. Só que eu quero 2 dracmas pelo meu serviço.
Daisy apertou o passo para me acompanhar.
– Ah... claro, claro. Posso dar até mais, se você quiser. Eu realmente não queria incomodar, é que eu você é o único filho de Hefesto que eu converso e...
– E meus irmãos são muito feios e te assustam! – completei. – Relaxa, eles são meio intimidadores mesmo. É porque você nunca conheceu meu pai. Aquilo sim dá medo.
Ela riu. Deuses, será que eu sou tão engraçado assim?
– Ah, a propósito, eu estava brincando sobre o negócio dos dracmas. Não vou extorquir dinheiro de você.
Paramos em frente da rocha que dava entrada para o Bunker. Passei a mão em cima dela, e devagar, uma porta começou se formar conforme as linhas vermelhas se espalhavam pela pedra. Alguns instantes depois, nós já estávamos dentro do local.
Digamos que o Bunker não estava tão arrumado para uma provável situação romântica. Os balcões estavam cheio de papéis, um biga semiacabada ocupava boa parte do espaço e algumas peças jaziam jogadas no chão. Eu nunca fui a pessoa mais organizada do mundo, e não esperava que Daisy me abordasse para consertar o secador de cabelo dela.
Daisy examinou todo o salão, como se fosse a coisa mais mágica e estranha que havia visto em toda sua vida, e depois sorriu. Dez à zero para Leo Valdez.
– Aqui é legal. – ela disse, observando a biga. – Você está fazendo isso?
Me aproximei da biga e dei uma batidinha na lataria dela. Sendo um filho de Hefesto, eu meio que crio um elo com as coisas que eu construo. É quase como uma prole artificial. Tudo bem, chega de exageros.
– Pattie me ajudou. Está quase acabada, só preciso realizar alguns ajustes, finalizar os pégasos autômatos e ela estará novinha em folha de novo.
A garota se aproximou da biga e passou as mãos pelos detalhes que Pattie havia feito. Vamos dizer que ela se aproximou um pouco demais, e acabei sentindo o cheiro de seu perfume, o qual era muito bom. Um cheiro doce, parecido com o odor das rosas cultivadas pelas ninfas.
– Não foi você que fez isso. É delicado e detalhado ao extremo. – ela concluiu, rindo.
– Claro que não. Eu só faço o trabalho pesado.
Ela desfez o sorriso e se aproximou mais de mim. É, acabava de confirmar definitivamente que ela era bonita. Muito bonita. Minhas mãos começaram a soar e eu podia contar as sardas que se espalhavam pelo nariz e bochechas dela. Ela tinha olhos verdes delicados e cílios longos. Eu não fui capaz de fazer nada além de me afastar. Daisy atingira o limite máximo de distância que Leo Valdez poderia aguentar na presença de garotas gostosas. Foi melhor ter me afastado, ou eu faria uma “loucura” que eu não pretendia fazer. Pelo menos não com ela.
Pigarreei e limpei minhas mãos.
– Hãm...então, o secador.
Ela sorriu novamente
– Ah sim, verdade. O secador.
Daisy me entregou o secador e eu soltei uma risada fraca. O negócio era rosa e tinha alguns adesivos da Barbie distribuídos por sua extensão. Era delicado, mas estava com um cheiro de queimado horrível.
– Bonito secador. – tive que soltar uma das minhas incontáveis pérolas, só para amenizar o clima.
– Obrigada. – Daisy agradeceu.
Peguei uma chave phillips e comecei abrir o secador. Sem que eu percebesse, Daisy sentou-se em cima da mesa, bem ao meu lado.
Eu tentei me focar, mas a garota ficava me encarando e isso me constrangia aos poucos. E ela estava de saia. Uma. Merda. De. Uma. Saia. Curta.
– Você está envergonhado? – perguntou.
– Você está olhando para mim, então acho que sim. Não estou acostumado.
Ela riu.
– Sabe, Leo... até que você é bonitinho. Mais bonito do que seus irmãos e que alguns garotos aqui do Acampamento.
Ok, por essa eu não esperava. Ignorei o uso do diminutivo para não deixar o momento raro passar. Tentei não demonstrar nenhum espanto, mas por dentro eu estava dando cambalhotas. Cara, o primeiro elogio à minha aparência que eu recebo de uma garota em anos de acampamento!
– Hãm...obrigado. Você também é bonita. – correspondi. Tentei soar confiante, mas eu devo ter me assemelhado a um bode com cólica renal.
Daisy esboçou um sorriso singelo e continuou me fitando.
Em poucos minutos, eu já havia quase terminado de tirar a peça queimada do secador. Daisy era uma companhia razoavelmente agradável (e cheirosa). Ela me perguntou várias coisas, conversou comigo normalmente. Ok, admito que ela falava um tiquinho demais. Mas nossa conversa duradoura foi um sinal de que eu não assusto as garotas tanto quanto imagino. Quando eu estava começando a reunir um pouco de confiança e a esperança renascia dentro de mim, eu ouvi um barulho de metal se chocando vindo da entrada do Bunker.
Olhei para lá e...pelas barbas de Hefesto! Pattie estava encostada à mesa mais próxima da entrada. Depositara a sua armadura em cima desta e olhava para mim e Daisy sem expressar nenhuma emoção. Sua feição se sustentava impassível e intragável.
– Oi, Leo. Espero não estar incomodando. – ela falou completamente insossa e nem um pouco ‘Patricia’. Começou a andar na minha direção e me preparei para levar um soco na cara. Em vez disso, ela sorriu para Daisy.
– Oi, eu sou a Pattie. Prazer em conhecê-la.
Daisy correspondeu com relutância.
– Oi, Pattie. Eu sou a Daisy, do chalé de Hebe.
– Hum, eu já sabia de qual chalé você é.
Pattie foi curta e grossa com a sua resposta. Daisy pareceu sem graça e me encarou, num pedido mudo de ajuda. Não pude ajuda-la, pois eu estava tão confuso e sem jeito quanto ela. Não entendia por que Pattie apareceu ali tão repentinamente e tratou Daisy com tamanha frieza, sem nunca ter conversado com a garota antes.
– Hã... você lutou bem hoje, Pattie. – Daisy quebrou o gelo. – Na final, vou torcer por você!
Pattie estreitou os olhos e abriu um sorriso milimetricamente forçado.
– Obrigada, Daisy. Seu apoio vai fazer toda a diferença para a minha vitória.
Daisy arregalou os olhos e Pattie permaneceu sem demonstrar um sinal de abalo emocional. Ela sequer havia olhado para mim depois que entrou no Bunker. Pelos deuses, o que estava acontecendo? Hormônios femininos e informação em excesso para meu cérebro de mecânico! Decidi tomar uma atitude, porque Pattie parecia prestes a dar o bote a qualquer instante. Pigarreei alto.
– Daisy, acho que vou ficar lhe devendo o secador. Amanhã eu te entrego novinho em folha, ok?
Ela sorriu fraco.
– Está tudo bem, Leo. Eu espero.
Daisy desceu da mesa e acenou para mim.
– Vejo você amanhã. Adorei conversar com você, Pattie.
– Igualmente. – ela respondeu, sem se dar ao luxo de mexer mais do que os músculos do maxilar.
Daisy acenou e foi embora praticamente tropeçando nos próprios pés. E lá se ia a única e primeira esperança de passar mais de meia hora com uma garota bonita que não fosse uma de minhas amigas.
Pattie se virou para mim, ainda introvertida. Era claro que estava contendo uma raiva inigualável, mas jamais a expressaria de imediato e passaria por cima do seu ego. Só continuava não entendo o motivo de tanto aborrecimento.
– Por que você tratou a Daisy daquele jeito? – soltei a pergunta. – Ela nunca te fez nada!
– Eu não a tratei de jeito nenhum. Agora, não posso dizer o mesmo em relação à sua conduta com ela.
Arregalei os olhos.
– O que foi, Pattie? Você tá bem?
Ela desapoiou-se da mesa e passou a andar, vindo em minha direção.
– Ah, Leo, eu estou bem. Estou ótima, verdade. Não sabe como eu amo chegar aqui para conversar com o meu amigo e ver ele prestes a beijar uma garota! Se você queria privacidade no Bunker para ficar com a Daisy, era só ter me dito. Era só ter sido sincero comigo e me contado que gostava dela.
– O que? – eu continuava sem entender nada.
– Para de se fazer de idiota! – Pattie rosnou, sem elevar muito seu tom de voz. Se ela explodisse de verdade, eu não gostaria de estar tão perto. – Qual é o seu problema? Por que não me contou sobre ela? Não somos melhores amigos, afinal? Eu pensei que você era diferente dos outros meninos, mas você é igualzinho a eles. A Daisy estava quase se jogando no teu colo, e não me diga que você não gostou disso e não queria que nada acontecesse! Porque você estaria mentindo descaradamente para mim, e eu nunca menti para você.
Eu estava atônito e sem palavras. Realmente não sabia o que dizer, pois parecia que a cada palavra que pudesse ser pronunciada, Pattie deixaria de se conter e teria um surto nervoso.
– Você está agindo que nem uma louca, Pattie. Não é pra tanto.– eu falei num tom descontraído, tentando manter a voz calma.
Ela crispou os lábios. Acho que escolhi as palavras erradas. Cara, por que eu sempre falo um monte de merda? Ela era a garota que gosto! A discussão não fazia sentido.
– Louca? Você acha que eu sou louca? – ela indagou, num tom ameaçador que, na verdade, demandava: “Responda que sim e eu te estrangulo” – É, eu devo ser louca mesmo para ser sua amiga! Isso, é lógico, se já não fui substituída pela meiga e incrível Daisy do chalé de Hebe!
Eu cansei de tentar controlar meus nervos. Pattie falara asneiras em excesso num curto espaço de tempo.
– ELA É SÓ MINHA AMIGA!
– Sério? Não foi o que me pareceu. E se vocês são só amigos, por que está se exaltando tanto assim?
Respirei fundo.
– Você está imaginando coisas.
– Não, Leonardo Valdez, eu não estou! Eu vi muito bem com os meus próprios olhos o que você quase fez com ela! Só não entendo o motivo de tamanha negação.
Parei e refleti sobre suas palavras. Se ela viu Daisy dando em cima de mim, então...
– Há quanto tempo você estava parada aí?
– Há tempo suficiente para ver o que eu vi. – ela foi ríspida. O rosto de Pattie estava assumindo uma cor gradativamente vermelha – E você sequer me notou. Como vem acontecendo nos últimos dias.
– Mas é claro que eu não te notei, eu estava com a Daisy.
– Ah, é verdade, me esqueci que você estava com a Daisy! – dessa vez, sua voz subiu um tom. – A grande Daisy, amor da sua vida. Quem sabe ela não pode ser sua melhor amiga, hein? Porque parece que eu não sirvo mais para ocupar esse cargo. Sendo que o Sr. parece ter se esquecido da minha notável existência.
Isso me magoou. Poxa, eu nunca tive a intenção de ignorá-la ou demonstrar descaso em relação a nossa amizade. O problema é que eu não conseguia enxergar com facilidade os erros que cometia.
– Pattie, não fala uma coisa dessas. Você, Piper e Annabeth são minhas únicas amigas.
Pattie colocou as mãos na cintura.
– Oh, sim, estou vendo. Sou tão sua amiga que nesses três dias, você sequer me procurou ou me chamou para terminar a biga!
– Eu não te procurei porque você estava concentrada demais treinando para o torneio, e eu não queria atrapalhar! – exclamei.
– Você não ia atrapalhar! – ela gesticulou, frustrada. A cada palavra que saia de minha boa, eu apenas piorava a situação. – Você nunca me atrapalha. Por que só eu que tenho que te procurar? Por que você não podia ter me chamado ou ao menos passado por mim e me dado oi?
– Mas eu te dei oi!
– Você não deu! Ontem você passou do meu lado e nem olhou na minha cara! Virei invisível, agora? Alguma vez eu fiz isso com você, Leo? Pelo contrário, eu estou sempre aqui, tentando te mostrar o quanto você é importante.
Pela segunda vez em menos de dez minutos, eu não soube o que falar. Era verdade; Pattie nunca tinha ficado sem falar oi para mim ou me ignorado. E eu, idiota, retardado e imbecil do jeito que sou, fiz isso sem notar. Pattie permaneceu calada por alguns minutos, esperando uma resposta digna vinda de mim. Eu não sabia o que responder, então comecei a tentar entender por que estava tão chateada. Tudo o que disse, no tom cuidadosamente articulado que usou, só me fez concluir uma coisa...
– Você está com ciúmes. – confirmei.
Pattie travou o maxilar.
– Ciúmes? Você acha que eu teria ciúmes de uma garota que tem a metade do meu tamanho?
– Não, é claro que não... você está com ciúmes de mim.
– Eu NÃO estou com ciúmes! – ela insistiu. — Eu sou sua amiga e estou certa em estar magoada com as suas atitudes! E além do mais, aquela garota não é para você.
Eu ri amargamente com a última frase proferida por Pattie.
– Então é isso? –soei um pouco mais rude do que eu desejava. – Você pode ter ciúmes de mim, mas quando você estava namorando aquele idiota do Ryler, eu não podia falar nada que você já vinha com duas pedras nas mãos! Não acha isso meio hipócrita, Patricia?
Isso foi a gota d’água para ela. Talvez eu tenha sido estúpido, mas não deixei de dizer a verdade. Parte de mim estava amargamente arrependida por ter começado uma briga tão sem pé nem cabeça, e a outra dizia que eu devia continuar. Pattie respirou fundo e estreitou os olhos. Eles estavam injetados de vermelho.
– Se eu sou tão hipócrita quanto você diz – ela começou. – você não precisa mais de mim. Quando precisar de ajuda ou precisar desabafar, chame a Daisy. Tenho certeza que ela é menos impulsiva do que eu. E irá saciar todas suas necessidades.
Ao terminar sua fala, ela deu as costas e saiu do Bunker, pisando forte. Deixara a armadura lá, jogada na mesa como um pedaço de ferro velho. Deveria ter vindo até o Bunker para jogar conversa fora e pedir para eu polir a armadura. Assim que Pattie foi embora, comecei me xingar de todos os nomes existentes. Caramba, por que tive de ser tão grosseiro e indelicado? Eu sempre estragava tudo, e pelo o que Pattie dissera, ela nunca mais voltaria a falar comigo de novo. Ótimo! Arruinei minha amizade com a única pessoa que soube ser uma amiga de verdade e destruí todas as chances que eu tinha com ela, além de ter desperdiçado uma oportunidade de confessar meus sentimentos. Existia uma forma de tudo ficar mais miserável do que já estava?
Notas finais
Xoxoxo, Let ♥
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