A Filha Do Sol - Parte II
4 Capítulo III
Notas iniciais
Ok, agora vamos ao que interessa: eis ele! Sim, ele mesmo! O terceiro capítulo! Hahaha
Leiam com carinho e nos vemos lá em baixo, bebês! ;)
CAPÍTULO III
PATTIE
Passar a noite na enfermaria não foi uma experiência agradável. O lugar conseguia ser mais quente que o meu próprio chalé e o colchão da maca machucava minhas costas. Will me deu ambrosia e pingou néctar no meu corte, além de passar uma boa camada de pomada cicatrizante e enfaixar minha perna. Eu pensei que ele iria me repreender duramente por tamanha atitude inconsequente. Mas, surpreendentemente, ele poupou suas palavras, e apenas me pediu para que não fizesse isso de novo. Matt foi mais duro do que Will.
– Olha, Pattie, se a cada relacionamento seu que não vingar você der uma de louca e decidir afogar suas mágoas na floresta, não vai sobreviver até completar dezessete anos de idade.
Matt conseguia irritar qualquer pessoa com seu excesso de sinceridade e suas palavras de efeito que perturbavam os pensamentos mais sãos a noite toda. O que me transtornava é que ele sempre estava certo.
Praticamente não dormi, imersa nas minhas próprias reflexões. O machucado que as unhas do drakon fizeram não doía mais; mas a dor da decepção ainda latejava em meu peito. Para melhorar a autoestima, me senti péssima por ter colocado a vida de meus amigos e irmãos em risco. Prometi a mim mesma que jamais faria algo tão infantil e imprudente de novo. O que eu menos desejava era ver alguém que eu gosto em maus lençóis devido à minha falta de juízo.
Mas, você sabe... às vezes não há como não perder o juízo.
Uma ponta de arrependimento por der dado um soco em Ryler teimou em invadir minha consciência. Não queria ter soado tão imatura e desiquilibrada. O soco foi um reflexo incontrolável da minha raiva e indignação. Talvez ele não levaria a sério nosso término se eu tivesse priorizado as palavras em vez das ações.
Quando o dia amanheceu, eu ainda estava acordada. Dei apenas algumas cochiladas ao decorrer da noite e meu corpo sentiria os efeitos disso mais tarde.
Suspirei e comecei a me levantar da cama. Os meninos haviam pegado meu pijama e minha escova de dente. E então ouvi alguém entrar na enfermaria. Barulhos de cascos ecoaram pelo local.
– Bom dia, querida. – era Quíron. Ele esboçava um sorriso sereno – Como passou a noite?
– Não muito bem. – respondi, sendo sincera – Não consegui dormir direito.
– Eu imagino... – Quíron me fitou com curiosidade – E imagino também que você tenha refletido muito durante a noite.
– Sim. Eu pensei bastante na besteira que fiz, e concluí que não irei fazer isso novamente. – tentei transmitir uma firmeza que naquele momento era inexistente.
– Eu acredito em você, Pattie. Sei que você sabe aprender com seus erros. O que precisa aprender é a demonstrar suas fraquezas. Todo herói tem suas qualidades e seus defeitos.
As palavras de Quíron me fizeram perder o ar. Eu não gostava da sua estranha habilidade de decifrar os pensamentos de seus pupilos; me deixava um tanto desconfortável.
– É difícil mudar um hábito que vem te acompanhando a vida toda. – suspirei.
– Realmente, Pattie... mas não é impossível. Você também não achou que seria difícil sobreviver a sua primeira missão porque se considerava totalmente despreparada e prematura? Olhe onde você está hoje. De volta ao acampamento, viva e bem sucedida. Acredite, criança. Ainda terá muitos desafios e precisará continuar tendo coragem para vencê-los.
Olhei profundamente para Quíron. Não havia como ignorar os conselhos daquele sábio centauro. Tudo o que eu dissesse em contraposição não teria valor nenhum contra seus milênios de vida. E sua última sentença me fez lembrar do sonho aterrorizante que tive há algum tempo atrás. Um pesadelo que eu estava tentando excluir da minha memória e relutava em compartilhar com os outros.
– Obrigada pelas palavras, Quíron. Acho que eu estava precisando ouvi-las. – ele sorriu novamente e eu correspondi.
– É melhor se apressar. O café da manhã vai começar em alguns minutos. Seus irmãos estão te esperando! – dito isso, ele se retirou da enfermaria. Eu coloquei a roupa do acampamento e escovei os dentes rapidamente.
Um pensamento me impediu de sair da frente do espelho do banheiro. Minhas olheiras estavam péssimas; o perfeito reflexo de uma noite mal dormida. Pela primeira vez desde o dia interior eu teria que encarar Ryler. É lógico que ele estaria tomando café da manhã com seus irmãos na mesa de Ares. Não havia como evitá-lo. E eu estava faminta demais para pular o café da manhã e esperar pelo almoço.
Conhece aquela expressão ‘ligar o foda-se’? Foi exatamente o que fiz.
Peguei minhas coisas e rumei para o chalé, que se encontrava vazio. Guardei meus pertences e respirei fundo antes de me dirigir para o refeitório. Eu passei pelas demais mesas e ignorei todos os olhares e comentários maldosos que vinham da mesa de Afrodite. Inclusive, ignorei a existência de uma loira aguada chamada Stacy.
Nem sequer olhei na direção da mesa de Ares. E fiz questão de sentar de costas para a mesma. Meus oito irmãos sorriram para mim quando eu me sentei ao lado de Leroy.
– Bom dia, meninos. – eu falei, e eles me lançaram um olhar curioso.
– Bom dia, Pattie! – Carlos comia uma grande vasilha de cereal – Você parece tão... bem.
– E você esperava que eu estivesse mal? – eu respondi, e todos soltaram exclamações maldosas.
– Uh, cuidado com ela! É a senhora durona, seu coração é a prova de quebras! – Johnny zombou de mim, rindo tanto que quase se engasgou com seu ovo mexido.
– Cara, se eu fosse a Pattie, ia querer matar vocês. – Leroy comentou. Quase o agradeci por conseguir se colocar no meu lugar. Eu sei que eles apenas queriam me colocar para cima, mas desse jeito, só conseguiriam me irritar.
– Sua perna já está bem melhor, não? – Will perguntou – Vamos trocar esses curativos quando chegarmos ao chalé!
Eu assenti, amando Will por ele ter sido o único que não tirou uma com a minha cara. Servi-me de uma bela quantidade de ovos mexidos e bacon e comecei a comer, em silêncio. Tentei me concentrar ao máximo na comida, participando pouco da conversa dos meninos. Eu praticamente podia sentir os olhos de Ryler me encarando por trás, ansiosos por uma oportunidade de encontrar os meus.
Estava com tanta fome que comi muito rápido, sendo a primeira a terminar de comer. Levantei-me da mesa, sem ter a intenção de ostentar uma expressão dura no rosto, mas ostentando. Para minha sorte, Will se levantou logo depois de mim e veio ao meu encontro enquanto eu saia do refeitório.
– Ryler tinha se levantado da mesa junto com você, por isso eu me levantei também. – ele explicou, quando já estávamos fora do pavilhão – Eu sei que você ainda não está pronta para ter uma conversa. No mínimo daria outro soco na cara dele.
Eu sorri fraco com as palavras de Will. Queria descobrir como ele me entendia tanto, sendo que nos conhecíamos há tão pouco tempo.
– Ainda bem que você fez isso. Realmente... Não estou preparada nem para olhar na cara dele. E não é porque estou muito triste, ou porque ele destruiu meu coração. É porque nunca fui tão humilhada na vida. – fui tão sincera com Will que senti meus olhos arderem. Ele passou um braço pelo meu ombro e me trouxe mais para perto. Não existia uma pessoa mais amável e paternal que aquele estudante de medicina.
– A dor da humilhação é uma das piores para nós, filhos de Apolo... A imponência e o orgulho estão na nossa natureza. Por que você acha que nosso pai é um deus tão encrenqueiro? É claro que não se compara a Ares, mas Apolo tem um ego bem grande, que é ferido muito facilmente. O que eu quero dizer, Pattie, é que você é a menos orgulhosa de todos nós. Sei que deve estar se sentindo humilhada sim, mas não tenha medo de admitir que também está chateada porque tinha colocado suas esperanças em Ryler. Decepções fazem parte da vida, e se você é forte o suficiente para mandar uma feiticeira pro tártaro, também tem força para superar isso.
As palavras de Will me deixaram sem reação. Não conseguia pensar em nada para dizer; o que ele proferiu foi tão profundo e significou tanto para mim que a conversa poderia ter acabado ali. Eu passei a mão pela sua cintura e lhe dei um abraço de lado, retribuindo com um gesto tudo o que havia me dito.
– Obrigada, Will. Nesse momento eu só consigo te agradecer com palavras.
Ele deu uma risada típica de Will: extremamente fofa. E propôs:
– Tem um jeito de me agradecer, de fato... Você pode topar fazer a inspeção dos chalés comigo, depois de trocar o seu curativo.
– Ok! – eu concordei – Assim já vou treinando para quando virar conselheira do chalé 7!
– Nunca fale isso perto de Johnny! – ele exclamou, entre risos – É sério. Ele vai querer matar você.
– Tá bom, sem falar de ser conselheira do chalé perto do Johnny. Tenho amor à vida! – pela primeira vez no dia, consegui rir. E por instantes, parecia que nada tinha acontecido.
Eu e Will passamos rapidamente por nosso chalé para que ele trocasse o curativo da minha perna. Ele passou mais néctar na ferida, que já estava praticamente fechada, e então pegou uma prancheta no seu baú para irmos começar a inspeção.
O primeiro chalé que vistoriamos foi o de Atena. Annabeth nos cumprimentou animada e tentou esconder uns cadernos da faculdade que tinha largado em cima de seu beliche. De resto, o chalé estava impecavelmente arrumado. Mesmo assim, Will tirou um ponto deles, me pedindo para escrever o número 4 na prancheta.
– Você é mau hein, Solace? – eu comentei, arqueando uma sobrancelha enquanto rumávamos para o chalé de Hermes.
– Pelo menos algum conselheiro tem que ser exigente. – ele explicou – Percy e Leo dão cinco para todos os chalés. Menos o de Ares, é claro.
Eu fiquei surpresa ao entrar no chalé de Hermes. Havia tanta informação naquele lugar que eu não sabia para onde olhar. A parede era apinhada de quadros, pisca-piscas, medalhas, capacetes, armas e estantes apinhadas de tantos objetos que nem tive paciência para reconhecer um por um. Eles tinham até mesmo um frigobar lotado de latas e garrafas de coca-cola e uma dispensa cheia de doces. Ah, além de uma mesa de air-game e pelo menos uns cinco computadores de última geração. Nenhum dos beliches estava arrumado, e o mais estranho era que nenhum campista entronchava suas coisas nos baús para disfarçar a bagunça.
Connor e Travis Stoll desceram por um cano que ficava no meio dos beliches. Na hora, eu os imaginei fazendo isso com roupas de bombeiro e ri internamente.
– Ora, ora, olha só quem veio dar o ar da graça! – Connor falou, me lançando o sorriso manjado de sempre. Eu não retribuí. Será que ele não se tocava de que eu tinha acabado de terminar meu namoro?
– Está treinando-a para ser a nova conselheira, Will? – a pergunta de Travis foi bem sugestiva – Vai ser legal tê-la nas nossas reuniões privativas e...
– Fica quieto, Travis. – Will o cortou – Pattie, pode ir olhando os baús para mim, por favor?
Eu respondi que sim, e percebi uma certa apreensão maldosa em Travis e Connor quando comecei a abrir os baús e verificar a bagunça de cada um. Uma garotinha que estava sentada em sua beliche parecia segurar o riso.
Ao abrir o último baú, uma cascavel enorme pulou para fora do mesmo e tentou me abocanhar. Eu dei um grito estridente e deixei a prancheta cair no chão. Nem reparei no fim que tomou o bicho, apenas me afastei, arfando de medo. E adivinha? Tropecei numa caixa que fora estrategicamente posicionada ali e caí de bunda no chão. Duas coisas que Patricia teme mais que sua vida: escuro e cobras. Principalmente cobras que saem de lugares improváveis.
Travis e Connor caíram na gargalhada. Na realidade, eles se contorciam de tanto rir, assim como o resto do chalé. Senti meu rosto assumir um tom vermelho escarlate. Minhas bochechas queimaram. Will olhava aquela cena como quem pressentia que uma bomba atômica ia explodir.
– Vocês tem três segundos para sair correndo. E eu não estou brincando. – me levantei do chão e rosnei para os dois, entre dentes. Eles pararam de rir, percebendo que o negócio tinha ficado tenso para o lado deles e saíram correndo para fora do chalé, gritando:
– Não nos mate! Era pro Will ter aberto os baús!
– Por favor!
Eu brandi Kallistei e corri atrás deles por toda a área comum dos chalés. Até esqueci do machucado em minha perna. Aqueles dois filhos da mãe eram mais rápidos que eu. Os campistas riam ao observar essa cena ridícula. Qual é? Quem eles pensavam que eram para fazer isso comigo? Eu realmente morria de medo de cobras, e meu psicológico não estava lá essas coisas...
Só desisti de perseguir os dois porque trombei em Piper.
– Eia! – ela disse, segurando meus ombros. Seus cabelos estavam trançados em uma trança embutida, adornados por penas de águia, e ela vestia a camiseta do acampamento – Calma aí! Não adianta correr atrás desses dois, eles ainda vão te zoar muito mais.
– Tá bom... Não ia alcançar eles mesmo. – bufei, frustrada.
– Você precisa se acalmar, amiga. Que tal uma aula de grego antigo? – Piper ironizou.
– Oh, pela lira de Apolo... Eu nem me lembrava disso. Vou avisar Will e já venho. – se possível, fiquei mais frustrada ainda. Voltei até o chalé de Hermes e avisei Will sobre a animadíssima aula de grego antigo.
A verdade é que, bem lá no fundo, eu me perguntava se havia alguma forma do meu dia ficar pior.
A sorte é que tinha amigos maravilhosos, e na presença deles, era difícil que o dia se tornasse tão ruim a ponto de ficar insuportável.
Piper e eu conversamos muito durante a aula de grego antigo (fofocamos, na verdade. Se falássemos muito alto, Quíron nos repreenderia), e ela disse algumas verdades.
– Não quero que soe maldoso, mas viu como tínhamos razão em te aconselhar a não ficar com Ryler? Não é a primeira vez que isso acontecesse...
– Todos me avisaram. Eu fui estúpida e não dei ouvidos. – admiti.
– É difícil dar ouvidos para a razão quando você está realmente a fim de uma pessoa... Entendo bem disso. – ela esboçou um pequeno sorriso, como se lembranças tivessem vindo à tona.
– Você passou por muitas situações difíceis com Jason, não foi? – Jason era o namorado de longa data de Piper. A história dos dois me impressionou, pois Jason simplesmente era romano e filho de Júpiter (o correspondente romano de Zeus). Eles se conheceram durante a missão dos sete, e estavam juntos há quase dois anos. Mesmo com todas as diferenças e perigos que enfrentaram ao longo do relacionamento, conseguiram administrar tudo e permanecer juntos. E isso era realmente legal. Piper prometeu apresentá-lo quando voltássemos para L.A. Jason ia visitá-la toda vez que tinha seus dias de descanso como pretor do Acampamento Júpiter (o acampamento dos semideuses romanos, segundo o que ela me contou).
– Sim, e eu posso te afirmar com toda certeza: se Ryler abriu mão de você tão facilmente assim, é porque não tinha a intenção de fazer o relacionamento de vocês durar.
Refleti sobre suas palavras no momento em que Quíron nos encarou feio e decidimos fechar a boca por alguns minutos.
Ao longo do dia, tive aula de mitologia grega, equitação com pégasos (a cada aula eu desconfiava mais que Blackjack, o pégaso de Percy, estava apaixonado por mim. Não deveria ter lhe dado tantos donuts), ajudei no inventário do estoque e treinei arco e flecha com meus irmãos antes do horário livre. Eles me convidaram para jogar basquete, mas eu dispensei a oferta. Graças à ambrosia e o néctar de Will, o corte na minha perna estava 100% curado, então eu me livrei do curativo (que fazia eu me sentir uma múmia) e decidi aproveitar a última hora daquela tarde ensolarada.
Peguei meu iPod (agradeci meu pai por ele ter sobrevivido à missão dentro da minha mochila. É sério!) e rumei para a praia. O sol estava prestes a se por e com certeza a vista deveria estar maravilhosa.
Chegando lá, eu me sentei na areia, ouvindo Here Comes The Sun, dos Beatles. Irônico, não? Pelo menos o modo aleatório não mandou uma música sobre términos de namoro.
O céu assumiu um tom alaranjado com nuances de roxo. Eu amava observar o pôr do sol. Costumava fazer isso pelo menos uma vez por semana, em L.A. Eu caminhava até o topo de uma colina que ficava bem próxima ao meu apartamento ( Los Angeles é definitivamente uma cidade com muitos lugares para se fazer bike mountain, apesar da maioria não saber disso) e observava o sol se pôr à oeste. Até então, nem imaginava o tipo de conexão que eu possuía com esse fenômeno da natureza.
Alguns peixes pulavam na água do estreito de Long Island. Uma nereida emergiu e acenou para mim. Os pássaros passavam em revoadas, alguns voando baixo. Eu suspirei. Como eu podia me concentrar tanto nos sentimentos ruins passando minhas férias num lugar tão incrível, e tendo amigos e meios-irmãos tão maravilhosos ao meu lado?
No Acampamento Meio-Sangue, eu tive a oportunidade de fazer amizades reais. De viver momentos únicos e me sentir... Em casa. Entre aqueles que eram iguais a mim. A partir dali, esse deveria ser meu foco: os momentos bons que tivera e que ainda teria ao lado daqueles que se importavam comigo.
E então eu senti uma mão repousar em meu ombro. Eu tirei os fones de ouvido e observei Leo se sentar ao meu lado. De onde ele tinha vindo? Eu não fazia ideia. Ele se sentou sem dizer nada, apreciando a paisagem da mesma forma que eu. Reparei nos seus traços à luz alaranjada do sol que se punha, e notei que seu nariz era bem mais bonito que o meu.
Isso é coisa para se reparar, Patricia?
Leo cheirava a quem havia acabado de sair do banho. Seus cabelos ainda aparentavam estar molhados. Ele também vestia uma camiseta limpa do acampamento, sem nenhuma marca de graxa ou fuligem (milagre?) e uma bermuda jeans.
Não sei por quanto tempo ficamos em silêncio. Mas mesmo quieto, tinha a impressão de que Leo era capaz de pensar na mesma frequência que eu.
– Não sabia que você também gosta de ficar sozinha. – ele decidiu falar, depois de longos minutos.
– Valdez... Eu sou acostumada a ficar sozinha. É diferente de gostar de ficar sozinha.
– Explique. – ele pediu, e voltou seus olhos castanhos para mim.
– Eu sempre fui muito estranha para me encaixar em qualquer grupo. Os meninos achavam bizarro uma garota jogar futebol, e as garotas achavam digno de pena uma garota não gostar da Barbie e de brincar de casinha. – dei de ombros – Essa é a realidade em L.A. Não se encaixe em nenhum estereótipo, seja latina, tenha dislexia, entre para o grupo de teatro e então você nunca se encaixará. Sempre vai sentar no fundo da sala e falar apenas com os que estão no seu nível de estranheza. É uma condição, não uma opção.
– Se você não me contasse isso – ele começou – jamais acharia que você também não se encaixa. Você está sempre tão bem. Tão segura de si. Seu sorriso é confiante, você anda com o queixo levantado, como se nada pudesse te abater...
– Você acabou de descobrir meu mecanismo de defesa. – eu lhe lancei um sorriso enviesado. Ele retribuiu.
– Você já conhece o meu faz tempo. Nada mais justo.
O silêncio voltou a reinar entre nós. Leo não veio até ali para fazer piadinhas e tentar melhorar meu humor. Ele veio até ali como um verdadeiro amigo, para conseguir entender mais sobre mim e me escutar.
– Como você pode dizer que não é bom com formas orgânicas de vida? – soltei a pergunta.
Leo deu uma risada debochada.
– Porque eu não sou, Pattie.
– Você é bom para mim.
As palavras pareceram ter fugido da boca de Leo. Ele continuou olhando no fundo dos meus olhos e eu sustentei seu olhar. O sol se tornava cada vez mais baixo no horizonte, deixando o ambiente gradativamente mais escuro.
– Agora eu tenho certeza que você realmente é doida. – ele voltou a dar seu habitual sorriso malandro. Eu sorri de volta com sinceridade pela segunda vez no dia.
– Quem faz você se sentir um nada é você mesmo, Tocha Humana.
– Pattie, você está me fazendo querer abrir um buraco na terra e me esconder com essa conversa.
– Mas foi você quem começou!
– Ok, vamos mudar de assunto, então.
Foi inevitável não rir. Soamos tão idiotas nas últimas três sentenças que nem sabia o que pensar.
– Eu queria te propor uma coisa... – Leo recuperou a postura – Você quer começar a reconstruir a biga do seu chalé?
Eu havia até esquecido da tão querida biga do chalé de Ares e Apolo. Nós simplesmente a destruímos quando caímos num pântano na Flórida, por motivos desconhecidos. E prometemos a Will que iríamos reconstruí-la.
– Quer que eu seja sua assistente, é isso?
– Sim. Acho que vai ser bom para você se distrair. Podemos fazer isso no Bunker. No horário livre ou depois do jantar. Não vai demorar mais que três semanas para construirmos.
Eu avaliei a proposta. Que tipo de prejuízo isso poderia me trazer? Leo era uma companhia inigualável. Ao lado dele, podia ser eu mesma, falar o que quisesse e rir das piadas mais idiotas. Ninguém me fazia sentir tão confortável como aquele mecânico hispânico manipulador de fogo. E eu podia colocar umas músicas incríveis para tocar no sistema de som do Bunker 9 enquanto trabalhávamos.
– Ok, conselheiro sênior do chalé de Hefesto. Eu aceito sua proposta. Já pode assinar meu contrato trabalhista. Deixe bem claro que irei receber pelas horas extras! – e de repente, todos os sentimentos ruins haviam ido embora. Pelo menos temporariamente. Leo riu debochadamente de mim e se levantou da areia, estendendo a mão para me ajudar a levantar.
– Às vezes você consegue ser mais idiota que eu, Pequena Miss Sunshine. – eu peguei sua mão quente e me levantei. Ele conseguiu a façanha de colocar um sorriso impertinente em meu rosto, mesmo depois de tudo. E parecia não notar isso.
– Leo. – assumi uma postura mais séria. Continuávamos de mãos dadas. – E seus outros projetos? Festus? O dirigível de bronze para missões de guerra? Os pergaminhos de Arquimedes que você ainda está estudando? Não quero atrapalhar de forma alguma.
Ele ponderou por alguns instantes. Mas aí prendeu meu nariz entre os dedos da sua mão livre e disse:
– Para de ser besta. Eu tenho tempo suficiente para trabalhar em todos os meus projetos. Não se preocupe com isso. O tio Leo resolve tudo.
Ele soltou meu nariz e eu desarrumei seus cabelos. A intimidade que tínhamos permitia que brincássemos assim um com o outro.
– Se eu sou besta, não há adjetivo que te defina. – rebati – O que acha de irmos jantar? Daqui a pouco meu estômago vai criar vida própria!
Leo assentiu, e eu não havia percebido que ele ainda segurava minha mão. Ele a soltou discretamente e fomos caminhando lado a lado de volta ao acampamento.
Quando estávamos saindo da praia e atingindo a área comum dos chalés, a pessoa que eu menos desejava ter que encarar na face da terra surgiu em meu caminho.
Ryler, em toda sua cara de pau e arrogância, estava parado perto da fonte, no centro da área comum dos chalés.
Não havia como ignorá-lo. Eu teria que encarar.
Ao notar Ryler, Leo pigarreou e pareceu desconfortável.
– Acho que é melhor eu ir andando... – ele falou, olhando para o chão com as mãos nos bolsos. Eu concordei e então ele se afastou, me deixando sem opções a não ser continuar o caminho e dar de cara com Ryler.
Aproximei-me sem olhar diretamente para ele. Ryler não emitiu nenhum som, apenas ficou me encarando até eu cansar de evitar seu olhar e encará-lo de volta. Alguma coisa devia ter comido a língua dele, pois parecia incapaz de dizer algo.
– O que você quer? – fui eu quem perguntei, de braços cruzados, querendo terminar a conversa o mais rápido possível.
– Nós precisamos conversar. – Ryler aparentava estar nervoso, e pela primeira vez na vida, inseguro. Porém, nada disso me soou convincente.
– Há muitas coisas para se conversar quando você vê seu namorado beijando outra garota na sua frente, não? – a ironia preencheu minha voz.
– Com certeza esse tipo de coisa não se resolve com um soco. – ele não conseguia sustentar meu olhar por muito tempo.
– Esse tipo de coisa, Ryler, não se resolve. De jeito nenhum. –tentei enxergar vestígios de um real arrependimento nos seus olhos esverdeados. Não enxerguei nada além de um orgulho ferido.
– O que aconteceu com você ontem? – ele questionou, fitando o chão com interesse.
– Ah, o que aconteceu ontem... Você notou que eu sumi? Se importa tanto comigo que nem cogitou ir atrás de mim...
– Eu não fui atrás de você porque seus irmãos jamais deixariam! – Ryler se defendeu, um tanto incomodado.
– Certo. Você, de repente, começou a ter medo dos meus irmãos... Apesar de que estou pouco me lixando se foi atrás de mim ou não. Nenhuma atitude amenizaria o ocorrido. Não há desculpas para uma traição. – dei de ombros, destilando desprezo e amargura.
– Você não pode falar assim! – seu tom de voz aumentou – Pattie, não consegue pensar que talvez eu estivesse sob o efeito do charme daquela garota? Eu juro que nunca tinha nem conversado com aquela menina! Tem pessoas que podem te provar...
– Ryler. – interrompi seu discurso indelicadamente – Poupe suas palavras. Nada do que você me disser vai me fazer esquecer o que vi ontem ou mudar a maneira como eu te vejo agora. Eu nunca deveria ter me envolvido com você. Meus amigos tentaram me alertar, disseram que você já tinha feito esse tipo de cachorrada com outras garotas, mas não dei ouvidos a eles. Pensei que eu pudesse ser capaz de mudar isso em você. Pelo visto, eu falhei. E não quero continuar tentando.
Ryler me fitava com uma comoção relutante e milimetricamente forçada.
– Pattie, você me fez mudar sim. Me tornou uma pessoa melhor, me ensinou a ser humilde e menos orgulhoso. Por favor, me ouça... Eu não quis te magoar, não quis beijar aquela garota! Eu quero que você continue do meu lado. Eu estou apaixonado por você!
Seu discurso parecia ser sido decorado e repetido várias vezes para diversas garotas. Qualquer menina se comoveria com essas palavras manjadas, mas eu não. Algo me impedia de sentir dó de Ryler ou vontade de me jogar em seus braços novamente. Eu só queria distância.
– Eu não acredito em você. – respondi, e seus ombros murcharam, mas sua expressão permaneceu inalterada – E não vou voltar para você, Ryler. Eu quero distância, e principalmente, quero que você me deixe em paz durante o resto do verão. Não converse comigo. E não me pergunte se nós podemos continuar sendo amigos! No meu mundo, isso não existe. Agora, me dê licença que eu estou faminta e preciso jantar.
Dei as costas para Ryler sem hesitar. Pretendia continuar meu caminho até o refeitório, mas como eu já havia imaginado, ele tentou segurar o meu braço. Eu me desvencilhei com força, deixando-o mais atônito ainda.
– Quer saber, Patricia? Chega dessa palhaçada. – eu sabia que a máscara iria acabar caindo. Ele não estava verdadeiramente arrependido. Seu ego fora ferido de uma forma dolorosa e irreparável, e ele simplesmente não podia deixar uma ferida tão grave exposta às moscas. – Há dezenas iguais a você aqui nessa bosta de acampamento. Não vou ficar me humilhando para continuar te tendo. Corra para os braços do mecânico perdedor. Eu sei que você sempre quis fazer isso.
– Você é repugnante. – vomitei as palavras, enojada e estarrecida. Dei-lhe as costas mais uma vez e subi a colina sem olhar para trás nenhum momento.
Nunca senti tanto orgulho de mim mesma. Sempre me considerei uma pessoa forte, mas não tão forte a ponto de não sentir um pingo de vontade de esquecer tudo o que aconteceu e voltar com o cafajeste do Ryler. Eu até respirava mais aliviada, como se o ar estivesse mais leve.
De sua mesa, Leo trocou um olhar comigo que perguntava silenciosamente ‘está tudo bem?. Eu preferia milhões de vezes correr para os braços de uma pessoa como ele do que ser humilhada novamente por um cara como Ryler. Eu pisquei e sorri em resposta, me sentando à mesa do chalé de Apolo, pronta para comer um delicioso lanche de hambúrguer com batata frita e virar esta página da minha vida.
Notas finais
Hasta luego, chicos y chicas! ~le Leo~ :*
Let xX
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