A Filha Do Oceano
1 Estranho pesadelo -Marlyn-
A luz entrava pela janela do quarto de Marlyn, junto a uma brisa morna de verão. Ela abriu os olhos e pensou"Foi só um sonho" e continuou repetindo isso na sua mente tentando engolir o medo "Nada mais que um sonho". Isso acontecia de vez em quando, Marlyn tinha pesadelos tão reais que a faziam acordar gritando, tremendo ou soluçando de tanto chorar.
Quando conseguiu forças para se levantar olhou seu mapa preso na parede, e contou nove círculos vermelhos, cada um deles representava um lugar que havia passado uma parte de sua vida, mas para ela significava cada lugar que aconteceram os maiores desastres terrestres... Causados por ela.
Marlyn nunca havia superado o medo de tudo o que lhe aconteceu em cada um dos círculos vermelhos: o desastre de algumas lanchas em Cancun, a fuga de alguns animais marinhos em um aquário de Curaçao, a destruição um antigo hospício de Pacasmayo... Entre outros acidentes que ela preferia não comentar. Trocou-se e foi tomar café.
Quando estava na cozinha encontrou uma mulher alta usando uma camiseta tribal azul e uma calça preta, tinha cabelos cor de mel que caíam-lhe sobre os ombros e olhos verdes aconchegantes. Quando virou-se para Marlyn fitou-a preocupada:
– Teve pesadelos novamente?
Ela assentiu com a cabeça, provavelmente sua mãe havia percebido suas profundas olheiras.
– Tudo bem. Sei como é isso, mas não se preocupe, são apenas pesadelos...
Ela disse isso com uma voz de dúvida, como se realmente não acreditasse no que havia dito. Sentaram-se as duas e tomaram café. Era o último dia de aula, Marlyn não via a hora de finalmente terminar mais um ano no colégio sem mudar de país... Ou era o que ela pensava.
Quando estava na escola, sentiu alguém sendo jogado em cima de suas costas gritando:
–E aí estranha?
Joshua, o único garoto burro o bastante para falar com ela. Felizmente, ela tinha pelo menos um amigo, um grande amigo que realmente entendia sua vida e acreditava nela.
–Idiota!
–Bom dia para você também!
Ele sempre tinha um ar engraçadinho, seu cabelo era de um castanho acobreado, e estava completamente bagunçado. Ele riu de deboche e a olhou com os olhos azuis tão claros que pareciam gelo e suas sobrancelhas arqueadas estavam deixando-o realmente ridículo, ela gostava disso, desse jeito dele de nunca tentar chamar muito a atenção e apenas ser ele mesmo.
– Me desculpe- disse Marlyn — Estou nervosa com um pesadelo que tive.
– Bem, se nós formos ao Camel Cup na semana que vem junto com a minha irmã e a minha mãe aposto que vai ter pesadelos diferentes.
Eu ri. Camel Cup era uma competição onde pessoas idiotas montam em camelos temperamentais em uma pista cheia de pó. E eu tentei imaginar isso acontecendo junto com a família de Joshua, era simplesmente hilariante. Mas Marlyn lembrou-se:
– Eu não posso ir
–Por que não?
–Fica em Alice Springs, teríamos que pegar um avião, e... você sabe...
–Entendo...
Ela simplesmente nunca andou de avião, sua vida inteira viajou apenas em navios e barcos não sabe porque mas sua mãe nunca a deixou viajar de avião, mas temia que tinha algo a ver com seu pai, algo que ela sempre quis saber em toda a sua vida mas nunca conseguiu arrancar nenhuma palavra sobre ele de sua mãe. Sentiu algo estranho nesse momento, uma sensação que revirou seu estômago e aconteceu quando pensou em sua mãe, foi a mesma sensação que teve em seu sonho quando estavam prestes a matar sua...
–Está tudo bem?- disse Joshua preocupado- Você está com uma cara de quem engoliu um rato morto.
– Minha mãe... Tem algo de errado...
E com essa incrível despedida saiu correndo pelo vão da porta, Joshua a seguiu involuntariamente enquanto observava a fumaça saindo da casa de Marlyn, que ficava a poucos metros da escola, avistou uma mulher enorme com uma cauda de serpente e grandes olhos completamente brancos. Ninguém parecia notar nada, mas Joshua e Marlyn tiveram sem dúvida o momento mais aterrorizante de suas vidas.
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