A Filha De Lúcifer
1 Prólogo
Notas iniciais
Um sorriso. Um simples sorriso. Faz quanto tempo que eu não dou um desses? Muito, muito tempo. Pelo menos não um verdadeiro.
Vamos lá. Meu nome é Ellizabeth, ou só Lizzy, como eu prefiro. Minha mãe foi morta quando eu tinha nove anos. A vã escolar havia acabado de me deixar em casa quando encontrei o que restou do corpo de minha mãe, esquartejado em pequenos pedaços. A polícia nunca descobriu o assassino ou os motivos dele para fazer isso. Os psicólogos daqui costumam ver isso como “a fonte de todos os meus problemas”, como se algo que eu passei a tantos e tantos anos atrás pudesse justificar meus “atos insanos”.
Acabei indo parar morando com alguns tios velhos dos quais eu nunca tinha ouvido falar. Não tenho certeza, mas provavelmente eram algum tipo de tios-avós, pois eram realmente velhos. Do tipo que passa a tarde tricotando ou tentando ouvir jogos de futebol em rádios pré-históricos, e, é claro, nunca deixando de reclamar dos adolescentes de hoje em dia. Como se na época deles fosse muito melhor.
Minha vida depois disso se tornou complicada. No começo, eram apenas sonhos estranhos. Eu não conseguira descreve-los muito bem, até por que não via muita coisa. Era mais uma sensação. Calor inundava meu corpo, era como estar na face do sol. Era um lugar caótico, eu sentia aquilo em mim. Eu podia ouvir gritos ao longe, gritos de dor, tortura, como almas pedindo por clemência. Eu só conseguia enxergar borrões cada vez menos nítidos escuros ou vermelhos. Os sonhos iam ficando mais caóticos com o tempo. Poderia ser considerado o “começo da minha loucura”. Mas, afinal, em momento nenhum eu estive louca. E isso tudo não teve um começo específico. Isso estava dentro de mim desde muito antes de eu nascer.
Eu também não era muito fácil: Arranjava brigas, encrencas, as vezes bebia. Com certa idade, comecei até mesmo a fumar. Os médicos levam isso em conta como efeito colateral de minhas loucuras.
Minha “loucura” foi avançando, e comecei a ver demônios. Eu os via as vezes na rua, principalmente durante a noite, apesar de também vê-los de dia as vezes. Tinhas os olhos inteiramente negros. Alguns se aproximavam e falavam comigo em algumas raras vezes. Realmente raras, mas existentes. Eram conversas estranhas.
Meu pai já se comunicou comigo. Tão poucas vezes que eu posso contar com uma só mão. Foram todas em sonhos. Eu não tenho muitas lembranças deles, eram sonhos nebulosos. Mas eu lembro de algumas partes. Na idéia em geral, ele tinha grandes planos para mim. E eu seria a única que poderia liberta-lo.
De acordo com meus médicos, estes sonhos são apenas um modo de minha mente lidar com o arrasador fato de eu nunca ter conhecido nenhuma figura paterna.
Acabei nesse hospício após atacar um demônio. Não é algo que eu costumo fazer, ataca-los. Foi a única vez que eu fizera algo do tipo. Eu estava saindo de uma droga de lanchonete e voltando a pé para a minha droga de casa quando, ao passar por um beco, ouvi alguns ruídos típicos de alguém sendo espancado. Não achei nada de mais, não era como se aquilo acontecesse raramente, então continuei meu caminho. Mas, justo quando passava em frente ao beco, vi quem estava sendo espancado. Era meu vizinho Jimmy. Jimmy era uma das poucas pessoas legais comigo naquela cidade. Não que eu fosse muito simpática com ele em troca, mas ele continuava sendo legal, e não um legal chato. Pensei em soltar algum comentário para o agressor, algo sutil, mas aí notei seus olhos negros e soube que não adiantaria discutir. Então simplesmente pulei em suas costas, gritando. O demônio ficou completamente surpreso ao ver uma menina pulando em suas costas e tentando inutilmente enforca-lo, é claro. Uma mulher que também havia acabado de sair da lanchonete soltou um grito agudo ao me ver tentando estrangular um homem. Em poucos segundos, todos vieram ver o que estava acontecendo. Acabei na policia. Quando me fizeram perguntas, dei minhas respostas. As de verdade.
E agora estou nesse hospício fazem quatro anos.
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