A Filha Da Magia
2 Capitulo 2 - Meu professor tem pernas de cavalo
Notas iniciais
Chegamos à escola.
Eu saí do carro do meu pai e acenei um “tchau” com a mão. Ele pareceu um pouco nervoso, e disse:
–Tchau, filha. Eu te amo.
Eu sorri.
–Eu também te amo, pai. –eu disse, e com isso, subi as escadas da minha escola.
St. Giovanna era uma escola boa, de verdade. Não faltavam professores, a comida lá era boa (mentira, era horrível), tinha uns armários pregados nas paredes do corredor, igual a qualquer outra escola daqui.
Abri meu armário, como sempre, cheio de fotos do Dan Reynolds e a banda Imagine Dragons.
Peguei meus materiais e me aprontei para a minha primeira aula.
História.
A pior matéria do mundo, superada apenas por matemática.
Fechei a porta do meu armário e fui pra sala de aula. Sabe aquelas pessoas que não fazem amizades com ninguém? Pois é, eu sou uma delas. A maioria do pessoal só me procurava para pegar as respostas das atividades e pescar na hora da prova.
Sim, eu era uma besta de dar as respostas.
Sentei-me na última carteira, no cantinho da parede. Foi quando chegou meu professor de história, Sr. Brunner. Sim, ele usa cadeira de rodas.
Seu cabelo castanho e sua barba grisalha bagunçada fazem de sua aparência um homem sério. Mesmo com história sendo minha segunda pior matéria, procuro tirar as notas mais altas da classe.
Sim, eu sou nerd.
–Muito bem, turma... –disse Sr. Brunner, fazendo o pessoal calar a boca – como hoje é o último dia de aula, vamos encerrá-lo falando sobre mitologia grega. –disse o professor, olhando diretamente nos meus olhos.
Sei lá, ele disse aquilo como se eu tivesse algo a ver com o assunto. Hoje é o nosso último dia de aula e, para piorar ele vai nos ensinar mitologia grega?
Ele poderia muito bem nos liberar e fingir para a direção que estava com dor de cabeça.
–Muito bem, –disse o professor– alguém aqui sabe quem são os Três Grandes deuses olimpianos? –ele olhou para a sala, ninguém levantou a mão. Ele varreu os olhos pela sala inteira, chegando por último, é claro, em mim. –Srta. Makier? Pode nos responder a pergunta?
E olhe lá que eu nem levantei a mão, hein?
A sala toda olhou para mim, eu diria que era um pessoal um pouco falso. Já que para pegar as respostas das minhas atividades diziam: “seu cabelo está lindo hoje” “eu simplesmente amo Imagine Dragons”, mas depois eles fingiam que eu nem existia e ainda por cima, falavam mal de mim.
Eu me levantei.
–Zeus, Hades e Poseidon, certo? –eu disse.
Sr. Brunner riu.
–Eu que fiz a pergunta, quem tem que me responder é você. –ele disse, fazendo a sala soltar murmurinhos e risinhos.
Eu respirei fundo.
–Zeus, Hades e Poseidon. –respondi, com mais firmeza na voz.
–Muito bem. – disse Sr. Brunner.
O resto da aula passou como um borrão. Na seguida tive mais duas aulas de inglês, e depois fui para o recreio.
É... eu ainda falo recreio. Eu sei que o certo a se dizer é intervalo, mas eu falo recreio do mesmo jeito.
Fui ao refeitório e peguei minha merenda. Quem diria que aquela gororoba que eles chamam de macarrão com salsicha estava até boa.
Depois que deixei o prato numa bancada, saí do refeitório. Dei de cara com Sr. Brunner.
–Srta. Makier – ele disse –, precisamos conversar.
–Então tá. –eu disse– Pode falar.
–Siga-me. –ele foi empurrando com alguma dificuldade sua cadeira de rodas pelo corredor.
–O senhor quer ajuda? –perguntei.
–Não, não precisa. –ele disse, ainda empurrando com alguma dificuldade sua cadeira de rodas.
–Eu insisto. –disse, pegando no apoio das costas da cadeira de rodas dele e empurrando pelo corredor. –Pode falar professor.
–Sabe a aula de mitologia grega?
–Sei.
–E se... e se os deuses gregos existissem de verdade? –ele perguntou.
–Porque está me perguntando isso, professor?
Sr. Brunner tomou uma lufada de ar.
–Como você reagiria se os deuses gregos realmente existissem? –ele me perguntou.
–Eu nunca tive essa coisa com religião, então... ficaria normal. –falei.
–E se você fosse filha de um desses deuses?
–Opa, professor... –eu disse.
–O que eu quero dizer, é que esses deuses gregos realmente existem, e que você está correndo perigo aqui. –ele desembuchou tudo de uma vez só.
Eu fiquei parada por um momento, depois comecei a cair na risada.
–Essa piada foi ótima Sr. Brunner...
–Não foi piada, garotinha. –disse uma voz de mulher atrás de mim. Eu não a conhecia de nenhum lugar.
Me virei e a encarei. Ela estava de saia longa marrom, com uma blusa social branca que ia até os pulsos. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo.
–Quem... quem é você? –eu perguntei.
Ela deu dois passos para frente. Assim ela havia ficado com uns 10 metros de distância de mim. Ela inclinou rapidamente a cabeça para um lado, e em seguida para outro. Assim parecia que ela estava com torcicolos. Depois ela olhou para mim, e seus olhos se tornaram completamente negros.
–Sou seu pior pesadelo. –disse ela, com uma voz parecida com a de vidro sendo arrastado no asfalto. Ou algo parecido.
Assim que ela falou, abriu os braços e... levantou voo?
Suas roupas se transformaram em farrapos e seu corpo se alargou. Ela teve garras no lugar de mãos e asas ligando os braços no tronco. Ela ficou marrom...
Parecia uma mistura de morcego com humano, e o resultado era ainda mais feio.
Sr. Brunner se apressou com a cadeira de rodas, sacou uma espada de não-sei-aonde e avançou para cima dela. A espada era de uma cor marrom, parecia bronze. A mistura de morcego e humano avançou para cima de mim, mas foi atingida pela espada do professor e virou pó.
–Uma fúria! –disse ele. Sr. Brunner se virou para mim, eu estava de boca aberta. –Agora acredita em mim?
Eu acenei devagar, mas minha atenção estava voltada para a espada. Ele olhou para a espada e sorriu, depois a colocou no assento da cadeira de rodas... espera, a espada estava sumindo.
–O que é isso? –eu perguntei– Obviamente não é uma cadeira de rodas normal.
–Claro que não. –disse Sr. Brunner– A propósito, meu nome não é Sr. Brunner, é Quíron.
–Quíron? –eu perguntei.
–Sim, –ele disse, me guiando para fora da escola, em direção do estacionamento– não lhe enviei sátiros, porque queria ver seu caso eu mesmo.
–Meu caso? –perguntei.
–Sim. –disse Quíron, ele saiu da cadeira de rodas e ao mesmo tempo ele teve... pernas de cavalo? –Eu sou um centauro.
–Aquelas coisas que tem uma parte humana e outra parte cavalo?
–Você me chamou de “coisa”? Sério, magoei. –disse Quíron.
–Desculpe. –eu disse.
–Vamos, não temos tempo a perder. Vou te levar para o Acampamento Meio-Sangue e lá você vai saber mais coisas. Suba em cima de mim.
–Quê? Mas... o que as pessoas vão achar?
–A névoa vai nos dar cobertura. O máximo que eles verão será duas pessoas montadas em um cavalo.
Eu não sabia o que era essa névoa e nem perguntei.
–Mas e meu pai, e...
–Ele ficará bem. A prioridade é você, vamos.
Eu fui para perto dele, peguei impulso e montei. Quíron correu.
E fomos para o tal Acampamento Meio-Sangue.
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