A Feiticeira

46 Defeito mortal


Notas iniciais
Alguém aí já percebeu que nunca mais POV da Suzana?

XLVI

ELIZABETH

ELIZABETH ACORDOU COM UM CHAMADO.
– Elizabeth? Por favor, acorde.

Ela se sentia sonâmbula, ainda dormindo. Não queria abrir os olhos. Se sentia fraca, queria simplesmente voltar a dormir – mas a voz era persistente.
– Vamos sua louca – disse – acorde.

Elizabeth abriu os olhos com muita dificuldade. Tudo era um borrão. Ela piscou os olhos várias vezes antes de enxergar.

Estava nos braços de alguém, no chão. Uma olhadela para o lado e ela reconheceu sangue no chão, muito sangue. Ela se sentia grogue, como se não estivesse completamente acordada. Olhou para o rosto de quem a segurava, era Evan. Ele estava mortalmente preocupado.
– Onde ela está? – Elizabeth disse com raiva, tentando se livrar dele – Onde ela está? – ela ficou em pé, e cambaleou um pouco. Viu sua espada no chão, a pegou.
– Elizabeth você está sem sangue e mal saiu de um coma...
– ONDE ELA ESTÀ?! POR QUE VOCÊ NÃO A PAROU?!

Elizabeth gritou com ele, e então saiu correndo na direção do estreito da caverna. Ela não tinha notado antes, mas havia uma passagem à esquerda a qual ela tinha certeza que a Feiticeira tinha usado. Ela cambaleou em direção a escuridão da passagem.

Estava mancando, se sentia fraca e respirava pesadamente, como se cada movimento fosse um golpe. Ouvia Evan gritando atrás dela que não adiantaria, mas era teimosa de mais para parar.

Ela chegou a outro cômodo, um quase completamente coberto por escadas que iam em direção ao Tártaro. Elizabeth viu Samuel dando apoio a uma figura enrolada em um echarpe. Quando viu o homem de cabelos brancos sentiu tanta raiva que chutou o chão e sombras explodiram por todo o cômodo como chamas, fazendo com que ele gritasse e fosse em disparada para o tártaro, escada abaixo.

A figura enrolada e frágil caiu no chão e começou a se contorcer. Elizabeth mancou até a velha com a espada brandida (estava dolorosamente pesada, mas Elizabeth nem percebeu de tanta raiva). Ela chutou a pequena figura em direção a escada três vezes.
– VOCÊ ME ENGANOU! MATOU MEUS AMIGOS! ROUBOU MEU SANGUE! MATOU EVAN! – ela nunca sentira tanta raiva em toda a sua vida. Queria matar a Feiticeira, queria de todo seu coração. Mas queria que ela sofresse antes.

Ela então chutou-a mais uma vez, fazendo com que o echarpe caísse para os ombros e descobrisse o rosto da feiticeira. Elizabeth parou imediatamente.

A feiticeira olhava para ela com grandes olhos azuis escuros, a cor de céu de noite. Seu cabelo preto estava sem vida com muitos fios brancos, seu rosto estava mortalmente pálido e com tantas rugas e dobras que ela parecia ter mil anos (e Elizabeth sabia que ela tinha). A feiticeira franziu as sobrancelhas morenas e então as sombras subiram sobre ela.

Elizabeth pensou por um momento que fosse suas próprias sombras, mas então notou que era uma alucinação.

Ela estava no que parecia um campo de pasto. Vacas e alguns bois pastavam longe dela, uma cerca parecia demandar limites. O céu estava escuro como os olhos da feiticeira, e ela notou que sentados na cerca estavam dois jovens.

Um deles era um menino alto, forte e magro. Ele tinha cabelos pretos rebeldes um pouco longos, olhos castanho escuro e uma pele tão pálida quanto a de um albino. Ele fez Elizabeth lembrar-se dela mesma e de seu pai. Ao lado do jovem uma menina deslumbrante segurava sua mão. Parecia ter quinze ou dezesseis anos, tinha cabelos negros como sombras e impossivelmente longos e sua pele era tão branca que era translúcida permitindo a visão de muitas veias. Seus olhos eram da cor do céu.

Com espanto, Elizabeth percebeu que era a feiticeira.

Ela estava quase que completamente diferente, tinha uma expressão de ternura em seus olhos e se abraçava ao rapaz como se ele fosse a coisa mais preciosa do mundo pra ela.
– Louíza... – sussurrou o jovem pra ela. Ela olhou para cima encarando o rosto dele então sorriu como se fosse a pessoa mais feliz do mundo.

Elizabeth caía ao seus joelhos, pasma fraca e sem a adrenalina e raiva para fazê-la levantar. A feiticeira então se sentou, e encarou Elizabeth no fundo de seus olhos.
Você tem os olhos dele. – disse a Feiticeira em sua mente – Ele era seu irmão, e o Olimpo roubou tudo de mim. Só me restou ele, então ele foi morto por um raio. Você acha que é justo?

Elizabeth encarou a feiticeira. Estava frágil, quase morta e diante dela. Sua espada estava em seu pescoço.
No meu estado atual – disse a Feiticeira – um golpe desses me mataria. Você tem sua escolha, Elizabeth. Vai me matar?

Elizabeth mal suportou sua própria batalha mental.

Eles tiraram tudo o que ela amava. Tudo. Seus sonhos e esperanças. A fizeram enlouquecer. Ela matou muitos. Ela matou e machucou meus amigos. Mas por que eu luto para o olimpo? Por que eu apoio alguém que me abandonou e me fez sofrer? Ela tem razão.

Ela tem razão.

Elizabeth deu um grito de desespero, largou a espada e chutou a feiticeira com tanta força que ela caiu para o Tártaro. Era onde estava indo, com certeza o melhor lugar para se recuperar.

Ela tapou o rosto com as mãos e começou a chorar. Não podia aguentar o peso que estava em sua consciência agora. Ela deixara seu inimigo ir, seus amigos nunca, jamais a perdoariam.

Ela se enrolou no chão, estava muito fraca. Provavelmente seu coração já dera falta de todos os litros de sangue que não tinha pra bombear. Ela morreria, ira para os campos da Punição.
– Elizabeth. – disse Evan ao lado dela.
– Você viu, não viu? – ela disse. Ele parecia confuso.
– O que? – ela engoliu em seco.

Evan tinha dado sua vida pra prender a feiticeira, e ela deixara a megera ir.

Ele nunca iria saber, ou odiaria ela.
– Ela escapou. – ela disse entre lágrimas, a mentira queimando em sua boca – Eu falhei.

Evan a abraçou, deixando ela descansar em seu peito.
– Shhh, não foi sua culpa.

Ela queria gritar que foi sim, mas apenas chorou mais. Tinha passado anos sem chorar, não importava o que acontecesse. Se fez ser forte, se forçou a não se desesperar não importa o que fosse – ameaças de gangues, a polícia atrás dela, monstros que viam de lugar nenhum. Não importava, ela mantinha uma mascara de força e se recusava a largar.

Dessa vez era de mais. Ela se sentiu grata por ter alguém que estava lá para abraça-la. Antes de Suzana e Sabrina, nunca confiara em ninguém. Agora ela as tinha, longe, e tinha decepcionado. Ela não merecia que elas estivessem lutando longe dela, por uma causa perdida por causa dela.

Ela não merecia Evan agora, a abraçando.
– Eu vou te levar pro palácio – disse Evan – lá você pode ficar melhor, você pode melhorar da perda de sangue. Muito ferro estígio* e um pouco de comida dos jardins de Perséfone vai fazer bem pra você.

Elizabeth se lembrou de uma coisa. Ferro estígio.
– Os romanos – ela olhou pra Evan – Evan. O ultimato. Eles não tem barreiras com ou sem o ferro nos túneis.
– Você está muito fraca – tentou dizer Evan – Elizabeth você quer morrer? – ele a pegou pelos ombros e a sacudiu – VOCÊ ACORDOU DE UM COMA. PERDEU QUASE TODO O SEU SANGUE!
– EU NÃO POSSO DESISITIR! – ela gritou de volta. Puxou um pedacinho de ambrósia de seus bolsos e colocou na boca. Pegou mais, precisaria.

Tinha gosto da lasanha que sua mãe fazia quando estava de bom humor – pastelina, molho de tomate, frango e creme branco. Ela não comia aquilo a tanto tempo...

A queimação se espalhou por seu corpo, ela se sentia melhor. Se levantou, e olhou para Evan.
– Eu vou pro acampamento Romano – ela disse – A saída do Submundo é na Califórnia de qualquer jeito. Eu tenho uma ideia pra ajuda-los, você está comigo? – Evan sorriu travessamente.
– É claro.