A Feiticeira

11 Conselho de Guerra


XI

ELIZABETH

ELIZABETH TEVE UM SONHO HORRÍVEL. Sonhara que estava em um lugar muito escuro. Ela ouvia o barulho de água, como a corrente de um rio. Também tinha um teto estranho, o lugar – era feito de estalactites pontudas na direção dela, e parecia haver um véu de escuridão as deixando borradas. Ela decidiu que estava no subterrâneo.

Até onde Elizabeth podia ver, havia uma espécie de luz azul vindo em sua direção. O lugar era visível, embora escuro, então a luz era praticamente cegante. Elizabeth foi até a luz, dando de cara com uma espécie de câmara. No chão, havia uma cúpula feita de vidro da qual a luz azul emanava, como se alguém tivesse deixado plutônio azul dentro da cúpula. A cúpula, além de brilhante, era decorada com várias grades de ferro negro no formato de espirais. Mas a cúpula não era a única atração na câmara.

Por todo o lado, haviam tochas e lampiões, como se a luz azul não iluminasse o bastante. E alguns metros depois da cúpula, havia um precipício.

Elizabeth se aproximou da cúpula, e então tocou o vidro. Instantaneamente, um rosto se formou do lado de dentro do vidro, como se tivesse pressionado a sua face contra o vidro. Elizabeth reconheceu grandes olhos escuros, uma pele translúcida e sem vida e cabelos pretos muito longos com uma mecha branca – como a noiva do Frankstein.
Me solte – disse uma voz feminina em sua mente, parecia vir do rosto muito pálido dentro da cúpula – me solte, e eu preservarei seus amigos.
– O que você poderia fazer com eles? – disse rispidamente – Você está presa.
Uma gargalhada ecoou em sua mente. Criança tola – disse a voz, então uma mão apareceu, se pressionando contra o vidro do lado de dentro. Onde a mão tocou, o vidro rachou e trincou – eu logo me libertarei. Se você apressar essa rachadura, terá recompensas.
– Não. – disse Elizabeth. Desde que assistira Sobrenatural, aprendera que era melhor não fazer pactos enquanto estava dormindo.
Você veio até mim. – disse a voz – Você anseia por poder, não pode negar. Sua essência deseja isso. Você quer ser necessária, indispensável. Você quer ser boa o bastante para ser aceita. Me ajude, e eu te darei o poder que você quer.

Nesse momento, fumaça negra começou a escapar pela rachadura do vidro. Elizabeth se afastou, caminhando lentamente para trás. Onde ela acabara de estar, um redemoinho de sombras apareceu por alguns segundos, apenas para dar forma à uma mulher.

A mulher parecia o rosto que ela tinha visto do outro lado do vidro, mas dessa vez liberto e com corpo. Ela tinha cerca de 1.65m, cabelos pretos impossivelmente longos com algumas mechas brancas, uma pele translúcida de tão branca e olhos azuis escuros que Elizabeth achou estranhamente familiares. Ela usava um manto grego preto, com alguns pontinhos brilhantes. Seus pés estavam descalços, e ela abriu os braços em saudação.
– Elizabeth – disse ela – por que não se junta a mim. – ela então sacudiu a mão e toda a sala se tornou sombras, sombras que pareciam dançar. Logo, a sala fora substituída por campos verdes, um oceano calmo e um céu azul sem nuvens. Pessoas estavam nas cidades, nos campos, no deserto. Não havia miséria, todos pareciam bem e felizes – Se eu atingir meus objetivos, pararia as discórdias e a miséria desse mundo. Você não quer isso?

Elizabeth se sentiu tentada. Paz mundial, o fim da fome e uma vida calma e feliz. Havia algo além disso que ela queria? Ela pensou sobre a proposta da mulher, seus amigos, felizes e tranquilos, vivento plenamente.

Então ela se lembrou do acampamento meio-sangue, da batalha que todos haviam travado. Ela se lembrou do desespero ao ver Suzana e Sabrina no meio da batalha, e de como ela tinha estada assustada quando o dragão negro surgiu. Tudo isso, era por que alguém queria usurpar o olimpo, destruir o acampamento meio-sangue.
– Não. – disse ela – Eu não vou dar a minha alma a você. – a mulher riu.
– Sim, você irá. – a mulher começou a diluir em sombra, assim como todo o lugar – Você só não sabe ainda.

Quando acordou, Elizabeth achou irônico o fato de que parecia ter dormido por uma semana – afinal, não era isso que ela queria?

Seus ombros doíam, suas pernas doíam, até mesmo suas nádegas doíam e ela não queria – não podia – sair da cama. Suas pálpebras ainda estavam pesadas, e ela não estava exatamente revigorada, mas a última coisa que desejava era dormir. Não o queria depois do sonho que tivera.

Ela tentou se sentar, parecia que havia ficado paralítica. Seus olhos doíam com a claridade da manhã, o que surpreendeu ela – havia acordado cedo sem um despertador pela primeira vez na vida. Elizabeth conseguia ver outros enfermos nas outras camas, a maioria inconsciente, porém sem ferimentos sérios. Ela se perguntou o que havia acontecido depois que ela apagou, se alguém havia se machucado com as placas de ferro caindo no chão.

Ela olhou para o chão – a espada negra de Evan estava apoiada em sua cama.

Elizabeth tentou se levantar. Na primeira tentativa, apenas funcionou para que ela caísse da cama e desse de cara no chão. Ela ficou alguns minutos filosofando lá, até que resolveu finalmente se levantar. Com as pernas bambas, ela pegou a espada e a usou como bengala para chegar até a porta.

Quando a abriu, a luz do sol praticamente a cegou. Ela trincou os dentes e tentou enxergar, apoiando-se nas árvores pelo caminho.
– Você está bem? – perguntou uma voz atrás dela. Ela olhou para trás, uma menina loira com olhos azuis estava parada na porta da enfermaria.
– Ah, sim. Eu estou. – ela disse.
– Você não parecesse bem, deixe-me te ajudar. – a menina loira pegou o braço esquerdo de Elizabeth e passou ao redor de seu pescoço, caminhando com ela – Você é nova aqui. – não foi uma pergunta – Está acontecendo uma reunião entre os campistas, eu acredito que você deva participar.
– Quem é você? – perguntou.
– Meu nome é Clarissa. – disse a menina – Eu sou filha de Apollo. Tratei de suas queimaduras ontem.
– Ah... obrigado.

Ambas caminharam até o que pareceu o lugar no qual havia uma fogueira, o lugar no qual ela, Suzana e Sabrina haviam sido trazidas após cair no lago.

Ao redor da fogueira, haviam cerca de vinte pessoas. Lá estavam aqueles que Elizabeth reconheceu como os conselheiros dos chalés, como Rafael e Verônica. Haviam outras pessoas que Elizabeth desconhecia – nem todos eram conselheiros, pois Sabrina e Suzana estavam por ali.

Quando viram Elizabeth, ambas sorriram para ela. Ela sorriu de volta, sentindo os músculos das pernas doerem com o esforço – se soubesse que matar um dragão de metal traria tanta dor... bem, teria o feito do mesmo jeito. Era realmente divertido matar dragões apesar do medo da morte e dores posteriores.
– A situação do chalé está difícil Verônica. – disse uma menina morena com olhos castanhos calorosos e como todos, a camisa laranja do acampamento – Mandar algum pessoal em uma missão, quando nem ao menos conhecemos o inimigo... é loucura e suicídio. Não podemos desperdiçar vidas.
– Eu proponho o seguinte – disse Verônica – nós devemos recorrer a uma profecia. Ela irá nos dizer o que temos que fazer. – ela olhou para Raphael, que estava pensativo olhando para o chão. Seu braço esquerdo estava atado com gaze – O que você acha?
– Eu não acredito que uma missão iria nos ajudar – ele disse –mas nós devemos chamar nosso Oráculo. Mesmo assim... bem, não será fácil mesmo tendo uma profecia para nos guiar, principalmente sem Quíron por aqui....
– Não foi sua culpa Raphael. – disse uma menina ruiva. Elizabeth a reconheceu como a conselheira do chalé de Hécate – Quíron se sacrificaria por você, estava no destino dele. Ele irá voltar para nós quando for necessário. – isso não melhorou o humor de Raphael.
– Tanto faz. Gina? – ele procurou pela multidão. Uma menina de estatura mediana, camiseta do Panic!At the Disco e longos cabelos castanhos se separou da multidão indo para perto da fogueira.
– Eu pressinto uma profecia vindo – disse ela – vocês aprovando ou não, está na hora de algo ser decidido. Por favor, alguém me segure para que eu não caia na fogueira. – então ela fechou seus olhos e respirou fundo. Quando abriu seus olhos, eles emitiam um brilho cegante verde, parecido com o brilho azul neon que Elizabeth vira em seu sonho. Ela abriu sua boca em um O, então uma fumaça verde saiu dela, rodeando a si mesma — Três semideusas, três enfrentarão o jogo, serão aquelas que enfrentaram o cavalo de fogo. Em uma viajem em busca do filho do céu, entre os quatro, uma não provará do troféu. Será a pomba, o elmo e a coruja, lutando contra aquela chamada de Bruxa. O filho dos céus ao deus dos ventos irá guiar. A feiticeira e o fantasma na escuridão a esperar. – ela disse tudo em uma voz de velha, como se estivesse em outro lugar dublando o que Gina dizia.

Então ela fechou os olhos e respirou fundo, caindo. Alguém pulou do círculo para pegá-la antes que caísse na fogueira, como previra. Foi um momento de silêncio antes que alguém falasse na multidão.
– Bom, isso é bem óbvio, não é? – disse Verônica – Precisamos de uma missão, e é bem claro quem deve ir.
– Serão três mulheres – meditou um menino, aquele que segurava as rédeas da carruagem que caiu no lago, percebeu Elizabeth – uma filha de Atena, uma de Afrodite e...
– Uma filha de Hades. – disse a menina de cabelos castanhos que tentara convencer os outros a não fazer uma missão – Ele é o único deus conhecido por usar um elmo. — quando disse aquilo, ela olhou fixamente para Elizabeth, que já tinha se livrado de Clarissa. Todos fizeram o mesmo.
– Eu? Filha de Hades? – ela disse – Eu não fui reclamada.
– Você estava com a benção de Hades ontem. – disse Verônica – Aquela aura cinza ao seu redor. – Elizabeth só pôde pensar que aura cinza?! – E você toca em Ferro Estígio. – ela apontou para a espada aos pés de Elizabeth – Está claro, você é filha de Hades.
– Não necessariamente. – disse Raphael – Ela poderia ser filha de qualquer deus do mundo inferior, Hades poderia querer simplesmente abençoá-la sem compromisso.

Depois que Raphael disse isso, algo brilhou acima da cabeça de Elizabeth. Ela olhou para cima, pegando apenas um vislumbre de uma caveira branca usando um elmo de batalha negro. Quando viu, ela deu um grasno de susto e um passo para trás, esquecendo-se das dores e tropeçando nas próprias pernas. Ela ouviu algumas risadas vindo do círculo enquanto se levantava.
– Não poderia ser mais claro. – disse Verônica – Ela está na missão.
– Só precisamos de uma filha de Atena, e uma de Afrodite agora. Alguém se voluntaria? – ouve um silencio entre o círculo, até que uma menina com pele de café com leite e óculos brilhantes deu um passo para frente.
– Eu me voluntario na missão. – disse Sabrina. Elizabeth nunca havia ficado tão grata em toda a sua vida.
– Parece coincidência – disse Gina, assustando os campistas que acharam que ela estava inconsciente – ontem, essas duas semideusas chegaram na companhia de uma filha de Afrodite. – Elizabeth olhou para Suzana, que parecia confusa ao lado de Raphael.
– O que? Eu não fui reclamada! – Gina sorriu para ela.
– Eu acho que fiz uma profecia pra você ontem? Ah sim! Começava com filha da Urania... – ela disse as últimas três palavras na voz do oráculo, então deu algumas risadinhas – Urânia é um dos títulos de Afrodite!
– E nós fomos enfrentadas por um cavalo de fogo – disse Sabrina, de repente – Nós três.
– Está certo, então. – disse Verônica – Vocês têm uma missão.
– Esperem! – gritou uma voz no meio do círculo. Era Clarissa, a filha de Apollo que curara Elizabeth – A profecia diz: “Em uma viajem em busca do filho do céu...”. Não temos nenhum filho de Zeus no acampamento, e não temos notícias de um filho de Zeus em qualquer lugar! Isso implicaria em esperar por um dos Sátiros buscadores ou acompanha-los até encontrar um filho de Zeus. – os campistas começaram a discutir entre si, todos parecendo nervosos e desconfiados. A própria Elizabeth estava se sentindo confusa com a situação – missão? Filha de Hades? O que estava acontecendo?
– Isso não é necessariamente certo. – disse Raphael – Existe um outro lugar no qual um filho do céu poderia estar.
– Você não pode estar querendo dizer isso Raphael. – disse Verônica – Eles... nós... nós não nos comunicamos com eles fazem mais de cinquenta anos! E da ultima vez que tentamos... bem, não deu exatamente certo.
– Eu tenho certeza que eles devem estar em tantos apuros quanto nós. – disse ele. Elizabeth não sabia quem eram ‘eles’, mas achou que fosse assunto sério – Além disso, uma filha de Atena e uma de Afrodite está indo junto, você tem tudo para aplacar qualquer ameaça de Guerra.
– Isso parece mais ou menos certo para mim. – disse o menino da carruagem – Mas estamos nos esquecendo de alguns detalhes. “Apenas um não provará do troféu.”, “aquela chamada e bruxa” e “a feiticeira e o fantasma na escuridão a esperar”. Essa missão não indica sucesso, indica tentativa.
– Então talvez tudo o que tenhamos que fazer – disse Elizabeth de repente, assustando alguns dos campistas – é tentar.
– Isso é bom e heroico na teoria. – ele respondeu – Mas e na prática.
– Bem, eu só sei que EU matei um certo dragão de ferro de um modo muito heroico, senhor.

Risadas ecoaram pelo círculo. O menino amarrou a cara para Elizabeth.
– Então, parece que está decido – disse Raphael – parabéns, vocês tem um passe só de ida para o Acampamento Júpiter!