A Face Oculta Da Lua
12 O Despertar De Uma Nova Guerra
Notas iniciais
Alice caminhava intrigada pelos corredores da Liga, que se iluminavam conforme os sensores de movimento ativavam as lâmpadas fluorescentes dispostas no teto. Seus lábios se crispavam em dúvida, e o cenho mantinha-se fracamente franzido sem que ela chegasse a perceber. Ela apenas andava, tentando recordar-se qual foi a última vez que vira Baguera...
A gata estava desaparecida há semanas, e com todo o treinamento pesado que Ducard preparou para a hippie, ela simplesmente nem chegou a notar a ausência da felina... pelo menos não até agora!
Sentiu-se mal por essa demonstração de deszelo de sua parte. Baguera era sua melhor e mais saudável companhia dentro da Liga das Sombras, e mesmo que Alice soubesse que fazia parte do instinto felino dar as suas escapadas, ainda assim foi preenchida pela culpa de não ter saído antes para procurá-la.
Os corredores estavam completamente desertos por conta da hora avançada da noite, e mesmo cansados, os olhos de Alice vagavam atentos por cada canto, buscando algum indício da presença da gata... Ironicamente, aquilo não deixava de ser uma continuação do seu treino, pois todos os seus sentidos pareciam estar alertas ao menor sinal possível da presença do belo animal.
_ Baguera! – chamou alto, pouco importando se acabaria acordando alguém enquanto a procurava – Cadê você, minha filha?
Continuou vagando sem rumo certo pelo piso impecavelmente liso, gastando pouco mais de um quarto de hora naquela busca às cegas, apenas revezando olhares preocupados entre um corredor e outro. Passou a mão nervosamente pelo seu cabelo, cogitando que talvez Baguera pudesse não se encontrar dentro da sede da Liga, e isso sim dificultaria as coisas para a hippie.
Alice já estava decidida a recomeçar sua busca do lado de fora, quando uma porta entreaberta chamou sua atenção. A mesma porta elegante e envelhecida de quando a hippie interrompeu a meditação de dezenas de ninjas enfurecidos e intolerantes à sua presença.
_ Dizem que é um recinto proibido pra novatos, mas a porta está sempre destrancada... – bufou, revirando os olhos. Um miado que mais parecia um resmungo veio de dentro da sala, arrancando um sorriso aliviado de Alice – Até que enfim te achei, sua sem vergonha!
Ela arrastou a porta pesada sem a menor delicadeza, provocando um ruído irritante gerado pelo atrito entre a madeira grossa e o piso liso. Um par de olhos amarelos a encararam, parecendo levemente interessados. Baguera passou a língua pelos fios longos de seu bigode, penteando-os, e um ronronar satisfeito escapou de sua garganta.
_ Mas o que diabos a senhorita está fazendo aqui? – perguntou, alcançando-a para coçar seu pescoço – Esse é um espaço restrito unicamente para os ninjas que já concluíram todas as etapas do treinamento – imitou as palavras de Talia, desdenhando – Quem diria que até uma gata conseguiu burlar essa regra estúpida – riu, satisfazendo-se com o toque macio daquele pelo se esfregando por todo o seu braço.
Alice cessou bruscamente o carinho, percebendo algo errado no ar. Passos pouco cautelosos pareciam chegar cada vez mais perto da sala de meditação, e a julgar pela pressa e falta de cuidado em se manter silencioso, não podia ser coisa boa...
Admirou-se com sua percepção infinitamente mais aguçada que lhe permitiu reparar a tempo na aproximação displicente do lado de fora, cada vez mais perto agora. Segurou Baguera com agilidade, explorando rapidamente o local em busca de algum lugar que pudesse escondê-la de quem quer que tivesse a intenção de entrar ali àquela hora da noite.
Uma parede fina projetava-se até metade da sala, como uma pequena divisória de dois ambientes. Alice ultrapassou-a para o lado oposto no mesmo instante em que a porta se abriu com ferocidade, fazendo a hippie prender a respiração pelo susto de saber que mais um segundo de hesitação teria revelado sua presença ali. Segurou Baguera junto ao seu corpo, tentando a todo custo evitar que ela fizesse barulho.
_ E então, mais uma vez nós seremos obrigados a ter essa conversa, Steve – a voz de Talia soou cruel pelo aposento – Eu vou perguntar de novo. Onde eles estão?
_ Eu não sei! – a voz do ruivo saiu desconsolada, beirando o desespero – Eu já disse, não tenho acesso a nada do que você me pediu.
Alice pôde ouvir Talia soltar uma longa arfada de ar, e o silêncio que se seguiu parecia não ter fim.
_ A minha paciência já está no limite – avisou, de um jeito quase letal – Eu te dei a chance de pensar sobre o assunto, de me ajudar e ter a sua recompensa, mas você parece decidido a me desafiar!
_ E-eu não posso ajudá-la... está f-fora do meu alcance!
_ Bane!
_ N-não, espera! – gritou em desespero ao ver o enorme homem musculoso se aproximar, mas seus apelos imediatamente foram calados por um forte soco de proporções sobre-humanas. Steve caiu no chão, engasgando-se com o próprio sangue que espirrava com vontade de seu nariz, agora mais curvo do que o habitual.
Alice sentiu os olhos se arregalarem, e sem querer aumentou o aperto no corpo gordo da gata. Não podia ver nada do que se passava através da parede, mas sua audição dava conta em traduzir que o contador estava sendo violentamente espancado.
Talvez Alice tenha apertado Baguera forte demais, ou talvez a gata apenas estivesse incomodada com aquele abraço sufocante da dona... não foi possível para a hippie identificar a causa do escandaloso miado indignado que fez o silêncio reinar novamente no recinto ao lado. Alice fechou os olhos com força, praguejando mentalmente.
_ Quem está aí? – Talia gritou com urgência, aproximando-se rapidamente do lugar em que Alice e Baguera estavam escondidas. A gata pulou do colo da hippie, chacoalhando-se logo em seguida e indo em direção à saída um pouco antes que a filha de Ducard descobrisse o improvisado esconderijo – Ah, é só a gata estúpida da nova predileta do meu pai... – sua voz saiu tranquila ao ver o animal rebolando para fora da sala, e Talia desistiu de verificar o local de procedência do ruído, voltando novamente a sua atenção para Steve – Onde estávamos mesmo? Ah, sim, você estava prestes a me dizer aonde eu posso encontrá-los – disse, esbanjando falsa paciência.
_ Talia, você precisa acreditar em mim! Eu não tenho as informações que você me pede – concluiu, parecendo fazer um esforço enorme para não gaguejar.
_ VOCÊ ACHA QUE EU SOU ESTÚPIDA POR ACASO? – berrou, cansada daquele joguinho – Sabe, Steve, eu tenho sido realmente muito complacente com você até agora! – Talia disse com frieza, recobrando o autocontrole – Mas eu não estou mais disposta a aturar o seu comportamento. Ou você está comigo, ou está contra mim.
_ Você não entende... eu não tenho os meios para ajudá-la!
_ Então você está contra mim! Bane, que tal dar um recado ao nosso querido contador? Mas um recado que fique gravado na memória por um bom tempo... – Talia sorriu sordidamente, sem desviar os olhos nem por um momento da expressão encolerizada de Steve.
_ Com prazer! – o homem respondeu satisfeito, com uma voz medonha acompanhada de um respirar alto, como se fizesse um assombroso esforço para puxar o ar. Alice sentiu seu corpo gelar ao ouvir aquela voz, e mais ainda aos sons do que sabia estar acontecendo.
Bane levantou Steve pela gola com uma das mãos, e com a outra acertou mais um soco em seu rosto amedrontado. A lente do óculos se partiu em dezenas de pedaços, e Steve apenas foi capaz de gritar de dor entre um golpe e outro.
O homem que usava máscara levantou o contador até suspendê-lo vários centímetros acima do chão e o encarou friamente. A cabeça de Steve pendia para o lado, sem força em se manter na posição correta. Bane ainda fitava os olhos azuis apavorados quando arremessou com força o corpo de Steve contra a parede. Ele soltou um urro gutural assim que a força do golpe provocou o estalo de um osso se partindo. O contador suava intensamente, e as lágrimas desciam sem controle pelo seu rosto angustiado.
Talia encarava a cena com um olhar reprovador, contrariada por não conseguir a colaboração de Steve. Mas ainda haveria muito tempo para convencê-lo a seguir suas ordens, e ela estava disposta a esperar o que fosse para conseguir o que queria! A sua vida inteira ela aprendeu que o sucesso agraciava apenas aqueles que sabiam ambicioná-lo.
Bane arrancou um enorme espelho pendurado na parede e levantou-o acima da cabeça. Steve teve a terrível impressão de que o homem sorriu por baixo da máscara, e antes que ele pudesse piscar, o espelho veio de encontro ao seu corpo com uma velocidade estúpida. O contador cerrou os punhos com força ao sentir os cacos de vidro penetrarem a pele desnuda de seu braço e salpicarem de sangue o próprio rosto. A qualquer momento ele sabia que iria sucumbir ao desmaio, e como estava ansioso por isso: Deixar que a sua consciência ficasse para trás junto com a dor.
Alice deixou um gemido alto escapar de seus lábios, discernível o suficiente para que ouvissem do outro lado da fina parede.
_ QUEM ESTÁ AÍ? – Talia tornou a perguntar, enfurecida.
_ Outro gato! – a hippie imediatamente berrou em resposta, ouvindo um ranger de dentes furioso do outro lado.
_ A Alice está aqui – Talia disse para Bane, direcionando-lhe um olhar sugestivo. Alice deu a volta na parede que a separava da cena suspeita, deixando que seu queixo caísse à visão daquele homem que parecia feito apenas de músculos proeminentes e exagerados.
_ Oh, minha Nossa Senhora Protetora das Hippies! – levou a mão ao rosto, em choque – Quando foi que você começou a tomar bomba, Darth Vader? – perguntou a Bane, e mesmo sem conseguir ver a expressão por trás da máscara, soube que ela combinava perfeitamente com aquele brilho letal em seus olhos. Cada respiração do homem era pesada e um tanto ruidosa, e apenas aquele som era capaz de despertar o receio quanto ao enorme homem ao lado da filha de Ducard.
_ Como vai, Alice? – Talia perguntou ironicamente, caminhando devagar na direção da hippie.
_ Fabulosamente bem, e você? Espancando muitos nerds de óculos por aí? – afrontou, olhando de soslaio para o corpo inerte de Steve, agora inconsciente, apesar de ainda manter a mesma expressão consternada. Precisava tirá-lo dali, antes que perdesse muito sangue.
_ Bom, parece que finalmente poderemos resolver nossas diferenças – sorriu – Porque todo esse seu descaso pelas regras a trouxe aqui novamente, e dessa vez eu não posso deixá-la sair... – completou como se pedisse desculpas, mas a satisfação estava clara em seus olhos.
_ Peraí, deixa eu ver se entendi... As regras dizem que ninguém que não seja membro da Liga pode entrar aqui, mas não dizem nada quanto a espancar um colega?
_ Na verdade dizem, e é por isso mesmo que eu não posso permitir que você viva pra contar essa história – ilustrou calmamente – Como eu posso explicar? – fingiu refletir – Perguntas inconvenientes poderiam me atrapalhar caso isso saia daqui.
_ Se você for mandar o Darth Vader aí me bater, então eu exijo receber um sabre de luz para uma luta justa! – avisou, praguejando mentalmente pela sua maldita falta de sorte – Aliás, já que supostamente eu vou morrer, acho que tenho direito a um último pedido!
_ Essa cortesia está revogada – a ninja lançou um olhar rápido para Bane, como se consentisse que ele desse um fim na hippie.
_ É só uma pergunta... – Alice insistiu, incapaz de desviar os olhos vidrados do homem que mais lembrava um armário e que agora se aproximava de si com um brilho cruel nos olhos. A hippie manteve fixo o olhar, parecendo verdadeiramente curiosa a respeito daquela estranha figura – Por que você foi para o lado negro da força?
_ Basta! Não dê ouvidos a essa insolente, acabe logo com ela – Talia ordenou, visivelmente enfurecida.
_ Fica fora disso, PuTalia! – reclamou, e em seguida voltou sua atenção para Bane – Ah, qual é... Nós podemos resolver isso civilizadamente, Vader! Olha, que tal isso: você desiste de me espancar até a morte e eu te dou uma bombinha de asma! – Alice sorriu na direção do homem da máscara de metal, mas este apenas continuava se aproximando com uma postura rígida, parecendo totalmente disposto a acatar a ordem da ninja. Vendo que sua probabilidade de sair ainda respirando daquela sala era praticamente nula, Alice olhou fundo nos olhos de Bane e levantou a mão direita na altura do pescoço do homem, semicerrando os dedos, deixando que apenas o polegar e o indicador se projetassem para fora, como se tentasse enforcá-lo com a força da mente assim como Darth Vader fazia em Guerra nas Estrelas – Droga! – bufou – Comigo não dá certo...
Alice fechou os olhos com força, derrotada ao concluir que desta vez estava realmente perdida. Com Coringa ela ainda tinha alguma chance de competir, pois sabia que o Palhaço sentia-se estimulado a mantê-la viva apenas para dar continuidade aos seus intermináveis joguinhos de insanidade, mas com aquilo... Tudo o que podia fazer era esperar pelo inevitável, e torcer para que não doesse muito.
A respiração sibilada do tal homem parecia cada vez mais próxima, como um cronômetro que daria fim à existência da hippie. Cada músculo seu pareceu se retesar com a tensão inexorável daquela aproximação. Bom, era o fim... Todo o seu trabalho em tentar se tornar alguém capaz de defender a si mesma simplesmente escorria ironicamente pelo ralo, e agora ela estava prestes a morrer pelas mãos de um completo desconhecido, coisa que Alice jamais imaginou que aconteceria, não com tantos vilões dispostos a concluir aquele serviço pessoalmente. O destino e suas ironias...
Alice ouviu passadas baixas vindo em direção à sala de meditação, e foi como se um feixe de luz esperançoso iluminasse o fim de seu túnel escuro. Ela abriu os olhos, percebendo que Talia e o homem musculoso também haviam notado que mais alguém parecia estar a caminho da sala.
_ Tem alguém vindo! – a voz da ninja saiu preocupada e obscura – Temos que sair daqui, antes que mais alguém veja o que fizemos!
_ Mas e a garota? – Bane perguntou, parecendo decepcionado por não terminar com aquilo que a hippie havia começado.
_ Ninguém pode saber que você está aqui! – ela rosnou em resposta, dando ao seu tom uma urgência irritada – Cuidamos dela depois, tenho certeza de que a queridinha do meu pai não será tão tola a ponto de contar nada do que viu – Talia encarou a hippie de forma desafiadora – Não é mesmo, Alice?
_ Eu dou a minha palavra de trapaceira! – levantou a palma da mão direita, simulando um juramento formal – Vão na fé, e vê se toma cuidado com os jedis pelo meio do caminho, senhor Vader!
O homem pareceu ter a intenção de voltar ao plano original de matar a hippie, mas Talia o puxou de volta, apressada pelos passos cada vez mais próximos.
_ Agora não! – avisou com raiva – Não podemos arriscar tudo por causa dela. Vamos! – mandou, e Bane obedeceu, apesar de demonstrar evidente insatisfação. Os dois foram em direção à janela, sumindo de vista com a rapidez de um estalar de dedos, mas Bane ainda teve tempo de vislumbrar Alice dando um tchauzinho de desaforo.

_ Tô fudida! – disse para si mesma enquanto ainda mirava exatamente o mesmo ponto pelo qual Talia e o misterioso homem fugiram, imaginando quanto tempo de vida ainda teria depois de presenciar aquela cena. Foi despertada do transe fúnebre assim que os passos de quem se aproximava pareceram atingir a iminência de adentrar ao recinto, e seu coração deu um salto, em completo frenesi dentro de seu peito, como se lhe advertisse que ser encontrada ali com Steve naquele estado estava longe de ser uma ideia recomendável.
_ Ah, caramba, ele precisa de um médico! – Alice pensou alto, e imediatamente a sua testa se franziu com o comentário – Péra... Eu sou médica! – ela espantou os devaneios, voltando ao que realmente importava.
Antes que a pessoa fosse capaz de entrar, a hippie arrastou Steve para longe do vidro estilhaçado do espelho, fazendo o possível para esconder os cacos que perfuraram a sua pele. Não daria tempo de escapar dali carregando o contador, mas talvez Alice tivesse alguma chance se conseguisse camuflar as evidências de agressão...
Alice desistiu de tentar se livrar dos pedaços de vidro ao se dar conta do precioso tempo que desperdiçava naquela tarefa inútil, e puxou Steve para a saída, levantando-o em suas costas com mais facilidade do que imaginou.
_ Quem está aí? – a voz dura de Sayid preencheu o corredor, e logo seus olhos se arregalaram ao ver que Alice carregava o corpo ensanguentado de Steve.
_ Eu até poderia dizer que é outro gato, mas pelo jeito essa desculpa não dá muito certo...
_ O que você fez? – o ninja perguntou num rosnado enfurecido, deixando que seus olhos se revezassem entre Alice e o rosto desacordado de Steve.
_ Eu? Além de salvar a vida deste pobre homem, absolutamente nada!
_ Então talvez você possa me explicar como ele ficou assim – perguntou desafiador, lançando um olhar astuto na direção do ângulo torto da perna do contador.
_ Acho que foi um acidente, ele desmaiou antes de ter tempo de me explicar – improvisou – Tudo o que eu sei é que ele estava jogado no chão com a perna quebrada, provavelmente rolou escada abaixo – continuou mentindo, fazendo o possível para esconder de Sayid o vidro que penetrava o braço de Steve.
_ Não tem nenhuma escada aqui perto! – o árabe rebateu, desconfiado.
_ Eu o arrastei até aqui. Pensei que ainda pudesse ter algum maluco meditando pra me ajudar a levá-lo até a enfermaria. Aliás, um pouco de ajuda seria bom!
Sayid não desviou os olhos de Alice enquanto ergueu sem qualquer esforço o corpo cambaleante de Steve, posicionando a pelve do homem em seu ombro e segurando firmemente as pernas que caíam soltas pelo abdômen torneado do ninja. A hippie respirou aliviada quando Sayid começou a caminhar resolutamente à sua frente sem fazer mais perguntas.
_ Eu não acredito em você – o ninja explanou um tanto rígido.
_ Fala menos e carrega mais, ô das Arábias!
_ Não espere que eu aceite essa história tão facilmente Alice – suas grossas sobrancelhas se estreitaram – Ela está muito mal explicada! – diminuiu o ritmo enquanto analisava atentamente o rosto da hippie, como se procurasse por qualquer sombra em suas feições que sugerisse a mentira.
_ Olha, eu não sei se você chegou a notar, mas o cara que está desacordado em cima do seu ombro precisa de cuidados médicos o quanto antes, então vê se apressa o passo e para de gastar a sua preciosa energia me difamando – usou um tom levemente ofendido que não enganou nem a si mesma.
O ninja a encarou de canto de olho, convencido de que havia algo de muito errado naquela história, e sem dizer mais nada empurrou a porta da enfermaria, posicionando Steve cuidadosamente em cima da maca que normalmente era usada por Alice nas suas sessões com o Gás do Medo.
_ Beleza, agora chispa daqui que eu preciso de espaço! – Alice disse, preocupando-se novamente em tapar a visão de todos os cacos firmemente aderidos ao braço do paciente.
_ E você é médica por acaso? – perguntou em tom de zombaria.
_ Com certeza! Se não acredita, pode conferir o meu currículo com o Barbicha, mas se manda logo da minha frente.
_ Bom, já que você é médica e está disposta a cuidar do Steve, faça-o acordar. Eu só saio daqui depois de tirar essa história a limpo – intimou.
“Filho da mãe!”
_ Tudo bem... – Alice analisou a situação por um momento – Mas depois você me deixa cuidar dele em paz!
_ Pode apostar – olhou-a intensamente, quase como se o castanho escurecido de seus olhos fosse capaz de intimá-la.
_ Bom... – a hippie voltou-se para Steve, pensativa – Acho que ele não vai acordar muito feliz, mas...
Ela segurou o osso completamente deslocado no nariz ensanguentado e adunco do contador, empurrando-o em um estalo alto para o lugar certo e arrancando um grito agonizante de aflição do homem que acabara de despertar por conta do fluxo inesperado de dor.
_ C-cadê...? Onde eu estou? – Steve cobriu o nariz com a mão, completamente atordoado, expulsando com dificuldade o sangue de suas narinas.
_ Calma, Steve! Você está na enfermaria. – Alice disse de forma branda, visando tranquilizá-lo – E tem uma visita afobada aqui querendo saber o que aconteceu para você aparecer caído e desacordado sobre um lance de escada – agora o seu tom ficou mais sério, e a hippie lançou um olhar cheio de significado para o contador, esperando que ele entendesse o recado e confirmasse a sua mentira.
Sayid abriu caminho, colocando-se na frente da médica.
_ Como você ficou assim, Steve? Me conte exatamente o que aconteceu!
_ Eu... – os olhos extremamente inteligentes do homem repousaram por um breve segundo em Alice, assentindo silenciosamente à farsa que ele aceitara participar – Eu caí. Rolei sem parar por dois lances de escada, e acho que quebrei a perna.
_ Tem certeza que foi assim que aconteceu? – Sayid estava visivelmente contrariado – Por que a Alice estava te carregando? Por acaso foi ela a responsável por isso? – apontou de forma geral para os ferimentos no homem por cima da maca.
_ N-não... Não, a Alice me encontrou caído! – mentiu, sustentando firmemente o olhar inquisidor do ninja.
_ Satisfeito? – a hippie intrometeu-se, cruzando os braços – Agora vaza, o horário de visitas nem devia ter começado... – despachou-o.
Sayid encarou os dois uma última vez com desconfiança, mas não se opôs ao finalmente retirar-se da enfermaria. A hippie ainda esperou alguns segundos antes de se convencer de que estava sozinha com Steve, e logo voltou-se para junto do homem ferido, satisfeita.
_ Valeu, o Ali Babá não ia me deixar em paz se você não confirmasse a história – agradeceu, já se apressando em separar montes de algodão e uma pinça cirúrgica para caçar os vários cacos de vidro, agora camuflados pelo sangue parcialmente coagulado no braço do contador – E então... você vai me contar porque a Talia mandou o grandão te espancar desse jeito? – perguntou, concentrada em limpar o sangue seco pela extensão de sua pele.
_ C-como você sabe o q-que aconteceu? – pareceu espantado e ao mesmo tempo preocupado.
_ Eu estava escondida atrás de uma parede e ouvi tudo. Acho que você desmaiou antes que eles me descobrissem ali... – disse tranquila, começando a cutucar a carne do contador com a pinça esterilizada, em busca dos cacos do espelho.
_ Você não está m-mais segura aq-qui! Se eles t-te viram, você p-precisa sair daqui o q-quanto antes! – avisou com olhos arregalados de preocupação.
_ Steve... – Alice o encarou com certo divertimento – Você é gago?
_ C-costumava ser... – assentiu, irritado – Até os m-meus dezessete anos, e depois p-parou... Eu aprendi aos poucos a c-controlar a respiração, mas sempre que eu fico n-nervoso a gagueira volta.
Alice arrancou o primeiro vidro, depositando-o em um pequeno copo ao seu lado, provocando um tilintar entre o baque dos dois materiais.
_ Cara, você deve ter sofrido muito bullying quando era adolescente! Um nerd gago é um prato cheio pra qualquer metido a popular... – comentou de bom humor, sorrindo enquanto suas mãos ágeis trabalhavam em retirar o material inorgânico e cortante do braço do contador – Mas e aí... me conta, quais os motivos desse tratamento tão... cortês?
_ D-de jeito n-nenhum! Quanto m-menos você souber, melhor.
_ Pode me dizer o que houve, Steve! Eu quero te ajudar, mas só posso fazer alguma coisa se você me contar o que diabos está acontecendo.
_ Eu não conto pelo mesmo m-motivo que você mentiu para o Sayid a respeito d-dos meus machucados. P-para protegê-lo da verdade.
_ Eu menti para o Sayid porque não confio nele! – corrigiu – Eu não duvidaria nada se aquele árabe metido a besta estivesse envolvido com a Talia de alguma forma, e porque eu sei que ele não poderia fazer nada pra ajudar mesmo que fosse confiável...
_ Você t-também não pode m-me ajudar – rebateu.
_ Posso sim, porque eu acabei de me colocar no mesmo barco que você assim que entrei pra lista negra daqueles dois! Você não é o único alvo deles agora, e te ajudar é uma forma de defender a minha segurança também.
_ Você n-não entende, Alice!
_ Então explique... – sorriu, tirando mais alguns cacos manchados de vermelho. Steve suspirou, parecendo extremamente cansado.
_ Acredite em mim, Alice, a ignorância agora é a s-sua única aliada. Se você souber de qualquer detalhe que seja, Talia não vai medir esforços para se livrar de v-você.
_ E você realmente acha que eu estou segura depois do que eu vi?
_ Se você se mantiver c-calada, sim! Ela não vai arriscar se expor te matando se você não se provar uma ameaça.
_ Sinto muito, mas eu não vou ficar passiva a isso. Se você não quer me contar o que aconteceu, tudo bem, mas mesmo assim eu vou fazer alguma coisa – avisou, decidida, mesmo sem saber exatamente como poderia interferir.
_ Eu não faria isso se fosse você – disse, agora parecendo finalmente controlar os tremores na voz – Fique o mais longe possível daqueles dois, especialmente da Talia.
_ Eu tenho muito mais motivo pra ter medo do Darth Vader do que da PuTalia – disse, e Steve soltou um riso abafado com o apelido arranjado ao homem de máscara. Como todo bom nerd, o ruivo parecia bem familiarizado com aquele universo fictício.
_ Ele pode ser os músculos, mas ela é o cérebro – advertiu – Então é ela que você não deve irritar.
_ Bom, então eu acho que eu já estou perdida... – riu, e Steve a encarou com uma expressão pesarosa – Você não vai mesmo me dizer por que foi espancado?
_ Não – respondeu, impassível, repleto de determinação dentro daquelas duas gemas azuis, e Alice ateve-se a suspirar em reprovação, vendo que não extrairia nada de Steve além daqueles cacos de vidro presos em sua carne.
Fale com o autor