A Fórmula do Amor
13 A Ovelha colorida da família
Notas iniciais
Diário da Ludi
Naquela época, a cantora Lady Gaga estava começando a fazer sucesso nas rádios brasileiras. Eu gostava do estilo dela, porque ela era ousada e mesmo eu não entendendo muito o que as letras de suas músicas diziam, eu me identificava muito com ela porque a julgavam da mesma forma que as pessoas me julgam até hoje.
Mamãe, por exemplo, dizia que Lady Gaga era esposa do capeta, que fizera pacto para chegar ao topo do sucesso.
— P-p-p-poker face, p-p-poker face! — cantava eu, o rádio do meu quarto ligado no último volume.
Enquanto eu dançava como minha diva, fazendo a vassoura de microfone e tudo mais, mamãe batia na porta do meu quarto. Eu sempre tive o costume de trancá-la à chave, pois Dona Maria tinha também como costume entrar sem bater. Acho que ela esperneou uns vinte minutos no pé daquela porta até eu me dar conta de que havia alguém ali de fato chamando pelo meu nome com todas as letras:
— LUDIMILA, ABRA ESSA PORTA AGORA!
Abri e logo me deparei com a minha mãe com uma foto em mãos e um copo com um óleo que até aí eu não sabia para que servia.
— Eu não passei nove meses carregando um peso medonho, e nem aguentei as dores do parto para minha filha terminar nisso. — foi então que Dona Maria me mostrou o que era a foto.
Era nada mais do que eu, na noite passada, numa festa que houve de inauguração da boate Mofoville (que seria a mais badalada dali em diante). Estava eu “ficando” com uma garota e dava pra ver claramente o meu rosto. Não lembro de terem tirado aquela foto, mas lembro de ter ficado com ela.
— Então você é...
— Sim, mãe. Eu sou lésbica.
A mão de D. Maria cortou o vento e foi em direção à minha cara mais rápida do que a velocidade da luz. Não houve nada mais libertador do que aquela surra, e nem mais que aquelas palavras que eu disse.
Minha mãe besuntou meu corpo com aquele óleo “ungido” e me deu aquela surra até às quinze para as sete da noite, quando ela me jogou dentro do banheiro e ordenou que eu tomasse um banho.
— Espero que você aprenda sua imunda!
— Imunda é a senhora.
Outra tapa na cara.
— Me respeita, sua cachorra.
— Seja digna de respeito primeiro. — respondi.
— Sete horas eu quero você pronta para o culto. Teremos um encontro: eu, você e o Pastor Mendonça.
💜
Minha mãe foi segurando o meu braço como se eu fosse uma criança arteira o caminho todo de casa até a igreja. Eu estava calada, um pouco incomodada com a minha pele, que estava toda grudenta por causa daquele óleo. Minha mãe conversou com o pastor. Não deu para ouvir a conversa, mas era sobre mim com certeza.
— Essa menina foi tomada pelo diabo, e agora não mede as consequências dos seus atos! — disse o pastor, com o seu braço direito estendido e a palma da mão na minha testa.
Não entendi nada, apenas olhava para os fiéis que acompanhavam tudo atentamente de suas cadeiras.
— Queima! Queima ela!
O pastor me deu um empurrão e eu caí no chão. Fiquei esperando que alguém tomasse uma providência, afinal aquele homem estava me agredindo!
— Quem está aí? Manifesta! Manifesta!
Achavam que minha opção sexual era devido a um espírito que havia no meu corpo, que aquilo não era coisa de Deus. Se ser feliz não era coisa de Deus eu estava ferrada, o mundo estava ferrado!
Que eu saiba, nenhum caboclo manifestou-se em mim, e eu saí da igreja lésbica do mesmo jeito que eu entrei.
Pôsteres da Lady Gaga rasgados: “Olha pra cara dessa mulher. Depois que você começou a ouvi-la passou a ser desse jeito”, dizia ela. Minhas roupas foram parar na calçada. Eu era, e sempre serei irredutível. Não mudaria meu jeito de ser por causa da minha mãe.
💜
Minha mãe me evitaria por toda a vida, eu acho. Não queria que fosse assim, mas já tinha quase 16 anos e achava que se era aquilo mesmo que eu queria, teria de começar a me virar sozinha.
Sei que a sociedade impõe regras que regem até nas famílias. Mas eu quero ser feliz sendo do jeito que sou, e não quero viver numa grande mentira.
Meus amigos, o Berg e o Rafa, me ajudaram muito. A mãe do Berg, preconceituosa, não me deixou ficar lá na casa dele. Mas fui recebida de braços abertos pela mãe do Rafa, Dona Angelina, um amor de pessoa.
Agora eu vou viver uma nova vida. SEM MENTIRAS! Quem sabe no futuro minha mãe me peça desculpas por só ter olhado os meus defeitos, (se é que ser uma homossexual é um defeito) e não as minhas qualidades. Sempre fui uma filha ótima para ela. Eu não tive pai e nós nos virávamos como podíamos, e passamos por cada perrengue juntas! É lamentável.
💜
Diário do Berg
Confesso que fiquei com raiva da minha mãe. Ela já demonstrava que não gostava da Ludi e eu já sabia o porquê. Como minha mãe não quis ajudá-la, Ludi ficou na casa do Rafa. Os pais dele não eram preconceituosos.
Depois de passar todo o susto dos acontecimentos, veio à minha cabeça que a Madalena podia sim ter aprontado novamente. Lembram que ela disse pra mim que sabia de tudo o que acontecia com a escola e com as pessoas que estudavam nela? Pois é, se ela soubesse de tudo mesmo, pensaria duas vezes antes de implicar com a Ludi, que adora comprar uma briga.
Quando eu contei pra ela sobre o que eu achava, minha amiga ficou furiosa, bufando.
— Ludi, eu não tenho certeza.
— Berg, essa é a única explicação. Uma foto tão íntima não surge assim do nada. — disse Rafa.
— Quando eu pegar aquela louca dos dentes de lata... Ah ela não vai querer nem ter nascido!
— Não, Ludi. A gente não pode fazer nada sem ter certeza que foi a Madalena mesmo.
No fundo, no fundo eu sabia que fora ela mesma, e por causa daquela discussão que nós tivemos. Mas até segunda ordem deixamos por estar.
De uma coisa eu, o Rafa e até mesmo a Valentina sabíamos: opção sexual não muda em nada o caráter de ninguém. Nós que não iríamos abandonar nossa amiga só porque ela era lésbica. Os adultos dizem que nós jovens não temos maturidade suficiente, mas estou começando a achar que temos sim e bem mais do que eles. Se eles querem que nós os respeitemos, que nos respeitem também.
💜
Embora tudo o que estava acontecendo na vida das minhas amigas, os meus 15 anos foram os melhores momentos da minha vida. Tinha amigos verdadeiros e ganhei uma coisa que eu estava querendo muito: um violão! Eu já sabia tocar um pouco, aprendi com o do meu tio. Mas agora que eu tinha o meu, teria muito mais oportunidade de aprender a tocar as musicas que eu gostava!
As primeiras notas saíram. Fui dedilhando, cada corda, e o conjunto delas formavam umas das minhas canções preferidas: Under the Bridge. Já havia tocado Under the Bridge algumas vezes em alguns violões, mas daquela vez teria um gostinho todo especial.
Cantar e tocar violão me fazia esquecer os meus problemas, até de que eu estava altamente decepcionado com a Valentina e preocupado com a Ludi. Terminamos a noite com um pequeno sarau na sala da minha casa, onde minha irmã começou pedindo para que eu tocasse Keane (sua banda favorita) , depois meu pai pedindo para que eu tocasse Zé Ramalho, minha mãe com The Fevers e assim foi revezando noite adentro.
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