A Excluída

22 PARTE 3 Corrida sem fim


Mais um dia na escola chegou e lá fui eu enfrentar mais um dia de perseguição e ofensas. Esse ano David também era da minha turma, o que ajudava um pouco às vezes a esquecer os valentões. Nesse dia de aula em particular, enquanto fazíamos resenhas do livro de Linguagem e Texto, senti algo me atingir por trás sutilmente. Era algo pequeno que jogaram em mim, bolinhas de papel gosmentas que foram sopradas por canufinho e grudaram no meu uniforme.

Por um instante, pensei em me virar pra ver que era, mas não o fiz. Olhando de soslaio, pra direita, percebi que David tinha papeizinhos no cabelo. “Por que eles nunca nos deixavam em paz?” pensei com pesar.

Então me lembrei do pequeno dispositivo que tínhamos aprimorado um expelidor de objetos. Afastava pequenos objetos indesejados que tentassem nos atingir. Já estava mais do que na hora de testá-los.

Peguei o meu aparelho que estava no meu bolso, mostrei pra ele e mais que depressa David entendeu. Acionamos juntos e senti que as bolinhas e seus arremessadores nos deixaram em paz por um tempo. Foi aí que a bola feita de uma folha inteira de papel me acertou. Automaticamente me virei e dei de cara com o sorriso malvado de Ricardo, o valentão de David, por assim dizer, já que ele fazia questão de atormentar meu amigo nas aulas de Educação Física. Não fazia ideia porque ele tinha jogado a bolinha de papel em mim. Decidi aumentar a potência do expelidor e esse foi meu erro fatal. A próxima bola que me jogaram em vez de me atingir, atingiu com força seu arremessador. Ricardo olhou pra mim com toda fúria contida. Por um instante tive medo, já que ele sussurrou que me pegaria na saída. Então pensei “não vai mesmo”.

Terminei o mais rápido possível minha resenha, David tinha terminado um pouco mais cedo que eu. Só que a professora Marta nos disse para esperar o sino bater. Então esperamos, mas com o pensamento e a vontade de sair dali o mais rápido possível. O sino bateu e assim que seu som atingiu nossos ouvidos, saímos correndo em disparada. Isso não nos impediu que nossos inimigos habituais não nos perseguissem. Ricardo os liderava atrás de nós, mas a cada tomada de fôlego, eu e David continuamos correndo sem parar. Entramos na minha casa de supetão, os dois ofegantes tentando recuperar o ar. Lana veio nos atender, já imaginando o que tinha acontecido.