Os dedos passavam pela pedra gelada contornando as delicadas linhas do desenho. A pele em contato com os cabelos encaracolados solidificados passava pelo fino nariz áspero terminando nos lábios duros. Um misto de medo e curiosidade. A pureza da arte contrastava com o horror de sua criação. Paola poderia estar admirada com seu criador, se este não fosse o mal e do que agora transformado em estátua extinguido sua vida. Ali jazia o menino em paz, olhando fixamente para o horizonte, vivendo eternamente como a mais nova decoração em uma cidade cada vez mais deserta. Ela não conhecia a vítima, mas sentia seu coração apertar e tinha vontade de chorar. Da janela do prédio, contemplava as ruas de Porto Alegre. Mais estátuas em poses diversas povoavam a extensão da metrópole. Temer os sentidos, viver o medo a cada momento, descobrir que no final, talvez tudo seja em vão. Aqueles sentimentos a preenchiam, a garota não queria mais viver assim. O inevitável destino cruel da vida é chegar ao fim. Será que ao final acabaríamos como mais uma adição desse museu nefasto ao ar livre?

— Está tudo bem? – Uma voz calma, mas preocupada veio de trás.

— Não sei. – A menina vacilou no inicio, respirando fundo para continuar. – Fico imaginando se essas pessoas sentiram alguma dor. Se de baixo dessas cascas duras ainda há vida, uma alma triste tentando libertar-se de sua prisão. Fico pensando em como seria fácil se acabássemos com tudo nesse instante?

— Então não pense. O fácil não quer dizer que seja o melhor. Lembre-se que a casa de pão-de-ló era a morada da bruxa e o caminho de espinhos levava ao castelo da Bela Adormecida.

— Eu não sei se consigo continuar. – As lágrimas transbordavam dos olhos de Paola. Um fio de água deslizava por sua bochecha, espatifando-se ao tocar o chão. O eco mudo da tristeza espalhando-se pelos corredores.

— Todos nós temos as mesmas dúvidas, os mesmos medos, os mesmos receios. E mesmo assim, continuamos. Sabe por quê? Por que a única coisa que nos sobrou é a nossa humanidade; é a isso que temos de nos agarrar. Seja o que for que estiver por aí nos caçando, quer acabar com o que nos faz humanos. – Matheus pousou seus braços nas costas da menina. Ela sentia a troca de calor, a energia fluindo. Os dois eram capazes de ouvir o coração um do outro, os batimentos sincronizados. A respiração baixa. E enquanto os lábios se tocavam, por um instante, nada mais importava.

— Está pronta para continuar? – Perguntou o rapaz.

— Estou.

Os dois continuaram pelos corredores escuros do primeiro andar. Tapumes grossos de madeira negra tapavam as janelas. Mesmo de dia, a luz do sol não se atrevia a adentrar aquelas galerias. O perigo rondava a procura de novas presas, sorrateiro, fazendo seu caminho no invisível. Os sons eram seus únicos guias. Matheus fez sinal com os dedos, apontando para baixo. Paola o seguiu até a escada. A escada estava posicionada no coração do prédio, uma enorme arquitetura cujos degraus desciam circularmente entre os sete andares do edifício. O casal descia cuidadosamente, os pés delicadamente tocando os degraus de granito claro. Os ouvidos a postos, prontos para a ação a qualquer mínimo ruído. A descida foi a mais lenta e angustiante de suas vidas. O térreo estava deserto, a não ser pela decoração macabra de mais pessoas petrificadas.

Tanto a porta e os vidros estavam bloqueados por mais tapumes, inviabilizando a saída. Os dois caminhavam por entre as estátuas. Aquele exército de seres imóveis vigiava-os, o olhar inquisidor recaindo sobre seus ombros, culpando-os por estarem vivos e eles não.

De algum lugar, um silvo foi ouvido; um som animalesco e traiçoeiro. Um agudo afiado como a lâmina de uma espada, cortando suas carnes com facilidade. Os dois correram para a recepção, uma pequena ilha de computadores perto da entrada. Ainda sentados em suas cadeiras, os trabalhadores daquele recinto jaziam sem nunca terem terminado seu serviço. Ali se esconderam. Os corações acelerados engasgados na garganta, a menina tapava sua boca com as duas mãos para impedir qualquer ruído de escapar. Os ruídos continuavam, às vezes mais perto, outras mais longe, espalhando-se pelos espaços, ocultando sua localização. Paola encolhida podia imaginar o perigo apenas a alguns centímetros de distância. Os segundos de indefinição a angustiavam. Seria o fim? Mas então, os silvos diminuíram, a criatura parecia se afastar. Os olhos de Matheus visualizaram um largo mural de metal fosco que se estendia a sua esquerda. Sabia que atrás do mural haveria uma entrada para a garagem. Poderiam usar o mural para se ocultarem. Matheus viu sua chance e agarrou o braço de Paola. Mas, o medo a travava, a cabeça balançava em um não assustado.

— O que faremos? Não sabemos o que são, ou quantos são, nem como sairemos daqui. – Paola sussurrava. A voz levemente trêmula. Ela desejava apenas acordar e descobrir que tudo não passava de um pesadelo.

— Existe uma lenda urbana, túneis secretos que passam por baixo do edifício por onde políticos poderiam fugir em caso de rebeliões. Eu conheço a planta do prédio, já trabalhei aqui. Esses túneis realmente existem e são na verdade estreitos aquedutos abandonados. Poderíamos usá-los para escapar. Estamos no térreo, só temos que chegar até o subsolo. Para isso, teremos que descer para a garagem e aquele mural nos dará cobertura.

Matheus esticou o pescoço para fora da proteção, o saguão estava seguro. Era agora. Com os dedos, contou até três para Paola e então correram para trás do mural. Os dois desceram as escadas e rapidamente atravessaram a garagem em direção ao norte, movendo-se a sombra dos carros. O caminho estava aparentemente livre. Silvos, grunhidos ou qualquer outro barulho que pudessem indicar perigo desapareceram. Passaram por uma estreita passagem em direção a sala do gerador, mais um lance de escadas de ferro e estavam a meio caminho dos túneis. O local estava jogado no breu. O menino, com a ajuda da luz fraca de um celular, tateava as paredes procurando a passagem. Ela o seguia de perto segurando sua mão para não se perderem.

— Vou precisar de uma ajudinha aqui. – Falou Matheus ao finalmente achar o que procurava.

Estavam de frente a uma bancada pesada de ferro enferrujada próxima a parede. Empurram-na, desbloqueando o caminho. O metal em atrito com chão arranhava-o fazendo enorme barulho. Passaram para o outro lado, bloqueando a passagem novamente. Os túneis eram úmidos e pequenos, os dois andavam encurvados. Seguiram em frente, a luz do aparelho era seu único guia. O ar ali embaixo era pesado, os joelhos estavam doloridos. Na metade do caminho, o som do metal colidindo com chão. Sabiam o que acontecera. Correram como podiam, as costas raspando nas pedras porosas. A dor não influenciava nesse momento, a adrenalina pulsava inibindo qualquer outro

sentimento a não ser de medo. Matheus puxava fortemente Paola, os silvos surgiam fortes, o ser rastejava veloz pelo chão molhado. Mais perto, mais perto. Os sons tão intensos que pareciam estar do lado de seus ouvidos, perfurando seus tímpanos, adentrando seus cérebros e estraçalhando todos os seus órgãos de dentro para fora. Com o coração a milhão, a respiração pesada e rápida, chegaram a uma escada de parede. Começaram a subir sem saber o que os esperava, torcendo para que não estivessem trancados ali embaixo. Os sons chegavam mais perto e os dois escalavam as pequenas barras de ferro grudadas à parede. Matheus chegou ao final, uma tampa de ferro era a única coisa que os separava do exterior. Ele a empurrou, mas era muito pesada. Tentou mais uma vez, mas a tampa parecia estar lacrada.

— Rápido! Rápido! – A menina se desesperava à medida que o monstro chegava cada vez mais perto.

Matheus usou de toda sua força, erguendo com as costas a pesada tampa. Ela chegou a mexer levemente, mas não foi o suficiente. Ele não desistiu e continuou forçando até a exaustão. O ombro esquerdo vencia o metal duro. Conseguiu erguer alguns centímetros, o suficiente para poder colocar as mãos e empurrá-la para o lado. O rapaz emergiu para a superfície, entretanto Paola escorregou nas barras úmidas, vacilando alguns degraus, seu pé agarrado pela criatura. Matheus rapidamente agarrou seu braço, tentando puxá-la para cima, lutando contra a pressão contrária do monstro. A pele escamosa do ser machucava em contato com os tornozelos da menina. Um breve espaço e a luz do sol conseguiu entrar pelo túnel acertando em cheio o rosto da criatura que soltou, recuando machucada para a escuridão. Com um último esforço, um puxão forte a trouxe para a superfície. Estavam do lado de fora agora, em meio uma praça.

— Conseguimos! – A menina abraçou o rapaz, aliviada.

Ele a envolveu em seus braços, um abraço confortável que poderia durar para sempre. Entretanto, não podiam aproveitar esse “para sempre”. A qualquer momento, a noite chegaria e os terrores voltariam. Tinham que achar um lugar para se esconderem.

— Temos que seguir. – Falou Paola puxando-o. Mas, ele não se moveu. Apenas sorriu e ela entendeu. As lágrimas invadiram seus olhos, aquilo não podia estar acontecendo. Os pés tomavam um tom escuro de cinza, subindo rapidamente pelo resto do corpo.

— Não! Não! – Ela desesperava-se, mas não podia fazer nada enquanto o que era carne tornava-se pedra.

— Escute! Por favor! Estou orgulhoso de você, mas preciso que continue.

— Não, não posso. Vou ficar aqui com você.

— Não faça isso, continue, por mim. Não deixe que meu sacrifício seja em vão.

— Eu... eu. – As palavras engasgavam, a visão enturvava. A única coisa que conseguia pensar nesse momento era em seu amado. Instintivamente, inclinou seus lábios num beijo quente, as bocas envolvendo-se em um último momento de paixão. Então, o que era macio e úmido tornou-se duro e seco. – ...te amo.

A menina solitária seguiu em frente, sob a proteção da luz solar sabendo que um dia os amantes se reencontrariam em um lugar melhor. Por cima de seus ombros, pode visualizar uma última vez a estátua mais linda do jardim de pedras.

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