Nada era tão relevante mais na minha vida, exceto pela última noite em missão no Mundo Dos Vivos. Uma estranha quis ler a minha sorte, eu não acreditava nestas baboseiras, mas o que tinha a perder? Lembro-me perfeitamente das cartas dispostas sobre a mesa que haviam me marcado, A Roda do Destino, O Diabo, O Apostolado, A Morte e A Estrela. Das palavras da estranha eu lembrava com clareza e elas martelavam em meus ouvidos, ecoando na minha mente.

“A Roda do Destino foi o princípio de tudo, e ela girou tantas vezes quanto os dias que você viu nascer. Há algum tempo ela determinou não somente o seu caminho, como também o daquele que tem com você laços indestrutíveis... Não pareceu justo, mas, há muito tempo vocês já haviam sido separados pelo destino e cada um deve seguir o que foi imposto, sem olhar para trás.
Agora vejo O Diabo, parece assustador... Mas, não, ele não é tão desprezível assim, na verdade, é um herói ambíguo e dualidade é uma característica dele. É alguém que vai experimentar o inferno para chegar no paraíso, assim sendo, possui dentro de si o bem, mas também o mal na mesma proporção. Ao lado está O Apostolado, que significa um grande sacrifício e você precisa buscar no lugar mais obscuro do seu ser, a resposta para isto, bela jovem. Por fim, vejo A Morte... Ela não é tão clara, contudo, está intrinsecamente ligada ao sacrifício.”

Fiquei pensando em tudo o que ouvi, até que prestei atenção na última carta ali disposta, era A Estrela. O que ela poderia significar quando todas as outras já haviam falado tanto? Questionei antes de me retirar e obtive uma resposta que me deixou horas e mais horas absorta em pensamentos e lembranças.

“A Estrela, é você, querida... Uma jovem de bons sentimentos, corajosa, forte e bela. Como toda a carta, tem um lado negativo também e nesse caso, é ligado ao despudor e a leviandade. Você tem motivos para se esconder por detrás desse lado negativo, não a culpo. Mas, A Estrela também representa a esperança e a sua é infinita. Espere, assim como a jovem da carta. Não deixe nunca de esperar!”

Voltei para a Soul Society naquela noite com o coração ainda mais quebrantado, as cartas falavam dele. Eu era A Estrela, ele O Diabo. E desde que o conheci, tudo o que fiz foi esperar e tentar entender ao menos um pouco sobre a verdadeira natureza dele. Dualidade... Ichimaru Gin se encaixava perfeitamente no significado dessa palavra.
Deitei em minha cama e procurei conforto no travesseiro, lá, podia chorar sem que ninguém soubesse... Podia desabar, como fazia todas as noites desde que ele havia partido. Em meio às lágrimas, comecei a lembrar do passado. Tantos anos, centenas de lembranças que permaneciam vivas dentro de mim... Que jamais perdiam a cor, mesmo que tudo o que ele havia feito pudesse tê-las tornado monocromáticas.
Mais uma vez eu o via no dia em que nos conhecemos, ele me salvou... Tanto meu coração quanto a minha alma estavam salvos quando me deixou andar ao seu lado. Nele eu encontrava conforto, proteção e não importava onde fosse, pois qualquer lugar era meu lar quando Gin estava comigo. O menino de nome estranho, olhar esquisito e sorriso indecifrável. Um mistério que eu nunca revelei, contudo, nada importava a não ser a felicidade que eu tinha ao seu lado. Eu renasci quando o conheci, essa era a verdade, tanto que ele havia sugerido docemente que meu aniversário seria comemorado sempre naquele dia.
Ichimaru Gin, eu repetia o nome dele em meio aos soluços, queria que um dia aquelas lágrimas simplesmente secassem. Quantas vezes chorei quando ele partia e não me dava certeza de quando voltaria... Quantas vezes meu coração se quebrou, principalmente quando ele foi para a Academia Shinigami. Só que o nosso laço superava uma simples amizade, até mesmo fraternidade... Eu não o deixaria ir sozinho. Decidi que também me tornaria shinigami, assim, poderíamos continuar nossa jornada juntos. Mas, ele mudou. Já não era mais o mesmo que eu conheci... Quem era aquele?
Nos afastamos e a cada salto que ele dava, eu me distanciava cada vez mais dele. Aquela distância não podia ser vencida, eu já não tinha mais forças para correr... Fiquei para trás e Gin ascendeu rapidamente.
O tempo passou tão rápido, tantas coisas aconteceram na Soul Society, ele havia se tornado taichou do Sanbantai e eu fukutaichou do Juubantai. Nosso contato não era como eu gostaria, talvez mais restrito pela barreira que Gin impôs do que pelas convenções dos nossos cargos.
Realmente, "A Roda do Destino" nunca parava... Tudo mudou várias vezes, menos o que eu sentia.

Quando a Seireitei estava um caos por conta da execução de Kuchiki Rukia, Gin cruzou o meu caminho. Eu não encontrei conforto em uma garrafa de sakê naquela noite, andava sem rumo pelas ruas quando notei seu olhar me seguindo. Não conseguiria esconder minha tristeza, aquele halo de melancolia que ficava ao meu redor estava nítido e meus olhos me traíam também, marejados por conta das lembranças que teimavam em assolar sempre na mesma hora. Era a primeira vez que eu não consegui fingir que estava tudo bem, ele havia me pegado desarmada. Olhei para baixo e escondi o rosto por entre os cabelos, ele se aproximou de mim e curvou um pouco o corpo, abaixando-se e chegando muito perto. Sua mão fria tocou meu rosto e ajeitou os cabelos atrás das minhas orelhas.

– Esta tristeza não combina com seu belo rosto, Rangiku.

Meu coração palpitou mais forte, que direito ele tinha de se aproximar de mim daquele jeito depois de tantos anos? Mas Gin não se importaria e nada que eu dissesse ou fizesse o afastaria, eu tinha certeza. Suspirei e o encarei, não sabia o que dizer.

– Venha comigo, Rangiku.

Seu tom de voz me hipnotizou, assim como seu sorriso... Não era sarcástico, nem zombeteiro. Era um sorriso sincero, doce e encantador. Há quanto tempo não o via sorrir daquela forma? Ele estendeu sua mão para mim e eu um pouco em dúvida segurei. Após apertar com força a minha mão, me puxou contra seu corpo bruscamente e me abraçou. Era um abraço urgente, sufocante. Parecia que Gin queria me dizer algo naquele ato, contudo, nem tive tempo de questionar... Ele me tomou em seus braços e saltou dali, usando shunpo, logo estávamos em um local afastado que servia de campo de treinamento para o Sanbantai. Assim que ele me largou no chão com cuidado, eu olhei para os lados, não queria que ninguém tivesse visto aquela cena.

– O que você pensa que está fazendo, Gin?

– Olhe para a lua... Você disse um dia que era raro vê-la assim, com esta cor de âmbar. Não percebeu?

– Você a chamou de Lua Sangrenta – eu olhei para o céu, a última vez que havíamos visto aquele fenômeno foi quando entramos na academia. – Nunca mais fizemos nada juntos desde aquele dia.

– Pois eu não poderia deixar de mostrá-la para você – disse ele com a voz tranquila. – Aqui ninguém vai nos incomodar, pode ter certeza. Aprecie a lua comigo, Rangiku.

Ele estava olhando para o céu, notei que seus olhos estavam mais abertos que o normal e a cor de seus orbes eram de um vermelho escarlate. Eu não entendia como a cor dos olhos dele mudavam, pois sabia que eram azuis... Aliás, um tom de azul tão bonito e raro que era difícil compreender como podia se manter oculto, sem que mais ninguém pudesse apreciar.
Aquela lua havia me trazido boas recordações naquele dia e algo muito melhor, Gin estava ali, ao meu lado. Eu queria questioná-lo a respeito do abraço, aquilo havia ficado engasgado, mas não tive coragem.

– É estranho estar com você aqui, Gin... Há quanto tempo não nos falamos sem que fosse um assunto oficial? – Perguntei seriamente, e sentei-me sobre a grama verde, deixando a zanpakutou ao lado. – Eu não o conheço mais, sequer sei o que se passa na sua cabeça desde que alcançamos a maturidade.

– Eu não posso mostrar o que se passa em minha cabeça, – ele sentou-se ao meu lado, muito próximo, livrou-se da zanpakutou e segurou minha mão esquerda – no entanto, posso fazer com que voltemos a nos conhecer.

– Como, Gin? São tantos anos de lacunas! Me diga, como pode fazer isso?

Ele outra vez me puxou, naquele momento, tão forte que caiu de costas no chão de forma proposital e me trouxe para cima de seu corpo. Mais uma vez seus olhos se abriram e um novo sorriso, que eu não soube traduzir. Não satisfeito, Gin deu um revés e colocou-se rapidamente sobre meu corpo, as mãos espalmadas no chão uma em cada lado para que não me machucasse. Eu o fitei, procurava dentro dos olhos dele uma razão para aquilo. Porém, eu não encontraria dentro dos olhos dele o que procurava e sim no beijo que ele me roubou naquele instante. Há quanto tempo eu esperava por aquilo? Ele invadiu minha boca e me fez provar seu gosto tão doce, me roubando a respiração. A pressão de seus lábios era lenta e segura, como se não se importasse com mais nada além daquele beijo. Eu envolvi meus braços no pescoço dele e senti seu corpo pesar sobre o meu, assim, desci as mãos para o seu peito, sentindo a firmeza de seus músculos, que ele sempre escondeu. Sob meus dedos, conseguia sentir seu calor emanando mesmo através daquelas camadas de roupas e tão perto, notei também o aroma de seu perfume, amadeirado, discreto. Estava inebriada com o gosto, com o cheiro dele... E também pelo toque suave dele que se iniciava. Seus dedos ágeis e ao mesmo tempo delicados passeavam pelo meu pescoço, descendo até arrancar-me suspiros. Senti que ele parou no meu decote, então, eu sorri e dali por diante não sabia mais até onde chegaríamos.
Gin teve em meu sorriso a permissão para prosseguir, então, nos livramos das roupas e pela primeira vez nos víamos daquele jeito. Seu olhar percorreu meu corpo inteiro com satisfação, assim, ele aproximou os lábios nos meus e murmurou:

– É assim que você vai me conhecer, de um jeito que ninguém mais poderá.

Aquele insinuante tom de voz me fez esquecer de todo o passado na mesma hora, assim como do tempo e espaço. Éramos somente Gin e eu naquele momento, sobretudo quando o senti invadir meu corpo lentamente. Assim, percebi que eu havia sido feita para ele, nossos corpos se encaixaram perfeitamente! Era como se tudo ao nosso redor tivesse congelado, eu só tinha olhos para ele, movendo-se com calma em cima de mim, tocando meu corpo inteiro e me beijando com toda a devoção.
Diante daquilo tudo que estava acontecendo, eu não queria ouvir explicações, não queria questionar, na verdade, não estava disposta a dizer mais nada além do que nossos olhares exprimiam. Gin teria a certeza que eu pertencia a ele, assim como tive a certeza de que ele pertencia a mim.
Ficamos nos amando por horas, descobrindo diferentes sensações e formas de darmos prazer um ao outro. Brincávamos com nossos corpos, usávamos a língua, as mãos, os olhos e até o sorriso para que pudéssemos interagir. Era certo que Gin também sabia que se disséssemos qualquer coisa, a magia daquele momento único e maravilhoso acabaria na mesma hora.
Senti o prazer absoluto, quase que ao mesmo tempo que ele e não nos contentamos com apenas uma vez... Era fácil demais ter aquela ligação com ele até o amanhecer, tanto que quando o sol nasceu, ele continuava dentro de mim como se nada fosse capaz de cansá-lo. Eu também me sentia incansável, queria verdadeiramente que o tempo não passasse mais, que o momento fosse eterno... Mas infelizmente, não poderia ser assim. Ao menos, seria imortal.
Ele me beijou com loucura, fazendo com que cada parte do meu ser se incendiasse naquele profundo último beijo. Eu sabia que não era apenas uma simples despedida, parecia um adeus... Um triste adeus no fim das contas, pois doeu demais ter que acordar daquele sonho, voltar a trajar as roupas e empunhar a zanpakutou. O dever chamava.
Gin enlaçou minha cintura e encostou a testa na minha, assim, sussurrou:

– Rangiku... Não esqueça nunca dessa noite. Eu vou imortalizá-la para sempre em minha memória.

– Não esquecerei, Gin!

– Lembra quando eu fui para a academia? Meu maior propósito era me tornar forte para protegê-la... E continuarei trilhando o mesmo caminho. Não importa quanto o tempo passe e o que aconteça, eu vou protegê-la e cuidarei de você para sempre. Mesmo que eu não esteja ao seu lado. Tudo o que faço desde que nos conhecemos é cuidar de você.

– Gin...

– Fique bem, Rangiku.

Ele encostou os lábios nos meus uma última vez e desapareceu na minha frente me deixando a sensação de que tudo aquilo não havia passado de um sonho. E no fim das contas, parecia mesmo um sonho, pois eu nunca mais o teria daquele jeito.
As lembranças que eu mais odiava estavam vindo. Eu não conseguia pensar em tudo o que aconteceu dali por diante, a traição que a Soul Society sofreu... A traição que eu sofri. O homem que eu amava, o qual eu havia me entregado de corpo e alma naquela noite havia sido uma peça chave nos planos maléficos de Aizen Sousuke. Gin havia participado daquela trama sórdida, traindo seu bantai e todos os que confiavam nele.

“Eu confiava em você...”

Via-o perfeitamente, dando as costas para mim, seus olhos azuis novamente, me olhando... Sua voz doce ao me dizer adeus e mais doce ainda ao me pedir perdão. Como se um simples pedido de perdão coubesse naquela traição!
Me senti horrível naquele dia e desde então, não conseguia esquecer mais tudo o que aconteceu. Quando eu pensei que havia recuperado o meu companheiro e que voltaria para o meu lar e fortaleza, ele simplesmente destrói tudo e me deixa sem chão.

Ichimaru Gin, como eu o odiava! Ele havia me tornado alguém tão diferente, que precisava se esconder por detrás de sorrisos e brincadeiras, tentar ser alguém que eu não era, para não transparecer o que sempre senti... E desde aquela traição, eu me sentia pior ainda! Ele sempre esteve distante por todos aqueles anos, mas ainda assim, eu sabia que se algo acontecesse, a lâmina da sua zanpakutou me protegeria e seu corpo seria meu escudo. Não que eu precisasse que ele me protegesse, mas Gin sempre deixou claro que faria isso. Agora a distância era ainda maior e nem se eu quisesse procurá-lo, conseguiria.

“Para onde você foi, Gin? Por que me tomou como sua e me deixou aqui sozinha? Não consigo viver sem você... Daquele dia em diante, eu apenas passei a existir.”

Mais uma vez as palavras da cartomante voltavam à minha mente, O Diabo... Dualidade... Experimentar o inferno para poder chegar ao paraíso. Por quê? Um herói ambíguo...

“Gin... Você me salvou uma vez. Volte e me salve novamente.”

Notas finais
Curtiu? Comenta a! ^^ Adoro saber o que as pessoas sentiram ao ler algo que escrevi. Obrigada. ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.