A Essência do Amor 2 Eloise & Derick
10 O Perfume do Sangue
O Salão Nobre do Hotel Palácio Tangará estava mergulhado em uma penumbra elegante, iluminada apenas por projeções de florestas tropicais e jardins rurais que dançavam nas paredes de mármore. O aroma que preenchia o ar não era o perfume sintético e agressivo das grandes festas de gala; era o cheiro de terra molhada, de ervas frescas e de uma verdade que a elite de São Paulo nunca havia sentido em um frasco de luxo.
Richard Lâfrer subiu ao palco. Ele não usava a expressão de gelo que o tornou temido. Ao seu lado, Elara brilhava em um vestido verde-esmeralda, a personificação da vida que ela sempre trouxe para aquela empresa.
— Senhoras e senhores — a voz de Richard ecoou, profunda e firme. — Durante décadas, a Lâfrer & Jones vendeu sonhos engarrafados. Hoje, viemos vender algo mais valioso: a nossa realidade.
Ele fez um gesto para a lateral do palco. Eloise entrou primeiro, conduzindo uma mulher que caminhava com uma dignidade humilde, vestindo um conjunto de seda pérola que Elara escolhera pessoalmente. Marianne Lâfrer pisava no tapete vermelho com a mesma calma com que pisava na terra de seu quintal.
— Muitos de vocês conhecem a minha história de superação — continuou Richard, sua mão encontrando a de Marianne. — Mas poucos sabem que a semente dessa empresa não nasceu em um escritório, mas no colo desta mulher. Esta é Marianne Lâfrer, minha mãe. E o motivo de estarmos aqui hoje.
Um murmúrio de choque percorreu a plateia. Os flashes das câmeras dispararam como metralhadoras, mas Richard não desviou o olhar.
— E para apresentar a linha que define esse novo capítulo, chamo o homem que trouxe a pulsação de volta para os nossos laboratórios. Meu irmão e diretor de pesquisa ancestral, Derick Deverro.
Derick entrou no palco sob um aplauso que começou tímido e se tornou ensurdecedor. Ele não parecia um "bolsista" deslocado; ele parecia um herdeiro legítimo da natureza. Ele segurava o primeiro frasco da Linha Raízes, um vidro robusto com uma tampa de madeira esculpida à mão.
Eloise aproximou-se de Derick, ficando entre o pai e o tio. A imagem era poderosa: três gerações unidas por um segredo que agora era o seu maior triunfo.
— Esta linha — disse Derick, a voz clara e sem medo — não é sobre o que é caro. É sobre o que é essencial. É o cheiro da casa da minha avó, o cheiro do suor do trabalho honesto e a delicadeza das flores que nascem no asfalto. É a nossa história, destilada para o mundo.
Nesse momento, as luzes se voltaram para o centro do salão, onde amostras do perfume foram distribuídas. O impacto foi avassalador. Críticos que esperavam algo "étnico" ou "simples" encontraram uma sofisticação orgânica que nenhum laboratório europeu jamais replicara.
Ao final do discurso, Richard, em um gesto que paralisou os fotógrafos, abraçou Derick e beijou a mão de Marianne diante de todos. Elara e Eloise se juntaram a eles, formando um círculo que nenhuma fofoca ou crise de mercado poderia romper.
Mais tarde, na varanda do hotel, longe dos flashes, o grupo observava a cidade.
— Você foi bem, tio — sussurrou Eloise, aproximando-se de Derick.
— Eu estava apavorado — confessou ele, rindo baixo. — Mas olhar para você e para a minha mãe e .eu irmão ali ali... me deu chão.
Richard aproximou-se deles, colocando a mão no ombro de ambos.
— O mercado está em choque — disse o patriarca, com um brilho de satisfação nos olhos. — As ações subiram 15% em uma hora. Mas o mais importante... o cheiro da nossa casa finalmente está certo.
Marianne suspirou, sentindo a brisa da noite.
— O perfume da verdade sempre dura mais na pele, Richard.
Naquela noite, a Lâfrer & Jones deixou de ser apenas um império de cosméticos para se tornar um legado vivo. E Eloise, observando o pai e o tio conversarem sobre as próximas colheitas, soube que sua jornada como botânica estava apenas começando, em um jardim que agora tinha espaço para todos.
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