A Essência do Amor
2 O Primeiro Aroma e o Olhar de Gelo
A manhã de segunda-feira na Lâfrer Essences era um turbilhão de atividade. Elara Jones, no entanto, só conseguia focar em uma coisa: não deixar a bandeja de prata tremer. Ela vestia a camisa branca que passara com tanto cuidado e, em seu primeiro dia como auxiliar de copa, já se sentia pequena diante da grandiosidade do prédio.
A Sra. Albright a instruíra com um tom de voz que não aceitava questionamentos.
— O Sr. Lâfrer não gosta de conversa desnecessária. Você entra, serve o café, e sai. Sem barulho de xícara no pires. Ele é meticuloso.
Elara engoliu em seco. "Meticuloso" parecia um eufemismo para "difícil". Ela respirou fundo, concentrando-se no cheiro aconchegante do café recém-passado, que era seu maior orgulho. O aroma, rico e encorpado, contrastava com o perfume sofisticado e frio que impregnava os corredores de mármore da diretoria.
Richard Lâfrer estava em pé, de frente para a parede de vidro que ia do chão ao teto, observando a cidade. Ele segurava o frasco de sua fragrância mais famosa, o "Aura de Solidão". Ele a criara anos atrás, e cada vez que a sentia, lembrava-se do motivo pelo qual nunca permitira que ninguém se aproximasse demais. O sucesso era sua única companhia.
Um toque seco e rítmico na porta o tirou de seus pensamentos. Ele não se moveu.
— Entre — disse ele, com a voz desprovida de emoção.
A porta se abriu e, por um momento, o ar no escritório mudou. O perfume de Richard, frio e amadeirado, encontrou algo novo. Não era uma fragrância cara de designer, mas o aroma honesto e reconfortante do café bem feito, com uma nota sutil, quase imperceptível, de flores silvestres.
Richard virou-se devagar. Esperava ver a habitual secretária, mas em vez disso, seus olhos cinzentos e calculistas encontraram uma jovem que ele nunca vira antes. Ela tinha cabelos castanhos ondulados e olhos cheios de uma energia que parecia deslocada ali.
Elara se adiantou, a bandeja firme em suas mãos.
— Com licença, Sr. Lâfrer. Trouxe o seu café.
Richard a observou com um escrutínio implacável. Ele reparou na camisa de algodão simples, na postura um tanto tensa, e no fato de que ela o olhava diretamente nos olhos, algo que poucas pessoas na empresa ousavam fazer.
Ela depositou a xícara de porcelana sobre a mesa de carvalho. Para a surpresa dele, não houve o habitual barulho de pires batendo. O movimento fora suave, eficiente.
— O café é diferente hoje — comentou Richard, seu tom ainda gelado, mas com uma leve ponta de curiosidade.
Elara fez uma pequena reverência com a cabeça, tentando manter o tom profissional.
— Sim, senhor. Eu… eu o preparei de uma forma um pouco diferente. Espero que goste.
Richard pegou a xícara, o calor do café aquecendo sua mão. Ele a levou aos lábios e tomou um gole. Era perfeito. Rico, encorpado, sem o amargor que ele tanto detestava. Por um breve segundo, ele sentiu uma onda de algo que não conseguia identificar — talvez uma lembrança tênue de algo que nunca tivera.
Ele abaixou a xícara e voltou o olhar para ela. Elara já estava a meio caminho da porta, o movimento rápido e silencioso. Ela se virou para dar uma última olhada e se surpreendeu ao encontrá-lo observando-a.
— Você é nova — não foi uma pergunta, mas uma afirmação.
— Sim, senhor. Meu nome é Elara. Elara Jones.
Richard assentiu com um gesto dispensivo. O nome dela não importava. Apenas o café. E, por um breve momento, o aroma diferente que ela trouxera para seu mundo tão controlado.
— Pode ir, Srta. Jones. O café está… aceitável.
Elara sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto por um instante antes de ela sair e fechar a porta suavemente atrás de si.
Richard voltou-se para a janela, a xícara de café ainda em sua mão. "Aceitável", ele pensara. Mas a verdade era que, naquele primeiro aroma e naquele olhar desprovido de medo, algo em sua fortaleza de gelo havia rachado, ainda que imperceptivelmente. E ele, Richard Lâfrer, o homem que nunca amou, não tinha a menor ideia do turbilhão que estava prestes a entrar em sua vida.
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