A Espada de Lancelot
1 Prólogo
Não havia nada ali que não fosse agradável ao cidadão comum. O cheiro da cerveja envolvia os dançantes camponeses, a música encantava os embriagados e o tilintar de copos somado ao burburinho incessante de dezenas de conversas paralelas fazia com que todos falassem cada vez mais alto, evitando que houvesse calmaria por qualquer instante.
Nem todos, entretanto, apreciavam da mesma maneira. Aos ouvidos de Magnus, todo aquele ruído era quase um leve zumbido. Não que ele não estivesse feliz pela situação na qual se encontrava, de maneira alguma. Ele era um homem ambicioso. Mas o sucesso tinha um custo, e sua ambição o levara a um lugar no qual ele não podia evitar se sentir intimidado.
— Anime-se, garoto – berrou Sephirot. Ele estava sentado à sua frente, o rosto inclinado sobre à mesa, sacudindo uma caneca de cerveja que parecia ter o tamanho de seu antebraço, mas ainda precisava gritar para ser ouvido. – Tem ideia de quantos moleques da sua idade se matariam por esta oportunidade?
— Eles morreriam, para ser mais específico – respondeu Magnus, entre risos. – Ou desistiriam assim que colocassem os pés em Romenke.
Sephirot acenou com a cabeça em consentimento e tomou um grande gole antes de falar novamente.
— Você é o único dos oficiais escolhidos que nunca esteve fora de Lúvia. Sabe por que você vai estar lá, não sabe? Tem noção de quanta fé todos estão colocando em você? Tem ideia do peso que seu nome carrega?
"Talvez esse seja exatamente o problema", pensou Magnus. Geralmente ele era um homem confiante. Geralmente era ele, sim, o primeiro a dar um passo à frente em qualquer empreitada. Ele queria ser um sucessor digno à linhagem de sua família, e não voltaria atrás agora. Estava apenas tenso.
Uma jovem atarracada de vestido verde se aproximou com mais bebida sem que lhe fosse pedido. Ela fora instruída a lhes dar atenção especial enquanto estivessem na taverna naquela noite. Quando ela sorriu e se afastou, Magnus olhou em volta. Nenhum de seus oponentes estava ali. "O que estarão fazendo agora", perguntou-se. Estariam eles treinando tão tarde da noite? Procurando saber o que os aguardava em Romenke? Elaborando estratégias? Ele não sabia, mas apostava que não estavam se divertindo.
Sem tomar outro gole ou dizer qualquer palavra, ele se levantou e seguiu para a noite. Após alguns segundos Sephirot o alcançou.
— Respire um pouco, homem – disse ele. – Seus inimigos devem estar dormindo a essa hora. Não lhe dará qualquer vantagem continuar se atormentando.
— Se eu quero vencer, eu preciso ser obcecado, meu amigo – disse Magnus, voltando-se para seu colega. – Não apenas para vencer, mas para cumprir meu trabalho. O guardião da princesa não terá outra vida senão a do dever. Eu já deveria estar agindo de acordo.
— Então você deveria ir para casa e dormir – respondeu o outro, seu humor finalmente desaparecido. – É a única coisa útil que você pode fazer por si mesmo nesse estado de espírito.
— Na verdade... – disse uma voz arrastada. Um cavaleiro da Guarda Real acabava de sair do bar, escoltado por outros dois homens. – Não precisa ir tão longe para descansar, Lancelot.
Enquanto ele dizia isso, seus companheiros desembainhavam suas espadas. Magnus e Sephirot olharam ao redor, tentando compreender a situação. Aqueles que estavam por perto, ao verem os soldados de espada em punho, se afastaram rapidamente. Em instantes uma pequena multidão se formou em volta daquele círculo invisível. Magnus não hesitou mais, levando a mão ao punho de sua espada. Sephirot levou também a mão à cintura, apenas para descobrir, entretanto, que em meio à bebedeira, esquecera sua espada na taverna. O cavaleiro sorriu abertamente.
— Bom descanso, Lancelot.
A noite estava apenas começando.
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