Notas iniciais
Foi muito rápido, eu sei. Sou uma criatura eficiente.

Fui levada para um lugar que nem de longe se parecia com o salão principal do Palácio dos Deuses.

A sala de reuniões tinha um piso de madeira, mesa arredondada no formato de uma meia-lua, paredes de vidro e dez deuses dentro dela – dez e meio, se contasse comigo –, dispostos na mesma ordem de sempre.

— As jovens aqui presentes requisitaram uma audiência com os deuses – Onum começou, com as mãos entrelaçadas na frente do corpo, apoiadas em cima da mesa. Os outros deuses permaneciam calados, como sinal de respeito. – Seguindo o protocolo, é necessário que cada ser aqui se apresente, dizendo seu nome e jurando solenemente não falar nada além da verdade.

Os deuses, um por um, se levantaram com a mão estendida e fizeram o juramento. Avril repetiu o gesto, e resolvi fazer a mesma coisa. Talvez fosse o mais seguro, já que o que eu tinha a pedir podia não agradar todo mundo.

— Lucem, você pode começar – a deusa-mãe falou.

Tive que me controlar para não fazer uma careta.

— Savanna – corrigi. – Eu sou Savanna. Lucem morreu há dois mil anos humanos atrás, com o intuito de reencarnar na Terra para poder viver seu romance com Josh sem a interferência de nenhum deus.

— Os planos mudaram – Onum falou, como se fosse algo simples e óbvio. – Você pode estar em forma humana, mas continua sendo a deusa Lucem. Os poderes delas estão presos em você, de forma limitada, mas estão. Você tem as memórias dela. Basta apenas aceitar isso e voltar à sua verdadeira forma.

— Eu não vou aceitar. Não vou voltar a ser Lucem. Me recuso a abandonar minha família e meus amigos terrenos para voltar a viver aprisionada nessa dimensão, cumprindo as ordens impostas por vocês – eu sabia que era perigoso falar dessa forma, mas também sabia que minha vida era valiosa demais para que me incinerassem ali mesmo. Pela primeira vez, o controle da situação estava em minhas mãos. – Requisitei essa audiência para propor um trato.

— Qual seria este trato?

— Passar os poderes de Lucem para Avril, como havia sido planejado antes de a deusa morrer.

Houve um silêncio profundo e assustador na sala de reuniões. Onum me olhava como se quisesse me assassinar, e Avril me olhava como se tivesse certeza de que eu era a pessoa mais retardada de todas as dimensões.

— Ela jamais seria Lucem – Onum falou. – Lucem está dentro de você, Savanna. Se Avril se tornar uma deusa, será uma forma completamente diferente. E você perderá todos os seus poderes.

— Não se eu a adotar como minha Electi – foi a vez de Avril se pronunciar.

Mais uma vez, silêncio.

— Era o plano inicial. A não ser pela parte da Sav ser minha escolhida, era assim que as coisas deveriam ter corrido…

— Mas não correram!

— E isso pode mudar – eu intervi, praticamente suplicando.

Onum nos encarava com o que parecia ser ódio mortal.

— Todos a favor, levantem a mão.

Para a minha surpresa – e de Avril –, sete dos dez deuses presentes estavam a meu favor. Os únicos que não levantaram a mão foram Onum, Ars e Sione.

A Deusa-Mãe respirou fundo, sacudindo a cabeça de forma negativa.

— Acompanhem-me, por favor.

Quando ninguém se levantou, eu percebi que ela falava comigo e com Avril. Nós duas a seguimos para fora da sala – e do Palácio –, parando apenas quando já estávamos bem longe do rio.

— Fiquem de frente uma para a outra e dêem as mãos – Onum ordenou, de maneira irritada. – Só para deixar claro, eu não sou a favor disso. Nunca serei.

Minha vontade era de dar de ombros e falar ninguém perguntou, mas a maturidade me obrigou a ficar quieta e fazer o que a deusa queria.

Onum começou a pronunciar palavras estranhas numa língua esquisita que eu levei algum tempo para traduzir – as memórias de Lucem não eram tão ruins assim –, mas que logo fizeram efeito. Uma pontada de dor atingiu minha cabeça, como se uma força maior estivesse tentando empurrar meu cérebro para fora. Minhas mãos começaram a soltar as de Avril, mas o aperto dela só ganhava força. Era quase como… Se minha energia vital estivesse sendo passada para ela.

Quando o canto cessou, eu caí no chão, quase sem forças para levantar a cabeça.

— Ah, vamos – uma voz doce e madura falou gentilmente para mim. Parecia-se com a de Avril. – Não seja uma fracote.

Ao olhar para cima, tive mais certeza de que desmaiaria. A garota que Avril um dia fora havia desaparecido completamente. Agora ela era uma mulher alta, forte, com cabelos louros e cacheados que chegavam apenas até os ombros e olhos púrpura cintilantes. Na verdade, o corpo inteiro dela cintilava, com um brilho prateado que parecia refletir a luz da lua, por mais que ainda fosse dia.

Ela estava completamente maravilhosa.

Antes que eu pudesse reparar, os deuses todos faziam um semicírculo ao nosso redor, e a voz de Onum soava novamente.

— Eu lhes apresento Avrina, deusa da paz e da sanidade, e Savanna Jones Harris, sua escolhida – agora seu olhar tomava um ar mais… Divertido. – Savanna, Electi de Avrina e Guardiã do planeta Terra.

~*~

Josh e eu estávamos deitados na cama dele, ambos em completo silêncio. Eu tentava relaxar e aproveitar o momento, mas minha mente estava tão agitada que me manter deitada parecia um sacrifício.

— Estou feliz por tudo ter acabado – eu disse, sentindo os dedos gelados dele percorrerem meu braço. – E aliviada por poder voltar para a Terra como ser humano. Sabe, por um momento eu achei que Onum fosse me obrigar a virar uma deusa novamente – suspirei. – Ainda bem que eles levaram todos os fatores em consideração. Quer dizer, eles não pensavam que eu abandonaria minha família para viver aqui, não é?

Soltei uma risadinha, e Josh não me acompanhou. Senti minha garganta fechar, e as lágrimas já brotavam atrás dos meus olhos. Sabia exatamente que rumo aquela conversa tomaria, mas forcei minha voz a sair perfeitamente controlada.

— E, guardiã da Terra? Ah, como se já não estivesse nos meus planos proteger aquele lugar.

— Não estava nos meus.

A resposta veio como um tiro.

O momento chegou, Savanna. Não se acovarde.

— É porque você não planejava que eu continuasse sendo eu.

Josh não me respondeu.

— Desde o começo, você sempre pensou que eu voltaria a ser Lucem quando descobrisse a verdade. Quando recuperasse as minhas memórias – não chore! O que você é, um bebê? Me sentei na cama, com a intenção de fazer o súbito enjoo passar. – Porque não é a mim que você ama. É Lucem. Sempre foi Lucem.

— Você está se ouvindo agora, Savanna? – Foi a resposta que recebi. E eu não sabia o que machucava mais: o fato de eu estar certa, ou o olhar que ele me lançava. Como se eu fosse muito ridícula, ou muito louca. – Você é Lucem. Como eu poderia amar a uma ser amar a outra?

— Acho que você perdeu uma parte da história – retruquei com desdém. – Prazer, meu nome é Savanna Jones Harris. Nasci há pouco mais de quinze anos em Stonewood, uma cidade perfeitamente normal no planeta Terra. Meus pais são seres humanos como todos os outros. Eu tenho uma irmã, com o mesmo sangue que eu, e ela não tem poderes algum. Quem vê essa história de outro ponto de vista, acha que eu sou uma verdadeira aberração. E não há como negar.

“O que eu fui há dois milênios, aquela versão de mim, não faz a mínima diferença. A história que vocês tiveram, Josh, acabou há uma cacetada de tempo. Eu sou a reencarnação de Lucem, mas não sou ela. Eu abrigo sua essência e seus poderes, mas nós não somos a mesma pessoa. Só os deuses sabem o quanto me estressa quando qualquer um tenta me convencer do contrário! Meu nome não é Lucem.”

— Sav, você não sabe o que está dizendo…

— Não sei? – Eu já estava de pé de um lado da cama, com Josh me encarando do outro. O objeto inanimado se colocava entre nós como se tentasse evitar uma briga. Como um amigo se coloca entre duas pessoas para que nenhum sangue seja derramado. Minha voz saía estrangulada, e meu choro a tornava quase irreconhecível. Recomponha-se, você é mais do que isso. – Eu sei mais do que qualquer um! Caso você não se lembre, tenho todas as memórias feitas na vida como deusa guardadinhas na minha cabeça. Todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos, tudo. Eu me lembro de tudo. E é como se fosse a vida de uma pessoa completamente diferente de mim aprisionada aqui dentro. Você não faz ideia do que eu faria para conseguir tirar isso de mim.

“Quando Lucem pediu para deixar de ser uma deusa, porque queria poder ficar com você? Era uma desculpa. Haviam inúmeros fatores a empurrando para aquela decisão. O maldito código que os deuses devem seguir, tornando-se ainda mais severo para uma deusa da paz. Todos os inimigos que ela conquistou durante sua vida? Nunca pode se livrar de nenhum deles com as próprias mãos. Tinha que exilá-los, entregá-los para que alguém fizesse o trabalho por ela. Eles podiam matar pessoas próximas a Lucem, ameaçar quem fosse, mas ela nunca pude tomar conta da situação sozinha.

“O romance que teve com Ars?” Josh me olhou com um misto de confusão, ressentimento e nojo. “Ah, sim, você não sabia disso. O breve romance que tiveram foi vetado, porque ninguém sabia o que aquilo poderia gerar. Eles nunca pensaram em ter filhos, sabia? Na verdade, nunca pensaram em nada. Mas para o resto da comunidade divina, aquele relacionamento era uma ameaça. E nenhum dos dois teve a coragem de pedir para virar mortal, virar um ser humano. Foi uma coragem que Sione só criou quando viu o amor que você e Lucem viviam.”

— Por que está me dizendo isso? – Josh soava magoado. Ele nunca tinha me visto perder o controle. Não era um comportamento típico meu, e nós nunca tivemos brigas tão pesadas. Seu olhar infantil quase me fez desistir de tudo e simplesmente deixar as coisas como estavam, mas era tarde demais. Já tinha cavado minha própria cova. – Savanna, eu…

Não o deixei terminar a frase porque sabia que não conseguiria aguentar se ouvisse as outras duas palavras. O choro já havia acabado, meus olhos ardiam e as lágrimas secas incomodavam minhas bochechas.

— Não diga isso falando o meu nome – respirei algumas vezes antes de continuar. Não perderia o controle novamente. – Você não me ama, Josh. Nunca amou. Porque todas as vezes que esteve comigo, você não estava com Savanna. Estava com Lucem. Todas as vezes que me abraçou, que me beijou, você fazia aquilo para Lucem. Ela é seu verdadeiro amor, e não eu.

Agora era ele quem chorava.

— Sav…

— Não negue. Se eu não tivesse uma deusa aprisionada dentro de mim, nós nem ao menos estaríamos tendo essa conversa.

“Se eu fosse qualquer outra Electi. Qualquer uma, Josh. Você teria se apaixonado por mim? Se nós tivéssemos nos conhecido há, não sei, dois séculos, você teria me beijado? Dito que me ama? Se Lucem tivesse reencarnado em qualquer outra pessoa, você sentiria qualquer coisa por mim?”

Ele não me respondeu.

— Mas eu sei o que eu sinto por você – continuei, falhando miseravelmente em controlar as lágrimas. – Eu sei o que senti por você na primeira vez que nos vimos. Não foi amor a primeira vista, você sabe. Foi construído. Não foram minhas memórias e sentimentos da outra vida que fizeram eu me apaixonar por você. Foi você.

“E eu sei que não fui a única. Eu sei que muitas meninas se apaixonaram por você ao longo dos últimos vinte séculos. Você até viveu umas histórias com algumas delas, não é? Mas nunca se entregou completamente, porque esteve o tempo todo esperando por mim. Eu perguntaria como foi a história com a Avril, mas não sei se quero ouvir.”

A cara de choque dele foi suficiente para eu conseguir parar de chorar.

Josh sempre fugira das histórias de amor durante nossas conversas. Eu o contara sobre alguns meninos pelos quais tinha tido uma queda durante o ensino fundamental, mas ele nunca me falara nada sobre meninas pelas quais tinha se apaixonado. De alguma forma, eu caí nessa armadilha. Acreditei que o cara na minha frente era diferente de todos os outros caras no universo. Acreditei que ele nunca tinha sentido desejo, que ele nunca teve necessidades.

Saber que ele não se importava em contar que havia cruzado com Napoleão Bonaparte pela primeira vez quando estava bêbado, mas tinha vergonha de falar que um dia beijou Avril, era demais até mesmo para mim.

— Você não me ama pelo que eu sou. Não me ama como eu te amo – completei, mostrando que a conversa estava chegando ao fim. – Você nem ao menos me ama. Você ama a porra da deusa que vive dentro de mim e só esteve comigo durante todos esses meses porque achava que ela sairia daqui de alguma forma. Sinto muito por cortar o seu barato, mas isso nunca vai acontecer.

Antes de conseguir sair do chalé, senti a mão de Josh envolvendo meu braço. Ele usava mais força do que o necessário.

— Não se atreva a dizer que o que nós temos não é real – seu tom era calmo e controlado, mas eu podia ouvir a tristeza em sua voz. Só não sabia por qual das perdas ela havia surgido. – Não se atreva a tentar dizer como eu me sinto. E eu sei, você sabe, todos sabemos que essa história, que a nossa história, ainda não acabou.

— E eu sei, você sabe, todos sabemos que esta na hora de você começar a usar o passado na hora de falar sobre nós.

Bati a porta com força. Ele não veio atrás de mim.

~ * ~

É difícil viver sabendo que você é diferente dos demais. E é ainda mais complicado viver sabendo o porquê de você ser diferente dos demais. Ser uma deusa no corpo de uma humana pode ser bem desgastante, mas eu faço o que eu posso para resolver meus problemas sem causar muito estrago.

Não foi a vida que eu pedi para Deus quando era pequena. Não era isso que meus pais queriam que eu me tornasse quando crescesse. Eu não esperava ter que gastar meu tempo livre caçando monstros e ameaças (vindas de outra dimensão) para manter o equilíbrio do planeta Terra, mas é como dizem: quando te derem limões, faça uma bela torta e coma ela inteirinha sem pensar na dor de barriga que terá depois.

… Talvez esse não seja o ditado. Mas eu nunca disse que era adepta do modo tradicional de viver a vida.

Notas finais
Se houver qualquer erro, me avisem. Se tiverem dúvidas (devem ter, sou uma negação para escrever sem deixar pontas soltas), perguntem. Não tenham vergonha de falar comigo, por favor, eu sou um amor de ser humano. Me digam se gostaram do final. Poupem os xingamentos, não vai mudar nada. E não me apressem para escrever a continuação, recentemente defini que a história que eu havia preparado para a continuação de AE não era boa o suficiente, então estou num processo muito complicado. Sugestões são bem vindas. Não vai ter one-shot de reconciliação, essa sugestão não é bem vinda. Ainda não vou marcar a história como concluída, porque posso ter uma vontade louca de reescrever tudo e quero saber que a fanfic ainda estará aqui para o caso de isso acontecer. Além do mais, se eu for postar a continuação, o prólogo será disponibilizado aqui, para que os desavisados não passem o resto da vida achando que eu quebrei o coração shipper deles e nunca mais dei as caras. Não, isso não quer dizer que Savosh acabou para sempre. Mas também não quer dizer que não acabou. Depende muito do meu humor, vocês sabem. Beijos, meus amores! Obrigada pelos últimos dois anos e pouquinho, que venham muitas fanfics por aí ♥ Vejo vocês nos reviews, não se esqueçam de me tratar com carinho porque eu estou tão chorosa quanto vocês (bem mais, na verdade, eles são os >meus< bebês).
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.