A Escolhida

20 Chapter three


Notas iniciais
Último capítulo do ano. Eu mudei totalmente o fim de A Escolhida (não é para pior, mas eu gostei), e por isso o cap ficou confuso. Calma, tudo será explicado daqui a pouco. Enjoy!

Sete passos. Foi tudo que eu consegui andar antes de dar de cara com uma parede invisível que me separava da entrada da moradia dos Lound. Bom, pelo menos ela era invisível, e eu podia ver e ouvir tudo que acontecia lá dentro.

Dessa vez, eu tinha certeza de que ninguém podia me enxergar. E era a primeira vez que isso acontecia em um sonho.

Dei graças a Deus. Eu sabia que estava na dimensão dos magos das trevas que estavam desesperados para pendurar minha cabeça como troféu na parede da casa assustadora deles, e isso não aconteceria se eles não soubessem que eu estava li.

Me aproximei, encostei na barreira invisível e espiei os dois homens que brigavam na sala de estar. Um deles era Cristopher – o safado tinha fugido do Exílio? –, mas o outro eu nunca tinha visto na vida. Era ligeiramente mais alto que o primeiro, mais forte e possuía os mesmos traços de Cris. Talvez fossem irmãos.

Ambos falavam alto e andavam de um lado para o outro, como se estivessem discutindo um plano de ação sem conseguir entrar em consenso.

— Não podemos atacar direto em Nostrae. O exército deles está muito maior do que o nosso, e com certeza ficaram mais fortes desde a última batalha – Cristopher falou, sacudindo a cabeça. – Temos que tentar um lugar com menos proteção.

— Nós temos que destruir os deuses, Cristopher – berrou o outro homem. – Céus, você é quase tão burro quanto aquela Electi de Onum.

Cristopher sorriu.

— Isso é impossível.

Sério? Esse é o mesmo cara que disse estar apaixonado por mim alguns meses atrás? O sentimento sumiu assim, de uma hora para outra?

Ele não tinha se arrependido por ter trabalhado com Alexei, esse traídor?

Murmurando alguns xingamentos e me amaldiçoando por ter sentido culpa ao exilar aquele garoto, andei um pouco mais para o canto, a fim de poder observar melhor a expressão dos dois. Eles riam, como se estivessem assistindo a um show de stand up.

— Ok, foco, Stevan – falou Cristopher.

Stevan assentiu.

— Podemos entrar em Paradisum. É o centro de Sócera, o equilíbrio, e os deuses não costumam ficar muito tempo lá. Se pudermos acabar com o exército patético deles antes que os próprios cheguem, teremos uma chance.

— Não se a garota estiver lá – Cristopher sussurrou, passando os olhos rapidamente pela porta. Ele não havia dado sinais de ter me visto, então procurei não me desesperar. – Os deuses não são nada sem ela. Savannah foi encarregada de restaurar o universo mágico. Se nós a eliminarmos, a vitória estará garantida.

Encarregada de restaurar o universo mágico?

— Como fazemos isso? – Stevan perguntou. – Apesar de ser idiota, a menina luta que nem uma máquina. E ainda tem todos aqueles amigos protegendo a retaguarda dela.

Que todos aqueles amigos? O Josh?

— Nós podemos infiltrar um dos nossos Luditors no grupinho de proteção da Savannah – falou o Lound mais novo. – Ele pode sequestrá-la e nós a matamos. Ou ele mesmo a mata. Tanto faz.

Grupinho de proteção? Ok, eu não estou entendendo nada. Acho que Josh me deve algumas explicações.

— Nenhum de nós daria conta dela e de todos os seus Electis de estimação...

— Precisamos tentar, Stevan. Enquanto Savannah sobreviver, nós jamais conseguiremos derrotar os deuses.

— Mesmo se conseguirmos matá-la, Cristopher, você sabe o que vai acontecer. Papai foi fraco ao tentar, mas nós não seremos.

Eu já tinha me cansado daquela conversa enigmática que certamente não me levaria a lugar nenhum. Tudo que eles falavam fazia com que mais dúvidas aparecessem, e nenhuma era respondida. Aparentemente, enquanto eu estivesse viva, os Luditors não conseguiriam vencer. Então era só não morrer e todos nós ficaríamos bem.

Me obriguei a voltar para meu quarto, na Terra mesmo, e voltei a dormir, torcendo para não ter mais nenhum sonho esquisito até a hora de acordar.

(...)

Depois da aula, combinei de me encontrar com Josh na casa dele. O garoto me devia algumas respostas e, dessa vez, eu não deixaria que ele saísse até que eu estivesse satisfeita.

— Oi, Sav – ele me cumprimentou sorridente. Quando não sorri de volta, Josh me guiou para dentro do chalé e fechou a porta. – Uh, parece que alguém acordou com o pé esquerdo.

— Acho que eu fui dormir com o pé esquerdo – respondi, seca, mesmo que minha frase não tivesse sentido nenhum.

— Pesadelos?

— Não. Na verdade, eu tive um sonho quase bom. Ninguém tentou me matar e eu não precisei tentar matar ninguém.

Contei para ele tudo que ouvira da conversa entre os dois irmãos, arqueando as sobrancelhas sugestivamente durante as falas que me deixaram com perguntas. Josh, no entanto, não pareceu surpreso com nada que eu tinha falado.

— Bom, antes um sonho calmo e sem mortes do que os seus antigos, né? – ele perguntou quando acabei meu relato.

— Um sonho calmo e sem mortes mas que me deixou cheia de dúvidas que você vai responder – eu disse, tentando manter a calma. Não queria explodir com o Josh, mas eu detestava saber menos sobre mim do que aqueles magos sabiam. – Primeiro: como assim eu fui encarregada de salvar ou restaurar o universo mágico?

— Não sei nada sobre isso – ele deu de ombros, mas eu sentia que estava mentindo. – Talvez seja o seu destino, Sav. Salvar Sócera.

— Ok. E como assim eu tenho um “grupinho de proteção” – fiz aspas com as mãos –, se você é o único Electi que anda comigo normalmente?

Josh coçou a cabeça, pouco a vontade.

— Não, eu não sou.

Me ajeitei melhor na cama para mostrar que estava muito a vontade e pretendia levar a conversa adiante, e ele entendeu.

— Desde a última batalha, nós montamos uma... Equipe de proteção, ou algo assim, com Electis bem preparados, caso houvesse um ataque na terra – ele fez uma pausa e pigarreou. – Eles estão espalhados por toda a cidade e alguns se infiltraram na escola também. É para a sua proteção, Savanna. E para o resto do mundo, também, claro, mas principalmente por você.

— Será que eu já não provei que posso me proteger muito bem sozinha? Digo, eu salvei Nostrae sozinha. Eu consigo acabar com cinco demônios ao mesmo tempo sozinha. Eu sou capaz de restaurar um lugar completamente destruido sozinha. Contratar guarda-costas mágicos para mim já é um pouquinho demais, não acha?

Josh suspirou. Ele estava perdendo a paciência.

— Eu sei, os deuses sabem, os Electis sabem, os Luditors sabem, o universo inteiro sabe que você é mais do que perfeitamente capaz de tomar conta de si mesma sozinha, Savanna – ele colocou uma mão no meu ombro, e eu soube que estava usando seus poderes de Electi de Aquantis para me acalmar. – Mas se uma batalha estourar aqui em Stonewood, nós temos que estar preparados.

Mordi o lábio. No fundo, sabia que Josh estava certo, mas a ideia de ter pessoas tomando conta de mim, como se eu fosse uma criança normal que não pode ficar sozinha em casa sem os pais continuava me deixando irritada.

Suspirei pesadamente e me deitei de costas.

— Isso não deveria estar acontecendo. Não comigo.

Fechei os olhos, sentindo minha cabeça começar a latejar.

— Isso o que, exatamente? – Josh perguntou, deitando ao meu lado e segurando a minha mão. O toque dele automaticamente fez com que eu me acalmasse e minha dor amenizasse, e dessa vez não tinha nada a ver com poderes mágicos.

Virei o rosto para encará-lo.

— Isso tudo. Poderes mágicos, deuses, bruxos das trevas, dimensões mágicas, varinhas... – suspirei de novo. – Eu era uma pessoa normal até alguns meses atrás, e era pra ter continuado assim. Era para eu ter crescido, me formado, casado, tido filhos, envelhecido e morrido, que nem todas as pessoas. Mas agora estou metida no meio de uma guerra entre raças mágicas, serei obrigada a salvar Sócera e não sei nem se vou sair viva no fim disso tudo.

Josh afastou uma mecha do meu cabelo e prendeu atrás da minha orelha. Sorriu, tentando me acalmar, e acariciou minha bochecha. Mesmo depois que tirou a mão, eu podia sentir seu toque em meu rosto.

— Você vai sair viva no fim disso tudo, Sav. Eu prometo, ok?

De repente, senti vontade de chorar.

— Você não tem como saber, Josh – falei, com a voz embargada.

Ele se aproximou mais, encostando a testa na minha, e enxugou uma lágrima rebelde que insistia em cair. Seus olhos azuis falavam com quase tanta sinceridade quanto ele:

— Acredite, eu sei. Você vai sobreviver, vai crescer, se formar, casar, ter filhos, envelhecer, e morrer que nem pessoas normais.

Mais algumas lágrimas caíram, e eu me deitei em seu ombro. Josh me abraçou com um braço e usou o outro para mexer no meu cabelo, como ele sempre fazia para me acalmar.

Eu odiava estar tão desesperada e frágil, mas não tinha como evitar. Quando a realidade de poder ser morta me atingiu, foi quase como um tapa na cara. Eu não era imortal. Eu não tinha nenhuma armadura contra ataques. E, se um Luditor me pegasse desprevinida, eu poderia sim morrer.

Estremeci, e Josh me abraçou um pouco mais forte. Seu toque me passava um pouco de segurança, mas as preocupações ainda não tinham me abandonado.

Ele abriu a boca para falar alguma coisa, mas foi interrompido por um estrondo.

E, então, gritos.

Notas finais
Oh oh!