A Era dos Sonhos
1 Capítulo 01 - Despedida.
“Em meio à escuridão da noite que caía sob uma pequena cidade, e perseguido por seus predadores, um menino corria desesperadamente, no esforço para estender aqueles que seriam seus últimos minutos de vida. O silêncio do local onde se encontrava, que por vezes lhe esboçara imagem de tranquilidade, seria o luto dado àquele que sequer mereceria um túmulo.
E uma vez encurralado à beira do abismo, gradualmente envolvido em trevas, sem ter para onde fugir. E nem mesmo a quem recorrer, já que os únicos que lhe protegeriam são agora os que desejam sua morte.
Uma criança. Uma estrada sem volta. Dois assassinos. Os pais da criança.
Qual rumo ela deveria seguir? Aceitar sua falência, ofuscado por circunstâncias que nem mesmo compreendera? Rebelar-se pelo bem de sua vida, buscando seu brilho em detrimento daqueles que possibilitaram sua existência?
Todas as decisões que precisamos tomar em nossa jornada implicarão em perdas, intermináveis, irreparáveis. E dentre todas as possíveis decisões para todos os tipos de situações, algumas pessoas constroem, a partir delas, o caminho mais adequado. E pensando em valorizar estas escolhas estamos aqui, aperfeiçoando nossas decisões.”
Percebendo a falta de reação de seus colegas, bem como de seu supervisor, restara apenas uma atitude a ser tomada:
▬ O que foi? Assustados com a singela historinha de terror que acabo de contar? Ou será que finalmente tomaram seu tempo para pensar no que de útil fizeram da vida durante estes seis anos? – satirizou o jovem, com um sorriso que expressava o sucesso em transmitir os sentimentos que tinha empenhado na obra que acabara de apresentar.
▬ Embora... – sussurrou seu supervisor, contendo lágrimas que suplicavam aos olhos por liberdade.
▬ Disse alguma coisa, prezado professor? Acho que ouvi uma tentativa falha de expressão...
▬ Vá embora daqui! Imediatamente! Saia! Por favor, saia! – gritava o professor em desespero, enquanto tentava inutilmente cobrir a expressão de tristeza em seu rosto.
Ele respondeu a seu supervisor com um único olhar, uma expressão melancólica que transmitia simultaneamente dó e desprezo. Depois disso, direcionou seus olhos às outras pessoas presentes naquela sala. Pôde visualizar quinze pessoas, mas seus olhos apenas encontraram o de uma delas, para quem direcionou suas próximas palavras:
▬ Vamos! – expressou um sorriso confiante enquanto convidava aquela garota para sair do recinto.
A garota, única pessoa cujos olhos não fugiam dos dele, apenas balançou a cabeça, em sinal afirmativo. Eles então saíram do local, mas apenas ela olhou para trás antes da porta ser fechada, portando em seu rosto uma expressão de curiosidade.
▬ Minha nossa...e não é que parecia um enterro mesmo? Você viu a cara deles? Parece que viram a vida passar diante dos olhos! AHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! – gritou a garota, engasgando-se de rir com a cena a pouco presenciada.
▬ Mas me diga uma coisa. Afinal, sobre o que foi tudo aquilo? Alguma encenação? Uma piada? Ou quem sabe mesmo um...trote!!! Será que vou receber um assim também? – continuou, ainda mais empolgada.
▬ Já está na hora de eu te contar, não é mesmo? Pois bem. – afirmou ele, com um sorriso sádico. Se você tivesse chegado cinco minutos antes, teria ouvido sobre o que se tratava minha apresentação. Afinal...
▬ Tá, tá! OK! Pare de enrolar e fale de uma vez o que estava acontecendo!!! – ainda mais curiosa.
▬ Era a última atividade do meu tempo de aprendizado, também conhecido como “evento de despedida”. Daqui a seis anos você vai passar por isso também! – colocou a mão no ombro dela, transmitindo a confiança de quem acabara sua última missão. A atividade é uma espécie de momento de confraternização entre os colegas, e manda que cada um conte para a turma sobre a maneira como foi parar nesta academia. – sua expressão continuava gentil e confiante, mesmo em face da drástica revelação.
▬ Quer dizer então que você...executou...para sobreviver...eles... – ela tentava falar, mas seu nervosismo a impedia de concatenar a frase.
A garota então perdeu as forças para sustentar suas pernas, e conforme se posicionava de joelhos perante o chão, sua expressão alegre e curiosa gradativamente abria espaço para o vazio ocasionado pela surpresa. Não havia, na luz de seus olhos, a menor idéia de como se portar diante da atitude inesperada do rapaz que estava a seu lado, o qual havia conhecido alguns minutos atrás. Ela finalmente havia entendido o que ele queria dizer com ela ser uma pessoa frágil.
Diante de tal reação, ele não falou nada, limitando-se a deixar para ela um pequeno bilhete, contendo um mapa indicando o número do apartamento em que estava instalado, bem como a ala da instituição e uma pequena nota de rodapé contendo a data de sua formatura: 20 de Fevereiro de 2080, ou seja, amanhã.
Saindo da corporação central da academia, espaço destinado exclusivamente aos estudos, ele olhou para trás, lembrando-se dos acontecimentos da turbulenta manhã.
[6:40 — duas horas atrás]
Fora da academia, dois jovens discutiam. Um deles, o garoto que futuramente apresentaria a revelação mais desagradável daquela manhã. O outro era uma garota com a mesma idade dele. Ela aparenta ter um metro e oitenta centímetros de altura – aproximadamente cinco centímetros maior que ele, longos cabelos negros de textura lisa, mas ondulados nas pontas, estendendo-seaté metade das costas, olhos claros de cor púrpura e uma expressão indiferente. O uniforme que usava, entretanto, era diferente do dele.
▬ Ilógico. Inexistem motivos para eu comparecer a um evento onde serão quebrados protocolos da instituição.
▬ Pronto...que comecem os exageros! – respondeu ele, coçando a cabeça e arregalando os olhos, em sinal de desaprovação ao comentário da garota. Setsuna, é apenas uma apresentação. Não se preocupe, cabeças não irão rolar dessa vez...eu acho. – completou a resposta, em tom sarcástico.
▬ Não comparecerei pelos motivos fundamentados anteriormente. – respondeu ela, nada abalada com a provocação do garoto.
▬ ...e eu até mesmo compareci à sua apresentação ontem à noite. Aplaudi de pé o seu discurso e incentivei seu futuro com todas as minhas forças. Eu torci por você ontem à noite. Eu vivi por você ontem à noite, Setsuna! Você não sente nenhuma compaixão por alguém que tão ansiosamente espera sua presença num evento tão importante? – enfatizou ele, segurando as mãos dela, mas mantendo o tom sarcástico.
▬ Não.
▬ Tudo bem então. – respondeu ele num suave tom de tristeza, largando as mãos delas e virando-se em direção à academia e dando alguns passos. Já vou indo...outra hora nos falamos... – completou.
▬ Onze horas e trinta e cinco minutos. Unidade Central de Eventos #7. – disse Setsuna, com um tom de voz gentil, segurando o braço esquerdo do jovem para ter certeza de que fosse ouvida.
▬ Obrigado. – respondeu, apoiando sua mão direita naquela que o segurava, esboçando um sorriso sincero sem olhar pra trás. E até mais! – acena ele, enquanto continua a andar.
▬ Hmph. – murmurou ela para si mesma, com o rosto levemente corado.
Despedidas realizadas, o jovem enfim parte para a academia. No caminho, distrai-se em seus pensamentos, tentando prever qual seria a reação de seus colegas ao descobrir o que ele tinha preparado. Não é como se houvesse malícia por parte dele em mostrar suas origens, mas após seis anos numa pouco numerosa, porém aconchegante turma, havia em seu coração a esperança de ser compreendido.
Ele já sabia que, a partir dali, sua vida tomaria um rumo distinto da maioria dos demais. Ele já sabia que seu objetivo de vida importaria em uma tarefa mais árdua que o da maioria dos demais. Mesmo assim,a pouca humanidade que lhe restava insistia em implorar por uma chance, uma última possibilidade de se sentir aceito antes de dar o primeiro passo de uma longa jornada, que decidiria a finalidade de sua vida.
De volta à realidade, percebe seu rosto sendo beliscado. Ao deslocar seus olhos para verificar o autor do delito, depara-se com uma garota significativamente mais jovem que ele. Aproximados um metro e cinquenta e cinco centímetros de altura, cabelos ruivos e curtos, olhos castanho-escuros e expressão travessa. Ela vestia roupas casuais, predominantemente pretas, que ressaltavam certa rebeldia.
▬ Ah, finalmente ele me percebeu! – excitou-se ela, por ter alcançado seu objetivo. Por que você estava tão fora de órbita? Hein? Por quê? Fala, fala!
▬ “Olá, eu sou uma garota inconveniente que não percebe que as pessoas talvez possam estar ocupadas com seus próprios problemas”. – ironizou ele, levemente irritado. Mas já que o incômodo já aconteceu, diga então o que você quer.
▬ AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! – ela não se aguentava mais de rir.
Ele continuou e observá-la com um olhar sério, esperando a resposta.
▬ B-bom, e-eu me chamo A-amaterasu e, e...AHAHAHAHAHAHAHAHA!!! – ela não se aguentava mais de rir, e dessa vez caiu no chão.
Ele continuou e observá-la com um olhar sério, esperando a resposta e se segurando para não rir.
▬ V-você... – Amaterasu o encara seriamente pela primeira vez.
Ele continuou a observá-la com um olhar sério, esperando a resposta e segurando para disfarçar o nervosismo dessa vez.
▬ Você riu por um momento, não é mesmo? – completou ela, assustada.
▬ Não ri. – responde de forma séria, porém nervoso.
▬ Hehehe, riu sim!
▬ Não ri.
▬ Riu.
▬ Não ri!
▬ É claro que você riu! Seu risonho.
▬ Eu nunca ri na minha vida!!! – gritou ele, com ênfase.
Os dois se encararam quietos por um tempo.
▬ AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! – riram os dois.
▬ Tá bom, eu admito a derrota. Mas agora, o que você queria perguntar, mesmo?
▬ Ah, certo. – envergonhou-se levemente por ter desviado tanto do assunto principal e depois se levantou. Eu acabo de chegar aqui, e gostaria de saber onde fica a seção #2?
▬ A Sephia Lumerantium, corporação onde estamos, é dividida em um complexo principal e oito subsidiários ao seu redor. Estamos no complexo subsidiário número seis, localizado a sudoeste da parte central. Dentro dele, a área onde alunos como nós são admitidos possui quatro seções, cada uma referente a um ramo de especialização acadêmica. Aqui é a seção #3, posicionada à esquerda da ala sul. A seção #2 fica à direita da ala norte.
▬ W-wooow... – Amaterasu fica sem palavras diante dos conhecimentos que ele acaba de demonstrar.
(tsc...esperava uma reação de desespero ao saber que o lugar que ela procura fica exatamente no lado oposto) – pensa ele, desapontado.
▬ Ah! Quer dizer então a instituição fica exatamente no lado oposto?! M-m-m-m-m-mas e agora, o que eu vou fazer? As aulas mal começaram e eu já atrasada?! – percebeu ela, desesperada.
(haha! Antes tarde do que nunca!!!).
▬ As aulas para as turmas de primeiro período começam apenas amanhã. Você sabia disso, não é mesmo? Claro que sabia. – falou em tom sarcástico, debochando da garota.
▬ Aha...ahahaha. Mas claro que eu sabia. E-eu só estava me assegurando que você estivesse bem informado. – respondeu, desconsertada. Mas já que tenho tempo livre, agora é minha vez de ajudar no seu problema! – falou com orgulho.
▬ Tem certeza? Acho que o meu problema é forte demais pra uma garotinha como você? Veja bem, não quero ter que enxugar as lágrimas de uma pobre criancinha assistindo um enterro, OK? – ironizou ele.
Amaterasu olhou fixamente nos olhos dele, determinada a cumprir o desafio.
▬ Haha, então venha! – empolgou-se ele. Você ainda é muito inocente e frágil, mas espero sinceramente que continue com essa determinação.
Ela olhou mais uma vez em seus olhos, confiante e disposta a tudo, ignorante em relação ao que aconteceria momentos depois.
▬ A propósito, pode me chamar de Ren. – fala ele, finalmente revelando seu nome. E por favor... não me odeie depois do que você vai ver hoje... – falou ele com certo remorso, em contraste com a felicidade de segundos atrás.
[9:00 — saída da corporação central]
Após viajar em suas lembranças, Ren volta a seguir em frente. Ele sabe que todo o ocorrido hoje foi apenas um treino, para saber se estava preparado para o que viria depois. A partir de amanhã, não haverá espaço para dúvidas ou sentimentalismos, não haverá brecha para hesitar. Diante disso, ele lembra das palavras que a pouco dissera:
(“Todas as decisões que precisamos tomar em nossa jornada implicarão em perdas, intermináveis, irreparáveis”, não é mesmo? Aos amigos que fiz aqui, e todos aqueles que me ajudaram a chegar tão longe, minhas sinceras desculpas. Eu creio...que terei que matá-los amanhã) – refletiu, sem sentimento algum expresso em seu rosto.
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