A Era Mais Escura

4 A Dona de Seu Destino - Parte 2


Notas iniciais
Boa leitura! E me deixem comentários, são muito importantes!

Observava seus pés descalços, os quais pisavam sobre a terra agora úmida da estrada, os trapos que usava estavam respingados de vermelho enquanto uma mancha escarlate cortava seu rosto. Mas aquele sangue não era seu.

A sua volta estavam os três assaltantes, os três animais que a julgaram nada mais que uma mocinha inocente, todos eles tiveram uma morte lenta e agonizante. Havia se certificado disto.

Não era indefesa já fazia muitos e muitos anos, talvez nunca tivesse sido; talvez fosse essa a razão para que as repudiasse tanto, por isso quem sabe, fosse tão difícil para ela se sentir ligada a alguém. Porque nos tempos de hoje ninguém precisava ser forte, poucos viam os horrores que espreitam das sombras. Já os havia visto por tempo o suficiente para nunca mais deseja-los por perto, e submissão era apenas um passo nessa direção.

Em seu punho, a espada de Damian estava encharcada, e de sua ponta gotas caiam sobre a estrada; era um monstro... era a mesma ‘Lamina sinistra’ a qual todos temiam, um símbolo de medo e desprezo. “Por que... por que sou assim?! ”, gritou em pensamento quando sentiu uma única lagrima percorrer seu rosto e cair na terra, assim como os pingos de sangue que caiam da espada que tinha em mãos. Mila era uma arma e nada mais.

— Pois assim você foi feita.— Disse uma voz fantasmagórica que pareceu estar bem diante dela, seu tom continha um certo orgulho.

Ergueu a cabeça, e mais uma vez se viu diante do espectro que a libertara; era como se tivesse simplesmente emergido do sangue que aos poucos empossava sob seus pés.

— O que quer de mim? – Questionou, enquanto trincava seu maxilar com o máximo de força possível, sentiu seus dentes doerem. – Porque não me deixa em paz?!

A aparição a encarava inerte, com aquele sorriso medonho estampado no rosto decomposto.

— Você tenta negar quem é Mila, não se pode fugir do destino. — Sussurrou o ser translucido.

Levantou a lamina até a cabeça do fantasma escarlate, e ergueu sua voz com toda a determinação que tinha guardada em sua alma partida:

— Não é você quem vai me dizer o que fazer!

O espectro então em um único movimento arremessou a espada ao chão, e no mesmo instante agarrou seu rosto, as unhas negra, longas e afiadas agrediam sua pele, mas algo a impedia de se defender ou mesmo se mover de qualquer maneira, seus ouvidos pareciam que iam explodir quando a criatura etérea vociferou:

— Se não eu, quem saberá seu futuro?! Minhas próprias mãos o escreveram, mortal ingrata!

Tremia, sentia como se o medo e o desespero tivessem despedaçado sua alma, toda a força que apenas a um segundo explodia em seu interior havia sido sugada dela; quando voltou a si, percebeu que mais uma vez estava sozinha, apenas na companhia dos três cadáveres que a rodeavam, com suas barrigas, pescoços e faces abertas, as moscas já se aproximavam para a ceia. “Estou enlouquecendo...”, constatou ao observar uma varejeira pousar no rosto destruído do ladrão de cabelos castanhos.

Sabia como deveria se sentir por matar uma pessoa, por tirar uma vida: seu coração deveria pesar no peito como se não fosse mais possível carrega-lo, seu espirito deveria estar em prantos pela vida que roubara, dos momentos de felicidade que havia privado de sua vítima. Mas não sentia nada disso, no fundo sentia-se bem, como um dever cumprido; será que era tão má assim? Ou os homens que acabara de matar eram tão desprezíveis que não os reconhecia mais como gente, o que não seria surpresa.

Aquele jovem, Albert, uma parte estranha de dela sentia o peso de sua morte. Não era necessária; o havia feito apenas e unicamente por precaução, para ter certeza de que sua fuga seria bem-sucedida. Talvez ainda não estivesse perdida, talvez o que lhe faltava três anos atrás era compaixão, o que demonstrara para Damian, e agora de uma forma distorcida, para o mundo, por ter mandado aqueles três cretinos para o além.

Finalmente se moveu e pegou a espada do chão terroso, estava imunda; talvez fosse melhor lava-la antes de a devolver para o soldado, o que decidiu que faria só para ver sua reação. Perguntava-se se o garoto já havia despertado e agora mancava floresta afora em busca de ajuda. A notícia de sua fuga chegaria a capital em breve, mas não se importava, na verdade ansiava por saber quais seriam as medidas que as autoridades iriam tomar.

Aproximou-se da carroça e soltou um dos cavalos, um corcel negro grande e musculoso, acariciou-o e quando se preparava para monta-lo, percebeu a grande quantidade de moscas que também rondavam a parte de trás do transporte; por curiosidade decidiu verificar o que estava ali, mesmo que sua intuição lhe avisasse que não seria agradável.

Ao chegar mais perto sentiu seu coração apertar, uma sensação que para o bem ou para o mal lhe era quase desconhecida, suas mãos se fecharam em punho e respirou fundo em pesar; pois ali jaziam uma mulher e uma criança, mortos e sujos de sangue.

A mulher, assim como ela parecia ter por volta de trina anos, suas vestes eram simples, porém bem cuidadas, assim como a da criança, um menino que não teria mais do que seis anos de idade. Mãe e filho, sem dúvidas.

Percebeu o sangue e a carne embaixo das unhas quebradas da mãe, havia lutado por si mesma e pela criança, mas não conseguiu fugir da brutalidade dos três maltrapilhos.

— Cretinos asquerosos! – Gritou sozinha no meio daquela deserta estrada na floreta de Ilca; um pássaro levantou voo, e assustado se aventurou floresta adentro.

Se os deuses a condenassem por aquelas mortes, não mais os reconheceria como seus.

Aqueles jogados na terra com os corpos abertos e dilacerados não eram homens, mas sim demônios. Toda a culpa que sentira agora tinha se esvaído, vingara aqueles dois inocentes, talvez suas almas pudessem descansar em paz agora, já chegava de fantasmas vagantes naquele mundo. Até por que parte deles estavam assim por sua culpa, e isso a corroeu durante um bom tempo de seu exilio.

Quando finalmente montou no corcel e bateu os calcanhares para que começasse seu trote, o animal nem se quer hesitou ao passar por cima do corpo morto de Jorgan, pisando sobre sua cabeça e deixando-a em pedaços na estrada de terra enquanto ela rumava para o norte, para a capital.

O amanhecer estava muito próximo, o céu antes negro e pintado de pequenas luzes agora tomava tons cada vez mais azulados. Percebeu que o bosque chegava ao fim quando as arvores começaram a se espaçar e a terra da estrada a dar lugar a um misto de pedras e grama, o terreno começou a inclinar; subia uma colina, colina a qual passara muitas vezes ao sair e retornar; mas aquele era o seu verdadeiro regresso, pois assumira seus erros para ninguém além dela mesma, e isso era o que realmente importava. Chegara a hora de limpar o reino que ela mesma ajudou a poluir, se teve uma segunda chance era para isso que a usaria, pouco se importava quais eram os reais planos que seu futuro guardava, ou se eram realmente seus ou na verdade de algo mais sombrio que incansavelmente pairava sobre seus ombros.

Chegou ao topo da colina, ao mesmo tempo em que o sol finalmente começou a ascender. Perdeu o fôlego.

Um vale outonal se revelou da escuridão, a baixo as árvores estavam alaranjadas ou marrons, não como a floresta a suas costas onde eram sempre verdes, as frutas sempre maduras. Mas mesmo com toda aquela vida exuberante que florescia incessantemente, Ilca sempre lhe remetera a tristeza, qual era a graça de estar sempre igual, parada no tempo. Tal ideia nunca a agradara, pois sabia como a vida eterna poderia ser depressiva, então quando chegasse a sua hora abraçaria a morte de bom grado.

Ao fim do cânion avistou seu destino. Losran, a capital de Ravius, a força dos três reinos irmãos; ao extremo sul do mundo conhecido estava Zankar, a sabedoria, um lugar de bruxos e de estudos sobre o plano magico o qual todos nós compartilhamos; E a oeste estava localizado o reino escondido de Aurwen, a fé, lá era onde as raças de menores números faziam morada, onde vivam em paz uns com os outros, invisíveis aos olhos preconceituosos dos homens cruéis que os expulsaram de seus lares, tal reino era na verdade uma obeliscal ilha tornada invisível pela feitiçaria antiga e já perdida do povo que lá habitava.

Losran, a cidade tomava mais da metade daquele grande vale, diversas formações gigantescas de pedra negra circundavam a capital por todos os lados. Com grossas bases e pontas finas e arqueadas, as formações não naturais lembravam as patas de um aracnídeo que parecia abraçar toda aquela civilização. A grande muralha em forma de meia lua que fora construída envolta da cidade ligava algumas das grandes formações obsidianas, assim como determinava onde acabava o domínio da natureza e começava o dos homens.

Mesmo que a cidade ainda permanecesse nas sombras, de cima daquela colina conseguia distinguir suas construções; viu casas, praças e prédios, quanto mais próximo da cidade alta, maiores eram as construções, tudo isso se tornava visível de cima daquela colina. No extremo norte encontrava-se o castelo, uma imensa e invejável fortaleza de tempos antigos que até os dias de hoje não havia sofrido um sequer arranhão, seja pelo tempo ou pela guerra. As costas do palácio se estendia o ínfimo oceano, o que dividia este mundo do próximo segundo as novas crenças, as quais não acreditava, assim como não acreditava nas antigas.

A Leste se erguia uma imensurável montanha negra, sem dúvidas feita do mesmo material que os grandes arcos de Losran, aquele era o motivo pelo qual lá as noites eram mais longas, a formação cobria o sol nascente deixando a metrópole na escuridão de sua sombra durante as primeiras horas do dia. Era chamada de Mandíbula negra, a razão ao certo não sabia, entretanto antigos contos diziam que escondida ali estava a perdição suprema, o inimigo. Eram palavras saídas apenas das bocas dos loucos.

Com o corcel se pôs a descer pela estrada de pedras que agora seguia pela íngreme encosta da depressão, ainda observava ao longe a civilização, o lugar que mais se assemelhava a um lar para ela que se acostumou a perambular pelo mundo enquanto lavava seu caminho com sangue inocente.

Havia uma constituição em particular que não conseguia desviar seus olhos verdes e brilhantes, cheios de vida por aquela paisagem que tanto lhe fez falta, tal construção era tão sobrenatural quanto todas as outras que abraçavam a capital de Ravius; um cristal branco que se encontrava bem no meio de toda a metrópole, sua forma contorcida lhe passava a impressão de que se movia junto aos ventos oceânicos. Nada poderia se destacar mais na paisagem vista de longe, pois reluzia mesmo em meio a falsa noite que a gigantesca sombra da montanha negra lhe impunha, a construção brilhava com luz própria em meio a toda aquela escuridão, era óbvio para Mila que se a capital possuísse um coração, seria aquele monumento.

Aquele cristal seria o lugar onde a uma era atrás diziam ter ocorrido o elo entre este plano e o próximo, foi este choque que nos agraciou com a magia e com os animais fantásticos, assim como com os monstros horrendos. De lá vieram também as criaturas que alguns passaram a venerar como os novos deuses, sete deles passaram pelo elo e então se dispersaram pelo mundo, cada um reclamando um lugar como seu. Cada um agora exercia um dever com nosso planeta, ou ao menos assim acreditavam os fanáticos; para ela aquilo não era verdade, pois, se os tais seres realmente haviam chego, não se importariam conosco, eram nada mais que formigas para eles, que segundo lendas e fontes duvidosas seriam maiores que todo aquele vale. Por que tomariam conta uma sociedade perdida em meio a tanta ganancia e sede de poder.

O cavalo relinchou quando pisou em falso e rochas caíram para o penhasco abaixo. Uma queda mortal.

Não apressava sua montaria, sentia que deveria apreciar aquele momento o máximo que pudesse, aquela sensação seria cara para ela mais tarde, então porque ter pressa em a deixar para trás.

Estava em Losran, havia voltado.

Notas finais
Ah Losran... É uma cidade bem estranha, mas não quero adiantar nada...