A ENDLESS NIGHT

Eu sempre odiei a noite. A forma como ela substituía a luz do sol. A forma como o calor era deixado de lado, apenas para dar lugar a um frio desesperador. A forma como tudo era possível durante ela. Sim, eu sempre odiei a noite. Ou eu apenas comecei a odiá-la agora?

Não sabia dizer se estava com frio por causa da neve que caía ou se por causa do sangue que deixava rapidamente meu corpo.

Não sabia dizer onde estava ferido.

Não sabia dizer como havia chegado naquela situação.

Mas, o pior de tudo era não saber dizer quem eu era.

Como a página de um livro depois de lida, eu estava sendo abandonado para virar apenas uma lembrança – talvez nem mesmo isto.

Por que eu estava ali, sozinho, prestes a morrer? Não há nada mais que eu possa fazer? Não há nada mais que eu queira fazer? Devo odiar quem fez isso á mim, ou devo me odiar por não saber dizer quem o havia feito?

Minhas mãos congeladas estavam de cada lado do meu corpo, meu peito subia e descia com uma velocidade tão rápida que fazia com quem eu soprasse repetidamente uma névoa branca na noite, em direção ao céu que estava sendo iluminado por fogos de artifício.

Que dia é hoje?

Meus pés, mesmo que por baixo dos sapatos, sentiam o frio que fazia com que meus dedos parecessem pedras de gelo. Meu corpo não respondia mais aos meus comandos, mas eu ainda podia sentir a dor do vazio, da solidão.

Quem sou eu?

Minhas roupas não eram apropriadas para um clima como o que estava fazendo, era apenas um terno branco que outrora poderia ter sido algo de classe, mas que agora estava com vários rasgos e manchas de sangue, sendo isso o que impedia que eu me camuflasse na neve que por sua vez também estava sendo tingida de escarlate. Minha lembrança mais recente era a de estar vagando sem rumo pela noite como se eu tivesse começado a existir ali, com corpo e mente em estados deploráveis. Lembro-me de deixar cair no chão um revólver que carregava em minha mão direita por não conseguir segurá-lo mais, e alguns segundos depois meu próprio corpo. Lembro-me de estar com medo de algo, de estar tentando correr, mas agora não sei de quem ou do que.

Por que estou aqui?

É frustrante não poder fazer nada, não saber o que devo fazer, não saber qual é a decisão certa a tomar.

Há alguma razão para me levantar?

Comecei a ouvir passos se aproximando lentamente de mim, perguntei-me de uma forma assustadoramente calma se aquele de quem eu estava fugindo viera para me matar – ou melhor, terminar de me matar.

Por que não consigo me lembrar de nada?

Devia levantar e correr apenas por precaução, mas sem encontrar nenhuma força em meu corpo, ou talvez por não achar um motivo, simplesmente fiquei ali deitado, em agonia e hesitação.

O que devo fazer?

Meus olhos enxergavam com dificuldade e algumas mechas de meu cabelo preto caíam sobre eles dificultando ainda mais a visão.

A morte finalmente viria á mim?

Ao tentar entender o que estava acontecendo percebi que o sangue estava saindo por um ferimento no meu peito — que por sua vez estava subindo e descendo numa velocidade menor — e da minha cabeça. Ambos doíam de forma infernal, mas eu não tinha forças nem mesmo para respirar de forma decente, quem dera gritar. Senti meu coração que antes batia fortemente ficar ligeiramente mais fraco, resultado provavelmente da perda de sangue. Os passos que antes eu ouvia pararam de repente.

Não importa mais. Com a falta de confiança e motivos meu medo fora substituído pela aceitação do destino que obviamente cairia sob mim. Meu corpo estava me abandonando, e minha mente já o havia feito. Não posso fazer mais nada.

– Está mesmo desistindo? Vai deixar tudo para trás? Esqueceu da sua promessa? – Ouvi uma voz me perguntar. A pessoa que se aproximou de mim a pouco... foi ela quem havia perguntado isso? Não. Essa voz parecia profunda demais, quase como se viesse da minha cabeça. Uma voz mais nostálgica, mas que eu não sabia dizer se era alucinação minha ou não.

– O que mais eu posso fazer? – Perguntei sem saber se eu realmente estava falando ou apenas pensando a resposta, certo de que estava imaginando coisas e não devia prestar atenção.

No entanto, a resposta que veio a seguir por algum motivo me fez querer continuar, me levantar e correr. Pensar de uma forma que até a poucos segundos atrás eu desconhecia, que me dava um sentimento que eu havia esquecido.

– Viver.

Ali, deitado em meio à neve, numa poça de sangue, de baixo de um céu que era negro e colorido ao mesmo tempo. sem saber quem eu era ou qualquer outra coisa sobre mim, esperei. Esperei a pessoa que havia parado de andar a um metro de mim sem saber se era homem ou mulher, se queria meu bem, meu mal, ou era apenas alguém que me vira caído e veio confirmar o que seus olhos viam. Sem saber se foi ela quem havia me devolvido este sentimento de que não posso morrer agora, de que ainda tenho algo a fazer. Esperei por algo que mostrasse a resposta, mas perdi a noção de tempo e logo segundos pareceram horas. Antes que me desse conta, tudo havia ficado preto como se os fogos de artifício, as estrelas, a luza da lua...tudo, houvesse parado de repente.

Ali, em meio a incontáveis perguntas sem respostas, eu esperei. Ali, naquela noite interminável, minha história começou.

Notas finais
Prólogo sujeito a mudança.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.