A Encantadora

6 5 - Rebelião


Notas iniciais
O mais tenso, e talvez longo, de todos eles. Fangirls do Johanne, preparem suas gargantas, esse é o capítulo para vocês berrarem à vontade. Boa leitura!

O palácio, então, passou a ser agraciado pela beleza e alegria da dançarina. Quando ela apareceu no castelo pela primeira vez, recebeu olhares tortos, cochichos e desaprovações silenciosas. Contudo, após se apresentar no centro do salão de festas, um lugar bem iluminado e brilhante, que favorecia o espetáculo de Ravena, o comportamento dos seus novos espectadores mudou completamente. As mulheres, ao contrário das do povo, não invejavam a cigana, e posavam como se fossem melhores do que ela. Porém, inconscientemente, elas passavam a incluir no seu guarda-roupa peças parecidas com as que a dançarina usava em seus espetáculos. E assim como ela fazia para o povo, ela não comparecia ao castelo todos os dias, e parava no auge da apresentação, sempre deixando seus espectadores com vontade.

Johanne, por ser o rei, era quem pagava os espetáculos da moça. Ela tentava recusar, dizendo que não era necessário, já que os espectadores do povo sempre doavam moedas o suficiente para que ela se sustentasse, mas o monarca sempre vinha com o argumento de que se o povo a pagava, os mais ricos não poderiam deixar de pagar. Ao fim de algumas apresentações, ela desistiu de discutir e passou a aceitar os pagamentos, muito agradecida.

Pagamentos que, aliás, eram muito especiais. Vestidos feitos sobre medida, colares e brincos vindos de terras distantes e até sapatos próprios para os espetáculos eram dados à garota como pagamento, embora Johanne entregasse tais objetos em forma de presentes. Mesmo assim, com todo esse requinte, Ravena nunca deixou de ir humildemente às ruas, nem de cuidar de sua pequena casa tão longe da cidade. Aliás, vendendo uma ou outra peça dada por Johanne, ela começou a se apresentar para outras cidades no Império, desta vez, de graça, conquistando a simpatia de todo o reino.

E foi essa integridade que fez com que o monarca se desse conta de seu amor pela garota.

Justamente por saber que a amava, o rei não pode fazer nada sobre seu ciúme. Ele só aumentava a cada dia, fazendo o rei ficar possesso somente ao ver que a garota era observada por outro homem. Se ela dirigisse o olhar dela para alguém, então, ele sentia uma facada no peito, e tratava logo de atrair sua atenção. Quando ela ia para outra cidade, era a imaginação do imperador que o fazia se morder de ciúme por homens de sorrisos maliciosos em sua cabeça.

Então, num desses ataques de ciúme, Johanne teve uma brilhante idéia.

E começou a pedir para que a garota dançasse em particular para ele. Começou com uma dança, passou para duas, e assim gradativamente. Os espetáculos para os nobres diminuíam em tempo, deixando os ricos espectadores irritados, mas impotentes. Afinal, Ravena era a protegida de Johanne, e nenhum dos nobres, nem se estivessem todos juntos, tinham poder suficiente para reclamar disso. E as intrigas que vez ou outra faziam contra ela no palácio só faziam com que Johanne se tornasse mais possessivo e apaixonado por ela.

Justamente por isso, o rei passou a acompanhar Ravena em suas caminhadas para casa, as vezes permanecendo para conversar como na primeira noite em que Johanne foi até a casa da garota. Ambos, aliás, se tornaram muito próximos. Suaves carícias, de modo inocente por parte da dançarina e de modo consciente por parte do imperador, eram trocadas todos os dias. Quando não havia ninguém por perto, o rei alcançava a mão da garota, impaciente para sentir os dedos quentes dela.

Durante meses, ambos trocaram sorrisos, abraços, sussurros, confissões. O rei chegou a lhe contar segredos de estado e segredos do coração, mas sempre guardando para si o amor que tinha por ela. Já ela sempre tinha os melhores conselhos, que sempre levantavam o jovem imperador e ajudavam a população. Ela, aliás, compartilhou com ele seu gosto por paisagens, por flores, por música. Ambos chegaram a cantar juntos, formando um dueto angelical. Além disso, longe dos olhares do público, ambos dançavam em valsas silenciosas. Ele era o único homem com quem ela aceitava fazer um par para dançar. E ela era a única mulher em quem o rei confiava.

Um dia, enquanto dançavam juntos, ambos tropeçaram e caíram ao chão, fazendo com que Ravena ficasse presa abaixo do corpo de Johanne. Ambos gargalharam, um rindo da cara do outro. Pararam para tomar ar, e Johanne, próximo como nunca dos olhos da garota, foi fisgado pela proximidade de rostos entre ambos. Analisando os olhos da garota, que eram escuros, mas não o suficiente para esconder desenhos em formas de minúsculos pontinhos em círculo em volta da pupila, o rei foi se aproximando. Seus olhos azuis, com um desenho em forma de explosão em um azul mais claro que partia da pupila, vagavam entre a boca e os olhos da cigana.

Roçaram narizes.

Encostaram lábios.

Explodiram batimentos.

Encontraram-se línguas.

Beijaram-se.

No começo, foram desajeitados. Ravena, pega de surpresa, não reagia, e Johanne, cheio de paixão, desejo e possessividade a apertava sobre si, impedindo que se mexesse. Com mais alguns estímulos dados pela língua de Johanne, a garota passou a responder, embora submissa.

Começaram a rolar pela grama, que incomodava, mas não o bastante para interromper o ato. O rei tentava consumir a amada a qualquer custo, apertando-a contra si, e roubando pequenos gemidos da garganta dela. Já a garota se preocupava provar o máximo possível dos lábios doces e rígidos de seu rei.

Então, quando começou a faltar o ar, Johanne interrompeu o beijo. Ravena estava agora em cima dele, e suas mãos, cravadas no cabelo macio e claro do monarca. Ela olhou para ele, com os olhos brilhantes e a boca entreaberta, ainda em êxtase com o gosto doce da boca de seu rei. Ele levantou a mão e acariciou o seu rosto, mas seu toque frio a acordou de seu transe.

-Vossa Majestade! Desculpe, eu não queria, é tudo culpa minha! – disse a garota, pulando de cima de Johanne. – Por favor, perdoe minha audácia! Eu não devia ter te beijado! É tudo minha culpa, por favor, me perdoe! – pediu Ravena, em pânico, curvada como um servo para um Johanne confuso. Ela nunca havia se rebaixado tanto em relação ao imperador.

-Ravena? Não precisa se sentir culpada, eu que te beijei. Por acaso, você... não gostou? – perguntou o rei, começando a se sentir magoado.

-Sim, gostei... – disse Ravena, calando-se um pouco e nublando os olhos. Ela pareceu se desligar para o mundo por um momento, e então, voltou a si, mais séria e controlada. – Mas isso é tão... Errado! Quer dizer, eu sou uma mera cigana, e você, o rei de toda essa terra e muito mais. Eu não tenho sequer o direito de estar tão próxima da sua presença, quanto mais provar dos seus lábios...! – explicou a garota, visivelmente confusa e sem saber o que fazer.

Johanne, um pouco mais confiante ao entender o motivo da apreensão de sua amada, se levantou e pegou o rosto da garota.

-E daí que você é uma cigana? Como você mesma disse, sou o dono dessa terra e muito mais. Tenho poder suficiente para escolher com quem ando e não ando, fico e não fico, beijo e não beijo. Sou eu quem decido o que é certo e errado. – disse Johanne, os olhos ardendo de paixão por aquela garota tão pura, inocente, íntegra.

-Mas, e o povo, o que diria se nos visse agora? – perguntou a garota, ainda insegura. Percebendo a angústia da amada, Johanne a puxou para si, possessivamente, tentando passar alguma segurança.

-Eles nada diriam. E se dissessem, seriam expulsos das minhas terras. Essas são minhas escolhas, e o que faço não é da conta de ninguém. – explicou o rei, com um sorriso de lado.

-Mas, e se... – começou a garota, um pouco mais confiante, mas igualmente insegura.

-Shhh. Não sei de mais nada agora. Tudo o que sei é que... – então, ele agarrou o corpo leve da garota, e a inclinou. – Nós quisemos fazer aquilo. E não me arrependo de nada. – e a beijou uma última vez, colocando todo o seu coração naquele ato. Ela correspondeu, ainda submissa, mas com mais firmeza.

O rei colocou a moça, que agora estava com o equilíbrio, assim como o coração instáveis no chão, e desejando boa noite, se foi, ainda sentindo o cheiro agradável e aconchegante da garota em sua pele.

O que ele não esperava, contudo, era não se encontrar com Ravena no dia seguinte. E nem no outro. E nem no dia seguinte a este. Sem nenhum aviso prévio, pista ou sequer boato sobre o paradeiro da garota.

Johanne, preocupado e apreensivo, mandou patrulhas de busca por todo o reino em busca da garota. Contudo, ao final de cada dia, os guardas relatavam os resultados de sua missão, que sempre eram vazios. Dia após dia, a inutilidade das buscas e a saudade da garota tomavam Johanne e deixavam o imperador impaciente, irritado e cansado. Ninguém no castelo agüentava mais as ordens absurdas e o comportamento grosseiro e estúpido do rei mal-humorado, quando um soldado irrompeu as portas do palácio com um anúncio. O alívio por receber notícias foi geral.

Mas o que viria a seguir era mil vezes pior, poderoso e até perigoso do que aturar um imperador ranzinza: Ravena havia sido seqüestrada por um grupo de rebeldes.

E, em troca pela liberdade da garota, queriam a independência do território de Trikhonus.

Obviamente, Johanne não concordou com a troca. Com certeza, ele queria – e precisava – da presença da garota mais do que nunca, mas não podia ceder aquela terra, a primeira conquistada por aquele reino secular, por uma garota. Estava cego de amor, mas ainda não estava burro. Então, Johanne ordenou aos seus exércitos que atacassem a região e os rebeldes, começando uma guerra como há tempos não acontecia.

Primeiro, ele enviou uma campanha grande, ameaçadora e preparada, suficiente para esmagar inimigos normais e ter sua amada novamente ao seu lado. Não foi o que aconteceu. Todos os soldados voltaram vivos, mas sem condições de lutar. Os sobreviventes explicaram que seus inimigos tinham pele normal, mas tinham o conhecimento de alguém que tem pele de pedra. Eles sabiam o que feria e o que não feria, o que afetava e não afetava, e eram imunes às armas dos soldados. Com conhecimento, boas armaduras e ótimas armas, os soldados que haviam sobrevivido à batalha diziam as palavras ‘impossível’, ‘invencível’ e ‘incrível’ para descrevê-los. E isso, de modo algum, agradava Johanne.

Então, o rei foi mandando exército atrás de exército, missão atrás de missão, sempre tendo como resultado a volta de todos os seus soldados, vivos, mas sem condições de permanecer no campo de batalha. A rebelião durou meses, e para pressionar o rei, também ocupou áreas vizinhas à Trikhonus. Johanne, arrogante e orgulhoso, aumentava a potência do próximo exército a ser enviado, mas sempre falhando. Não importava a estratégia, a arma, a armadura, a quantidade: o resultado não variava. E a cada falha, o imperador perdia a cabeça e ficava agressivo, fazendo pedidos absurdos, irritado com a invencibilidade e fama crescentes dos rebeldes, e com sua impotência em salvar sua amada.

Na última campanha, ele enviou todos os homens saudáveis restantes no reino. A visão daquele exército era como um mar de gente, que se estendiam até o horizonte. As mulheres e crianças restantes, abaladas com a guerra que seus maridos e pais enfrentariam e inseguras com o que poderia acontecer com eles passaram a usar véus e chapéus, para tentar esconder as marcas que as lágrimas ácidas cavavam em seus rostos tristes e cansados. Ninguém mais agüentava aquele conflito.

E a falha da última campanha foi inevitável. E essa foi a gota d’água para a população. Trikhonus era um lugar sagrado, mas se eles pudessem reaver a dançarina cedendo o território, que fosse. Representantes de todos os cantos do império tiveram audiências com Johanne, que teve de ouvir de todos os líderes o pedido de rendição. Com o orgulho ferido, ele aceitou, e mandou um mensageiro para o líder da rebelião de Trikhonus.

Através das histórias dos soldados sobreviventes, Johanne sabia vagamente a aparência de seu inimigo. Sabia que tinha a pele clara, mole, como à das pessoas ‘inferiores’, e cabelos castanhos acompanhados de olhos pretos ‘tão negros quanto sua armadura’, como diziam os soldados. Através dos relatos, sabia que sua habilidade com armas era surpreendente, então o monarca escondeu uma balista carregada nas suas costas, encoberta por sua capa.

Após algumas horas de viagem, o imperador e seu exército particular chegaram ao local combinado para a negociação: um descampado perto de Trikhonus. Enquanto saía da carruagem empunhando uma bandeira branca, escoltado por seus guardas, avistou ao longe duas figuras. Uma era negra, metálica, imponente e também com seus guardas. A outra era menor, sinuosa, ao seu modo, e trajava um vestido. Ao reconhecer a amada, após tanto tempo de ausência, o coração palpitou.

Chegando lá, o rei se postou à alguns passos do líder da rebelião. Avaliou o homem à sua frente: uma armadura negra adornada, e cabelos e olhos igualmente negros. Sua expressão era séria e controlada, mas o ódio irradiava de seus olhos. Olhou para a amada atrás do líder, que observava o monarca, apreensiva. Ele percebeu que ela vinha sem algemas ou amarras, e o líder se moveu, bloqueando a visão de Johanne.

-Meu nome é Evanar. – disse o líder da revolução de Trikhonus. Ele estendeu uma mão, enquanto se postava de modo protetor à frente de Ravena. A constatação começou a enfurecer Johanne, que tinha seu ciúme, antes adormecido pela guerra, acordado e completamente provocado.

-Imperador Johanne. – respondeu o imperador, sem se mover. O líder da rebelião abaixou a mão, suspirando. Olhou para trás, e com um sinal de cabeça, fez a cigana se mover.

Passo a passo, ela saiu de trás de Evanar e foi para o lado de Johanne. O rei virou somente a cabeça para a direção dela, olhando por um momento de modo profundo em seus olhos, irradiando alívio. Em seguida, olhou para Evanar e aproximou o corpo da cigana ao seu, puxando-a pela cintura. O líder rival não fez nenhuma menção, mas Johanne sabia que tinha colocado nele aquela semente de ciúme.

-Então... Acho que isso significa trégua, não? – perguntou o líder rival, estendendo a mão para a bandeira branca que Johanne trazia consigo, à vista.

O rei fez menção de passar a bandeira, mas usou o cabo dela para derrubar o líder inimigo. Ignorando os gritos e o agito tanto de Ravena quanto dos guardas de ambos os lados, ele sacou a balista escondida em sua capa e apertou o gatilho. Ao abaixar a arma enorme, contudo, ele não viu o corpo que esperava.

Ravena tinha pulado na frente, e tinha sido atingida na barriga.

A flecha tinha penetrado no corpo da garota mais do que o normal em uma pessoa com pele de pedra, atravessando o tórax da cigana como se sua pele fosse uma casca fina e frágil. Todos paralisaram, inclusive Evanar, que estava jogado no chão.

O rei se ajoelhou, incrédulo, e pegou a garota semi-consciente, apoiando a cabeça dela em seus joelhos. Segurando as lágrimas, ele começou a implorar perdão, abraçando desajeitado o corpo da amada.

-Não precisa se desculpar. A culpa foi minha. – disse a garota ferida, com um sorriso amável. – Eu é que causei toda essa guerra. Não agüentaria ver ninguém morrer por minha causa.

-Pare! – gritou o rei, desesperado. – Por que você sempre cisma em levar o mundo nas costas? Você não precisa se culpar por tudo que acontece no mundo! Isso só faz as coisas piorarem! Olhe o que você fez! – disse o imperador, brigando com a amada e apontando para a barriga dela, que vazava um líquido quente e rubro.

-Desculpa... – pediu a garota, deixando escapar uma lágrima. – Eu só... – ela tossiu, o ar começando a faltar. – fiz o que achei certo.

-Ah merda, não! Não era pra você chorar! Desculpa, não era pra eu brigar com você agora! Não era pra eu ter atirado em você! Não era pra eu ter deixado você desprotegida! Não era pra essa merda de guerra ter acontecido! – então, o rei socou o chão com força, e arrancou algumas folhas de grama.

-Isso também não foi culpa sua. – começou a garota, com dificuldade. – Você fez o que eu pedi e o que seu povo pediu. – e então, ela começou a ficar mole nos braços de seu imperador. – Estou com sono...

-Ravena! Por favor, resista! Eu vou te salvar, você vai acordar mais uma vez! – disse o rei, mais desesperado que nunca, com uma dor lancinante em seu peito. Ele gritou para que seus soldados preparassem a carruagem, e eles prontamente começaram. – Ainda não, por favor! Eu preciso de você! Eu... eu não posso viver sem você!

-Besteira. Lógico que pode. Se conseguiu viver todos esses anos sem mim... – sussurrou a garota, com um sorriso suave e debochado.

-Você não entende! Eu, eu... Eu te amo! – disse o rei, aliviando por um instante aquela dor que rasgava seu coração.

A garota arregalou os olhos por um momento, mas foi fechando as pálpebras devagar, embora lutasse contra o sono mortífero. Tentou dizer algo, mas fechou os olhos, e seu corpo todo ficou mole.

Johanne gritou em desespero, com a volta daquela dor terrível em seu peito, negando a morte de sua amada. Deixou que uma lágrima contida escapasse, outra, e outra. Elas queimavam seu rosto, deixando marcas profundas em sua face antes intacta e perfeita. Então, uma delas caiu em cima de Ravena.

Algo começou a brilhar dentro da garota, e uma esfera azul de luz apareceu em cima do corpo da cigana. O orbe se dividiu em vários outros, totalizando onze focos de luz, que se dirigiram a uma parte vazia do campo de batalha em choque. Eles foram crescendo e se tornando vultos humanos. Aos poucos, foram tomando forma e certa cor, embora ainda fossem transparentes. No final, onze homens e mulheres de pele normal em roupas brancas, todos aparentando idades entre 25 e 30 anos, surgiram dos focos de luz. Uma mulher em particular, de cabelos e olhos completamente negros, foi rapidamente reconhecida pelos guardas de ambos os lados, que se curvaram.

-Fico muito honrada em saber que meu povo ainda lembra quem fui. Podem levantar. – disse a mulher, serena. Os guardas, maravilhados e ainda em choque pelos acontecimentos recentes, obedeceram.

-Quem... é você? E o que veio fazer aqui? – perguntou Johanne, um pouco temeroso por sua December. A voz e a aparência daquela mulher não lhe eram estranhas, mas as vagas memórias que tinha eram de seus tempos de criança, e ele não conseguia lembrar claramente.

-Você não se lembra de mim? Eu costumava dizer que você era um condinho com cara de príncipe. E que ironia, minha brincadeira acabou se tornando realidade. – disse a mulher, acabando a última frase com uma expressão mais amarga.

Johanne arregalou os olhos, os pensamentos estalando.

Era sua ‘tia’, Rainha November.

Prontamente se ajoelhando, um pouco desajeitado por causa da garota em seus braços, o atual monarca abaixou a cabeça, se curvando como um nobre de posição mais baixa.

-Perdoe-me, tia November. A minha memória daqueles dias é falha, mas não esperava demorar a me lembrar de você.

-Não se preocupe com isso, agora não é hora para formalidades. – respondeu a ex-rainha, imitando o jeito do presente líder. – E, satisfazendo à sua pergunta, viemos salvar esta garota em seu colo. – disse, e apontou para a desacordada Ravena.

-Ravena? Mas, por quê? – perguntou Johanne, mas foi ignorado.

-E já que estamos aqui, acho que algumas apresentações não farão mal algum, certo? Afinal, ficamos adormecidas por tanto tempo... Não é, January? Não gostaria de fazer as honras? – complementou November, com um sorriso faceiro no rosto, alheia à tristeza que a situação deveria impor.

Uma mulher altiva, com brincos de ônix, começou a falar aparentemente calma.

-Que sejamos breves, então. Temos de curar a garota, e essa é nossa única missão aqui. – disse uma mulher, de cabelos e olhos num tom castanho claro. – Eu sou January, a Primeira. Fui eu quem comecei a procurar pela cura dessa pele amaldiçoada, e pelo que vejo, ainda não tive sucesso. – ela manteve sua expressão impávida, mas era claro que ela estava profundamente decepcionada.

Um homem, imperceptivelmente mais baixo que January, e visivelmente o mais novo de todos, colocou uma mão no ombro da garota.

-Ei, não se preocupe. Ela ainda tem tempo sobrando, e além disso, nós já sabemos como tudo isso vai terminar. – ele sorria amistosamente, com os olhos verdes refletindo esperança. – Eu sou February, o Audacioso. Eu me expus demais e acabei morrendo mais cedo, mas consegui passar adiante nosso legado e descobri como falsificar a pele de pedra. – ele sorria, sincero, sem se importar em contar a verdade sobre seu passado, confirmando que todos os presentes estavam, realmente, mortos. – Não é, March?

Uma mulher, mais baixa que ambos e que a maioria dos outros salvadores, sorriu, confirmando. Ela era loira, de olhos caramelo, e tinha um sorriso fixo na cara.

-Com certeza. Olá, eu sou March, a Sonhadora. Sou chamada assim porque era através dos sonhos que agia. Foi com eles que comecei a formular uma teoria sobre relações entre sentimentos e essa pele asquerosa de vocês. – Ela mexia insistentemente no cabelo, e tinha um certo receio de sequer chegar perto de quem tinha pele de pedra.

Alguém deu tapa na cabeça de March. Era um homem, de olhos e cabelos negros. Ele era musculoso, e gesticulava de modo enérgico.

-Pare de ir na conversa dos outros, March. Entendo o que January quer dizer, e acredito que, até que o milagre aconteça, não devíamos contar vantagem. Ei, você, seu metido a besta. – disse o homem, apontando para Johanne. – Eu sou April, o Corajoso. Sabe por que fui chamado assim? Porque fui eu quem conquistei a maioria das terras desse reino que você chama de seu, de um modo que você nunca sonharia em fazer. – ele levantou a mão, e estendeu um dedo. – Com somente um exército. Enquanto você, com todas as suas forças, não pôde conter uma rebelião. Hilário. – e começou a gargalhar, assim, na cara do atual imperador.

Johanne sorriu, com um certo escárnio na boca.

-É impossível conquistar todas essas terras em uma vida só com um exército. Tem certeza de que não queria dizer ‘Mentiroso’ ao invés de Corajoso? – disse o imperador, relacionando o mês de seu nome ao homem exibido à sua frente.

-Ora, seu...

April, provocado, começou a avançar para cima de Johanne, mas uma mulher, igualmente alta e forte, segurou April.

-Acalme-se, grandão. Não estamos aqui para isso. – Ela tinha um cabelo castanho claro curto, e olhos escuros. – Eu sou May, a Obstinada. Eu fui a primeira a romper a pele de pedra de alguém, mas deixei que os seguintes descobrissem o método.

-Não foi bem assim, não é, May? Você conseguiu transformar seu amado, mas não fazia idéia de como. – disse um homem loiro, de cabelos curtos e espetados, portando olhos verdes. – Prazer em conhecê-los, eu sou June, o Ilusionista. Fiz minha parte nas sombras, aprimorando a técnica de falsificação da pele de pedra, transformando-a num simples creme. – então, ele jogou uma pedra no chão, fazendo com que muita fumaça saísse. No momento seguinte, ele não estava mais lá, e sim, atrás de Johanne.

Ele olhou a garota e tirou um pedaço da pele de pedra dela, que tinha se estilhaçado e rachado com a entrada da flecha. Embaixo do pedaço que tirou, surgiu uma pele macia, quente, pálida. Frágil.

-Ora ora, vejamos o que temos aqui... – disse June, os olhos verdes acompanhados de um sorriso malicioso.

-Pare de confundir o garoto! – reclamou uma garota, os olhos cinzas, um tom de azul tão claro que refletindo as coisas ao redor ficava prateado.

Ela se dirigiu até June, e o arrastou com facilidade para longe de Johanne. Em seguida, se virou a todos no local, e se apresentou, sorrindo como se nada tivesse acontecido.

– Olá, eu sou July, obviamente. Na minha época, o reino de EternalStone entrou em crise, graças à esse metido a ilusionista aqui. – disse, apontando para June, que simplesmente a ignorou. – E eu fui a responsável por impedir que o povo se rebelasse, cheio de egoísmo e sede de poder, contra todos ao redor e abrir fogo contra os que não eram de pele de pedra. Eles não entendiam que não eram superiores aos de pele normal. – e balançou a cabeça, tentando apagar da mente algo que lhe atormentava.

Outra garota, de cabelos cacheados e olhos negros, chegou perto e passou um braço nos ombros de July, afagando-lhe os cabelos lisos e igualmente negros.

-July perdeu o amado, que era um de seus generais, enquanto ele tentava conter um exército que havia se rebelado e ia contra as ordens da rainha. O choque por terem matado um do próprio grupo foi o bastante para condenar o grupo rebelde e parar a sede de batalha do povo. – explicou January, como se entendesse o que a outra estava sentindo, e amenizando a dor dela.

-August, prazer. – disse a garota de cabelos cacheados, soltando July e estendendo a mão para Evanar, que ainda estava na mesma posição desde que fora empurrado por Ravena. Ela pegou a mão dele e balançou energeticamente, como se tentasse acordá-lo. – Eu descobri que para quebrar a maldição, era necessário que todos em nosso reino, ou pelo menos a grande maioria, tivesse a pele de pedra quebrada. E descobri que só lágrimas não eram necessárias para fazer isso. – disse ela, desenvolta com o ‘público’ à sua volta, embora, quem prestasse mais atenção, veria timidez e insegurança em seus atos.

Então, March e August puxaram uma garota, que parecia relutante em se apresentar. Ela tinha cabelos cacheados também, mas desta vez, eram puxados para o cobre, e curtos. Tinha olhos verdes e era levemente sardenta.

-Vamos lá, nada de fingir que não está aqui! Todo mundo está se apresentando! – disse August, puxando a garota que tentava relutar.

-Não, eu não fiz nada, não tenho nada a contar... – argumentava ela, baixinho, com vergonha.

-Claro que tem! – exclamou March, ultrajada, como se tivesse sido seriamente ofendida. – Agora vai lá e arrasa! – disse ela, enquanto empurrava a ruiva para a frente, junto com August.

-Ahn... September. Prazer. – disse a garota, baixinho, olhando para o chão. – Eu... Impedi que um charlatão envenenasse o reino todo, prometendo a imortalidade a quem bebesse suas poções. E... Descobri que a alegria também era outro fator importante para romper a pele de pedra. – disse ela, claramente incomodada com tudo aquilo. Tentava parecer normal, mas estava tão nervosa que não deixava de sacudir as roupas ou olhar as unhas.

Alguns dos outros meses bateram palmas, apoiando a garota, enquanto outros decidiram manter um silêncio respeitoso. E contra os protestos de March e August, September voltou para o grupo, se misturando aos demais, tentando sumir do olhar de todos.

Uma garota alta, de cabelos igualmente cacheados, olhos escuros e óculos retangulares, deu um passo a frente. Usava um vestido discreto, e suas mãos pareciam habilidosas.

-Sou October, a protetora das crianças e dos sentimentos. Deduzi que, sem sentimentos, não seria possível fazer com que as pessoas chorassem ou sequer sentissem alegria. Então, criei o dia das crianças. Tentei fazer com que toda criança tivesse uma família ou uma casa. E resgatei fábulas que falavam de amizade, amor e esperança. – explicou ela, objetiva e direta. Tinha uma voz bonita, e pela reação dos outros, não parecia que ela a usava naquele tom ou tanto tempo assim normalmente.

-Mas, dar atenção somente as crianças não é suficiente. Afinal, quando chega a adolescência e a idade adulta, elas têm de encarar responsabilidades e decepções. E se você não der atenção para os adultos, eles se esquecerão de que eles já foram crianças e de que um dia, já tiveram sonhos. – argumentou Johanne.

Aquela não era uma situação que havia espaço para discussões, mas o monarca não agüentava ficar de boca calada, mesmo sabendo que quanto mais rápido elas se apresentassem, mais rápido teria sua amada de volta. Por isso mesmo, Evanar xingou o imperador baixo, mas Johanne não pode ouvi-lo.

-Pode até ser. Contudo, adultos não são capazes de conhecer os sentimentos se eles não os conhecem na infância. – explicou October, sucinta, calando a boca do imperador.

November, finalmente, se apresentou, embora não fosse exatamente necessário. Afinal, todos lá já a conheciam, ou ouviram histórias dela.

-November, Vossa Alteza. – disse ela, se curvando para Evanar, com discreto sarcasmo. – Como sabem, comandei esse país antes deste à frente de mim. O que talvez não saibam, é que descobri, assim como Johanne questionou, que era necessário tocar o coração dos mais velhos também. E concluí que o amor era a melhor – e a mais dolorosa – forma. – explicou a rainha, lembrando de seu falecido esposo. – E, além disso, reuni os registros e diários dos outros salvadores, para que o próximo tivesse todos os recursos possíveis para derrubar a maldição.

-E então? Podemos dar continuidade aqui? – perguntou January, que parecia esgotada com a confusão que os outros insistiam em fazer.

-Espere. Falta December. – disse um dos soldados, que servia à família real desde antes da pequena e falecida princesa sequer ter nascido.

E, assim como o soldado que havia erguido a voz, todos os outros presentes também haviam percebido que faltava alguém na sequência, até por que, a maioria dos guerreiros ali havia marcado presença no funeral da falecida princesa. E se todos os reis e rainhas à frente estavam realmente mortos, December havia de estar com eles.

Os salvadores se entreolharam, esperando algo de January, que parecia ser a líder ali.

-Ela ainda vive. – respondeu January, simplesmente.

Outro choque, outro silêncio. Eram informações demais, acontecimentos fortes e rápidos demais em pouco tempo.

-Onde ela está? – perguntou outro soldado, um da guarda pessoal de Johanne. O mesmo que havia flagrado December fugindo do quarto.

-Longe. E perto, ao mesmo tempo. – respondeu January, sendo o mais cuidadosa possível com as palavras. – Ela aparecerá em breve, mas não posso dizer onde está agora.

-Por que não? – pressionou Johanne, curioso. January estava escondendo algo muito importante, podia sentir.

-Porque estragaria o plano dela. – respondeu November, visto que January já começava a mostrar sinais de que sua paciência estava estourando.

-Que plano? – perguntou Johanne, cada vez mais curioso. Ergueu Ravena um pouco mais, visto que ela escorregava em seu colo, o corpo esfriando cada vez mais. Contudo, não conseguia deixar de fazer perguntas.

Os salvadores se entreolharam de novo. March se irritou.

-O quê? Você não sabe nada? E ainda se considera um líder? – perguntou a garota, revoltada com a ignorância de Johanne. November se aproximou e acalmou-a. Em seguida, January deu um passo à frente.

-Se deseja saber o que realmente aconteceu, não vejo por que não contar. Afinal, vocês descobririam de qualquer modo. Mas aviso: não quero ser responsável por qualquer sonho destruído ou coisa do gênero. – disse January, séria.

-Conte, por favor. – pediu Johanne, os olhos ávidos de curiosidade.

-Muito bem. Que comece a verdade, então.

Notas finais
Essa foi a parte mais viajada, digamos assim, da história. Relaxem, não terão que passar por mais nenhuma viagem de agora em diante. Além disso, foi muito divertido dar a cada mês uma personificação. Me baseei nos signos correspondentes ao primeiro dia de cada mês, e em parte, em alguns amigos próximos a mim. Qualquer semelhança contigo não é responsabilidade minha. Mereço review, vai, sei que mereço /diva -nn