Bordeaux, França. 11 de Dezembro de 1911.

Vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont.



A primeira pessoa a quem Henrietta Smith – melhor dizendo, Henrietta Holmes – conversou tão logo chegou no Vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont foi um policial. Ele fazia guarda no portão que dava acesso ao vinhedo. Pelo jeito, tal fato era recorrente. O policial, claramente entediado pelo marasmo daquela ronda, não tardou a contar tudo que sabia a Henrietta, talvez porque sentisse falta de ter alguém com quem conversar. Pouco se importou em explicar àquela inglesa de modos tão excêntricos quem era o infame residente daquele vinhedo: o perigoso ladrão Arsène Lupin.

Mesmo com o imóvel já sendo de posse do banco, que o tomou de Lupin devido às dívidas contraídas por seu pai, a polícia ainda guardava o lugar porque Lupin já o afanara inúmeras vezes. Diziam que isso acontecia quando as vacas não andavam lá das mais gordas. Não era algo frequente, mas que ainda poderia acontecer.

-Eu mesmo já cheguei a vê-lo! – gabava-se o guarda.

-É mesmo?! Mas que excitante! Aposto que deve ter sido muito perigoso...

O jovem guarda riu. – Pois que nada! Vi o tal Ladrão de Casaca de relance. Havia roubado um castiçal. Um frangote, era o que era! Mas extremamente ágil, tal como um gato! Se locomove pelas sombras! Uns dizem que é um bruxo, mas tenho lá minhas dúvidas...

E continuou a contar mais casos envolvendo Lupin. Alguns claramente exagerados, só para impressionar Ettie, mas ela já havia estudado a curta, porém considerável, carreira de ladrão de Arsène Lupin. Achava impressionante que um rapaz de vinte anos já tivesse adquirido tal fama, e mesmo que soasse negativo, Ettie não conseguia deixar de esconder uma leve admiração pelo que fazia. Especialmente a respeito dos roubos que o tornavam quase que um Robin Hood: roubando dos ricos – mas nada de distribuir aos pobres. Até onde sabia, seu filho usava dos valores obtidos para esbanjar com farra, viagens e tudo mais que afagasse seu ego. Mesmo assim, não conseguia esconder uma pequena admiração. Holmes certamente a trucidaria se soubesse disso...

-Pois me conte, ainda há algum retrato dele nessa casa?

-Infelizmente, não. O patife destruiu qualquer coisa que o retratasse. Havia uns retratos, pinturas, do tempo em que ele era rico... Mas ele destruiu tudo. Decerto para que ninguém soubesse seu verdadeiro rosto. Mas o pessoal da vila o conhecia muitíssimo bem. Mas não o suficiente para ajudar a polícia. Tinha só uns quinze anos quando foi embora de vez.

Entrar naquela casa seria inútil, concluiu Ettie. Talvez o melhor caminho fosse ir até a tal vila que o policial havia contado, e procurar por alguém que pudesse falar mais a respeito dos antigos ocupantes desse vinhedo. Ainda que a curiosidade de conhecer melhor Arsène falasse mais alto, Ettie sabia que precisava se concentrar em descobrir a ligação de Josephine com aquele vinhedo. Por enquanto, nada de concreto tinha. Sabia que a enfermeira havia pedido demissão do hospital para virar governanta de um vinhedo de Bordeaux. Uma incrível coincidência, se considerar que Arsène Lupin viera justamente desse lugar... Algo lhe dizia que estava perto, muito perto.

A vila era pequena, bucólica. Porém, bastante próspera. A fama do vinho parecia movimentar bem o comércio local. Adegas e mais adegas disputavam clientes, muitos deles estrangeiros que iam até Bordeaux à procura de seus famosos vinhos. Ettie se hospedou em um dos melhores hotéis da região e, sem escapatória, decidiu se render aos afamados vinhos desse lugar.

-Teria por gentileza um vinho produzido pelos... Er... – tentava se esforçar Ettie em dizer o vinhedo que acabara de visitar. Passara quase um ano na França, e mesmo assim não havia se familiarizado com aquela língua estranha e enrolada dos franceses. O jeito foi recorrer a uma pequena anotação que conseguira em Paris, em sua investigação. – Er... Santo Cruz do Monte?

-Sainte-Croix-du-Mont, quer dizer a mademoiselle? – questionou-lhe o maitre do hotel, num esforço quase que homérico para entender o que ela queria dizer em seu péssimo francês. Ao ver o assentimento da inglesa, o rapaz sorriu. – Como não poderíamos ter aquele que um dia já foi o melhor vinho dessa região! Ótima escolha! Mas já aviso que é um dos vinhos mais caros de nosso menu...

-Oh, mas eu não me importo nem um pouco! Pode trazer uma garrafa para mim e me servir, por favor! Na verdade... Melhor... Traga-me apenas uma taça! Não posso beber muito. Sabe, recomendações médicas...

-Compreendo, mademoiselle. Um instante que irei trazer o vinho. Qual prefere?

-Prefere o quê? – estranhou Ettie, sem compreender o que queria dizer o maitre. Este que, por sinal, parecia mais confuso até do que ela.

-O tipo de vinho, mademoiselle. Esse vinhedo produzia vinho seco, suave...

-Ah... – compreendeu a inglesa. Para ela, que bebera sempre um vinho barato nos pubs ingleses, vinho era sempre vinho. Sequer sabia que havia tais diferenciações. Mas recordando-se das casas de gente rica que trabalhava... Sim, havia sim. Mas sequer fazia ideia para quê serviam essas categorias. Por isso, preferiu o caminho mais fácil. – Acho que vou seguir sua sugestão.

O maitre lhe sorriu, graciosamente.

-O que pediu para o almoço?

Ettie olhou para seu próprio prato.

-Pato ao molho de laranja. Pelo menos, foi o que o garçom me explicou...

-Mademoiselle fez uma ótima escolha! Esta é uma das especialidades da casa. Pois penso que sei com que tipo de vinho Sainte-Croix-du-Mont ele irá combinar melhor... Um instante, que trarei sua bebida...

Não demorou muito até que o maitre voltasse. Trazia uma garrafa de vinho e também uma taça. Deixando-a pela metade, arqueou um pouco a bebida e por fim a cheirou.

-Mademoiselle, lhe apresento com muito gosto um legítimo vinho Sainte-Croix-du-Mont. Este é de uma safra especial, vendida por título de Divvino Superiore, envelhecido por 12 meses nas adegas da Sainte-Croix-du-Mont. É um vinho encorpado, com um paladar envolvente que trará harmonia ao seu prato. E deixei-o em uma taça especial, do tipo Bordeaux, para que mademoiselle possa sentir melhor sua potência.

A apresentação daquele vinho pelo maitre carregava tanta emoção que Ettie sentiu-se até encabulada em beber tamanha bebida. Como se fosse indigna de apreciá-la.

-Não se preocupe, mademoiselle. O conteúdo dessa taça não é o suficiente para embriagá-la. – buscou encoraja-la o maitre, ao vê-la hesitante. Ettie assentiu. Pegando a taça com a ponta dos dedos, bebericou da bebida, e subitamente se maravilhou.

-Acho que jamais bebi algo tão bom assim! – reconheceu, dando mais um gole.

-O vinho Sainte-Croix-du-Mont dá esse efeito na maioria das pessoas. Uma pena que a produção tenha sido descontinuada, o que torna cada garrafa remanescente de seus áureos tempos ainda mais preciosa.

-Espere... Descontinuada?! Quer dizer que não produzem mais vinho?

Apesar de saber da verdade, Ettie achou melhor se fazer de desentendida para avançar melhor naquela conversa. Claramente o maitre tinha paciência para com ela e seu francês horrível, o que era um milagre. E o hotel estava vazio. Sem dúvida, uma boa oportunidade para sondar melhor sobre o vinhedo dos Lupin.

-Infelizmente, sim. Parece que as terras perderam a vitalidade. Quase como se tivessem esgotado a vida depois da morte do falecido Mounsier Lupin...

-Você está se referindo ao pai de Arsène, não é? Quero dizer... Do famoso ladrão francês de que falam os jornais, não? Como é o nome dele mesmo... Arsênico...

-Arsène Lupin, mademoiselle.

-Ah sim, Arsène Lupin. – de imediato corrigiu-se Ettie. Por mais que não conhecesse Arsène, nem ao menos tivesse certeza de que ele era seu filho, sentia-o tão próxima dele a ponto de trata-lo com intimidade.

O maitre olhou para os lados, cautelosamente.

-Sim, ele mesmo. O famoso “Ladrão de Casaca”, como dizem os jornais. Era o herdeiro do vinhedo que justamente produziu o vinho que está em sua taça. Meu pai inclusive trabalhou naquelas terras, e devo admitir que tornei-me maitre de tanto conviver com os vinhos de lá... Não é para me gabar, mas devo confessar que sou o maior especialista em vinhos Sainte-Croix-du-Mont!

-Mas que notável coincidência! – exclamou Ettie, contente com aquela revelação. – Espero que o senhor não me julgue, mas... Eu sou muito fascinada pelas histórias de Arsène Lupin! Inclusive estou conhecendo Bordeaux por causa dele, devo reconhecer. Sei o que o que ele faz é errado, mas... Não sei, acho que essa ideia de termos um Robin Hood a andar pela França é muito excitante! Adoraria que me contasse mais histórias... Minhas amigas inglesas morreriam de inveja de mim, por saber que estive tão perto desse afamado criminoso!

O maitre serviu a Ettie mais uma taça de vinho. Olhou para os lados novamente. Para seu alívio, Ettie era a única cliente no restaurante do hotel. Não era de se estranhar, afinal passava das quatro da tarde.

-Pois eu conheço muitas histórias de Arsène... Para começo de conversa, a respeito de quando ele nada mais era que um fedelho qualquer, que deixava as meninas desta vila completamente loucas por ele! Ah, bons tempos... Quem diria que aquele menino atrevido e galanteador se tornaria um ladrão, não é mesmo? Mas sabe, devo dizer que ele não é má pessoa. Nem ele, muito menos o pai dele, o falecido Mounsier Lupin, apesar dos boatos que circulavam, bem... Sobre o passado dele. Dizem que era um bandido, que surgiu por essas bandas com os bolsos cheios de dinheiro, sabe-se lá como... Mas que coisa a minha! Não devemos julgar os mortos, não é mesmo? Bom, acho que é impossível falar de Arsène sem falar do dia em que ele...