Londres, Inglaterra. 24 de Novembro de 1911.
221-A, Baker Street.
Donald Hudson caminhava em Baker Street, desviando da chuva, apressado para voltar para casa. Maldita cidade, pensava. Nunca gostou de Londres, mas as forças das circunstâncias e do destino o levaram até aquela cidade cinzenta outra vez, e o que é pior, em definitivo. Era marinheiro experiente, trabalhava em um navio de pesca e residia no Brasil, mas com o falecimento da mãe, caiu em seu colo a oportunidade de simplesmente administrar aquele prédio de dois andares, na famosa Baker Street de Sherlock Holmes, e ganhar uma renda bem melhor do que a que recebia fedendo a peixe. E no fim, precisava admitir, morar em Londres poderia representar a seus filhos, Michael e Patrick, um futuro melhor que ele e sua esposa poderiam ter tido. Mesmo que não fosse lá o mais simpático com Londres, precisava reconhecer que a cidade tinha universidades bem melhores que no Brasil, sem mencionar as oportunidades que poderiam surgir aos rapazes. Amava os meninos e sentia que precisava impor certos sacrifícios por eles.
Abriu a porta de casa, aliviado. Deixou seu sobretudo preto e envelhecido sobre o cabideiro e de imediato notou um buraco. Como morador de um bairro londrino, sabia que precisava estar melhor vestido, do contrário acabaria sendo desprezado. Não estava mais em uma cidadezinha pesqueira e pequena da costa brasileira, mas no coração do Império Britânico. Era assim que as coisas funcionavam ali, ele sabia, e precisava se adequar. Mais tarde, procuraria um alfaiate para adquirir roupas melhores.
-Conseguiu achar o seu tabaco, amor?
Donald sorriu. Era sua esposa. A julgar pelo cheiro, estava preparando algo delicioso, como sempre.
-Graças aos Céus, sim! Fumo esse tipo de tabaco desde meus quinze anos e seria muito difícil me adaptar a outro a essa altura da minha vida. Realmente, é como dizem, se encontra de tudo em Londres. Aliás, onde estão os meninos?
-No quarto, brigando para decidir quem fica com a cama perto da janela de novo.
-De novo?! Sabe, nem parece que são dois rapazes com quase vinte anos de idade! – resmungou Donald, sentando-se ao sofá. Deparou-se de imediato com uma foto de sua mãe, ao lado de seu pai, e também outras fotos dos dois. Não havia ali nenhuma foto sua, nem mesmo a de sua formatura como marinheiro, e isso não o surpreendia nem um pouco. Depois guardaria em uma caixa qualquer todas aquelas fotos. Não era correto que estivessem ali, especialmente depois de tudo que ela fez com sua esposa.
-Dê um tempo a eles, Don. Ainda não se acostumaram com esse apartamento. É muito menor que nossa casa, não tem jardim ou quintal... E foi um choque para eles, perceberem que terão de dividir um mesmo quarto. Mas com o tempo eles se acostumam com a ideia, talvez até gostem daqui.
Donald sorriu.
-Você tem mesmo uma paciência de Jó, amor. Aliás, foi hoje que combinamos de falar com o Mr. Sherlock Holmes, lembra-se?
Silêncio foi tudo que Donald ouviu de sua esposa, mas ele a conhecia bem o bastante para saber que tal fato a desagradou profundamente.
-Tem certeza de que a minha presença é necessária, Don?
-Mas é claro, amor! – insistiu Donald Hudson. – Você será a nova senhoria daqui! Em breve arranjo um emprego e quem terá de assistir aos inquilinos será você! Eles precisam te conhecer!
Don ouviu sua mulher suspirar da cozinha.
-Eu não sei se isso vai dar certo, Don. Não era melhor contratar uma empregada para cuidar desses inquilinos?
-Amor, para que vamos contratar uma empregada?! Faz alguma ideia de quanto custa uma empregada por aqui?! Tenho certeza de que você dará conta desse trabalho muitíssimo bem.
-E se eles não me aceitarem, Don? E pior, se Mr. Sherlock Holmes não me aceitar por causa... por causa da minha cor?
Donald bufou, um tanto irritado. Pelo visto, a adaptação dela a Londres não seria nada fácil. Ainda na cozinha, ela continuou.
-Não deveríamos ter deixado nossa casa no Brasil. Já foi tão difícil ter me acostumado aquele lugar, às pessoas terem se acostumado comigo... E agora estou nessa cidade enorme, precisando lidar com esses moradores riquinhos e arrogantes. Não li os tais livros desse Sherlock Holmes, mas já ouvi falar que ele é um homem estranho e cheio de manias. E se ele não me aceitar como senhoria? Se ele abandonar Baker Street por nossa causa?! Não quero ser um fardo para você, Don.
Donald levantou-se do sofá. Caminhou até a cozinha e, como imaginara, encontrou sua esposa com os olhos repletos de lágrimas. Odiava fazê-la sofrer, mas era necessário.
-Você nunca será um fardo para mim, amor. Eu amo você exatamente do jeito que você é. – disse, acariciando seu rosto e dando-lhe um beijo. – Agora, vamos aprontar esse almoço e leva-lo até o Mr. Sherlock Holmes. Achei o caderno de minha mãe e está anotado aqui todo o horário de refeições de cada apartamento. O de Mr. Holmes é o primeiro a ser servido, e precisará ser pontualmente às... Treze horas e quinze minutos! Por Deus! Só temos alguns minutos!
A mulher bufou.
-Odeio essa maldita pontualidade britânica! Don, mova essa sua bunda gorda e me ajude! Pegue os pratos! Ah, e a bandeja também! Rápido!
Quando terminado de preparar a refeição, Donald entregou-lhe a bandeja.
-Consegue subir as escadas sozinha com uma bandeja cheia desse jeito, amor?
-Já subi escadas bem piores do que essa, Don, e com bandejas ainda mais pesadas. – disse a mulher, subindo as escadas na frente de seu esposo. Parou diante do apartamento, com a numeração 221-B acima. A famosa residência do detetive mais famoso do mundo, pensou. Nunca teve a menor curiosidade em conhece-lo, em especial porque conhece-lo exigia encontrar sua falecida sogra, o que lhe era um enorme dissabor. Mas agora, sabia que não deveria misturar as coisas. Don estava certo. Muitos britânicos pensavam como Mrs. Hudson, isso era fato, mas não era por isso que ela deveria fugir de todos eles.
Donald bateu a porta duas vezes, até o detetive em pessoa abri-la. Como todo britânico, estava elegantemente vestido o tempo todo. Trajava um terno negro, com uma gravata também preta, mas o que mais lhe chamou a atenção foi o forte cheiro de um produto químico que exalou de seu apartamento, tão logo a porta foi aberta. Porém, preferiram nada comentar. Nas poucas correspondências que trocou com sua mãe, lembra de ter lido os comentários dela sobre seu mais ilustre inquilino e também do seu jeito peculiar de viver, repleto de extravagâncias, a começar por sua profissão nada comum de “detetive consultor privado”. Teria que se acostumar com todas elas, pensou.
-Entre, Mr. Hudson. – disse, abrindo a porta. Antes de entrar, Donald e sua esposa se entreolharam, catatônicos. Como diabos ele sabia quem ele era? Mesmo abismado, entrou primeiro, e em seguida veio sua esposa, a carregar a bandeja. Depositou-a sobre uma pequena mesa de jantar, que deveria ser utilizada por ele. Olhou ao redor da casa. Por sorte, o ambiente estava até um pouco limpo, com a exceção de um objeto ou outro fora de lugar.
-Sentem-se, por favor. – pediu Holmes, enquanto sentava-se em uma poltrona oposta. Mais uma vez, o casal se entreolhou, abismado. Ao ver sua reação, o detetive sorriu.
-Pensou que eu ia confundir sua esposa com alguma empregada, Mr. Hudson? – retrucou Holmes, sem qualquer delicadeza. Ainda que seu gesto tivesse sido positivo, Donald tomou-se de susto. Não era essa a percepção que os outros tinham. Apresentar sua esposa quase sempre requeria ter de explicar quem era ela de fato.
-Perdoe-me, senhor. É que... Já estou acostumado com os julgamentos. – explicou Donald, sentando-se ao sofá e sendo acompanhado por sua esposa, que também parecia impressionada. Holmes já viu olhares assim sendo lançados sobre ele antes. Geralmente, as pessoas que se impressionavam assim atribuíam a suas habilidades de dedução a algo sobrenatural, por isso sempre demandava uma explicação mais sucinta quanto a elas.
-Vocês utilizam a mesma aliança no dedo anelar esquerdo, e sua esposa usa um vestido de qualidade boa demais para pertencer a uma empregada. Seria estupidez considera-la como sua mera empregada apenas por causa da cor de sua pele. Aliás, como se chama?
-Yolanda Hudson, Mr. Holmes. – disse a mulher, ainda roçando os dedos sobre a aliança de ouro que usava na mão esquerda, como se estivesse só agora processando tudo que havia descoberto com tão pouco.
-As boas convenções exigiriam que eu a chamasse de Mrs. Hudson, mas preciso confessar que a ideia não me apetece muito. Convivi tanto tempo com sua sogra que, para mim, sempre haverá uma só Mrs. Hudson, especialmente aqui em Baker Street. Gostaria de saber, Mr. Hudson, se soaria indelicado ao senhor se eu chamasse sua esposa por seu nome de batismo.
-De forma alguma, Mr. Holmes! – respondeu o rapaz, diante dessa formalidade.
-Que bom. Fico contente com isso. E de pensar que Mrs. Hudson, mesmo com toda sua delicadeza e espírito, era tão racista... Imaginei que ela tivesse rompido relações com o senhor devido à sua saída desonrosa da Marinha Britânica.
Donald Hudson chegou a suspirar, de tão surpreso com outra revelação.
-Como diabos sabe disso?! – enervou-se o homem, sendo contido por sua esposa. – E não me diga que minha mãe contou isso, pois sei que ela nem gostava de tocar neste assunto!
-Antes de vir para Baker Street, eu investiguei sua mãe. Creio que o senhor compreende, Mr. Hudson, que a natureza de meu trabalho exige que eu tome certas... Precauções, em especial para o lugar que seria minha casa, por isso investiguei a fundo a vida da falecida Mrs. Hudson, e por consequência de sua família. Sei que você representa a quarta geração de marinheiros, ou melhor, representava até ter sido expulso da Marinha Britânica por conduta... Como dizia o relatório...
-“Conduta escandalosa”, eu sei. Mas foi devido ao meu casamento com Yolanda.
-Na época, pensei em muitas coisas desonrosas, mas tão logo pus os olhos em sua esposa, imaginei ter sido este o caso. Há muito racismo nos altos escalões da Inglaterra. Mas diga-me, como vocês se conheceram?
-Eu a conheci no Brasil, quando estive por lá em missão pela Marinha Britânica. Ela trabalhava na casa de um oficial brasileiro no qual me hospedei e... Nós nos apaixonamos. Mas ela era uma escrava, assim como seus pais e avós, e o “dono” dela quis... Me vende-la. Desculpe, mas só de pensar em ter que comprar um ser humano já me sinto enojado, mas foi necessário fazer isso para tirá-la daquele maldito lugar e finalmente alforriá-la, libertá-la da escravidão. Meu comandante não gostou quando soube que nos casamos em uma igreja católica no Brasil e tratou de me expulsar da Marinha ali mesmo, pelo que classificou de “conduta escandalosa”. Como trabalhar no mar era tudo que sabia fazer da vida, acabei por ficar no Brasil e arranjei trabalho no porto. Moramos em muitas cidades, e infelizmente preciso dizer que minha união com Yolanda foi malvista na maioria delas. Estávamos no Rio de Janeiro quando soube da morte de minha mãe.
Holmes parecia reflexivo.
-Sua mãe afastou-se de você por conta de sua esposa, então. Por isso ela sempre falou tão pouco a seu respeito, muito menos dela. Eu nem mesmo sabia que Mrs. Hudson tinha netos!
Tanto Donald quanto Yolanda se entreolharam. Coube a Yolanda falar.
-Uma vez, ela nos visitou no Brasil. Michael, meu filho mais velho, havia acabado de nascer, e Don insistiu para que ela nos visitasse. No fundo, Don tinha esperanças de que a perspectiva de um neto amolecesse seu coração. E ela foi. Porém, quando ela colocou os olhos em Michael... Ela disse que nunca mais gostaria de olhar para a cara dele ou de qualquer outro neto que nascesse, por causa de sua cor. Primeiro, culpou Donald e disse que ela incompetente até para dar-lhe um neto branco, e depois, disse que me odiava por eu ter gerado um macaco com o sangue dos Hudson. Imagino que o senhor deva ter muito estima pela falecida Mrs. Hudson, mas o mesmo eu não posso dizer.
-Compreendo perfeitamente, Yolanda. Em seu lugar, também romperia qualquer tipo de laço com uma pessoa dessas. E mesmo um homem tão experiente como eu, que já esteve frente a frente com o lado mais obscuro e perverso da Humanidade, não consigo deixar de me espantar com algo tão estúpido como o racismo. Quanto à bondade que Mrs. Hudson sempre teve para comigo... Enfim, todos nós temos um lado oculto, onde escondemos do mundo o que há de mais podre em nós, e eu já me deparei com tantas pessoas assim em meu ofício que nem consigo me surpreender.
Por fim, Holmes levantou-se.
-Bom, fico muito feliz em ver que Baker Street tem novamente uma senhoria! E a julgar pelo aroma do almoço, uma boa cozinheira! Já não aguentava mais ter de recorrer à comida de restaurante para minhas refeições!
O comentário jovial de Holmes aliviou mais os ares. Como sempre, o detetive sabia a melhor forma de quebrar o clima diante de um assunto tão pesado. Mrs. Hudson estava morta e não valia mais a pena ficar remoendo os erros da falecida. O casal se despediu, com uma enorme cara de alívio a estampar seus rostos, deixando o detetive sozinho com sua refeição. Tratava-se de torta de cordeiro, o que muito lhe agradou.
A visita dos Hudson foi inesperada, mas no fundo foi boa para estimular seu cérebro, outra vez embarcado em mais uma rotina de tédio. Estava perto de completar cinco dias sem receber mais enigmas de Arsène Lupin. Desde que conseguira “derrota-lo” no caso envolvendo os quadros de Vernet, o Ladrão de Casaca simplesmente desapareceu. A pista havia esfriado tanto que o Inspetor Ganimard mandou um telegrama, contando que estava retornando à França atendendo o pedido de sua força policial. Mas Holmes sabia que toda essa inquietude de Arsène Lupin era algo temporário, e muito em breve o ladrão apareceria novamente, com mais um enigma para colocar o detetive à prova. Sem dúvida estava tramando alguma coisa, algo provavelmente ainda mais grandioso que da última vez que aprontara, o que requereria certo tempo.
Havia terminado o almoço e voltara mais uma vez aos seus aparatos de químico. A falta de provas o fez se voltar às outras atividades. Uma delas o ocupava há semanas: a criação de um fumegador mais efetivo. Enquanto pesquisava sobre Apicultura, descobriu que a fumaça dos fumegadores, usado para acalmar abelhas e permitir a extração de mel, costumava aderir no mel, o que prejudicava na produção. Holmes tivera umas ideias e estava preparando um artigo acadêmico, mas o caso de Arsène Lupin acabou por interromper seu trabalho. Agora, com o ladrão quieto, poderia voltar a se debruçar sobre esse problema. Por quanto tempo, ele não sabia.
Alguém batia à porta. Holmes levantou-se para abrir, torcendo para que fosse alguma pista nova à sua frente. Era o Inspetor Lestrade Jr., o que era um bom sinal.
-Boa tarde, Mr. Holmes. Interrompo alguma coisa?
-Nada de muito relevante, inspetor. – disse Holmes, desativando seu experimento químico. Isso não impediu que um pouco de fumaça branca se alastrasse pelo ambiente. Estava tão acostumado às reações químicas de seus experimentos que nem se afetara, mas o mesmo não poderia ser dito do pobre inspetor à sua frente, incomodado com aquele ambiente. Chegou a tossir um pouco, obrigando o detetive a abrir as janelas, para ver se um pouco da fumaça ia embora.
-Detectamos um dos nomes da sua lista de anagramas, Mr. Holmes. Trata-se de Luís Perenna, um pianista. Apresentou-se como sendo de Lisboa à renomada Companhia de Teatro Belga, que irá se apresentar esta noite no Saint James Hall. Ele esteve ensaiando por todos esses dias com eles, coincidentemente logo após o senhor resolver a questão dos quadros de Vernet.
-Quem será que ele precisou seduzir para conseguir um lugar nessa Companhia? – questionou Holmes, com leve zombaria.
-Pelo jeito, recorreu a outro tipo de artimanha dessa vez, Mr. Holmes. Disseram que ele toca piano absurdamente bem e que passou no teste imediatamente.
-Que me recorde, o dossiê do Inspetor Ganimard realmente mencionava que ele era um exímio músico. Precisamos admitir que é um rapaz de múltiplos talentos, com uma capacidade absurda de se camuflar, o que só torna o nosso trabalho desafiador.
-E difícil. – acrescentou o jovem inspetor.
-Mas o desafio consiste nisso, meu caro inspetor. Se fosse fácil, seria apenas fácil.
De pé, a dar alguns passos dentro do apartamento de Holmes, chamou a atenção do jovem inspetor um violino de aspecto envelhecido, deixado sobre a mesa de centro do lugar.
-Que curioso, o Diretor da Companhia tinha um violino exatamente igual a esse.
-Deve ser um Strativarius, assim como o meu. Um violino de excepcional qualidade e valor inestimável. De pensar que comprei meu violino por uma bagatela.... Bom, voltando ao assunto. O que mais conseguiu descobrir sobre esse pianista?
O rapaz entregou a Holmes uma espécie de retrato-falado.
-Consegui um depoimento do Diretor da Companhia e ele está disposto a colaborar. Inclusive descreveu para um de nossos homens, especialista em desenho, o rosto exato do patife. E aqui está.
Holmes observou o papel com atenção. Depois sorriu.
-O Inspetor Ganimard tinha uma pasta com inúmeros desenhos assim. Todos relatos de vítimas ou pessoas que tiveram contato próximo com ele, em seus ataques. Nenhum batia com o outro, e sabe porquê? Porque o sujeitinho é um mestre do disfarce. Temo que este não seja o seu verdadeiro rosto. Aliás, aposto que o mesmo não o usa para agir.
-Mais um pouco e serei obrigado a concordar com o que os jornais dizem. Que ele tem algum tipo de pacto com o demônio ou coisa pior, que o faz mudar de rosto como bem entende. Ou até mesmo ficar invisível!
Holmes riu. – Quando não se acha uma explicação plausível no campo terreno, procura-se no sobrenatural. Não, meu caro inspetor. Não há qualquer tipo de bruxaria aqui. Só esperteza e... Talento.
O inspetor guardou o retrato-falado no bolso de seu paletó.
-Estaria o senhor... Admirando-o? Um homem que está determinado a destruí-lo?
Holmes deu de ombros.
-Reconhecer as capacidades de um adversário não é de todo errado. Mas o que haveria nesse teatro a ponto de despertar o interesse dele?
Lestrade Jr. deixou escapar um suspiro cansado.
-Quão familiarizado está o senhor a respeito da Família Real, Mr. Holmes?
-Não muito. Tenho alguns membros da Realeza catalogados, mas apenas os mais relevantes. E também já trabalhei à serviço de uns deles, mas não posso entrar em detalhes quanto a natureza de meus negócios, o senhor deve compreender. Por que pergunta?
-A princesa Catherine de Orleans, prima de segundo grau da Rainha Vitória. Ela é uma senhora muito reclusa, desde o falecimento do marido, e costuma aparecer em público raras vezes.
-Não me diga que ela decidiu comparecer a esse espetáculo no Saint James Hall...
O inspetor deu de ombros.
-Ela foi o primeiro nome a ser dito pelo Diretor da Companhia como razão para não cancelarmos o evento. Irão apresentar uma ópera chamada “Ainda”, que é um dos favoritos dela...
-Espere... “Aida”?! Por Júpiter, como não enxerguei isto antes?!
-Isto o quê, Mr. Holmes?
-A ópera “Aida", de Giuseppe Verdi... Mas é claro! A pista estava completa por todo este tempo e eu não percebi... Ao menos, não prontamente. Aquela clave de sol na pintura... A pista de Lupin não era sobre o quê ele roubaria, e sim, onde ele roubaria... Notável.
-Não estou entendendo, Mr. Holmes. O que a ópera de um italiano tem a ver com a pista de Arsène Lupin?
-“Aida” é uma ópera que se passa no Egito Antigo, meu caro. E a pintura roubada por Arsène Lupin é nada menos que “O Manto de José”. E em qual lugar este personagem bíblico se destacou com grande proeminência?
Lestrade Jr. pigarreou, nervosamente.
-Devo admitir que não sou um cristão dos mais aplicados...
-Muito menos eu. Mas isto não me impediria de saber que José se tornou governador do Egito, segundo os livros de Moisés. Não entendo o espanto...
-É que... Os livros a seu respeito diziam que...
-Sim, que eu não sabia que a Terra girava em torno do Sol. Outro exagero de Watson. Claro que não sou uma enciclopédia viva de absolutamente tudo, mas saber os aspectos básicos de uma religião que é seguida pela maioria das pessoas é capital para minha profissão. Nunca se sabe se um criminoso poderá fazer de tamanho conhecimento, ou fé... Enfim, continue seu relato a respeito dessa princesa teimosa, Mr. Lestrade Jr....
O jovem oficial pigarreou, dando continuidade.
-Bem, é que a mulher já é bastante idosa e alega que talvez não esteja viva quando essa companhia aportar em Londres da próxima vez, e eles já tem outros espetáculos marcados pela Inglaterra. Por isso não podem alterar a data.
Holmes estava de pé, a caminhar de um lado a outro, pensativo.
-E irá comparecer trajando alguma joia, eu presumo.
-Sim. Essa joia se chama “Coração da Normandia” e está há séculos em sua família. Trata-se de um colar com pedras de rubi. É bastante raro de se ver em público, pois vive trancafiado em sua casa, em um dos cofres mais seguros da Europa.
-E para saber disso, imagino que já procurou essa princesa.
O jovem concordou. – Sim. Conversei com o irmão dela, na esperança de dissuadi-la de ir nesse evento, ou de pelo menos não trajar essa joia, mas nenhum deles quis me dar ouvidos. Disseram que isso não era problema deles.
-Típico da realeza. – comentou Holmes. – E o assento da princesa?
-Ela tem uma cadeira permanente, em uma sessão especial do teatro.
-Troque-a de lugar. Peça para o teatro inventar um pretexto qualquer para transferi-la para o outro lado do teatro.
O jovem engoliu em seco.
-Mas o outro lado do teatro é onde fica reservado o assento do Rei!
-Mais um motivo para essa princesa concordar com a troca e inclusive ficar satisfeita com ela. Por mais difícil que possa parecer, inspetor Lestrade Jr., precisamos dificultar o trabalho de Lupin o quanto pudermos. E peça também para que a segurança nessa área especial seja reforçada.
Lestrade Jr. assentiu, ainda que um tanto abnegado com o pedido difícil de Holmes. Não à toa seu velho pai se irritava tanto com o detetive.
-Bom, se Lupin realmente irá se apresentar nesse teatro essa noite e ainda não sabe que estamos cientes disso, o melhor a se fazer será encurralá-lo. Precisamos manter a discrição essa noite. Para isso, meu caro inspetor, eu conto com o senhor. Separe ao menos cinco de seus mais fiéis e reservados policiais e me encontre nos fundos do teatro, cerca de uma hora antes do espetáculo. Se cercarmos todas as saídas, estaremos com Lupin em nossas mãos. Ah, e vista uma roupa de gala, pois precisaremos nos misturar junto à multidão.
Lestrade Jr. assentiu, despedindo-se de Holmes. Com o detetive sozinho mais uma vez em Baker Street, coube à Holmes voltar-se à lousa, onde o “placar” contra o ladrão estava escrito. De um lado, “Sherlock Holmes”, do outro “Arsène Lupin”, os nomes divididos por uma linha em giz. Até o momento, o algarismo romano I estava em cada um dos lados. Para qual deles iria o próximo I?
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