Londres, Inglaterra. 14 de Dezembro de 1911.

Residência do Dr. Watson



-O que aconteceu? Caíram da cama hoje?

Dr. Watson se surpreendeu. Como costume, era sempre o primeiro a estar de pé em sua casa. O primeiro a se levantar, a se vestir, a tomar café. Pouco a pouco seus filhos apareciam, sendo Agnes sempre a última a comparecer à mesa de café. Mas dessa vez, algo surpreendente aconteceu. Todos já estavam à mesa antes dele. O dia mal havia raiado, o que tornava tudo ainda mais estranho.

-Hoje tem treino de football, papai. – explicou-lhe Peter.

-Mas tão cedo assim? – estranhou Watson. Ouviu seu filho suspirar.

-Está havendo uma briga daquelas pelo gramado, papai. Os mais velhos querem mandar em tudo, e não querem deixar que pessoas de minha idade joguem.

-Mas que lástima, meu filho! Mas quem administra esse gramado? Se quiser, posso conversar com ele, quem sabe organizar melhor esses horários para que todos possam jogar...

-Melhor não, papai. Iremos resolver isso, mas será do nosso jeito. – retrucou Peter, claramente não querendo seu pai envolvido. Decerto para evitar represálias, ou ser motivo de chacota para os outros meninos. Watson não conseguiu conter um sorriso. Seu menino estava crescendo, e já queria tomar atitudes de adulto.

-Desde que não resolvam isso com socos... – aceitou Watson, deixando inclusive um alerta no ar. Como pai, sabia que precisava dar bom exemplo, muito embora precisasse admitir que, na idade de Peter, resolveu muitos problemas na base da pancadaria. Não queria seu filho, entretanto, enveredado nesse caminho.

Voltando seus olhos a Agnes, Watson não conseguiu deixar de se perguntar que razões levavam sua filha a estar de pé tão cedo quanto os meninos.

-E você, Agnes? O que a fez levantar-se tão cedo essa manhã?

-Eu vou acompanhar Peter no treino. – respondeu a moça, com bastante segurança. Tanto Peter quanto Charles não pareciam gostar nada dessa ideia.

-Não sei o que vai fazer lá. Mulheres não entendem nada de football.

-Mas que bobagem, meu filho! – retrucou Watson. – Qual é o problema de sua irmã acompanha-los? Se bem me recordo, há arquibancadas naquele gramado que você costuma treinar. Ela pode muito bem assistir vocês treinando.

-Pois é, papai. Parece que só os homens dessa casa têm o direito de se divertir, de sair um pouco... Enquanto eu sou obrigada a permanecer trancafiada nessa casa!

-Nada disso, Agnes. Você pode ir com eles, sim. Tem a minha autorização. E ai daquele que me desafiar! – alertou Watson. Após receber um silêncio de assentimento por parte de seus filhos, Watson voltou-se ao seu café da manhã. Nacy havia caprichado na refeição. Ovos fritos, torrada, linguiça frita... Era uma ótima maneira de começar bem o dia.

Estava terminando de beber seu café quando Nancy lhe entregou o jornal. De tão entretido com a conversa, sequer havia dado falta pelo jornal em sua mesa, como costumava ficar todas as manhãs.

-Perdoe-me a demora, Dr. Watson, mas o menino jornaleiro disse que as edições esgotaram e ele precisou buscar mais na gráfica.

-Ora essa, mas já tão cedo do dia e o jornal acabou? Mas o que estaria na capa dos jornais a ponto de fazê-lo esgotar-se tão depressa assim? Vejamos... Por Deus!

Watson engasgou-se com o café. Com os olhos arregalados, fixados sobre a manchete de primeira página, logo foi socorrido por seus filhos Charles e Peter, preocupados com a tosse engasgada de seu pai e seu semblante avermelhado pelo sufoco. Agnes também levantou-se para ajuda-lo, mas tão logo seus olhos voltaram-se à manchete, compreendeu a magnitude do que havia deixado seu pai em tamanho estado.

-Santo Deus... Tio Sherlock já sabe disso?

-Impossível não saber. Está no The Star. É um jornal que ele lê todos os dias, assim como o papai. – admitiu Charles, também abismado.

-Quem diria que tio Sherlock seria capaz disso... – comentou Peter, mordazmente. Seu comentário não passou despercebido por Agnes, que de pronto desferiu em seu irmão mais novo um tapa no ombro.

-Não percebe que isso é fofoca de jornal, Peter? Óbvio que tio Sherlock seria incapaz de agir dessa maneira!

-Não sei, minha irmã... É como dizem, “onde há fumaça, há fogo”.

Agnes preferiu nem retrucar. Peter representava na verdade uma boa parte dos leitores daquele jornal, preferindo já julgar o detetive tendo por referência apenas uma manchete. Manchete esta infame, por sinal. Se estivesse no lugar de Holmes, sua primeira providência seria procurar um advogado.

-Nancy, peça à minha secretária que desmarque todas as consultas do dia. Absolutamente todas, entendeu? – ordenou Watson, que para desânimo de seus filhos, levantou-se da mesa imediatamente e saiu arrastando o jornal consigo. Estava aturdido, é claro. Não era difícil adivinhar para onde ele estava indo. Certamente para Baker Street. Sherlock Holmes deveria estar precisando de todo apoio possível em momento tão delicado.

-Bom, é melhor irmos para o treino. Se nos atrasarmos só um pouco, aqueles imbecis não vão nos deixar jogar. – concluiu Peter, dando aquele assunto por encerrado.




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Havia acabado de amanhecer quando o cabriolé desembarcou Holmes na porta de sua casa, em Baker Street. Estaria mais cedo em casa, se não fosse por insistência de seu irmão Mycroft para que ele tomasse café consigo. Um café farto, que mais parecia um banquete. Ettie sem dúvida ficaria abobada com tanta coisa para comer disposta naquela mesa. Ettie... Era estranho como vez ou outra ele acabava por inclui-la em coisas tão banais de sua vida. Havia reencontrado Ettie há tão pouco tempo, e mesmo assim, era como se não fosse mais capaz de enxergar sua vida sem que ela estivesse presente.

Estava a procurar a chave da porta em seus bolsos quando a porta se abriu. Era Yolanda, acompanhada de seus filhos. Um deles trazia uma pequena mala em suas mãos. Pela hora, Yolanda deveria estar indo na padaria, e um de seus filhos para alguma de suas atividades matinais.

-Bom dia, Mr. Holmes. Não sabia que esteve fora essa noite...

-Precisei atender a problemas familiares essa noite, mas já está tudo resolvido. – explicou o detetive à sua senhoria.

-Folgo em saber que esteja tudo bem. Bom, eu só queria que soubesse que eu não tive absolutamente nenhum envolvimento com o que houve...

-Do que está falando, Yolanda? – perguntou Holmes, confuso. Ela parecia constrangida com algo, isso era nítido. Mas o que poderia ser?

-Está nos jornais. O senhor não viu?

-Receio que não. Saí da casa de meu irmão muito cedo, antes que o mordomo dele comprasse as edições matinais. Não tive tempo de ler qualquer jornal ainda.

-Está no The Star, Mr. Holmes. Estão falando que o senhor...

Antes que Michael contasse sobre a manchete, foi impedido por sua mãe, a dar-lhe uma nem um pouco discreta cotovelada no braço. Não foi forte, mas foi suficiente para que o rapaz se contivesse.

-Já disse mil vezes a você, Michael: fazer fofoca de qualquer espécie é errado. Perdoe-me pelo comportamento inadequado de meu filho, Mr. Holmes. Creio que seja melhor o senhor ver com seus próprios olhos. Deixei o jornal em sua mesa.

O menino nada fez, senão baixar a cabeça envergonhado. Holmes assentiu, deixando que Yolanda e seus filhos se afastassem. Mesmo que longe, percebia a mulher chamando a atenção de seu filho outra. Não conseguiu deixar de rir daquela situação. Por mais que não buscasse por isso, tinha consciência de que era uma figura pública, portanto alvo de curiosidades de jovens como Michael, Agnes...

Suspirou, enquanto subia as escadas. O que quer que estivesse estampado nos jornais, deveria ser grave. Tinha algumas suspeitas, entretanto, e a julgar pela reação de Yolanda, era um bom sinal.

Ao abrir a porta, seus olhos recaíram sobre a mesa, em busca da tal edição do The Star que lhe retratava na capa, tal como Yolanda havia dito. Não a encontrou. Olhou ao redor. Ettie não parecia estar à vista e o café da manhã ainda não havia sido servido, de tão cedo que ainda era. Deveria estar dormindo. Prestes a ir a seu quarto, acabou quase que esbarrando em Ettie no corredor.

-Bom dia, Ettie. – cumprimentou Holmes, educadamente. Mas em resposta, teve algo atirado contra si. Mais um pouco e teria sido acertado em cheio no rosto. Por sorte, era nada mais que um livro, a primeira coisa que Ettie teve perto de sua mão para arremessar contra ele.

-Bom dia para quem?

-Ora essa, mas isso são maneiras de me cumprimentar? – retrucou Holmes. Estaria ela ainda irritada pela melodia que tocara na noite passada? Não. Ela estava muito furiosa. Algo mais grave havia ocorrido...

-Pelo visto, não leu o jornal desta manhã, mas não se preocupe. Poderá lê-lo agora...

Dessa vez, Ettie empurrou bruscamente o jornal contra seu peito. Sim, era ele. O famigerado jornal The Star, que havia assustado Yolanda. Não estava em cima da mesa porque estava com Ettie. Abriu o jornal, um tanto amassado, e contemplou a manchete estampada em sua primeira página.

-“Sherlock Holmes assume amante e filho bastardo”. – leu Holmes a manchete principal. Como não era de seu costume participar de sessões de fotografia, usaram uma ilustração de um dos livros de Watson para representa-lo. Uma ilustração bem chamativa. Com toda a certeza, aquela edição deve ter vendido igual água no deserto do Saara...

-Então, era este o seu plano?! Expor tudo que fez a mim nos jornais, permitir que eu morasse aqui, em sua casa, para que a imprensa pudesse confirmar toda essa infame história?! Como pôde ter sido tão sórdido a ponto de me expor dessa maneira?!

-Ettie... – tentou explicar-se Holmes, mas antes que qualquer palavra fosse proferida, foi duramente estapeado. E mais tapas fortes como aquele teriam vindo, se ele não tivesse conseguido contê-la a tempo, segurando-a pelos braços. Ettie estava nervosa, e Holmes precisava admitir, com toda a razão. Ela estremecia, tentando se liberar de suas mãos. Como não conseguiu, restou debulhar-se em lágrimas.

-Você me usou de novo...

-Talvez sim, mas dessa vez foi por uma boa causa! – admitiu Holmes.

-Boa causa, é? Tal como os papéis que você roubou do cofre de Milverton, as chantagens que atirou na lareira dele, para que queimassem? Por que eu tenho que sofrer tanto para que você possa conseguir o que quer?

-Eu disse a você, Ettie... – tentou justificar-se Holmes. – Eu disse a você que o golpe fatal de Lupin em minha reputação seria me forçar a reconhece-lo como filho. Pois ele não será mais capaz de fazer isso, pois eu já o fiz, e antes dele. Admiti meu próprio erro publicamente, destruindo por completo a boa reputação que por tantos anos cultivei.

-E destruiu a minha também! Por onde eu andar, serei apontada como “Henrietta Smith, vulgarmente chamada de Ettie, uma empregada doméstica sadicamente iludida por Sherlock Holmes que foi abandonada por pertencer a uma classe social muito inferior...” – leu Ettie o trecho do jornal que referia a si. Em seguida, atirou as folhas ao vento.

-Me desculpe... – pediu Holmes, entristecido. Suspirava, ainda a conter o ímpeto de Ettie em continuar a agredi-lo. Não tinha o hábito de se desculpar. Esperava que suas palavras surtissem efeito. – Me desculpe, Ettie, mas o que fiz foi necessário para deter o ímpeto de nosso filho. Tenho certeza de que tirei de sua mão a sua carta mais preciosa e agora poucas jogadas lhe restam contra mim. Na verdade, meu plano saiu inclusive melhor do que havia imaginado. Descobri essa noite que contaram uma história bem diferente para ele do que verdadeiramente aconteceu...

-O quê?! – chocou-se Ettie. – Você o encontrou de novo?!

-Não, mas o meu irmão Mycroft sim.

-Você tem um irmão?! Dessa eu não sabia...

-Precisa ler um pouco mais os livros de Dr. Watson, Ettie. Minha vida está quase toda neles. Mas voltando ao assunto... Eu contarei a você o que descobri, contanto que você se acalme e pare de me bater...

Ettie ainda trazia o semblante enfezado, mas sua curiosidade por saber mais de seu filho a deteve. Os quatro dedos de sua mão estavam ainda visivelmente estampados no lado direito do rosto de Holmes, e isso a deixava mais satisfeita consigo mesma. Nunca havia dado um tapa tão forte em alguém, e apesar de sua mão ter ficado inclusive um tanto dolorida depois daquela agressão, se orgulhava por ter infligido dor a Holmes, ainda que nem de longe se aproximava da dor que ela sentia, pela humilhação de se permitir ser usada novamente por ele.

Após receber um assentimento de Ettie, Holmes a soltou. Ela suspirou pausadamente, numa tentativa de se acalmar, e enxugou um pouco as lágrimas que encharcaram seu rosto. Por fim, sentou-se ao sofá, em lado oposto ao de Holmes.

-Arsène Lupin esteve na casa de meu irmão Mycroft ontem. Se passou como um entregador e deixou um tapete persa, dizendo ser um “presente” de alguém que não cabe dizer aqui. Você não deve saber, mas o meu irmão Mycroft tem quase setenta anos de idade, está um tanto senil e para completar é praticamente cego...

-Meu Deus, pobre homem...

-Pois bem, ele confundiu Arsène comigo, por causa da notável semelhança física que nós dois compartilhamos. Chegou inclusive a tocar em seu rosto, para tentar me reconhecer como geralmente faz quando deixo de visita-lo por muito tempo. Graças a isso, Mycroft se equivocou. E Arsène explorou isso para obter informações, e devo reconhecer, explorou essa brecha muitíssimo bem. Os dois conversaram sobre você, Ettie.

-Sobre... Mim? – abismou-se Ettie. – Mas o que o seu irmão poderia saber de mim?

Holmes suspirou, um tanto envergonhado.

-Absolutamente tudo, Ettie. Ele foi a única pessoa que contei sobre... Bem...

Ettie não conseguiu esconder sua surpresa. Sempre se achou tão insignificante na vida de Holmes, entretanto, ele conversou a seu respeito para com seu irmão. Ettie, que já tivera irmãos, sabia que esse não era um gesto nem um pouco pequeno. Perguntava-se, internamente, o que Holmes poderia ter tratado sobre si com esse irmão de nome tão esquisito quanto o dele...

-Ele acreditava que você estava morta, Ettie. Contaram a ele que você não resistiu ao parto dele. E ele tentou sondar com Mycroft se você estava de fato viva, se ele tinha notícias suas. Penso que fez tais questionamentos porque o próprio carrega suas próprias desconfianças quanto à história equivocada que lhe contaram. Percebe agora porquê tive que me expor nos jornais? A essa altura, a história verdadeira já chegou ao seu alcance.

Mesmo com tamanha alegação, Ettie parecia inconformada.

-E por que não me contou antes sobre esse seu plano?

-Porque precisava que soasse convincente. Sabe aquele estranho cliente, que apareceu ontem? Pois bem, não era cliente coisíssima alguma. Ele se chama Karl Jordan, um jornalista de quinta categoria que vive em meu encalço. Passou quase a vida toda tentando descobrir algum podre meu, e por desejo meu recebeu o maior deles de bandeja. Ele se disfarçou de cliente para confirmar os boatos de que tinha uma mulher a viver comigo aqui em Baker Street.

-Mas como ele sabia de nossa história com tamanhos detalhes?

Holmes pigarreou. Agora, a pior parte.

-Eu fiz uma carta anônima, contando absolutamente tudo. Mandei para ele contando toda a história e inclusive deixando pistas. Nem precisei dizer muito, tendo a certeza de que ele iria atrás e descobriria todo o resto. Mas mesmo assim, essa carta não parecia ser o suficiente para ser publicada sem a certeza de um processo por calúnia e difamação. Por isso, era essencial que você morasse aqui, em Baker Street. Pois corroborou a hipótese de que você realmente se tratava de minha amante e afastou o temor dele de ser processado por mim.

-“Amante”... Ser chamada assim foi a parte mais deprimente dessa notícia. Tive meus namorados, é verdade, mas jamais fui amante porque nenhum deles era comprometido de toda maneira. Nem mesmo você.

-Me desculpe o termo vulgar... Teria sido mais honroso se tivesse simplesmente se casado comigo, mas você se recusou prontamente...

-E continuo a me recusar! Ora essa, não sou obrigada a me casar só porque dormimos juntos uma única e pavorosa vez!

Holmes aborreceu-se com a maneira mordaz como Ettie insistia em se referir à única noite em que passaram juntos. Ainda que soubesse que havia sido péssimo na cama, ouvir isso com todas as letras feria mais o seu orgulho que qualquer manchete nos jornais.

-Está bem, mas não precisa proferir isso com tamanha convicção... Enfim. Agora está feito. Toda a Inglaterra já sabe que abandonei você grávida, e agora serei forçado a corrigir o meu erro... E antes que reclame, não. Não irei me casar com você. Irei... Assumir publicamente o nosso filho.

Ettie pareceu confusa.

-Agora não entendi aonde quer chegar, Holmes. Oficialmente, meu filho Scott Smith está morto e sepultado lá na França...

-Havia alguma certidão de óbito por lá?

Parando para refletir, Ettie precisou concordar que não. Realmente, não havia qualquer certidão de óbito naquele lugar, outro forte indício de que seu filho realmente estava vivo.

-Mas talvez não tivesse certidão de óbito por ter morrido no parto...

-Mesmo assim, Ettie. Deveria haver uma certidão de óbito. Um grave descuido de Josephine, sem dúvidas, mas que acabou passando desapercebido por você. Mas não a culpo. Imagino a sua dor na época, com seu estado emocional abalado ter perdido um filho ao nascer, portanto não se atentou a esses detalhes. Mas voltando ao assunto. Conversei com meu irmão Mycroft essa manhã. Ele tem bons contatos no governo e vai me ajudar a conseguir registrar Scott como meu filho, pois para todos os efeitos, ele ainda não foi registrado nem mesmo por você. Será este o meu gesto perante a opinião pública para “corrigir o meu erro do passado”. Reconhecer um filho bastardo, do qual eu fugi da responsabilidade há vinte anos pelo fato de sua mãe ser uma mera empregada...

-Não foi bem assim que aconteceu, Holmes... Eu demorei a descobrir, e quando me deu aquele maldito cheque, sequer sabia que eu estava grávida.

-Eu sei, mas o que consta no jornal é o que soa mais convincente. Mas não vou assumir nosso filho enquanto não tiver uma conversa definitiva com Arsène, coisa essa que penso que não vai demorar a acontecer, dado a notícia que saiu no jornal. Aposto que muito em breve teremos notícias dele... Melhor nos prepararmos.


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Londres, Inglaterra. 14 de Dezembro de 1911.

Gramado de Kensington.



Era impressionante como homens se divertiam com absolutamente qualquer coisa, pensava Agnes. Um grupo de dez homens, se matando para correr atrás de uma bola de couro e chutá-la para que adentrasse no meio de duas traves. Inacreditável que gritassem xingassem e se estapeassem por isso, não conseguia deixar de pensar. E mais inacreditável ainda era saber que aqueles moleques sujos e nervosos teriam, muito em breve, poder para conduzir suas próprias vidas do jeito que quisessem, mais até do que ela, limitada ao que se esperava de uma boa mulher britânica: casar e ter filhos. Tudo isso porque nasceram com um pênis.

Ainda que não apreciasse tão bem assim o esporte, era bom sair um pouco de casa. Restrita a permanecer em casa, sob a alegação de um dia ter sido sequestrada pelo infeliz Ladrão de Casaca, Agnes sentia-se uma prisioneira. No fundo, achava que seu pai tornava sua vida uma tortura para que a hipótese do casamento lhe apetecesse mais. Apesar do deslize cometido por Lestrade Jr. que deixou seu pai irritado, Agnes sabia que o apreço de seu pai pelo jovem inspetor não havia arrefecido. Estava só mantendo Gary afastado para se mostrar um pai preocupado por sua filha, mas sabia que muito em breve o Inspetor voltaria a frequentar sua casa e suas investidas retomariam. Era questão de tempo.

Ela não queria se casar com ele. Queria ingressar na Universidade e seguir os passos de seu pai na Medicina, mas o próprio achava a ideia absurda. Achava que mulheres não tinham estômago para a prática da Medicina, e para reforçar isso, passou a dar detalhes das situações horríveis que precisara presenciar em sua vivência como médico, desde as mutilações que presenciara na Guerra do Afeganistão e até mesmo os cadáveres de todo o tipo que realizara autópsia a pedido de Sherlock Holmes. Mas o que lhe horrorizava saber era a parte que afetava sua “pureza”, e impossível de não se estudar na Medicina. Uma grande tolice, sabia Agnes. Quando na ausência de seu pai, já havia lido seus livros de Medicina, inclusive aqueles que detalhavam os aparelhos reprodutores, atos sexuais e tudo o mais. Mas sabia que só pioraria sua situação se revelasse isso, por isso limitava-se a permanecer calada e fingir que ele estava certo.

-Seu irmão acaba de fazer um ponto. A mademoiselle não vai comemorar?

Aquela voz... Tomou-se de assombro quando a ouviu, e logo voltou-se à sua esquerda, de onde havia escutado. Tornou-se perplexa, quando seus olhos pairaram no cavalheiro sentado ao seu lado. Usava um chapéu refinado e esportivo, além de um terno de roupas claras, elegante. Um bigode estava desenhado em seu rosto, o que o tornava irreconhecível.

-Não deveria estar aqui... – respondeu a Arsène Lupin em um cochicho. Olhou para os lados. Por sorte, Agnes estava sentada na arquibancada mais alta, aparentemente sozinha. Não havia sido coincidência a escolha daquele lugar. Queria ficar longe da plateia exaltada, a gritar e esbravejar a cada lance bom ou ruim, tais como galinhas desorientadas.

-O football não é um esporte muito popular na França. Não dava para deixar a Inglaterra sem antes conhece-lo bem de perto.

-Você vai deixar a Inglaterra?! – surpreendeu-se Agnes.

-Muito em breve, mademoiselle. Está vendo aquele jogador ali? Seu irmão o odeia, porque ele impede jogadores como ele de marcarem pontos. Está o tempo todo acompanhando a jogada de seu adversário, ficando por perto, e na primeira oportunidade, ele toma a bola e devolve para o seu time poder jogar. É o que cavalheiros como Mounsier Holmes fazem com pessoas como eu.

-Pensei que o odiasse.

-E tem razão, eu o odeio. Mais ainda pelo que li nos jornais dessa manhã...

-Oh. – deixou escapar Agnes, surpresa. Não havia lido a manchete por completo, mas o título deixara bem claro que seu tio Sherlock tivera uma amante e um filho bastardo. E Arsène Lupin era absurdamente parecido com Holmes... Seria ele este tal filho bastardo a quem os jornais tanto noticiavam?

-E sim, sou o intitulado “filho bastardo” dos jornais.

-Jesus, Maria, José! Admito que não esperava isso de tio Sherlock...

-Por dentro, ele não é o homem que você sempre pensou conhecer.

Agnes decidiu ficar calada. Muito que contra a sua vontade. Dentro de si, segurava-se para não fazer mais e mais perguntas. Talvez porque o jeito misterioso de Holmes, de falar muito pouco sobre si mesmo, a fascinara desde muito cedo.

-Você é filho de Irene Adler? – permitiu-se perguntar. Ouviu de Arsène uma risada, que a fez se sentir a mais patética das criaturas.

-O que te fez chegar a esta conclusão?

Agnes ruborizou-se, mas continuou.

-Tio Sherlock nunca pareceu interessado em outra mulher, senão por ela. Bom, ao menos ele guarda até hoje o retrato dela dentro de sua gaveta, em Baker Street. Eu mesma vi esse retrato, e posso dizer que meu pai não mentiu de forma alguma nos livros. Ela era uma mulher muito bonita...

-“A espécie de mulher por quem um homem dá até a vida”, sim eu li isso nos livros do seu pai. Lamento, mas fui concebido de uma forma muito menos romântica.

-Como, então?

-Você não leu o jornal? Agora estou surpreso... Não se fala em outra coisa nessa maldita cidade... Bom, quem sou para impedi-la de saber? Do que está no jornal, há algo que posso confirmar, pois é a mais pura verdade. Ele se deitou com minha mãe, uma pobre empregada de um ricaço, para conseguir êxito em um caso... Caso este que seu pai jamais publicou em vida, decerto por causa da total falta de escrúpulos de seu tio Sherlock para derrotar Charles Augustus Milverton.

Charles Augustus Milverton... O nome disparou um gatilho na mente de Agnes. Sim, ela já viu esse nome antes... Mas onde? Demorou uns bons segundos, mas recordou-se daquele estranho dia, em que vira seu pai atear fogo em inúmeros documentos, boa parte deles rascunhos de casos jamais publicados. Um deles tinha esse nome na capa. “Charles Augustus Milverton”. Era incomum a seu pai intitular contos com nome de alguém, por isso lhe chamou tanto a atenção.

-Na verdade, meu pai chegou a escrever algo sobre esse homem, mas realmente não teve coragem de publicar.

Arsène riu daquela revelação.

-Pelo visto o seu pai não é um homem tão ruim quanto o meu. Bom, fique à vontade para ler o jornal com toda a minha fatídica história, se quiser... – disse-lhe Lupin, estendendo um jornal dobrado, retirado do bolso de seu paletó. A cada parágrafo lido, mais e mais a sobrancelha de Agnes arqueava. Nunca pensou que seu tio Sherlock fosse capaz de ir tão baixo para solucionar um caso.

Devolveu-o à Arsène, sem nada proferir. Ainda estava tentando digerir o que lera.

-Estão a dizer aqui que minha mãe está viva e morando com ele. Duvido que isso seja verdade. Aposto que ele contratou uma mulher qualquer para se passar por minha mãe.

-Por quê diz isso?

-Porque minha mãe está morta. Ela morreu no meu parto.

Agnes calou-se. Conhecia muito bem essa dor, vocalizada nas palavras de Arsène. Conhecia bem pois ela mesma crescera com a estigma de ter matado a própria mãe em seu nascimento, e por mais que seu pai sempre tentasse convencê-la do contrário, não conseguia deixar de se sentir culpada por sua morte. Deixou, entretanto, que Lupin continuasse a contar sua história.

-Não aguentou me trazer ao mundo, a pobre. Ela teve uma gravidez difícil, cheia de complicações, vivendo na miséria em um país estranho, longe de família ou amigos. E tudo isso graças ao meu pai, que simplesmente atirou um cheque contra ela e ordenou que me abortasse.

-O jornal não menciona um aborto, mas... Realmente, falam de uma “compensação financeira”...

-E o que isso muda? Faz dele uma pessoa melhor? Ele abandonou uma mulher grávida só porque ela era uma pobre empregada, sem berço! Aposto que se tivesse engravidado uma mulher da aristocracia, tal como ele, estariam até casados! Mas o problema não é esse.

Agnes tomou-se de surpresa. O que poderia ser mais problemático do que ter suas origens expostas no jornal dessa maneira? Preferiu deixar que ele se explicasse, entretanto, o que não demorou a ocorrer.

-Essa história dos jornais era algo que não previa, devo admitir... Com todo esse espetáculo, ele arruinou o grand finale que estava em meu planejamento.

-Não entendi. – admitiu Agnes.

-Não vou entrar em detalhes, mas meu último ato seria revelar a minha verdadeira identidade ao mundo. Mas agora, com ele confessando toda a história, dificilmente acreditarão em mim. Até porque, seu “filho”... Melhor dizendo, eu... Tem nome e sobrenome. Você chegou a ler essa parte?

-Sim. Scott Smith, segundo os jornais.

-Esperava um pouco mais de criatividade, admito. Mas agora é tarde. Ele antecipou meu movimento, e inverteu minha jogada a seu favor. Jamais acreditarão que eu, o afamado Ladrão de Casaca, Arsène Lupin, seja o filho bastardo do poderosíssimo Sherlock Holmes, até por que o filho bastardo agora existe de verdade...

-Shiu... – pediu Agnes, olhando ao redor para ver se alguém nas proximidades o havia escutado. Felizmente o jogo de football parecia ser mais interessante do que a conversa de um casal de jovens moçoilos na arquibancada. – Se continuar falando desse modo, podem perceber quem é você...

-Ninguém conhece meu verdadeiro rosto, mademoiselle.

-Mas eu conheço.

-Não tenho medo de você. Sei que não vai me denunciar. E sei bem o porquê...

-Não sei do que está falando... – retrucou Agnes, desconversando.

-Eu também gosto de você, Agnes. Só queria que soubesse. E por mim, você fugiria comigo para a França. Daríamos um perfeito casal de ladrões.

Foi a vez de Agnes rir daquela proposta absurda.

-Pois eu não quero ser uma ladra!

-Eu também não quis no início, e mesmo assim me tornei um. É meio ruim no começo, mas aquele frio na barriga de um roubo bem-sucedido compensa qualquer risco. Principalmente quando se rouba a pessoa certa...

-Você é louco.

-Apenas por você, Agnes. Mas saiba que minha proposta permanece de pé, mesmo que não tope aprender o meu ofício. Podemos nos casar, em um cartório qualquer aqui mesmo na Inglaterra e... O que está havendo ali?

Agnes passou sua atenção ao gramado. Realmente, havia um princípio de confusão entre os jogadores de football. Não soaria diferente de nada visto por Agnes naquele treino se não fosse por um detalhe importantíssimo: brigavam por causa da entrada de um menino específico. Um menino negro.

-Aquele menino está claramente em apuros! Fique aqui, mademoiselle!

-Por Deus, não se envolva isso... Podem te descobrir! É arriscado demais! – tentou dissuadi-lo Agnes, mas era inevitável. Arsène Lupin desceu as escadas da arquibancada às pressas, caminhando em direção à briga. O pobre menino negro estava sendo hostilizado. Havia sido convidado por um dos meninos, mas não foi bem-recebido pelos demais. A maioria estava contra sua presença ali, a jogar football entre eles, como se fosse indigno de estar naquele gramado por causa de sua cor. Como palavras não foram suficientes, recorreram a xingamentos, e em seguida empurrões desaforados. Estavam em desvantagem e certamente seriam espancados ali mesmo se não fosse Arsène aparecer para intervir.

-Mas o que está acontecendo aqui, cavalheiros? Posso saber o motivo?

-Esse garoto não é bem-vindo aqui! – exclamou um dos rapazes.

-Não querem que ele jogue por causa da cor dele, senhor. – explicou Peter Watson.

-Ora essa, mas que grande tolice! Ser negro o faz inferior a vocês desde quando? Pois ele vai jogar, sim! – desafiou Arsène, recebendo vaias e protestos dos demais jogadores. Agnes, que observava a confusão à distância, tomou-se de preocupação. Arsène queria defender o menino, mas acabou comprando briga para si mesmo. Apesar daquele ser um time de rapazes bem mais novos, entre treze e quinze anos, tais como seu irmão Peter, isso não queria dizer que não estavam prontos para uma boa briga.

-Quer saber? Ninguém vai jogar mais! Me dá essa bola aqui! – tomou Arsène uma das bolas de maneira completamente inesperada, e em meio a protestos, algo inusitado aconteceu: a bola desapareceu em suas mãos. Mais um daqueles seus inexplicáveis truques de mágica, exceto que era uma bola e não mais um coelho.

-Jesus Cristo, o que ele fez com a nossa bola?!Ela simplesmente sumiu!

-Eu vou falar com o meu pai que você roubou minha bola! – protestou um dos meninos, indignado. Suas reclamações foram acompanhadas por outras e mais outras, mas dessa vez ninguém ousou sequer ameaçar agredi-lo. Pareciam assustados, achando que estavam diante de algum tipo de bruxo.

-O treino está encerrado, pessoal! Melhor seguirem para suas casas! – ordenou Lupin, a bater palmas enquanto os meninos se afastavam, indignados e também desanimados. Muito em breve o campo seria tomado de jogadores mais velhos, que jamais emprestariam uma bola que fosse a eles.

-Vocês estão bem?! Machucaram vocês? – perguntou Agnes aos dois, muito embora estivesse mais preocupada com Arsène.

-Só a minha alma, senhorita. – respondeu-lhe o menino, um tanto tristonho.

Arsène Lupin deu-lhe um afago na cabeça. Era incapaz de compreender seu constrangimento, mas imaginava o quão dolorido deveria ser sofrer tamanha discriminação apenas por causa de sua cor.

-É inacreditável que em pleno século XX ainda exista gente que pense dessa forma, tão atrasada! – respondeu-lhe Lupin. – Mas dessa vez, eles não venceram. Tome.

Para surpresa de Agnes e do menino, a bola de couro, até então desaparecida, ressurgiu nas mãos de Lupin, após um rápido e elegante movimento de seu braço.

-Como o senhor fez isso?! – maravilhou-se o menino, com a bola de couro em mãos.

-Um grande mágico nunca revela seus truques, mounsier. – disse, com um sorriso. Não conteve-se, entretanto, de dar uma piscadela a Agnes, a única ali que sabia muito bem porque ele sabia tais truques.

-Mas é melhor devolvê-la ao seu dono. Minha mãe me ensinou que só ladrões ficam com coisas que não lhe pertencem. – estendeu o menino a bola outra vez a Arsène.

Arsène e Agnes entreolharam-se, um tanto constrangidos pela sabedoria do menino, que mesmo tão jovem, tinha bons valores de vida. Valores estes que Arsène chegara a aprender com seu pai, mas que há uns bons anos havia abandonado. “Só ladrões ficam com aquilo que não lhe pertencem, e nós não somos ladrões, nem nunca seremos”, recordou de seu pai Théodore a lhe dizer certa vez, quando o viu chegar em casa com algo que não lhe pertencia. Era um pequeno soldadinho de chumbo, de um de seus coleguinhas, um de seus primeiros roubos.

-Tem razão... Er, como é mesmo o seu nome, petit?

-Patrick Hudson.

-Pois então, Patrick. Você está certo. Vou devolver a bola a seu legítimo dono.

Arsène afastou-se de Agnes e Patrick. Com a bola de couro em mãos, aproximou-se do menino. Agnes limitou-se a observar a distância. O menino estava claramente zangado. Sua boca estava retorcida, furiosa. Nem mesmo o sorriso estonteante e galanteador de Arsène parecia ser o suficiente para amolecer aquele coração humilhado. Mesmo assim, Arsène deixou a bola em seus pés e despediu-se com um floreio de suas mãos. Nada mais francês que isso, riu sozinha Agnes.

Havia dado alguns passos para longe dele quando, para surpresa de ambos, Arsène Lupin simplesmente tombou sobre o gramado, sem qualquer explicação aparente. Não se levantou. Tomada de pavor com aquela inexplicável queda ao chão, Agnes correu para perto dele.

Não demorou a perceber o que havia acontecido. Alguém arremessou uma daquelas pesadas chuteiras, com traves de madeira, contra a cabeça de Arsène, agora inconsciente sobre o chão do gramado. O menino, o contrariado dono da bola de football, tinha um dos pés descalços, a observar Arsène desmaiado com grande desdém.

-É melhor irmos logo, antes que chamem a polícia... – cochichou um dos meninos a ele, e imediatamente debandaram dali, assustados como coelhos. Agnes tomou-se de pânico. Tudo que Arsène não precisava era da polícia. Poderia leva-lo para casa para que seu pai pudesse verificar sua cabeça, mas seria complicado. Sua residência estava cercada por policiais. Mesmo que Arsène se gabasse de que ninguém conhecia seu verdadeiro rosto, Agnes não queria pagar para ver.

-Me ajude a carrega-lo, senhorita. Vou leva-lo para casa. Meus pais saberão o que fazer... – pediu ajuda o jovem Patrick a Agnes, que não pensou duas vezes em retira-lo logo dali. Mesmo de pé, com auxílio de ambos a ficar de pé, Arsène não retomava a consciência. Um filete de sangue começava a jorrar de sua cabeça, percorrendo sua testa. Curiosos começaram a notar os dois jovens carregando um homem desmaiado. Nervosa, Agnes buscava ignorá-los. Um cabriolé aceitou leva-los.

-Para Baker Street, número 221.

Agnes arregalou seus olhos. Não sabia que Patrick morava justamente no mesmo prédio que Sherlock Holmes! Decerto deveria ser um dos inquilinos... Não... O sobrenome dele era Hudson! Deveria pertencer à família da finada Mrs. Hudson...

Não é possível que tamanha coincidência pudesse ser verdade...

Arsène estava quase que deitado em seu colo, inconsciente. Sua cabeça sangrava, e sem saber direito o que fazer, tudo que Agnes se limita a fazer era limpar o sangue que escorria e pouco a pouco manchava seu terno branco. Torcia para que fosse apenas um desmaio, e não uma lesão mais séria. Aquelas malditas chuteiras de football eram pesadíssimas! Uma vez Peter pisou em seu pé usando uma delas e fez um grande estrago em seus dedinhos. Pobre Arsène.

-Ele me ajudou e eu nem perguntei o nome dele... A senhorita sabe?

-Não sei. – preferiu mentir Agnes. – Mas ele terá tempo de se apresentar.

-Espero que sim. Ele só foi agredido porque me defendeu daqueles meninos, tenho certeza. Ia me sentir muito culpado se ele...

-Não se martirize por isso, Patrick. Ele vai ficar bem. Não há de ser nada... Além disso, tenho a certeza de que ele está indo para um lugar seguro. Bastante seguro.

Agnes alisava os cabelos negros e lisos de Arsène, já não tão curtos como da última vez em que se encontraram. Ele parecia dormir, mas estava ainda inconsciente. Parecia tão inofensivo, tão vulnerável... E sem fazer a menor ideia do lugar que estava prestes a visitar...