Notas iniciais
“O leitor deve lembrar-se de que, logo após meu casamento e minha consequente estreia na clínica particular, as íntimas relações que havia entre mim e Holmes se modificaram muito. Ele me procurava apenas de tempos em tempos, quando queria minha companhia em suas investigações. Mas essas ocasiões tornaram-se cada vez mais raras; em 1890, houve apenas três casos, de que conservo registro. Durante o inverno desse ano e o começo da primavera de 1891, tomei conhecimento pelos jornais de que o governo francês solicitara os serviços de meu amigo num caso de extrema importância. Recebi então dois postais de Holmes, datados de Narbonne e Nímes, pelos quais concluí que sua permanência na França devia prolongar-se...”
(extraído do conto “O Problema Final”)
Narbonne, França. 15 de Janeiro de 1890.
Théodore Lupin olhava no relógio. Já era o quê, a segunda ou terceira vez que o consultava. Mais alguns minutos e seria meio-dia. Impossível esquecer, pois estava muitíssimo perto da Cathédrale Saint-Just et Saint-Pasteur. O badalar dos sinos a anunciar a hora ressoaria bem alto, no alto daquele prédio abandonado em que estava. Ainda assim, estava ansioso, tal qual uma criança em uma loja de brinquedos. A sorte nunca foi muito de sorrir-lhe em sua vida, mas naqueles últimos tempos, tudo parecia conspirar a seu favor.
No submundo de Paris, por meio de seus becos, casas de prostituição e de apostas, bares e lugares tão afamados que nem dava para intitular, chegou aos ouvidos de Théodore que alguém estava oferecendo uma grande fortuna pelo quadro de Monalisa, exposto com segurança máxima no Museu do Louvre, talvez o mais bem guardado lugar da França. Em meio a uma caneca de cerveja ou outra, as propostas ditas por seu velho comparsa de roubo pareciam ser a garantia de aposentadoria para um ladrão cada vez mais cansado da vida de roubos – ou a garantia da forca! Mas valia a pena se arriscar. Com o dinheiro, poderia simplesmente fugir da França, viver uma vida bem diferente da que levava como gatuno de residências. Jamais foi pego pela polícia, mas sabia que um dia a sua vez de ir para a prisão poderia chegar.
Frequentou o Louvre por um bocado de tempo. Primeiro, se matriculou em um curso de Artes, depois Escultura, depois Pintura. Por sorte, tinha lá um talento, ainda que medíocre, para a Pintura, e isso o fez se aproximar de professores e, especialmente, ter acesso às instalações mais ocultas do Museu. Por meses, estudou cada detalhe do lugar. Estudou seus pontos fortes e fracos, projetou possibilidades e imaginou fracassos, e principalmente, como contorna-los. Quando pôs seu plano em prática, optou pela ousadia: fez tudo à luz do dia. Nada de invasões noturnas, infiltrações espetaculares, nada disso. Tudo que fez foi namorar a pobre faxineira de nome Josephine, que para enriquecer ainda mais o seu plano, o ensinou maneiras de se esconder – servia para namorar escondido, longe dos olhos dos patrões, mas também para escapar.
E agora, a Monalisa estava bem diante de seus olhos. Ainda era difícil compreender o feito que havia alcançado, tão difícil que desde o momento que chegara com ela, depois de uma viagem inteira de trem com a maldita pintura enrolada no meio de um tapete persa velho e fedido, Théodore sentia as pernas tão trêmulas que teve que se sentar. Chegou até mesmo a vomitar dentro de um balde, tamanha era sua tensão. Os músculos chegavam a estar enrijecidos, as mãos frias e dormentes. A qualquer momento, sentia-se à beira de um colapso. Sua mente não parava de repetir, em forma de congratulação, o feito que acabara de fazer. De ladrão de prataria nobre ao quadro mais famoso do mundo... Quem poderia imaginar, Théodore Lupin? E bem debaixo das vistas de todos aqueles malditos guardas... Aprendera desde cedo que não era arrogância reconhecer uma qualidade, e Théodore precisava agora admitir: era o melhor ladrão do mundo! E ficaria rico, muito rico com isso! Se mudaria para Austrália, quem sabe, ou para o Brasil, e...
De repente, o bater da porta. Três batidas, tal como disseram que o mandante do assalto diria. Sem dúvida alguma, não era a polícia. Dado o que acabara de roubar da França, se fosse a polícia a porta já estaria abaixo. Recompondo-se e deixando o cachimbo de lado, Théodore se levantou, alisou o bigode e tentou enxugar a testa, ainda levemente respingada de suor. A maldita cidade de Narbonne, que havia sido marcada pelo mandante do roubo, era mais quente do que ele estava acostumado. Suspirou, abrindo a porta.
Adentrou um homem elegante, como era de se esperar. Retirou a cartola negra da cabeça, revelando um cabelo levemente grisalho pelo tempo, em um vigoroso penteado para trás. Possuía o rosto asseado, bem cuidado, mas o que mais chamou a atenção de Théodore, por algum motivo, foram seus olhos cinzentos, num tom que ele jamais vira antes. Fora o nariz aquilino e expressão de poucos amigos, que certamente teria assustado o ladrão se ele não fosse tão acostumado a lidar com todo tipo de cara feia no submundo do crime.
Tão logo fechou a porta, ouviu o badalar dos sinos da Igreja, a anunciar que era meio-dia.
-Mounsier é deveras pontual! – brincou, sem receber qualquer resposta do mandante.
O mandante já estava posto diante da pintura da Monalisa, como era de se esperar. Parecia contemplá-la, admirá-la. Não era de se estranhar. Aquele era realmente um quadro muito bonito, apesar de nada mais retratar além de uma mulher italiana. Havia um quê tão enigmático nele que era capaz de prender os olhos sem qualquer explicação.
O homem aproximou-se, com uma lupa. Ficou a observar o quadro por longos minutos, minuciosamente. Théodore já esperava por essa atitude, por isso nada fez. Sabia que, no mercado clandestino de obras de arte, fazia parte dos negócios: analisar para verificar sua autenticidade. Esperou pelo veredito do mandante, e assim o recebeu.
-De fato, a pintura é autêntica. – disse o homem, em um francês com leve sotaque britânico. – O senhor realmente fez um trabalho formidável, Mounsier...
-Lupin. Meu nome é Théodore Lupin. – respondeu o ladrão, oferecendo a mão para um aperto. Depois de longos segundos sem retribuir, a recolheu desajeitadamente para o bolso de suas calças.
-Hmmm... – parecia pensativo o sujeito. – Nunca ouvi falar no senhor, Mounsier Lupin. E olha que conheço bastante gente que compartilha o mesmo ofício que o senhor.
-Não sou um ladrão de obras de arte, talvez por isso não me conheça.
-E o que costuma roubar, Mounsier Lupin? Pois duvido que a Monalisa tenha sido seu primeiro roubo...
-Residências e... Mulheres fáceis. – admitiu o ladrão, com um sorriso irônico. Tudo que recebeu de reação do mandante foi um rolar de olhos.
-Preciso admitir que cogitei que um ou dois ladrões de grande fama pudessem roubar esse quadro, mas não um ladrão comum. Mas se conseguiu roubar o quadro mais famoso de todos os tempos, podemos chamar o senhor de tudo, menos de “ladrão comum”. Talvez tenha subestimado seus talentos mais do que deveria durante todo esse tempo, Mounsier.
O homem tirou de seu bolso o relógio e o consultou brevemente.
-Pois bem, Mounsier Lupin. O senhor conseguiu roubar a Monalisa, portanto penso que é o mais adequado para a tarefa que tenho a si.
-Olha, eu adoraria fazer mais trabalhos para o senhor, mas será que podemos falar a respeito do pagamento?
-Sim, iremos conversar sobre isso. Mas preciso que me acompanhe até o meu cabriolé.
Ao perceber que o homem já estava dando meia-volta dali e sem levar a Monalisa, Théodore tomou-se de consternação.
-Mas e o quadro, senhor? Não vai leva-lo?
O homem olhou por um instante para ele, como se o contemplasse.
-Não. Já consegui o que queria. Agora, deixe-o aí. Daqui a exatos quatro minutos e... Dezessete segundos, esse prédio estará cheio de policiais, e o quadro deverá ficar com eles.
-Não estou entendendo... O senhor por acaso é um agente disfarçado do governo ou... Ei! Espere, senhor! Senhor! – correu a acompanhar o sujeito, que descia as escadas daquele prédio em um ritmo acelerado. O coração de Théodore acelerava, num misto de raiva e angústia. Havia roubado o quadro mais famoso do mundo, e às custas de um planejamento de meses, e agora o maluco do sujeito que encomendara o roubo estava simplesmente deixando a maldita Monalisa para trás?
-O senhor só pode ser louco! – disse, embarcando em um cabriolé junto com o sujeito. – E eu, um tolo! Deveria ter recolhido esse quadro e vendido para outra pessoa!
-Não seja estúpido, Mounsier Lupin! – respondeu-lhe o inglês, com rispidez. – O roubo da Monalisa está sendo mantido no mais absoluto sigilo, mas o governo francês está com os dois olhos abertos atrás desse quadro. Ninguém seria louco de compra-lo agora, e o senhor acabaria preso de uma forma ou de outra.
-Então, o senhor não quer o quadro?! – indagou Lupin, indignado. – Pois saiba que eu arrisquei a minha vida por causa daquela maldita pintura velha! Exijo o meu pagamento!
O inglês esboçou um sorriso. O cabriolé já circulava pela pequena cidade de Narbonne, por entre suas bucólicas e apertadas ruas medievais. Muito em breve estariam perto da estação de trem.
-Pois eu vou recompensá-lo muito bem por isso, Mounsier Lupin.
-Assim espero, mounsier...
-Moriarty. Pode me chamar de James Moriarty.
O pagamento não veio da maneira como Théodore Lupin esperava, mas talvez fosse melhor assim. Ao invés de receber rios de dinheiro, Théodore Lupin iria desfrutar do que parecia ser uma vida de Rei, que era exatamente o que ele sonhava para sua aposentadoria. Moriarty o ofereceu residir e cuidar de uma propriedade sua em Bordeaux, que consistia em uma mansão com vinte e cinco quartos e quase uma centena de empregados prontos a servi-lo, além de um vinhedo bastante lucrativo.
Mas como imaginava, essa vida de Rei tinha um preço a se pagar.
-Custo a acreditar que o senhor está me oferecendo tudo isso por um quadro que roubei e que nem mesmo está em sua possessão... Ou acaso pensa que sou algum trouxa?
-Longe disso, Mounsier Lupin. Longe disso. A Monalisa foi apenas um teste. Agora vem a recompensa de fato, mas ela não virá sozinha. Haverá sim, uma tarefa a fazer por lá. Mas não se preocupe. É muito mais simples do que roubar um quadro no Louvre. – disse, com um leve sorriso divertido. Mesmo o sorriso do sujeito dava calafrios em Lupin.
-Ainda bem que a estação de trem desse lugar já está perto. Com sorte, chegaremos à Bordeaux rapidamente...
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Em algum lugar da França. 15 de Janeiro de 1891.
Vinte e dois minutos! Um atraso intolerável para a partida de um trem, ao menos para os padrões britânicos, mas algo aparentemente razoável na França. E Sherlock Holmes já estava farto desses atrasos. Primeiro, aguardou por quase quarenta minutos para ser atendido pelo seu misterioso “cliente”, que havia combinado seu encontro no charmoso Mason Café, com vista ao imponente Museu do Louvre. Estava na França graças a uma carta aparentemente enigmática, mas não o suficiente para esconder de Holmes seu real remetente: o governo francês. Apesar de todos os esforços, algo grave estava acontecendo, mas a real dimensão de tamanha gravidade apenas veio à tona quando finalmente sua mesa no Mason Café estava repleta de burocratas franceses.
A Monalisa havia sido roubada. Uma importante obra de arte, a mais icônica do Museu do Louvre, simplesmente desapareceu. E Holmes foi encarregado de encontra-la, de descobrir a identidade do ladrão que havia cometido a audácia de retirá-la do que, até então, era um dos lugares mais bem-guardados da França. Obviamente, toda a situação exigia o mais notável sigilo, por isso Watson sequer foi convidado para acompanha-lo nessa empreitada, e se dependesse de Holmes, jamais saberia do seu real motivo para estar na França. Tudo que o governo francês não precisava era ter o roubo da Monalisa ilustrado em algum conto no The Strand, e sua vontade foi respeitada.
Após alguns dias de uma promissora investigação, Holmes seguiu os passos do ladrão, que culminaram em um imóvel abandonado nas proximidades da Cathédrale Saint-Just et Saint-Pasteur, na cidade de Narbonne. Lá, sua investigação mostrou-se frutífera: a Monalisa repousava sozinha no ambiente, quase como se simplesmente aguardasse a chegada dos policiais, aliviados por ver a caçada pela afamada pintura de Leonardo Da Vinci chegar ao fim. Porém, nada que apontasse à real identidade do vigarista. Holmes até chegou a sugerir que a investigação continuasse até que o paradeiro do ladrão fosse descoberto, mas o governo francês pareceu satisfeito por ter a obra de arte de volta ao Louvre, dando seu trabalho por encerrado.
E agora, Holmes estava a embarcar de volta para a Inglaterra. Trazia em sua pequena bagagem de mão um polpudo cheque em francos, assinado pelo governo francês, e nada menos que uma medalha, honraria raramente destinada a estrangeiros, e que certamente estaria decretada a permanecer trancafiada em sua gaveta, tal como outras medalhas recebidas ao longo de sua carreira como detetive consultor.
Contudo, Holmes permanecia frustrado por não seguir adiante. Queria saber quem havia sido o habilidoso ladrão que magistralmente afanou a Monalisa, e mais ainda, quem teria sido seu comprador – este, na verdade, seu principal motivo para ter aceitado a oferta de trabalho do governo francês. Estava absorto em uma difícil e perigosa investigação há quase dois anos, destrinchando uma organização criminosa encabeçada por um professor de nome James Moriarty, e percebeu uma curiosa movimentação do professor em direção à França. Não foi difícil aludir o roubo da Monalisa a ele. Afinal, quem mais poderia roubar o mais famoso quadro do mundo senão o homem mais perigoso do submundo do crime? No fim, não havia qualquer indício de participação do professor neste roubo, o que só o frustrou mais ainda.
Mesmo assim, algo o importunava em toda essa história. Achava muitíssimo curioso ter recuperado a Monalisa com tamanha facilidade, e apesar da suspeita da polícia que uma possível venda havia sido frustrada no momento da chegada do corpo policial, o detetive sentia que algo mais estava acontecendo. Enquanto aguardava o trem chegar, pensou diversas vezes em fazer sua própria investigação particular, mesmo que nada recebesse em troca, e prosseguir à procura do ladrão, mas desistiu. Precisava retornar a Londres o quanto antes. Sua investigação dos negócios do Professor Moriarty estava avançando consideravelmente, e abandona-la por mais tempo poderia atrapalha-la. Só atendeu ao governo francês porque achou que o professor estava envolvido, mas verdade seja dita, não havia indícios o suficiente que apontassem para isso. Decerto os negócios de Moriarty com a França envolviam outros ramos de sua seleta rede criminosa, que ele ainda estava a desvendar.
Cansado de esperar pelo trem, Holmes rendeu-se à leitura de um jornal parisiense. Não era muito diferente dos britânicos: política estampava a primeira página, obviamente. Mas ao invés das decisões da Rainha Vitória, estava as de Sadi Carnot, atual presidente da França. Os crimes, estes sim eram semelhantes. Assassinatos, roubos, fraudes...
Estava quase a concluir seu jornal quando um anúncio saltou-lhe aos olhos. Ocupava metade do jornal, prenunciando sua importância. Mas não foram as letras garrafais, a ilustração ricamente desenhada ilustrando uma tragédia grega, e sim um nome em específico.
Irene Adler. Ela era a estrela daquela ópera. Estava de volta aos palcos, e se apresentaria em Paris, em uma única apresentação, a primeira de uma turnê que prometia “percorrer os melhores palcos da Europa”. Esperado, dado seu renome. Depois de tanto tempo, A Mulher estava de volta, e escolheu a França para dar início ao seu recomeço... Quem diria.
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Bordeaux, França. 15 de Janeiro de 1891.
Vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont.
Poucas coisas deixavam Théodore Lupin boquiaberto na vida, mas nada se comparava à beleza de Sainte-Croix-du-Mont, a propriedade de posse de James Moriarty e que agora ele seria o responsável por cuidar, além de mais uma tarefa que até agora não havia dito coisa alguma.
Théodore passou boa parte do tempo com Moriarty durante as poucas horas de viagem de trem até Bordeaux e não demorou a perceber que o homem era de poucas palavras. A única coisa que conseguiu descobrir, além de sua naturalidade inglesa, era que era um professor de alguma universidade britânica cujo nome já esquecera. Duvidava muito que professores universitários recebessem tão bem à ponto de ter um vinhedo francês daquele porte, mas Théodore achava sensato não procurar saber mais qualquer coisa a respeito dele – em especial, de onde saía tanto dinheiro. Coisa boa não era, sabia. Afinal, conhecera o sujeito através de um roubo. Quanto menos soubesse a respeito dele, melhor.
-Que bela propriedade!
-Adquiri há pouco tempo. Só estive aqui duas vezes desde então. Pertencia a uma família de fidalgos, muito antiga na França. Pena que uma fatalidade lhes aconteceu e todos os herdeiros se foram repentinamente, um atrás do outro... Os poucos que restaram venderam esse lugar por uma verdadeira pechincha, e por uma coincidência do destino, estava mesmo atrás de um vinhedo na França. É como sempre digo, nunca deixe escapar uma oportunidade de negócios.
Théodore duvidava muito que essa tal “fatalidade” tivesse sido mera obra do acaso. Mas outra vez, optou pelo silêncio. Caminhou pelo enorme corredor calçado por pedras, rodeado de arbustos decorados, em direção à mansão de cor cinzenta, imponente, que enchia-lhe os olhos. Nunca morou em nada assim, muito pelo contrário. Cresceu nos bairros mais pobres de Paris, onde aprendeu nas ruas a roubar sem ser pego, e com o tempo foi aprimorando suas mãos leves. Nem em seus maiores sonhos imaginava estar pisando em um lugar desses.
Quando entraram à suntuosa sala, foram logo recebidos por uma fileira de empregados. Deveria ter ali aproximadamente dez pessoas uniformizadas como empregados. Mas o que chamou a atenção foi uma mulher, com um pouco mais de idade. Usava vestes diferentes dos demais, e mesmo que estivesse vestida melhor, não chegava a ser nada luxuoso. Dificilmente deveria ser alguma coisa além de Moriarty. Provavelmente era sua governanta. Mas não era esse detalhe que lhe chamava mais atenção nela, mas sim o fato de que ela carregava um bebê.
-Mounsier Moriarty. Tão logo recebi seu telegrama, ordenei para que os empregados preparassem seu quarto e também o quarto de sua visita. – respondeu a mulher, enquanto aninava o bebê. Sim, ela era a governanta, concluiu Théodore.
-Impecável como sempre, Josephine. Mas lamento, pois não demorarei por muito tempo aqui. Mas antes, deixe-me apresentar Théodore Lupin. Ele é a pessoa que falei. Aliás, penso que o assunto que devemos tratar é de natureza privada...
O comentário de Moriarty foi o suficiente para que todos os empregados se recolhessem em seus afazares. Todos partiram, menos Josephine, que ainda carregava o bebê. Moriarty se aproximou dele, mas sem tocá-lo.
-É menino ou menina?
-Menino, mounsier.
-Perfeito! Absolutamente perfeito! – exclamou Moriarty, causando estranheza em Théodore. Nesses poucos dias de convivência, jamais o viu tão exultante assim. Pelo contrário, achava-o até estoico demais, o que era bem típico dos britânicos, frios como gelo.
-Levei ao Dr. Edmond, conforme suas instruções, e ele atestou sua saúde. Nasceu sem quaisquer imperfeições visíveis, porém um pouco abaixo do peso que lhe seria normal, mas ele disse que poderá adquiri-lo com o tempo. Só é um tanto manhoso...
-Esses detalhes não me interessam, Josephine. – respondeu Moriarty, rispidamente. De Josephine, recebeu apenas uma leve concordância com a cabeça.
-Ele me perguntou o nome dele, mounsier Moriarty. Não soube o que dizer. Inventei que a família dele ainda não havia se decidido... O senhor tem preferência por algum nome? Ou quer que eu mesma escolha?
Moriarty olhou mais uma vez para a criança. Tinha o cabelo escuro. Por não ter mais que alguns dias de vida, seus olhos ainda estavam fechados. Conhecendo os pais que tinham, poderiam ser cinzentos, mas isso não faria qualquer diferença em seus planos. Mas o nome... Esse sim era importante.
-Ele se chamará... Arsène.
-Arsène?! – questionaram tanto Josephine quanto Théodore, em uníssono. Estavam chocados com o nome, um tanto incomum e estranho.
-Não vou interromper a tradição da família dele em escolher nomes exóticos. Será Arsène e ponto final. Não faço ideia do que significa no francês, mas no inglês, me soa a “arsênico”. Perfeito para o que ele representará ao pai.
-Será que alguém pode me dizer o que devo fazer aqui? – interrompeu repentinamente Théodore, já um tanto cansado, tanto da viagem e também por se sentir completamente esquecido ali. Moriarty voltou-se ao jovem, com uma expressão de surpresa. Ao que tudo indicava, ele realmente havia se esquecido dele.
-Bom, vamos aos negócios. Josephine, traga-nos um café, por favor.
A empregada se recolheu com o bebê, para longe de ambos. Finalmente às sós, sentaram-se sobre os sofás daquela sala, no que Théodore viu com grande alívio. Era bem melhor que as horas que passara no trem ou no cabriolé.
-Como disse, você tem uma missão bem específica aqui nesse vinhedo, Mounsier Lupin.
-Estou muito feliz pela confiança depositada, Mounsier Moriary. Saiba que darei o meu melhor e cuidarei dessa propriedade como se fosse minha.
As palavras de Théodore provocaram risos em Moriarty.
-Achou mesmo que eu iria confiar a administração de minha propriedade a um ladrão?
Lupin engoliu em seco.
-Bom... O senhor disse que eu moraria aqui, em troca de uma tarefa. Que outra tarefa seria senão administrar esse lugar? Por mais que não tenha experiência, eu me disponho a aprender...
-Nada disso, mounsier Lupin... – meneou Moriarty. – Esse vinhedo já está nas mãos de um de meus melhores administradores. Eles cuidarão muito bem desse lugar, pode ter certeza. E reafirmo, você irá morar aqui, sim, mas como meu convidado, não empregado. Não será necessário trabalhar com o vinhedo. Não. A sua tarefa aqui é outra, e diria bem mais simples. Sabe aquele bebê?
Théodore limitou-se a assentir.
-Dá para ouvir daqui as engrenagens de sua cabeça, a rolar e dizer que aquele bebê é meu filho. Pois não. Ele não é meu filho. Na verdade, nem filhos eu tenho. O mundo já está abarrotado demais de gente para pensar em acrescentar mais um ser humano à humanidade. Sou um homem cuidadoso, mas nem todos são. E esse bebê é fruto disso. De duas pessoas bem descuidadas. Uma delas é meu inimigo.
-Não estou entendendo...Se aquele bebê é realmente filho de seu inimigo, por que não o mata logo de uma vez?
Moriarty riu.
-A morte dele não serviria para nada, até porque meu inimigo nem mesmo sabe de sua existência, e nem pretendo que ele descubra sobre ele tão cedo. Eu tenho um plano melhor para esse bebê e você vai fazer parte disso.
-Bom, se está pensando que vou ser babá dele...
-Josephine já cumpre esse papel, e o cumprirá muitíssimo bem pelos próximos anos, tenho certeza. Você cumprirá outro. O de professor.
O homem riu. – Mas eu mal sei ler! Até porquê, eu sequer frequentei a escola. Como posso dar aulas para um bebê?
-Você será professor dele na arte de roubar, Mounsier Lupin. Ou por que acha que pedi para você roubar a Monalisa? Foi um teste e você passou nele com louvor. Quero que você torne aquele menino o maior criminoso já visto sobre a face da Terra!
Théodore riu.
-Bom, posso ensinar ao fedelho um truque ou dois, mas... Maior criminoso da face da Terra?! Não sou um dos mais humildes, mas preciso admitir que roubar a Monalisa foi mais um golpe de sorte do que qualquer outra coisa. Talvez não seja capaz de ensiná-lo a se tornar tudo isso!
Foi a vez de Moriarty rir.
-Nada sei a respeito da mãe, mas a julgar pelo talento do pai dele, ele vai se tornar sozinho, acredite. Você só dará o primeiro empurrãozinho. E não se preocupe com a educação dele. Já providenciei junto a Josephine e ele terá acesso aos melhores tutores da Europa.
-E esse bebê é realmente filho de seu maior inimigo? Pois nem parece, a julgar pelo tratamento que irá proporcionar a ele. Se ele realmente irá viver nessa casa, terá acesso a uma vida de luxo que muitas crianças jamais ousariam sonhar. Não entendo porque está fazendo tudo isso...
Moriarty suspirou.
-Seu trabalho aqui não é de compreender coisa alguma, Mounsier Lupin, apenas executar a tarefa que lhe confiei. Mas vou tentar elucida-lo quanto aos meus planos. A verdade é que o meu inimigo está chegando cada vez mais perto de mim e lamentavelmente nada será capaz de detê-lo, absolutamente nada. Ele só irá descansar quando destruir o meu Império, mas para isso ele terá que me destruir primeiro. E acredito que esse dia está cada vez mais próximo... Sempre confiei nos meus instintos, e é o que eles estão me dizendo. Tudo isso vai acabar com a completa aniquilação de um de nós dois... Ou de ambos.
Théodore parecia reflexivo.
-Mas onde o bebê se encaixa nisso? Você vai cria-lo, dar a ele uma boa educação, ensiná-lo a ser um grande criminoso, e depois? Você quer que ele te substitua, é isso? Que seja o seu herdeiro, para caso algo te aconteça?
Moriarty levantou-se, começando a andar pela sala de estar.
-Sabe, eu e meu inimigo temos uma coisa em comum. Não fazemos o que fazemos por dinheiro. Somos melhores do que isso. Fazemos pela emoção da caçada. Se eu morrer, pouco importa para onde meu dinheiro vai. Construí meu Império porque admiro o Crime. Vejo as brechas da Lei, a corrupção humana, e acho fascinante. É a emoção de explorar o proibido o que me move. Portanto, não. Não estou preocupado com o que vai acontecer com a minha fortuna depois de minha morte, logo esse bebê nada tem a ver com isso. Ele significa outra coisa, Lupin.
Théodore parecia ainda confuso.
-Então, o que ele é?
-Ele é o prato frio da minha vingança.
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