Bordeaux, França. 20 de Janeiro de 1905.

Vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont.

(Cinco anos atrás...)


Papéis, papéis, e mais papéis. A mesa estava abarrotada deles. Ainda que estivesse afastado dos negócios do vinhedo há uma semana, graças a um maldito resfriado que custou a ir embora, Théodore Lupin agora estava de volta – ainda que não integralmente. As roupas elegantes tinham dado lugar agora a um pijama e robe, o cabelo penteado agora nada mais era que um alvoroço de fios ruivos, uns já brancos pelo tempo, desalinhados pelos dias passados de cama. E ainda que não se sentisse bem o bastante para voltar aos negócios, Théodore sabia que não poderia se dar ao luxo de permanecer doente. Não quando havia tanto trabalho a fazer.

A estranha – e última – conversa que tivera com o professor James Moriarty, quando em seu primeiro dia no vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont, acabou por ser quase profética. Meses depois de sua partida de volta à Inglaterra, chegou a notícia pelos jornais de que o professor havia morrido tragicamente após despencar das Cataratas de Reichenbach, na Suíça. Mas não era o seu nome que estava estampado na primeira página do jornal “Le Monde”, mas sim de outra pessoa: um detetive britânico chamado Sherlock Holmes. Moriarty nunca mencionou o nome dele em nenhuma de suas conversas, mas a reportagem deixou claro o bastante a Théodore quem era afinal o seu “grande inimigo”, e principalmente, o pai daquele bebê de cabelos negros e olhos estranhos – cinzas ou azuis? – que estava agora sob seus cuidados. A notícia de que ambos morreram foi, de certa forma, um alívio para Théodore, pois uma vez que o tal detetive estava morto, não seria necessário cumprir qualquer promessa a Moriarty. Arsène agora poderia ter a oportunidade de ser o que bem quisesse, sem o peso de ser o instrumento de uma vingança sob suas costas.

Quando Arsène estava em vias de completar quatro anos de vida, outra notícia chegou. Sherlock Holmes estava vivo. Muito embora seu corpo não tivesse sido encontrado no fundo das Cataratas, ao menos não da mesma forma que o mutilado corpo de Moriarty, era impossível presumir que alguém seria capaz de sobreviver àquela queda, mas o tal detetive realmente parecia ter sete vidas. E desde que notícias de seu retorno chegaram ao jornal, Josephine não o deixou em paz. Insistiu para que ele continuasse com o plano de Moriarty e transformasse Arsène no maior criminoso do mundo, tal como desejava o finado. Um plano que naquela época não fazia o menor sentido, mas agora Théodore conseguia compreender o que Moriarty pretendia: fazer o detetive ser derrotado por seu próprio filho, sem dúvidas.

Para aquietar um pouco mais a governanta, Théodore cumpriu seu desejo. Ensinou alguns truques de seus tempos de gatuno a Arsène, e não demorou a notar que o menino, então com cinco anos, era extremamente habilidoso. Aprendia absolutamente tudo com grande facilidade, era ágil e inteligente. Desde Matemática, Inglês, Esgrima e especialmente, as artes de ser um ladrão. Roubar objetos sem ser notado, fazê-los desaparecer às vistas quase que como um truque de mágica. Tudo parecia ser tão inexplicável a Théodore que ele decidiu compreender, afinal, de onde vinha tamanha habilidade, e em especial, como poderia refiná-la melhor. Durante uma passagem pela cidade de Bordeaux, chamou-lhe a atenção uma livraria, que estava expondo livros publicados por um tal de Dr. Watson, que tratavam sobre o tal Sherlock Holmes. Como jamais poderia conhece-lo propriamente, sua saída foi comprar todos os livros publicados a seu respeito. Ali, em cada página dos contos de Watson a respeito do detetive, estava a explicação para as impressionantes habilidades de Arsène.

A morte de Moriarty deixou Théodore um homem rico, mas menos do que imaginava. Toda a fortuna deixada em testamento por Moriarty estava em possessão de Josephine, a governanta da casa, mas em nenhum momento a mulher idosa chegou a cogitar em expulsá-los dali, talvez porque tenha criado pessoalmente Arsène e se apegado ao menino quase que como uma mãe. Mas ela não sabia cuidar dos negócios, e como os administradores de Moriarty simplesmente foram presos, restou a Théodore cuidar dos negócios pessoalmente. É verdade que havia aprendido uma coisa ou outra com o antigo administrador, mas precisava reconhecer que isso apenas não bastava. Com toda sua cadeia de fornecedores e clientes já bem estruturada, por sorte o vinhedo funcionava muitíssimo bem, quase que sozinho, restando apenas as tarefas mais burocráticas a serem feitas. O vinho produzido era considerado um dos melhores da região e já tinha seus compradores fixos.

Entretanto, há quase três anos, o vinhedo não parecia produzir tão bem quando antes. A produção de uvas estava fraca, reduzindo a cada ano, e já não era o suficiente para atender aos contratos com os clientes. Em consequência, o lucro caía cada vez mais, a ponto de Théodore não fazer ideia de como recuperar os bons tempos do vinhedo. Pagou alguns especialistas em geologia e ouviu a pior notícia que poderia ter: o vinhedo, que produzia muito provavelmente desde a Idade Média, estava passando agora pela inevitável fase de esgotamento do solo. Não tardaria até que as terras se tornassem improdutivas. Um único especialista lhe ofereceu uma espécie de “tratamento” do solo, mas custava uma verdadeira fortuna, impossível de pagar.

E para completar, Théodore adoeceu.

Foi uma gripe estranha. Não sabia dizer se foi a friagem daquela semana bastante fria que atingiu Bordeaux, muito embora o médico tenha sido enfático em dizer que seu estado de nervos estava agravando ainda mais sua saúde. Desde a derrocada do vinhedo, Théodore vez ou outra sentia leves palpitações, mas que passavam rápido. Entretanto, cada vez mais frequentes nos últimos tempos. Ah, se ainda tivesse saúde dos tempos de sua juventude... Certamente estaria dando um jeito em levantar um bom dinheiro e melhorar a situação. Mesmo que tivesse que recorrer ao mundo do crime novamente. Mas agora estava reduzido a um velho caquético, sem quaisquer condições de roubar residências como antes.

Ouviu alguém bater à porta. Era Josephine, sabia. A governanta trazia uma bandeja com chá e biscoitos.

-Está melhor, Théodore?

-Vivo. Ou quase isso. – disse, tossindo.

-O médico foi bem claro. O senhor só deveria se esforçar se...

-Fora de qualquer cogitação. O vinhedo está precisando de mim... – disse, mexendo nos papéis. Pouco havia mexido neles e foi de pronto acossado por uma tosse violenta.

-Acha que vai encontrar escondido por entre esses papéis o dinheiro de que precisa para recuperar as terras? Pois esqueça. A solução para o problema desse vinhedo está nesse momento dormindo em seu quarto, se recuperando da ressaca da farra da noite passada...

-Arsène já está em casa? Chegou cedo, então... – comentou Théodore, enquanto separava alguns documentos.

-Sinal de que a festa nos Chevalier deve ter sido muito fraca de bebida. Suspeito de que não somos os únicos que estamos passando por decadência nessa região.

-Aqui produz vinho quase que desde os tempos de Jesus Cristo. É claro que um dia essas terras iriam se cansar. Uma merda que isso tenha acontecido justamente na minha vez de ser rico explorando-as. Agora, quanto à Arsène... Esqueça. Não vou fazer o menino virar um ladrão de ofício, como tanto queria Moriarty. Ele não precisa disso. É inteligente, tem recursos...

-Até quando? – interrompeu-o Josephine, mas foi ignorada por Théodore, que continuou em sua argumentação.

-E além disso, eu já consegui uma cadeira para ele no curso de Direito na Universidade de Montpellier ano que vem.

Josephine desagradou-se.

-Arsène, cursando Direito?! Você quer transformá-lo exatamente no oposto do que havia prometido a Moriarty.

-Não, Josephine. Quero transformá-lo em um homem decente, que nem eu, muito menos o seu amado patrão, que Deus o tenha, jamais fomos.

-Mas o detetive está vivo! E cada vez mais famoso! E tudo isso enquanto Moriarty teve que ser enterrado em um caixão fechado, sem direito a despedidas, com a reputação manchada, jogada na latrina! Acha isso justo com a memória de alguém que simplesmente te tirou dessa vida bandida e insignificante que você levava nos becos de Paris?

Théodore ouvia Josephine, com desagrado. Ainda que se irritasse com sua insistência de cumprir promessas a mortos, no fundo ela tinha lá alguma razão. Mas era apegado demais a Arsène para transformá-lo em um criminoso. O havia criado como seu filho, mantendo a adoção, e principalmente as circunstâncias dela, em completo segredo.

-O que eu preciso é contê-lo. Arsène está cada vez mais farrista e nós não temos mais dinheiro para sustentar essa vida de luxos que ele leva. Nada de idas a cabarés de má fama, tavernas e festas com apostas. Hoje mesmo vou conversar com ele e...

Outro ataque de tosse. Conhecendo Théodore tão bem a ponto de saber que ele não mais a ouviria, Josephine optou por se recolher. Deixou a bandeja de chá sobre a mesa, pensando que talvez o teimoso fosse comer mais tarde, e assim caminhou até os aposentos de Arsène Lupin. Conhecendo-o tão bem, sabia que ele estaria dormindo.

O quarto de Arsène estava completamente escuro, mas os poucos raios de sol que escapavam da janela tornavam perceptível a silhueta do rapaz por entre os lençóis. Sem qualquer delicadeza, a primeira providência de Josephine foi abrir a cortina, deixando que a luz do Sol entrasse por completo no recinto. Sabia que o jovem odiava ser acordado dessa forma, mas era sempre a mais eficaz para fazê-lo levantar-se da cama.

Ao ouvir um grunhido de protesto dele, Josephine encaminhou-se para outra janela. Acabou, por fim, a tropeçar em algo. Um sapato... Feminino?!

-Eu não acredito... – murmurou a governanta, caminhando a passos apressados até a cama.

Com grande rispidez, Josephine puxou o lençol da cama, revelando a figura de dois jovens completamente nus sobre a cama. Um deles ela reconhecia muito bem, pois estava acostumada a lidar com sua nudez desde os tempos de bebê, mas o outro era de uma jovem de cabelos loiros, que imediatamente saiu de seu estupor estado de sono para levantar-se da cama, assustada com a maneira nada agradável com que fora despertada. Quem era ela, pouco importava a Josephine. O nome delas nunca fazia diferença naquela casa, em especial a Arsène, que mesmo tendo apenas quinze anos de idade já colecionava tantas conquistas amorosas em Bordeaux como uma criança colecionava insetos.

-Por que você é sempre tão desagradável quando me desperta, Josephine? – comentou Arsène, esfregando os olhos.

-Não seria necessário, se você se levantasse da cama em um horário convencional.

-Fala como se já fosse cinco da tarde... Aposto que nem é meio-dia ainda... – disse o jovem, levantando-se da cama. Sentia-se tão à vontade com Josephine que andava nu pelo quarto, despreocupado com sua nudez. Procurou pelo quarto por seu robe, e quando estava terminando de atá-lo em sua cintura, acabou surpreendido pela moça de cabelos loiros, que há poucos minutos estava dormindo em sua cama.

-Ah, eu não sabia que estava dormindo aqui...

-Como assim, você não sabia?! Esqueceu-se da noite incrível que tivemos juntos? – perguntou a mulher, insinuante.

-É que eu pensei que tivesse sido um sonho, de tão maravilhoso que foi. – respondeu Arsène, de modo galante. Josephine, que ainda estava no quarto, rolou os olhos. Arsène deveria estar tão bêbado voltando da festa que nem havia se recordado de estar acompanhado. Se soubesse o nome dela, seria um milagre.

-Bom, eu vou me vestir e ir embora. Meu pai deve estar procurando por mim.

-Quer que eu mande uma carruagem te levar em casa, mademoiselle... Er...?

-Espere, você não lembra do meu nome?!

Arsène suspirou profundamente. Estava bem claro que não. Quem era ela, afinal? Não era da família dos Chevalier, nem das Montserrát, muito menos dos Lyon ou dos Dumont... Então, quem ela seria?

-Você é um canalha! – esbravejou a moça, quase aos prantos. – Disse que me amava, que se casaria comigo, e tudo que fez foi me levar para a cama, tirar minha pureza!

-Não há rastro de pureza maculada alguma nesses lençóis, mademoiselle. – comentou Josephine, enquanto arrumava a cama desarrumada de Arsène. – Bom, se a senhorita não deseja ser conduzida por nossa carruagem de volta para casa, temo que terá de ir embora por seus próprios meios.

Ainda malvestida e carregando os sapatos, a jovem loira pôs-se embora do quarto.

-Mais uma golpista de olho neste vinhedo, aposto. – comentou Josephine.

-A senhora, sempre fazendo mal juízo das pessoas... – comentou Arsène, preparando uma banheira para se banhar.

-E o senhor precisa tomar mais juízo! – resmungou Josephine, recebendo do rapaz nada mais que um sorriso galante. – E não adianta sorrir para mim desse jeito. Sou imune a seu charme. Agora vá se banhar! Seu pai quer conversar com você. Ele o aguarda em seu gabinete e... O que é isso?!

Josephine sobressaltou-se, ao sentir algo tocar seu pescoço. Era um belo colar, uma jóia. Tinha uma ametista, pôde ver ao tocá-la com a ponta dos dedos. Tão bonita que a maravilhou. Ela não era capaz de enxergar o rosto de Arsène, que estava atrás de si, mas conseguia imaginar o sorriso vitorioso dele. Sempre sorria dessa forma quando conseguia surpreendê-la.

-De quem você surrupiou essa joia, Arsène?

-Adivinha? Da mademoiselle Margareth Chavelier. Nem percebeu, a pobre, de tão maravilhada que estava enquanto eu apalpava os seus...

-Poupe-me dos detalhes sórdidos, Arsène. – cortou Josephine. – Mas o que pretende fazer com essa joia?

-Devolver de alguma forma para ela, óbvio. Papai disse que preciso ser discreto. Só roubo porque gosto da emoção. É uma coisa inexplicável, parece, mas o meu pai diz que compreende bem o que sinto. Fico pensando como ele consegue passar tanto tempo atrás de livros e papéis, com tantas coisas emocionantes a se fazer... Nada pode ser mais entediante do que a vida que ele leva.

Josephine rolou os olhos. Théodore havia ensinado Arsène a roubar desde a mais tenra idade, mas ainda que seus truques não tivessem sido lá grande coisa, o menino era tão engenhoso que acabou por aprimorar todo o conhecimento adquirido, e em especial, aprender a usar sua beleza e charme enigmático com que fora agraciado. Com aqueles olhos cinzentos, cabelos negros e de porte atlético graças aos esportes que gostava de praticar todas as manhãs, que mulher resistiria? Mas Théodore o ensinou a devolver tudo que roubava. Obviamente, não com um pedido de desculpas, mas sim de alguma forma que fizesse o roubo soar mais como um puro descuido, e devolver discretamente consistia muitas vezes em um desafio quase tão emocionante quanto roubar. Mas com o vinhedo indo à bancarrota, aquela joia poderia vir bem a calhar, assim como outras tantas riquezas que Arsène e seu brilhantismo poderiam arrecadar...

Que idiotice, manter-se honesto em tempos tão difíceis.




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A notícia chegou-lhe quando estava na cozinha, a verificar o andamento do jantar.

Era Arsène. Chegara esbaforido, desesperado. Com os olhos avermelhados, ameaçando o derramamento de lágrimas. Era um rapaz tão alegre e jovial que vê-lo chorar havia se tornado raridade, e sempre remetia à Josephine os choros de sua infância, quando ele caía de algum lugar depois de aprontar alguma travessura. Mas dessa vez, parecia ser sério.

-Meu pai está passando mal, Josephine! – sacudiu o jovem seus ombros.

-O quê?!

-Eu o encontrei caído sobre a mesa, em cima dos papéis! Ele parece estar desmaiado!

-Aquele teimoso do seu pai! – resmungou Josephine. – Arsène, vá até a cidade imediatamente e mande chamar o Dr. Valois.

-E você?!

-Eu vou ficar aqui e ver se consigo ajudar seu pai de alguma forma. Agora, vá! Pegue seu cavalo, para ser mais rápido! – ordenou-lhe a mulher, no que fez Arsène correr até os estábulos, buscando segurar as lágrimas. Sequer vestiu suas botas de equitação ou seu chapéu, pegando seu cavalo e indo em disparada até a cidade, onde ficava o consultório de Dr. Valois, que acompanhava a saúde de seu pai de perto.

Josephine apressou-se até o gabinete de Théodore. Realmente, o jovem não estava mentindo. Théodore estava debruçado sobre a mesa, mas não estava de todo desmaiado. Os olhos estavam trêmulos e era possível ver que ainda respirava. Decerto o jovem Arsène só o viu caído sobre a mesa e, assustado, logo correu à procura de socorro.

-Théodore? Você está bem?

-Meu... Remédio.... – ele pedia, quase que em um sussurro.

Josephine sabia o que era. Um frasco pequeno e comprido, que o Dr. Valois havia deixado em sua gaveta. Dizia que ele deveria tomar quando se sentisse mal, com fortes palpitações, e a julgar por se estado de fraqueza, estava passando por uma delas. Mas talvez, a mais severa que já enfrentara até aquele momento. Ou até mesmo a última.

Mas Josephine nada fez.

Estática, ficou a observá-lo. Ele abriu os olhos, voltando-se a ela. Tentava se mover, era nítido, mas não conseguia.

-Meu... Remédio... Por... Favor.

-Eu sinto muito, Théodore. – começou a falar a governanta. – Sinto muito por todo o veneno que secretamente coloquei na sua comida durante todos esses meses. Mas eu tinha uma promessa a cumprir.

-Meu... Remédio... – pedia Théodore, num tom cada vez mais suplicante.

-Moriarty me fez prometer que Arsène Lupin deveria estar preparado para dar andamento ao seu plano de vingança contra Sherlock Holmes após o seu aniversário de dezoito anos, mas ele já tem quinze anos e tudo que sabe fazer da vida é cair na esbórnia. Está óbvio que você não cumprirá com a promessa que fez. Graças a você e seu “apego” aquele menino, agora Arsène infelizmente não é nem mesmo uma sombra do que desejava Moriarty, mas nada que alguns anos de intenso treinamento não resolvam. E infelizmente, meu caro Théodore, você não faz mais parte desse plano.

-Remédio... Meu....

-Ainda assim, agradeço muito por ter sido um bom pai a Arsène, ainda que isso não fizesse parte do acordo. Mas você tentou protege-lo demais. Queria que ele fosse uma pessoa normal, e com isso, traiu o homem que lhe estendeu a mão e lhe deu uma vida digna, que nem mesmo nos seus mais inimagináveis sonhos poderia ter. Mas diferente de você, eu cumpro com a minha palavra, e como você não concordou com o destino de Arsène, tive que tirá-lo de meu caminho. Queria que tudo tivesse sido diferente...

-Meu... Remédio... Meu... Remédio... Por favor...

Josephine aproximou-se de Théodore. Estendeu sua mão magra em direção a seus cabelos ruivos, pondo-se a alisá-los.

-Dói muito, não é? Eu sei, sim. Não é uma forma agradável de se morrer. Mas diante das circunstâncias, era o que precisava ser feito. Mas não se preocupe. Em alguns instantes, essa dor passa. Só esperar mais um pouco.

E ele esperou. Tentou ainda dizer uma última palavra, antes do derradeiro suspiro. Chegou a arregalar os olhos, mas em vão.

Estava morto há pelo menos uns dez minutos quando Arsène e o Dr. Valois chegaram.




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Bordeaux, França. 27 de Janeiro de 1909.

Vinhedo de Sainte-Croix-du-Mont.



-Então, você está aqui.

Josephine aproximou-se de Arsène. O menino, completamente vestido de preto, estava com o cabelo bagunçado, a barba por fazer e repleto de orelhas, que mais pareciam sobressaltar seus marcantes olhos cinzentos. Uma semana havia se passado desde a morte de Théodore Lupin, mas para ele, o sofrimento era quase o mesmo daquele fatídico dia. Pudera. O menino cresceu sem mãe, pouco sabendo dela. Obviamente, não a verdadeira história, mas algo bem genérico, e suficiente para que ele não viesse a fazer qualquer pergunta a seu respeito. Dizer que a mãe o abandonou foi a saída mais fácil para Théodore justificar a falta dela, e também silenciar qualquer questionamento sobre quem era ela, como ela era... Mas a medida que Arsène crescia, mas diferente ele se parecia de Théodore, o que fazia o menino conjecturar que deveria ser simplesmente a cara de sua mãe, pois nada tinha do pai. Por isso, Théodore era simplesmente tudo que ele tinha de família. Claro, havia também Josephine, mas nada se comparava à parceria que tinha com seu pai.

-Não consigo acreditar que ele me deixou completamente sozinho.

Arsène encarava diante de si a lápide de seu pai. O nome cravado, a data de nascimento e morte, além dos dizeres “amado pai”, que o próprio Arsène pediu para que escrevesse. O local de sua sepultura, em uma colina diante do vinhedo, também foi escolha de Arsène. Ele sempre gostou de fazer piqueniques com seu pai ali, e imaginava que ele ficaria feliz por ser sepultado ali.

-Arsène, você precisa reagir. Já se passou uma semana e...

-Eu não consigo, Josephine. Não consigo entrar naquele gabinete, e... Encarar aqueles papéis, aqueles livros... Tudo aquilo faz eu me recordar de meu pai. O vinhedo precisa de mim, eu sei, mas eu não consigo sentar naquela cadeira e cuidar dos negócios, tal como meu pai fazia.

-Esqueça o vinhedo, Arsène.

O jovem surpreendeu-se com o pedido de Josephine.

-O que?! Mas esse vinhedo era a vida do meu pai!

-Sabe qual foi o maior problema do seu pai, Arsène? Ele te protegeu demais. Se pensa que está herdando um vinhedo próspero e uma conta recheada no banco, está enganado. Há anos esse vinhedo não produz mais como antigamente e seu pai o afundou em dívidas só para manter as aparências.

-Não... – recusava a acreditar Arsène. – Nós produzimos o melhor vinho de Bordeaux! Você deve estar exagerando, Josephine...

-Lamento dizer, mas não estou. Esse vinhedo está decretado à falência. As terras estão esgotadas, e a cada ano que se passa, produzirão cada vez menos. Não há nada que possa ser feito. – explicou a mulher, ocultando o que sabia a respeito dos geólogos contratados por Théodore.

-Não é possível... Se tudo isso for verdade, então por que o meu pai simplesmente não me contou?

-Porque ele te amava muito, Arsène. Ele achava que ia conseguir dar um jeito e também porque queria te proteger. Mas não há como lutar contra os fatos.

-Então... Nós estamos falidos, é isso? – chocou-se Arsène.

-Sim, estamos. Infelizmente.

-Mas o que será de mim, Josephine? Meu pai não me ensinou coisa alguma a respeito dos negócios. Sim, devo admitir que nunca procurei saber disso, mas... O que vou fazer? Não sei ganhar dinheiro, só gastar!

Ouviu da idosa uma risada.

-Mas é claro que você sabe, Arsène. Você sempre soube. E seu pai também. Sabe esses truques que ele te ensinou? Como roubar sem ser notado? Pois bem, ele estava te preparando para esse momento.

-Mas o meu pai nunca permitiu que eu roubasse para ganhar dinheiro! – protestou Arsène. – Disse que era só uma forma de me divertir, tirar-me do tédio, nada além disso!

-Porque ele pensou que você jamais fosse precisar disso, Arsène. E ele lutou para isso. Mas agora é tarde. Ele se foi e não está mais aqui para protege-lo da realidade do mundo. Precisa fazer tal como seu pai fez nos velhos tempos e se entregar ao seu verdadeiro dom: a Arte de Roubar.

Arsène riu.

-Josephine, tem ideia do que está me pedindo?!

-Tenho a mais absoluta ideia do que estou pedindo, sim.

-Não pode ser! Se seguir por esse caminho, vou me tornar um ladrão, um criminoso! Meu pai se reviraria no túmulo, se soubesse! – exclamou Arsène, apontando para a lápide ao seu lado.

-Ele sempre me disse que faria o que fosse necessário para que você não levasse uma vida na miséria, até mesmo voltar ao mundo do crime, se fosse preciso. Você sempre foi cercado por tudo do bom e do melhor, Arsène. Não sabe como é passar fome, ter necessidades, os bolsos vazios... Mas seu pai soube. Como acha que ele se sentiria sabendo que você estaria fazendo isso por nada além de necessidade, Arsène? Ele te julgaria por algo que ele mesmo precisou fazer quando tinha a sua idade?

-Bom, eu ainda posso vender o vinhedo.

Mais uma vez, Josephine riu.

-Com essa produção baixa dele? Conseguiria o insuficiente para cobrir as dívidas e olhe lá.

-Então eu passo a trabalhar! – concluiu o rapaz. – Procuro um emprego na cidade! Tenho quinze anos, sou jovem! Sou forte, sei ler e escrever, entendo de montaria! Trabalho para alguém como eu não há de faltar!

-Eu sinto muito, Arsène, mas você foi criado cercado de mimos e riqueza e não sabe fazer nada além de cortejar damas e cair na gandaia. Quando tiver que encarar um patrão de verdade, não vai aguentar acatar ordens, tal como eu fiz a minha vida inteira. Mas há algo que sabe bem o bastante para conseguir dinheiro...

O jovem parecia pensativo. Olhou para o lugar ao seu redor. Para os vinhedos.

-Não quero mais ficar aqui, Josephine. Esse lugar jamais será o mesmo sem meu pai. Vou vender o vinhedo, pagar as dívidas que ele deixou e... Se o dinheiro da venda não for o suficiente, eu... Acho que você tem razão, Josephine. Talvez eu tenha que voltar às... Atividades tradicionais da família Lupin. Ao menos até fazer tal como meu pai, e conseguir dinheiro o bastante para nunca mais precisar roubar!

Arsène trazia um sorriso aliviado e vitorioso. Parecia certo de que bastaria alguns roubos para nunca mais precisar roubar. Mas Josephine conhecia bem a natureza humana. Sabia que uma vez que Arsène começasse a ganhar dinheiro com isso – dinheiro fácil e de uma forma que ele achava divertida e emocionante, pensou – ele não mais pararia. E se tornaria melhor a cada golpe, a cada roubo, e ela o ajudaria a aprimorar suas habilidades. Seria ela quem o orientaria, dali em diante, nesse aspecto. Afinal, em quem mais ele confiaria?

-Muito obrigado por dar um rumo à minha vida, Josephine. – abraçou-a Arsène, sem fazer a mínima ideia dos planos devassos que a governanta planejava para si.