A Duel of Minds - Sherlock Holmes vs Arsène Lupin
13 Coisas Debaixo do Tapete
Londres, Inglaterra. 8 de Dezembro de 1911.
Bairro de Whitechapel.
Era tarde de sexta-feira, início do movimento mais forte do pub. Passava das duas da tarde e a clientela naquele momento se concentrava mais em gente em busca de um bom almoço do que bêbados. Para Ettie Smith, lidar com bêbados era sempre mais inconveniente do que gente faminta e impaciente com o prato de comida que ainda não estava pronto, mas os dois tinham lá seus transtornos. Na verdade, o que não era um transtorno naquele tipo de emprego? Tinha que se preocupar em equilibrar canecas e canecas de cerveja e vinho em uma bandeja e ao mesmo tempo se esquivar dos fregueses que tentavam passar-lhe a mão. Se não estivesse precisando tanto do emprego, certamente receberiam uns bons tabefes pela ousadia, mas já havia passado dos quarenta anos de idade, com dores constantes de coluna, e o trabalho mais pesado que tanto fizera na vida tornava-se insuportável de ser executado. Tudo que queria era voltar aos seus vinte e poucos anos de idade, com poucas limitações, onde conseguia trabalhar como empregada em casas de famílias ricas da cidade, bem menos tortuoso que a rotina daquele pub. Mas o tempo não voltava atrás.
De tão absorta nesses pensamentos, mal se deu conta de que havia um homem no galpão, a tamborilar os dedos por cima daquela madeira desgastada pelo tempo, tentando chamar sua atenção com certa impaciência. Ettie estava ocupada, enxugando algumas canecas que havia acabado de lavar enquanto pensava nos devaneios da vida e demorou a notar sua presença, mas tão logo ergueu seus olhos cinzentos, assombrou-se.
-Você?! – foi tudo que pôde dizer, como se estivesse diante de um fantasma.
-Boa tarde para você também, Henrietta Smith. Será que podemos conversar? – disse o homem diante de si. Estava visivelmente envelhecido, com alguns cabelos brancos a preencher os cantos das têmporas de seu lustroso e bem penteado cabelo negro, mas a voz de barítono de tom frio permanecia exatamente a mesma de vinte anos atrás. Colocando a caneca ainda úmida em um canto, a mulher deu as costas para ele, passando sua atenção para outro canto do pub que nem precisava de qualquer limpeza.
-Ettie...
-Não quero falar com você. Aliás, essa foi a ordem que você me deu na última vez que nos falamos, não? Que eu não deveria mais procura-lo. E eu cumpri com o combinado.
-Cumpriu, realmente. Mas... O que me traz a Whitechapel é outro assunto. Muito sério, por sinal. Será que podemos conversar às sós?
-Estou trabalhando, se acaso não percebeu.
O homem suspirou, olhando ao redor. Havia pouquíssimo movimento no pub.
-Ninguém irá notar se você reservar pelo menos uns cinco minutos para conversarmos. – retrucou, recebendo em resposta da mulher um suspiro cansado.
-Você está sendo impertinente, Mr. Holmes. Se continuar insistindo, vou chamar os rapazes para enxotá-lo daqui a pontapés.
Sherlock Holmes colocou uma moeda sobre o balcão. Era o suficiente para comprar uma caneca da cerveja da casa.
-Não podem enxotar um cliente. Agora, traga-me uma cerveja escura.
Ettie bufou, contrariada. O diabo estava certo. Seu patrão não acharia nada bom se ela expulsasse um cliente dali, a troco de nada. Por isso, fez o que era necessário. Pegou uma caneca e a encheu com a cerveja escura conforme ele pediu, até que a caneca quase transbordasse de tanta espuma. Mas o detetive só deu um gole, permanecendo no pub. Claramente estava esperando por ela.
-Vai ficar plantado aí até quando?! – questionou.
-Até quando for necessário. – respondeu Holmes, dando outro pequeno gole. Nesse ritmo acabaria aquela maldita cerveja amanhã. Parecia um mestre na arte de irritá-la, pensou Ettie.
Outro homem se aproximou do balcão, quase esbarrando em Holmes. Foi preciso nada mais que um olhar para deduzir que estava trabalhando na obra da esquina daquela rua, a julgar pelo estado empoeirado de suas roupas. Tirou seu chapéu, deixando-o sobre o balcão e deixando à mostra seus cabelos avermelhados. Era corpulento, com cara de poucos amigos, e era possível ver uma tatuagem tipicamente de marinheiro a escapar das mangas arregaçadas de sua camisa. Tipos como esse eram bem comuns em Whitechapel, sabia Holmes.
-Uma linguiça frita. – pediu, deixando algumas moedas no balcão. – Capricha na cebola daquele jeito que gosto, Ettie!
A mulher assentiu de um jeito cordial, mas que para homens como aquele sujeito, poderia ser interpretado de mil formas possíveis. Preparou o prato, colocando algumas rodelas de cebola a mais, no que o homem agradeceu, com uma piscadela insinuante. Chegou a olhar para o cavalheiro estranhamente bem-vestido demais para aquele recinto, mas ele parecia ocupado a bebericar uma cerveja escura despretensiosamente, como se estivesse com os dois pés na Lua.
Ettie terminava de encher dois copos de vinho, colocou-os sobre a bandeja, e quando estava prestes a ir até uma mesa, sentiu o sujeito grosseirão do balcão estender a mão na direção de suas costas. Estava prestes a desviar, como costumava fazer com todos os clientes, mas antes que pudesse se aperceber, em um piscar de olhos o sujeito estava com o braço torcido atrás das costas e a cara chafurdada no prato de linguiça. Gritava, esbravejava de dor, tentava se contorcer para se libertar, mas em vão. Holmes não o soltava de jeito algum.
-Me solte! – gritou, no que imediatamente mobilizou outros homens do pub, que a julgar por suas maneiras e roupas, eram de reputação tão duvidosa quanto o grandalhão agredido e encontravam no engomadinho presente naquele pub uma clara ameaça. Holmes o soltou, depois de fazer seu rosto escorregar por metade do balcão. O homem caiu ao chão, atordoado e alheio ao clima de guerra que havia se espalhado pelo pub.
-Parem com isso! – ordenou Ettie, preocupada. Contou cinco homens contra Sherlock Holmes, bem mais jovens que ele. Sabia que o detetive era mais velho uns anos que ela, e que muito provavelmente já não tinha mais idade para aquele tipo de briga. Mas sua ordem não foi o suficiente para evitar a pancadaria generalizada que começou a tomar o pub.
O detetive, entretanto, parecia não precisar tanto assim de ajuda. Conseguiu defender-se dos dois primeiros agressores com poucos golpes, e o terceiro apelou para uma faca. Porém, essa vantagem não foi o suficiente para subjugar Holmes, que o desarmou como se tivesse tirado doce da boca de uma criança. Os outros dois brigões que restaram, entretanto, deram mais trabalho. Atacavam juntos, e Holmes não conseguiu se safar de receber uns bons socos. Mas a luta acabou quando, enquanto golpeava um deles, recebeu uma garrafada do outro agressor por trás de sua cabeça, fazendo-o cair instantaneamente desmaiado ao chão.
-Scott! Scott! – gritava Ettie, desesperada, tentando acordar Holmes com leves tapas em seu rosto. – Scott, acorde! Scott!
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Compreendi que declarara guerra contra Charles Augustus Milverton, embora pouco soubesse do estranho rumo que tomariam os acontecimentos.
Durante alguns dias, Holmes entrava e saía a qualquer hora vestido daquela forma; mas, excetuando-se a informação de que passava o tempo em Hampstead, eu nada sabia de seus movimentos. Finalmente, numa noite tempestuosa, voltou de sua última expedição. Depois de tirar o disfarce, sentou-se diante do fogo e riu, à sua maneira silenciosa, para dentro.
-Não me julga um galante, não é verdade, Watson?
-Não, claro que não!
-Creio que gostará de saber que estou noivo…
-Caro amigo! Parabéns….
-… da empregada de Milverton.
-Deus do céu, Holmes!
-Eu queria informações, Watson.
-Mas não terá ido longe demais?
-Era necessário. Sou um encanador, dirijo um negócio próspero, e meu nome é Scott. Tenho saído com ela todas as noites, e temos conversado muito. Santo Deus, aquelas conversas! Em todo caso, consegui o que queria. Conheço a casa de Milverton como a palma de minha mão.
-Mas e a moça, Holmes?
Meu amigo encolheu os ombros.
-Não há remédio, Watson. Temos de lutar com as armas à nossa disposição, quando está em jogo um assunto tão importante. Mas folgo em dizer-lhe que tenho um temível rival que, sem a menor dúvida, me substituirá assim que eu virar as costas. Que linda noite!…
(extraído do conto “Charles Augustus Milverton”)
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A sensação de algo gelado a tocar seu rosto foi o que lhe acordou. Abriu os olhos com dificuldade, e a primeira coisa que percebeu era que não estava mais no pub. Lembrava com poucos detalhes do que tinha acontecido. Uma briga e... Bom, havia apagado, e nem mesmo sabia dizer ao certo o que o atingiu, mas a julgar pela dor de cabeça, foi em sua cabeça. E o que era aquilo, na lateral de seu rosto? Carne?
-Onde estou? – balbuciou confuso, ao olhar a seu redor e perceber que estava em uma casa que lhe era desconhecida. E, obviamente, bastante humilde. O assoalho velho e rangido abaixo de seus pés, o sofá rasgado pelo uso do tempo e o papel de parede envelhecido e desbotado da parede gritavam esse fato. Mas afinal, onde estava? Não havia ninguém à vista para explicar-lhe.
A porta se abriu, subitamente. Era Ettie.
-Que bom que você acordou! – aliviou-se a mulher. – Se continuasse desmaiado por tanto tempo assim, teria de leva-lo a um hospital. E só Deus sabe como os hospitais de Whitechapel são horríveis. Era capaz de se internar lá e sair com uma perna amputada!
-Essa é sua casa, Ettie?
-Sim, se é que dá para chamar de “casa”. É o teto que consigo pagar com meu salário.
Um forte barulho de trem sobressaltou Holmes. Era um barulho tão forte que fazia a casa inteira quase que chacoalhar. Sem dúvida, aquela casa ficava bem abaixo dos trilhos do trem.
-No início eu também ficava assim, mas já me acostumei. – respondeu Ettie, ao ver a reação de surpresa do detetive com o barulho do trem a passar.
-Não fazia ideia de que você estava sob tais condições. – admitiu Holmes, tentando se levantar apesar da leve tontura que sentia.
-Como se isso fizesse alguma diferença para você... – retrucou a mulher, claramente impaciente. – Bom, já que você me fez perder o meu emprego com essa sua briguinha estúpida no pub, acho que é melhor você explicar porque diabos veio me procurar depois de tanto tempo.
Holmes suspirou, alisando o enorme galo formado atrás de sua cabeça.
-Ettie... Gostaria que tivesse outra forma de começar esse assunto, mas... Quando nós... Enfim... Quando... Você sabe... Eu por acaso a engravidei?
A mulher pôs-se a rir.
-Mas de onde você tirou esse absurdo?
-Apenas me responda. Sim ou não? À época, não me preocupei com isso, mas agora...
-Acho que está um tanto tarde para se preocupar, não? Isso foi há mais de vinte anos.
-Pois é exatamente esse o problema, Ettie. Foi há mais de vinte anos, o que significa que se eu realmente a engravidei naquela noite, essa criança tem aproximadamente essa idade.
A mulher pôs-se a rir nervosamente, dando atenção aos armários da casa, claramente vazios de qualquer coisa que importasse. Parecia buscar uma forma de desviar sua atenção daquela conversa.
-Não há criança alguma, Holmes. E o que te faz pensar que haveria? Pois sei que um homem ocupado como você não tem tais pensamentos à toa.
O detetive suspirou.
-Tenho razões para acreditar que tenho... Ou posso ter... Um filho de aproximados vinte anos de idade.
Ettie riu, como se tivesse acabado de ouvir uma piada.
-E por que ele seria justamente comigo? Aposto que fui só mais uma das empregadinhas que você levou para cama para conseguir solucionar os seus “casos”.
-Não. – retrucou Holmes, um tanto envergonhado por ter que se recordar desse detalhe de seu passado. – Só agi dessa forma vil e canalha contigo.
-Então, pode ter sido com alguma outra amante sua.
-Impossível. A única mulher com quem me deitei em toda minha vida foi você.
Ettie parou de fingir estar ocupada, e voltou-se à Holmes. Seus olhos verdes agora estavam arregalados de tanta surpresa. Mesmo sua boca chegou a encurvar em abismação. Já o detetive parecia querer afundar sua cabeça em um buraco qualquer, de tão encabulado que estava.
-Ettie... Mesmo diante de todo mal que eu te fiz, preciso que seja sincera. Sua resposta poderá explicar algo muito importante que está acontecendo na minha vida.
-Eu li nos jornais. Está relacionado ao tal ladrão francês, é isso?
Holmes assentiu. – Tenho evidências de que esse rapaz é absurdamente parecido comigo. E ele está agindo com tamanha ousadia para me provocar, para me destruir. Em meus anos de detetive, só vi tamanha determinação assim quando diante de alguém movido a sentimentos de vingança pessoal, e o que poderia explicar tamanho ímpeto desse rapaz é o fato dele ser realmente meu filho e ter se sentido abandonado por mim. Portanto, preciso que me conte a verdade, por mais dura que ela possa ser e...
-Eu estava grávida, sim! Pronto, era isso que queria saber?! – respondeu Ettie, secamente.
Holmes estremeceu.
-Então... Você realmente estava esperando um filho meu.
-Sim.
-E por que diabos não me contou?! – exclamou o detetive, revoltado.
-Só tive conhecimento depois que você me enxotou, que jogou aquele cheque recheado na minha cara e me mandou embora! Como acha que eu poderia procura-lo outra vez, depois de ter me humilhado daquela forma?!
Como se tivesse perdido o chão, Holmes apoiou suas mãos em uma mesa.
-Jamais poderia presumir... Jamais poderia supor que...
-Acha que para fazer um filho precisa de quantas tentativas?! Uma só já basta. Mesmo que tenha sido uma das piores transas da vida de alguém, mas é o suficiente para embuchar...
-Não precisa tripudiar de mim desse jeito. Eu não te enganei quanto à minha, er... Falta de experiência, e mesmo assim você quis, não? Agora me explique. O que aconteceu depois que entreguei a você aquele cheque? O que fez depois disso, Ettie?
A mulher suspirou, sentando-se ao sofá rasgado.
-Pois é melhor que se sente também. A história é muito longa e cansativa de contar, que dirá de se lembrar. Mas será bom até para que entenda porque fui parar nessa sarjeta, e também o tamanho do estrago que você fez na minha vida.
Holmes a obedeceu, sentando em uma cadeira oposta ao sofá.
-Eu peguei o seu maldito dinheiro e decidi recomeçar minha vida na França. Era um sonho bobo, sabe? Ser atriz. Lembro de ter contado isso a você nos tempos e que trabalhava naquela casa em Milverton e você, como todos os outros, riu da minha cara, disse que eu era uma tola, uma sonhadora. No fundo, estava certo. Foi uma tolice sem tamanho. Encontrei um picareta em Paris, que me prometeu mundos e fundos em troca do meu dinheiro, e quando dei por mim, fui enganada por ele. E lá estava eu, sem um tostão sequer no bolso, nem mesmo para voltar para a maldita Inglaterra, de onde eu nunca deveria ter saído.
Holmes massageou a testa. Aquele cheque havia sido bem gordo, na verdade, era praticamente tudo que recebera de seu ilustre cliente, por ter conseguido impedir a chantagem do infame Charles Augustus Milverton, tamanho foi o peso na consciência de Holmes por ter usado Ettie para conseguir o que precisava. Ao ver o espanto da moça com aquela pequena fortuna, chegou a imaginar que ela jamais vira tanto dinheiro na vida, mas nem em suas piores perspectivas o detetive poderia supor que ela perderia todo aquele dinheiro de forma tão leviana.
-Morei em um beco nojento de Paris. Não conseguia trabalhar em casas de gente abastada, porque mal sabia falar francês, mas consegui um emprego em um hospital do subúrbio da cidade. Fazia o trabalho por lá bastante pesado. Varria, limpava chão, lavava lençóis sujos... Acho que foi o emprego mais pesado da minha vida. Um dia, passei mal. E então, descobri o pior. Estava grávida, e pelas minhas contas, só poderia ser você o pai, o que tornava minha situação ainda pior. Aquela gravidez foi a pior coisa que poderia ter me acontecido naquele momento, em um país estranho e sem amigos, trabalhando pesado para não passar fome. Por isso, eu...
Ettie parou por um instante, levemente envergonhada.
-Não tive outra alternativa senão interromper a gravidez.
-Então, você abortou? – perguntou Holmes, num tom de voz sem qualquer repulsa, ao contrário do que ela poderia supor. Talvez porque o detetive, em tamanho estado de desespero, buscasse a mesma alternativa em seu lugar. Por isso não a recriminara.
-Recorri às mesmas táticas das mulheres da vida e tomei um chá abortivo. Mas nada aconteceu e o bebê continuou a crescer em minha barriga. Estava tentando disfarçar de todas as formas, com medo de que o hospital descobrisse. Tinha medo de perder o emprego, ainda mais porque estava grávida e nem mesmo era casada, mas chegou a um ponto que uma das enfermeiras percebeu e me chamou para conversar. Ela era a mais próxima de mim naquele lugar, justamente por ser a única que sabia falar inglês por ali, por ter morado uns anos na Inglaterra. Sabe, os malditos franceses não gostam de falar outro idioma, aqueles arrogantes...
-Eu sei bem como é, realmente. – concordou Holmes. – Mas continue.
-Aquela mulher se chamava Josephine. Era o mais próximo de amiga que eu tinha naquela cidade, e com o tempo, senti-me à vontade de contar tudo. Contei que o pai da criança era um britânico que só tinha me usado para conseguir o que queria, algo que muitas mulheres já passaram na vida. Ela insistia para que eu te procurasse, dizendo que a paternidade poderia amolecer seu coração, mas quando contei o seu verdadeiro nome, ela mudou por completo. E então, começou a falar de você como se o conhecesse muito bem. E falou bastante mal, por sinal.
-Hum... – Holmes começou a pensar. – Isso é tudo que sabe sobre ela? Josephine e que era enfermeira? Confesso que o nome não me diz nada. Será que ela é alguém que acabou prejudicada de alguma forma pelo meu trabalho? Talvez esposa ou irmã de alguém que ajudei a cair em desgraça?
-Não sei. Então, começou a vir outro assunto. Ela disse que eu era jovem demais para carregar o fardo de ser mãe solteira, que eu ainda poderia me casar, mas que criar um bebê estando sozinha tornaria isso impossível. Por isso, ela me perguntou se eu não queria simplesmente me desfazer do meu filho. Dizia que havia muitas famílias ricas que gostariam de ter um bebê como o meu, que poderia arranjar uma dessas.
-Mas... Você fez isso? Entregou-o à adoção?
-Cheguei a pensar nisso, sim. Que vida eu poderia oferecer àquela pobre criança? Mal conseguia pagar o aluguel, comer! Comecei a pensar que talvez, o melhor a se fazer seria entrega-lo a alguém com melhores condições do que eu. Então... Outro pensamento me veio à cabeça. Você era rico. Talvez não tão rico quanto as famílias que Josephine prometia, mas entregar o filho para você era melhor do que a um estranho, pois assim eu poderia manter algum contato com ele, ou ao menos eu pensava assim. Então, recusei a ideia de adoção.
-E como essa Josephine reagiu a isso? – perguntou Holmes, interessado.
-Não muito bem, mas disse que iria respeitar minha decisão. Contei a ela que assim que o bebê nascesse, iria retornar à Inglaterra, de um jeito ou de outro, e entrega-lo a você. No fundo, até enxergava nisso um gesto de vingança. O grande Sherlock Holmes, obrigado a criar um bastardo, filho de uma empregada sem berço.
Holmes riu. Já conseguia imaginar bem o escândalo que seria em Baker Street.
-Então, onde está esse bebê?
-Tive um parto muito complicado, com um trabalho de parto que durou horas e horas. Cheguei a pensar algumas vezes que fosse morrer, as enfermeiras diziam que não tinha passagem, e mesmo assim insistiam no parto e... Quando finalmente consegui parir, o bebê...
Ao perceber que Ettie estava começando a se emocionar, Holmes decidiu permanecer quieto e dar tempo a ela para que continuasse, ignorando sua ansiedade em saber mais daquela bizarra história que estava a se apresentar perante seus olhos.
-Ele não chorou. Essa é a lembrança mais forte que tenho. De Josephine, segurando-o ao ar. Um menino... Eu percebi que ele tinha um pintinho. Mas estava quieto demais. Não chorava. Ele era muito pequeno também. Muito... – começou a explicar, com os pensamentos daquele dia embaralhados. – Josephine se afastou de mim com o bebê, e as enfermeiras do hospital a seguiram para longe. E eu só sabia chorar, pensando que tinha acontecido o pior. Lembro que uma prostituta havia me explicado que o chá que tomei poderia não ter abortado o bebê, mas poderia tê-lo deixado com sequelas muito sérias. Procurava não pensar nisso, mas ao ver me bebê tão pequenino e sem chorar... Foi inevitável não pensar que fui a culpada por isso. E veio a notícia por Josephine. O bebê havia nascido morto, por isso não chorava.
Holmes suspirou.
-Chegou a vê-lo morto, antes de ser sepultado?
-Ela não me deixou vê-lo. Disse que havia nascido com muitas deformações e que eu entraria em choque quando o visse. Nem quis me descrever os defeitos dele. Disse que era uma verdadeira aberração aos olhos humanos, de tantas deformações que tinha.
-E você viu essas tais deformações na hora do parto?
-Holmes... O bebê saiu de mim completamente sujo de sangue! Só o que reconheci foi o pintinho dele. Não consegui enxergar, porque afastaram de mim, mas... Talvez estivessem certos, afinal depois de um chá abortivo, poderia ter nascido de qualquer jeito...
Holmes suspirou, inconformado.
-Onde ele está sepultado?
-Nos fundos do hospital. Pedi para colocarem na lápide o nome Scott Smith, em sua homenagem. Achei o mais certo a se fazer. E depois, fui embora dali. Vendi todo o pouco que tinha e fui embora para a Inglaterra praticamente só com a roupa do corpo, mas penso ter sido melhor assim. Enlouqueceria se ficasse um minuto a mais naquele lugar.
Holmes levantou-se, reflexivo. Caminhou de um lado a outro naquele cômodo, tentando ordenar seus pensamentos. Se aquele cubículo tivesse ao menos uma janela, sem dúvida estaria olhando para o lado de fora daquela casa claustrofóbica, mas como não tinha, restou-lhe nada mais que caminhar para acalmar-se. Seu gesto estava irritando tanto a Ettie que a fez reagir.
-Não está acreditando em mim, é isso?! – resmungou a mulher, revoltada.
-Longe disso. Acredito piamente em cada palavra que disse. Mas acho que mentiram para você. Aquele bebê não estava morto coisa alguma. E infelizmente, só há uma maneira de descobrir...
-Eu não vou voltar para aquele maldito país! – levantou-se Ettie, revoltada. Deu às costas a Holmes, nervosa com o que o detetive estava planejando.
-Seu filho está vivo, Ettie, e ao que tudo indica, se trata de Arsène Lupin. Ele está obstinado em me destruir, e mesmo que seja meu filho, não terei outra alternativa senão me defender. Se não formos capazes de dissuadi-lo desse projeto vil de vingança, isso só acabará com a destruição de um de nós dois. É esse o destino que deseja para seu próprio filho?! Que ele morra?! Ou que ele mate seu próprio pai?!
A mulher parecia indecisa.
-Por que você não vai, então? O detetive aqui é você!
-Não posso deixar a Inglaterra enquanto Lupin estiver à solta. Não sei o que ele é capaz de fazer em minha ausência. Além disso, você é a testemunha ocular do que aconteceu. A primeira coisa que precisa descobrir é se a criança estava viva, e algo me diz que um bom ponto para procurar é com essa tal de Josephine. Se esse rapaz realmente for nosso filho, e tem tanto ódio assim de mim, é sinal de que ele sabe que sou pai dele e que contaram uma história bem diferente do que verdadeiramente aconteceu. Precisamos descobrir quem levou esse bebê e com qual intuito, muito embora eu já tenha um suspeito em mente... Mas não vamos conjecturar nada sem mais evidências.
Holmes buscou algo no bolso de seu paletó, e por fim retirou uma caneta e o que parecia ser um talão de cheques. O suficiente para provocar desagrado em Ettie.
-Não acredito que vai me atirar mais um de seus cheques...
-É para uma boa causa dessa vez. Vai precisar de dinheiro para ir até Paris ou pretende ir até a Cidade-Luz a pé? – resmungou o detetive, diante da desconfiança da mulher. Apoiado à mesa, anotou e assinou o cheque, entregando-o à Ettie, que para seu desgosto, enfiou-o no decote, em meio a seus seios.
-E pelo amor de Deus, use esse cheque com mais responsabilidade dessa vez!
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