Notas iniciais
Não teve jeito para Yao. Não queria ver sua família fragmentada. No entanto, foi o que aconteceu. O chinês teve que aguentar toda aquela situação. Mei fazia de tudo para se separar de si, pegar aquela ilha que não ficava tão longe do continente e fazer seu país capitalismo. A mais nova estava tão perto e ainda assim, tão longe. Claro que Alfred a ajudou. Afinal, era a guerra fria, qualquer vitrine para exibir o capitalismo na Ásia era válida. Ainda mais tão perto de seu território e do de Ivan que insistiam no socialismo. Alfred fez o mesmo com Kiku. Arrasado e machucado, o japonês começava lentamente a se reerguer. Para os gêmeos coreanos, no entanto, Yao via pouca solução. Foram devidamente separados. Norte e Sul. A única coisa que tinha acontecido foi que Im Hyung Soo e Im Youg Soo tinham assinado um tratado de armistício firmando assim a Zona Desmilitarizada. Prisioneiros eram trocados mas a guerra não parecia perto de um fim. Ela ainda acontecia, na teoria, quando Ivan adentrou o quarto de Yao para comemorar as boas novas.
— Yao! – exclamou Ivan pegando o chinês pela cintura empolgado com o que queria falar – Ficou sabendo, Yao? Conseguimos.
— O que aru? – perguntou o chinês já um tanto perdido no meio de tantas mudanças, boas e ruins, que aconteciam recentemente.
— O espaço. A terra é azul – disse Ivan.
A alegria de Ivan, no entanto, durou pouco. Pois logo Alfred estava pousando na lua. Não foi um bom dia para Ivan aquele. Yao estava sentado em sua sala de estar tomando um bom chá de jasmim quando escutou as notícias pelo rádio. O nome do russo encheu a mente de Yao quando ele pegou um cachecol, um presente que ganhara de Ivan ano passado, enrolou-o no pescoço e saiu de sua casa.
A viagem tomou um tempo, mas logo chegou na casa de Ivan. Deixaram-no entrar sem quaisquer complicações mas, ao se aproximar da sala onde disseram que Ivan estava. Yao parou no corredor ao ouvir vozes alteradas. Claro que a essa altura já tinha aprendido russo. Então, entendeu o que era falado.
— ELES PASSARAM NA NOSSA FRENTE NOVAMENTE – gritou uma pessoa.
— We choose to go to the moon. We choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard – disse outra das pessoas repetindo as palavras que Jonh F. Kennedy havia dito em um discurso quando anunciou que queria levar o homem à lua e traze-lo de volta em segurança.
— Não repita isso de novo! Não quero ouvir mais as palavras desse homem – reclamou a primeira pessoa.
— Pelo menos "Um pequeno passo para um homem, um salto gigante para a humanidade" soa mais poético. – disse Ivan.
Yao botou a mão sobre seu próprio coração apertando o tecido elegante e avermelhado da roupa em que usava. Essa reação se deu ao fato de sentir um aperto no próprio coração ao ouvir o quão desanimada estava a voz do amado. O chinês encostou-se na parede do corredor. Não tinha coragem de entrar naquela sala, não com tantas vozes alteradas e sem saber como Ivan estaria. Estaria ele aguentando manter a pose na frente dos generais, ministros e sabe se lá mais quem estava ali dentro? Além do mais, o chinês não podia dizer que a situação entre ele e o russo estava muito bem. Não quando a família de Yao se fragmentava naquela guerra que de tão fria também esfriava o coração. Era difícil ter ânimo para qualquer outra coisa quando os problemas se espalhavam pelo mundo e todos temiam que qualquer pequena coisa fosse começar a Terceira Guerra Mundial.
No entanto, os anseios de Yao quanto a entrar ou não na sala foram logo desconsiderados quando Ivan saiu dela. Os dois se olharam por uns segundos. Todas as coisas não ditas foram trocadas naquele mero e breve olhar quando os braços de Ivan se aproximaram do chinês e o abraçaram fortemente.
— Yao.... – disse Ivan. A voz fraca, quebradiça, cansada.
— Ivan... você está bem aru? – perguntou Yao abraçando o amado com mais força. Qualquer mágoa, qualquer rancor que poderia guardar com o russo sumiu naquele momento.
— Vamos sair daqui, da? Eles não podem te ver aqui. – disse Ivan indicando a sala de onde acabara de sair com a cabeça – Irão novamente te forçar a se submeter a nós.
— O único lugar que eu me submeteria a você seria na cama aru – disse Yao com rosto corado.
Isso arrancou um sorriso de Ivan. Exatamente o que Yao queria ver. Agora não era hora de se beijar, não ali, tão perto daquela sala. Ivan não teve dificuldade ao pegar Yao nos braços e o levar para o andar de cima enquanto Yao o abraçava ao redor do pescoço. O rosto do chinês escondido no pescoço do russo estava repleto de alivio, mas também preocupação. Toda aquela situação era horrível. Horrível. Mal podia esperar para que todos esses conflitos acabassem.
Ivan colocou Yao sobre a cama e, por um milésimo de segundo, Yao ia perguntar se ele tinha levado a sério a proposta de se submeter na cama. Ivan, no entanto, interrompeu a pergunta que nascia nos lábios do chinês ao o abraçar como à um bichinho de pelúcia.
— Ivan... – foi tudo que Yao conseguiu falar ao abraçar o amado de volta e acariciar seus cabelos.
— Não achei que Alfred fosse conseguir enviar o homem à lua tão cedo... – disse Ivan.
— Nem eu aru. – completou Yao – Estão todos irritados né?
— Sim. E eu... eu estou cansado. Não aguento mais isso. Eles ignoram, mas eu vejo que as coisas não estão como imaginaria que ficariam. Eles não notam a dificuldade das pessoas em arrumar comida... coisas básicas... e o medo que se está dentro de cada um dos corações.
— Está tudo tão ruim assim por aqui aru? – perguntou Yao e recebeu um aceno de cabeça como resposta.
Yao não sabia dizer quanto tempo eles ficaram ali. Apenas abraçados na esperança de apagar os males que perpetuavam cada um de seus corações. Podem não ter conseguido apagar os males, mas acalentaram os corações com o calor de cada um.
No dia seguinte, cada um voltou à seus afazeres e, mais uma vez, o tempo passou. Guerras começaram em outros lugares, a situação na Rússia ia de mal a pior e a Alemanha, dividida, não estava nada bem também. Mas então, tudo começou a mudar e trazer de volta as festas ao redor do mundo. O chefe de Ivan mudou. Gorbachev foi como esse novo chefe se apresentou ao russo. Ele começou a mudar tudo, tudo. Não que todos gostassem das mudanças, mas uns gostavam. O ano de 1989 viu uma onda de mudanças e protestos. Derrubaram o muro de Berlim, um mero estudante chinês surpreendeu Yao ao parar na frente de tanques de guerra com sacolas de supermercado na mão. O que mais gelou o coração de Yao foi, no entanto, quando o chefe dele mandou que executassem o rapaz. Yao reclamou, esbravejou, tentou impedir isso. Mas nada pode fazer. O bateram e até o trancafiaram quando foram atrás do jovem, para que não pudesse impedir.
A felicidade demorou chegar até Yao quando em 1991 a Guerra Fria acabou. O mundo comemorava, a URSS voltou a ser simplesmente a Rússia. Mesmo assim, Yao se apoiava na amurada da Muralha da China, depressivo enquanto pensava em tudo que havia perdido até chegar ali. Sua família estava toda fragmentada. Alguns de seus irmãos pareciam, inclusive, melhores sem ele. Mei, por exemplo. Kiku já se recuperara das bombas embora soubesse que a memória sempre estaria presente. Im Young e Im Hyung ainda estavam em guerra embora as complicações parecessem estar mais dentro da Coréia do Norte e com ocasionais líderes estranhos do que um verdadeiro conflito armado com dezenas de mortos entre os dois lados. Vietnam teve sua cota de guerra também, mas isso já havia passado com louvor ao derrotar os EUA. Hong Kong, no entanto, estava no ping pong entre ele e Arthur. Macau então.. também parecia tão perto mas tão longe. Yao nunca se sentira tão sozinho como se sentira agora. E também, tão vazio.
Foi o barulho de passos que atraiu a atenção do chinês. Aquela não era uma parte muito visitada da muralha visto que ficava muito para o interior e longe dos convencionais centros turísticos chineses. Seus olhos lacrimejaram ao ver Ivan segurando um buquê de flores.
— V-Você aqui aru? – perguntou Yao com o queixo tremendo com o choro.
— Não podia comemorar o fim dessa guerra longe de você – respondeu Ivan.
— Mesmo que estejamos do lado perdedor? – perguntou Yao.
— O fim de uma guerra, é o fim de uma guerra. Ambos os lados sofreram mais do que o suficiente – disse Ivan.
Sem pensar duas vezes, Yao saiu correndo na direção do russo que conseguiu ser rápido o suficiente ao botar as rosas no chão e receber Yao nos braços. Yao pulara de um jeito que até suas pernas contornavam o corpo forte do russo e suas mãos acariciavam seus cabelos enquanto os lábios, sedentos, beijavam Ivan longa e profundamente.
Ivan segurou o amado e correspondeu ao seu beijo. Ao término deste, os dois se olharam longamente e Yao passou a mão delicadamente no rosto do russo admirando-o como se o visse pela primeira vez.
— Não vamos mais entrar em guerras por um bom tempo, certo? – perguntou Yao.
— Da. Concordo plenamente – disse Ivan – No entanto...
— “No entanto” o quê aru?
— Acho que tenho o direito de cobrar uma certa submissão na cama
Yao corou ficando tão vermelho quanto suas próprias roupas e desgrudou de Ivan por um momento para poder encara-lo melhor com sua melhor expressão de surpresa e vergonha.
— Não esquece mesmo disso né, aru? – perguntou Yao.
— A culpa é minha se me surpreendeu? – perguntou Ivan.
Delicadamente, a mão de Ivan se aproximou do rosto de Yao acariciando gentilmente a bochecha do chinês e levando uma de suas mechas castanhas para trás da orelha antes de Ivan se aproximar e voltar a beijar Yao. O casal se beijou, as mãos de Yao foram para o pescoço de Ivan até que uma das mãos de Ivan começou a provocar Yao tocando-o no membro. Acariciando-o e apertando-o levemente fazendo Yao ficar gradualmente cada vez mais duro.
Sem querer deixar barato, Yao mordeu de leve o lábio do amado que soltou uma leve risada. Essa risada logo morreu sendo trocada por Ivan mordendo o próprio lábio quando Yao botou a mão dentro da calça do russo e começou a o masturbar.
— Chama isso de submeter? – zombou Ivan.
— Não importa o quanto vento sobre, a montanha jamais se curva diante dele.
— Só mesmo você para filosofar numa hora dessas – disse Ivan com um suspiro mas um sorriso no rosto – Mas seria você a montanha? Sou bem mais alto que você.
— Não é questão de tamanho aru – disse Yao com um mero sussurro mordendo a orelha de Ivan ao ficar na ponta dos pés.
Nenhum dos dois ligou muito ao, junto com o por do sol, ficarem pelados em cima daquele pequeno e esquecido trecho da Grande Muralha. Ninguém ouviu quando os gemidos e ofegos de Yao e também de Ivan se somaram ao cantar dos pássaros quando Ivan meteu com força em Yao. Foram estocadas rápidas e também lentas quando os dois amantes faziam amor, se beijavam, se chupavam, se masturbavam e se mordiam clamando pelo calor que tanto lhes fez falta quando a guerra esfriou os seus corações.
O céu já estava na completa escuridão, apenas a lua e as estrelas a iluminar, quando os dois se sentavam um diante do outro. As penas de Yao ao redor da cintura de Ivan, as roupas usadas como cobertores contra o frio ou tapetes contra a pedra fria da muralha. Os dois se encararam com sorrisos e bochechas rosadas quando Ivan pegou uma das flores, esquecidas, e botou sobre a orelha de Yao que abriu um doce sorriso antes de puxar gentilmente o rosto de Ivan de forma que os narizes de ambos se tocassem.
— Eu te amo – disse Yao.
— Eu também te amo.
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