A Distância De Um Beijo
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Boa Leitura. ^.^
Capítulo XIV
Juliana continuou abismada encarando a expressão de sua mãe, procurando algum vestígio de que as palavras que ela acabara de dizer eram uma brincadeira, no entanto a face de Marta permanecia dura e determinada.
— Como assim, Mãe? Você tá brincando né?
— Não Juliana. Esse é um assunto sério, eu não teria motivos para estar brincando. Tá decidido, daqui a 2 semanas você volta comigo pra Brasília.
— Mãe, a senhora não pode fazer isso — Ju disse num tom que foi diminuindo conforme ela falava — Isso não é justo…
— Juliana, o que você quer que eu faça? — ela faz uma curta pausa — Eu venho pra cá e vejo a sua vida totalmente fora de ordem. Além de saber que você ficou doente, descubro que seu namorado foi preso. E pelo que parece o seu irmão não está sendo muito responsável com você.
— Mãe, se a senhora está falando do fato de eu não ter dormido ontem em casa, só foi ontem. E além do mais a Lia dormiu aqui com ela, não teria acontecido nada de mal com elas — o irmão de Ju protestou.
— Não Bruno. Eu não estou me referindo só a este fato — Marta continuou inflexível — Estou me referindo a você ter omitido o fato de sua irmã ter ido ao hospital, e pelo que eu vejo você também não se importou muito com o fato do namorado dela ter sido preso. Se eu não estivesse aqui, aposto que você não tomaria nenhuma providência, não é mesmo?
— Não é bem assim. Eu não contei do incidente por que foi um pedido da Ju e ela se recuperou rápido de toda essa história. Em relação ao Gil, eu não sei como foi essa história dele ter sido preso, mas acredito que tenha sido um mal entendido. Ele é um cara legal, não acredito que tenha se metido em encrenca de propósito.
— Viu a desordem que está aqui? Tá decidido… Bruno você continua aqui no apartamento, você já é maior de idade. Pode continuar a faculdade, o estágio. Mas, Ju você vai ter que voltar comigo…
— Isso não é justo. E os meus amigos e a escola? — Ju pareceu perceber o que acabara de dizer, e iniciou um motivo pra conseguir mais tempo — A escola… Se eu me mudar isso vai atrapalhar os meus estudos. Sair antes do fim do ano letivo pode me fazer perder todo o segundo ano.
— Não. Isso não deve ser um problema, lá em Brasília tem uma filial do Quadrante. Com certeza o Mathias deve dar um jeito que você não perca o ano — falou de forma confiante.
— Olha mãe, eu entendo que a senhora esteja achando que está fazendo o que é melhor pra mim — sua voz falhou um pouco — Mas, você não tá entendendo. Há algum tempo atrás as coisas não estavam realmente muito boas pra mim. Agora que a minha vida parece estar tomando um rumo certo.
— Eu sinceramente não consigo imaginar uma situação pior do que a atual — Marta falou por alto.
— Por que será né? — o tom de voz de Ju mudou de suplicante para algo mais parecido com indignação — A senhora não estava aqui pra saber. Não estava aqui quando eu precisei… — algumas lágrimas escaparam — Aposto que não sabe que fui traída pelo meu ex-namorado com a Lia… Não guardo mágoa de nenhum dos dois, mas naquele momento o que eu mais queria era o colo da minha mãe. Queria ouvir você dizer que tudo ia ficar bem ou até só me abraçar e ficar do meu lado. E nesse momento quem estava aqui pra me apoiar e me manter de cabeça erguida foram o Bruno e o Gil…
— Minha filha, você poderia ter ligado pra mim. Eu viria correndo…
— Não, mãe. Você não viria… Trabalho em primeiro lugar, esqueceu? — Ju não queria magoar a mãe, queria apenas desabafar algumas coisas que estavam engasgadas à algum tempo.
Sentia que seus pais não agiam como tais e que precisam se darem conta que estavam perdendo esse espaço. Estavam perdendo uma fase difícil e importante dos seus filhos, um período que não poderia ser recuperado depois. Também sentia que cobravam muito de Bruno, quando o mesmo ainda estava numa fase de se aprender com os próprios erros.
Marta não teve reação, por dentro se sentia arrasada. Sabia que de certa forma tudo que Ju havia falado era a pura verdade. Estava falhando em ser uma boa mãe.
— Eu preciso ir pro meu quarto pensar… — Ju virou-se até o mesmo e fechou a porta, enquanto o silêncio tomou conta da sala.
…
~ No dia seguinte ~
Gil estava na entrada do Quadrante conversando com Morgana e Rafa. A ruiva abraçava o garoto de lado, enquanto Gil estava em frente aos dois.
— Acho que eu não vou ter coragem de entrar na escola hoje — Rafa falou um pouco baixo.
— Não. Você vai entrar sim, não tá vendo que é isso que aquele troll quer — Morg apoiou o amigo — Ele quer te intimidar Rafa e você não pode dar esse gostinho pra ele.
— A Morgana tem razão, Rafa — Gil concordou — Não liga para o que os outros falam cara — deu um tapinha de apoio no ombro do garoto.
Neste instante Juliana chegou na entrada da escola e foi recebida por Gil com um rápido beijo.
— Oi Ju — Rafa e Morg disseram juntos.
— Oi — a garota respondeu um pouco desanimada.
— Aconteceu alguma coisa Ju? — Gil questionou preocupado — Ontem eu tentei te ligar, mas o seu celular só dava caixa postal…
— É que eu queria conversar com você pessoalmente — ela disse — Gente licença, mas eu preciso conversar com o Gil antes da aula…
— Tudo bem, tchau — Morg falou.
— Tchau — Juliana disse e em seguida guiou pelas mãos Gil para um local mais afastado, onde os dois poderiam conversar sossegados.
— O que foi Ju? Aconteceu alguma coisa? — o grafiteiro demonstrou um pouco de angústia.
— A minha mãe chegou ontem de Brasília.
— Que bom, Ju — Gil sorriu, ainda sem saber o motivo da tristeza da it-girl.
— Nem tanto…
— Como assim?
Juliana contou detalhadamente para Gil o que havia acontecido na noite passada em sua casa.
— Então você vai ter que voltar pra Brasília? — Gil sentiu seu coração afundando.
— Eu não quero ir, mas ela vai me obrigar — falou cabisbaixa.
— Eu posso tentar conversar com ela Ju — ele pensou em algumas possibilidades de reverter a situação — Tentar dizer que eu não sou um delinqüente, sei lá…
— Não vai adiantar Gil, eu conheço a minha mãe e ela tá decidida — Ju se aproximou do garoto e não disse mais nada, apenas o abraçou forte — Eu não acredito que isso esteja acontecendo.
— Calma linda, a gente vai dar um jeito — beijou o topo da cabeça de Ju — Eu não vou deixar você ir embora — disse mesmo incerto de que poderia cumprir essa promessa.
…
Ju e Gil estavam sentados na arquibancada do quadrante aproveitando um dos poucos momentos em que podiam ficar juntos. Ambos tentavam não pensar na aproximação do dia em que a it-girl teria que voltar para Brasília. Mas, na maioria das vezes o assunto era inevitável.
— Eu não consegui parar de pensar um minuto nessa viagem, durante todos esses dias — a garota disse angustiada.
— Nem eu —o grafiteiro concordou — Quando eu penso que o tempo tá passando e a gente não conseguiu reverter a situação. Me dá vontade de fugir com você daqui — disse sem pensar muito.
A garota percebeu que as chances dos dois estavam diminuindo e a idéia da mudança a atormentava cada vez mais conforme os dias se passavam. Para tentar impedir que algumas lágrimas caíssem, puxou Gil para um beijo.
O beijo que começou calmo num instante se tornou um gesto urgente, algo como um ato de despedida. Lábios colados, línguas entrelaçadas e o gosto de saudade em suas bocas. Mesmo que os dois ainda não estivessem separados, só a simples ideia da distância os torturavam.
Por mais que tentassem separar os lábios, algo mais forte os puxavam e mesmo ofegantes continuaram o beijo. Só foram interrompidos por Robson.
— Meus amores — disse o inspetor — Vocês sabem que não pode namorar na escola.
— Desculpa Robson — Gil disse enquanto ainda se recuperava.
— Tudo bem. Mas nada de troca de saliva aqui no colégio. Ok? — disse enquanto já ia para o outro lado da quadra para fazer vista grossa nos outros alunos.
— Nesses dez dias a gente só pôde se ver e namorar aqui na escola e nem isso a gente pode mais.
— A gente vai arranjar um jeito. Eu não vou deixar levarem a garota que eu … — foi interrompido pelo grito de Marcela do outro da quadra.
— Gil — a professora de educação física gesticulava pra que ele fosse ao seu encontro.
— Minha mãe tá me chamando — abaixou a cabeça e escondeu um sorriso tímido — Vou ver o que ela quer, daqui a pouco eu volto tá?
Ju deu um pequeno sorriso e assentiu com a cabeça, Gil se despediu dela com um selinho. E enquanto o garoto se afastava, Lia sentou-se ao lado da morena.
— No mundo da Lua, Jujuba? — deu um pequeno sorriso.
— Quem me dera Lia — virou-se com uma expressão triste para amiga — To pensando que tá chegando o dia em que eu vou ter que voltar pra Brasília. Que talvez eu nunca mais irei ver você, o Gil, o pessoal da escola. Tá sendo difícil suportar esses dias, sabe?
— Eu imagino amiga — a abraçou — Esses últimos dias têm sido estressantes para você né?
— E como — desabafou — A única coisa que eu consigo pensar é nessa maldita viagem. Sabe, tem horas que eu tenho vontade de fugir dessa situação, de todo esse drama.
— Fugir — Lia deu um olhar sugestivo pra Ju — Talvez essa seja a solução, você e o Gil podiam fugir por alguns dias. Como eu fiz com o… você sabe — sugeriu.
— Lia, você tá doida. Acho que fugir só vai piorar a situação, vai fazer com que a minha mãe goste ainda menos do Gil.
— Ás vezes algumas situações precisam de medidas desesperadas — Lia disse por alto — Se a tia Marta não mudou de idéia até agora, dificilmente ela vai mudar de idéia do dia pra noite .
— Não sei Lia — disse um pouco contrariada — Acho esse negócio de fuga muito arriscado.
— Só foi uma idéia Ju. Não vejo outra solução, mas quem decide isso são vocês dois. Fazer algumas loucuras de amor de vez em quando não faz mal — olhou para o outro da quadra e viu Gil vindo em direção à elas — Bom vou deixar vocês dois conversarem à sos. Pensa no que eu te disse amiga — despediu-se da amiga com um abraço.
Em seguida Gil se sentou ao lado de Ju. A garota apoiou a sua cabeça no ombro dele, que por sua vez envolveu seu braço em volta dela.
— O que a Marcela queria?
— Nada demais. Só disse que ela vai almoçar com o Lorenzo hoje e não vai pra casa depois do trabalho. Talvez nem volte pra casa hoje a noite — falou por alto — E a Lia? O que vocês tavam conversando?
— A Lia tava me dando uns conselhos malucos de como resolver essa situação da viagem.
— O que ela sugeriu? — ergueu as sobrancelhas.
— Não vale a pena, é uma loucura — deu de ombros.
— Eu gostaria de saber — olhou bem nos olhos de Ju.
— Tá bom —suspirou — Ela sugeriu que nós fugíssemos por um tempo. Viu como a idéia é uma loucura?
Gil ficou um tempo calado pensando naquela possibilidade e quando encarou Ju, a mesma percebeu a expressão dele mais leve.
— Nem tanto — disse pensativo — Diante de toda situação é a única chance que eu vejo. O meu pai tem uma chácara não muito longe daqui do Rio, e atualmente não tem ninguém morando lá. Pelo menos a gente já tem um lugar pra ficar. Acho que a minha mãe nem se lembra da existência desse lugar então provavelmente não iriam nos procurar lá. O que você acha, Ju?
— Eu não sei o que dizer — ele percebeu a confusão que se passava na cabeça da garota — Mesmo que a gente fuja, isso não pode ser por muito tempo. E quando nós voltarmos certamente as conseqüências serão ruins…
— Ju, pela primeira vez eu quero fazer algo sem pensar nas conseqüências… Até por que é isso ou deixar você ir embora — olhou tristemente para ela.
— Tá, eu preciso pensar um pouco — falou calmamente — Tudo bem pra você?
— Claro — deu um sorriso e encostou os seus lábios no dela — Tá, mas agora a gente precisa ir para a sala — disse assim que o sinal soou.
…
Ju passou o resto da manhã pensando na sugestão de Gil e Lia, sua cabeça dizia que a idéia era uma loucura, no entanto seu coração ia na direção oposta, dizia para que a mesma se arriscasse.
Os dois estavam no portão do Quadrante na hora da saída, quando Ju resolveu se despedir do namorado.
— Eu tenho que ir antes que a minha mãe venha me buscar à força — deu um fraco sorriso —Mas, eu decidi que eu topo…
— Sério Ju? — Gil a abraçou.
— Só espero que essa idéia dê certo e não aconteça nada… — falou ainda um pouco retraída.
— Relaxa Ju, vai dá tudo certo. Então te encontro na pracinha hoje de madrugada, te mando um sms quando eu estiver lá.
— Tá bom. Eu vou indo — virou-se, mas foi impedida por Gil que a puxou.
— Ei espera, e o meu beijo de despedida? — deu um sorriso faceiro.
— Meu deus, to pra conhecer pessoa mais carente que você — segurou o rosto dele e o puxou para um beijo — Satisfeito agora?
— Por enquanto sim — Ju riu.
— Tudo bem, agora eu to indo mesmo. Tchau.
— Tchau — Gil respondeu e ambos saíram em direções opostas.
…
Juliana abriu a porta da sua casa e deparou-se com Bruno e Marta sentados à mesa almoçando.
— Oi minha filha — Marta dirigiu-se a garota — Você vem almoçar com a gente?
— Não mãe, to sem fome — disse com sinceridade.
— E o que você acha de ir comigo até o shopping mais tarde — tentou continuar a conversa — Pra você se distrair um pouco…
— Acho melhor não… Tenho teste na escola amanhã — rapidamente arranjou uma desculpa — Vou indo pro meu quarto.
Assim que a it-girl fechou a porta, Marta virou-se para Bruno e demonstrou a sua preocupação com a garota.
— Até quando a Ju vai ficar desse jeito, evitando uma conversa comigo. Triste pelos cantos.
— Você sabe que ela tá assim pela viagem — Bruno comentou — Ela gosta de verdade do Gil, os amigos dela estão todos aqui. É uma situação difícil pra ela.
— Eu sei que ela está assim por causa desse garoto…
— Mãe, você sabia que ela gosta do Gil. Era óbvio que ela não ia aceitar tão facilmente essa viagem.
— Eu sei que ela gosta desse menino — afirmou — Mas, eu achava que não era tanto assim. Achava que era amor adolescente, coisa boba e volátil. Mas, acho que tá além do que eu imaginava.
Bruno e Marta continuaram a conversa sobre Ju, e aos poucos o mesmo explicou pelas coisas que a garota havia passado durante o tempo em que os pais haviam ficado longe, e como Gil havia sido importante pra ela nesse período.
Não demorou muito pra que anoitecesse, Ju no seu quarto arrumava uma mochila com as suas roupas e alguns mantimentos importantes quando recebeu a mensagem de Gil.
De: Gil Para: Ju
Linda, já estou na praça te esperando ;P
Rapidamente a it-girl respondeu.
De: Ju Para: Gil
To saindo de casa… ♥
Ju colocou a bolsa nas costas e saiu vagarosamente do seu quarto. E sem fazer o mínimo barulho chegou até a porta e girou a maçaneta da mesma. Estava preste a ir embora quando ouviu atrás dela a voz de sua mãe.
— Juliana? O que você tá fazendo?
…
“Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura.”
Friedrich Nietzsche
Notas finais
Então é isso, até lá ;)
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