A Distância De Um Beijo
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Posto o próximo capítulo em breve.
Capítulo I
POV Ju
As coisas andam estranhas desde que a Lia e o Dinho fugiram, e inesperadamente voltaram depois de um incidente na mata. Além do baque, que eu tive em saber que eles haviam fugido e agora estavam namorando, também houve o fato da Lia e meu ex-namorado terem dormido juntos. Muita coisa para digerir em apenas uma semana.
O Bruno falava que eu devia esquecer os dois, no entanto por mais que eu tente, cada dia as coisas se tornam mais difíceis. Eu nunca tive muitos amigos, na verdade tive mais colegas, por isso mesmo não foi fácil perder minha melhor amiga e meu namorado numa tacada só.
Agora, eu podia contar com a Rita que tinha se aproximado de mim, eu sabia que tinha sido um pedido do meu irmão, mas mesmo assim ela era um ombro amigo. Nesse mesmo período eu me tornei amiga do Gil, de certa forma ele era o único que entendia o que eu sentia, mesmo não tendo sido realmente traído, o Gil sabia o que era ver a pessoa que você gosta com outra.
Passamos dias e tardes um na casa do outro conversando, descobrindo afinidades e assim construímos uma amizade. Quando estávamos juntos eu pensava cada vez menos na Lia e no Dinho, mas mesmo assim eu sabia que não podia compartilhar certas coisas com ele, como o fato dos dois terem transado no primeiro dia da fuga, isso seria invasivo e eu podia guardar esse sofrimento só para mim, não precisava colocar o Gil numa fossa maior ainda.
— Obrigada por me deixar fazer hora aqui — eu estava sentada na beira da cama dele, enquanto ele estava desenhado na sua escrivaninha.
— Tudo bem — ele sorriu — É bom ter companhia.
— Também quero te agradecer por ter paciência de me aturar — eu corei — Sei que não sou uma companhia tão agradável. Ainda mais agora com essa história toda.
— Imagina, Ju — ele sorriu — Também não sou a pessoa mais sociável do mundo — Gil continuou rabiscando um papel.
— E essa parada de grafite … — eu tentei não ser invasiva — Nunca mais vi um grafite seu pelo bairro.
— É, eu meio que parei de fazer. Minha mãe ficava bolada quando eu saía de madrugada pra grafitar. Aí, quando tô com raiva, eu toco guitarra ou grafito a mesma parede do Misturama que o Nando pediu que eu grafitasse há um tempo atrás.
— Se você quiser uma assistente algum dia, pode me chamar.
— Tem certeza? Grafite não é coisa para meninas frágeis e sensíveis. — ele brinca.
— Minha fase de patricinha já passou. — faço uma careta — Eu sinto que de certa forma eu continuo a mesma garota romântica, mas agora eu deixe de ser boba e ingênua. Toda essa história me fez amadurecer.
— Desculpa, Ju. Eu não queria te fazer lembrar… — eu interrompi o Gil antes dele completar.
—Não tem porque se desculpar, Gil. Você tem sido incrível comigo.
— Então tá fechado, quando eu for grafitar no Misturama te aviso assistente.
— Ás ordens.
O tempo passou num piscar de olhos, não conversamos muito. A simples presença do Gil me confortava, ficava mais fácil esquecer-se dos problemas e das rasteiras que o destino e a vida haviam me dado.
Eu estava deitada na cama do Gil quando percebi que ele me olhava de soslaio com uma expressão engraçada no rosto.
— Tá, tudo bem Ju? — ele perguntou intrigado.
— Tá. Só estou pensando na vida.
— É? Pensando exatamente em quê? — indagou — Parecia que você estava rindo sozinha. Se for uma piada ou história engraçada eu vou querer ouvir.
— Não é nada — eu cortei o assunto — Gil, cê tá com fome?
— Uhum. Mas por quê?
— Se quiser, eu posso fazer um lanche pra gente.
— Não precisa se dar o trabalho, Ju. Eu posso pedir uma pizza pra gente.
— Claro que não. Eu faço questão de fazer a minha especialidade. — eu disse — Ainda mais é uma forma de agradecer pela hospedagem e ter feito você perder uma tarde toda me aturando.
— Nossa, só isso. Eu já estava pensando em escravidão eterna em retribuição — ele brincou — Bora, eu te acompanho até a cozinha.
Gil pegou a sua guitarra e me conduziu até a cozinha. Enquanto eu preparava o nosso lanche ele estava sentado no sofá tocando alguns acordes.
— Poxa Gil sério que você aprendeu a tocar há pouco tempo? — eu falei por alto — Cê deve ser autodidata para tá tocando tão bem em tão pouco tempo.
— Ah! Valeu — ele corou.
— Você sente falta? — eu perguntei, enquanto colocava os sanduíches e suco em cima da mesa.
— Do quê exatamente?
— Das aulas de guitarra. Da Lia. Das duas coisas.
Ele assentiu triste.
— Você ainda gosta dela? — eu me sentei na poltrona em frente a ele. E nós ficamos cara a cara.
— Pra falar a verdade eu não sei. — ele disse sério — Ás vezes, eu acho que gosto dela, mas tem vezes que eu acho que só gosto dela como amigo. Sei lá, acho que essa vai ser uma dúvida eterna. Acho que só se eu tivesse um relacionamento com a Lia eu teria certeza dos meus sentimentos por ela.
O silêncio adentrou o ambiente, até que Gil resolveu quebrá-lo.
— E você ainda gosta do Dinho? — era perceptível que ele não estava tentando ser inconveniente. Apenas percebeu que eu precisava desabafar.
— Também não sei — eu me esforcei para manter a linha de raciocínio — Ás vezes eu acho que nunca vou esquecer e deixar de gostar do Dinho, apesar de tudo o que ele tenha me feito. E tem horas que eu acho que vou superar, que vou conhecer alguém legal que vai me fazer esquecê-lo. Mas, tudo isso parece uma montanha-russa, uma hora a gente está no topo e um segundo depois descendo ladeira abaixo.
— É, eu sei como é.
—Gil, que bom que eu posso confiar em você — disse segurando sua mão — Você tem sido muito importante pra mim.
— Você também tem sido pra mim. — ele beijou minha mão e eu corei.
Fim POV Ju
…
Lia e Dinho estavam sentados no telhado aproveitando um dos seus poucos momentos de paz. O garoto envolvia Lia num abraço onde ambos tinham uma visão privilegiada da pracinha.
Dinho aproximou seus lábios do ouvido da garota e sussurrou:
— Lia, eu te amo — em seguida beijou a bochecha da loira.
— Eu também te amo seu bobo — a garota puxou-o para um beijo demorado.
Assim que se recuperaram Lia percebeu a presença de Ju lá embaixo.
— Olha, é a Ju —Lia apontou para a garota que se dirigia para o prédio sorrindo — Ela tá vindo da casa do Gil. Estranho, né?
— Estranhíssimo. Cê acha que eles tão aprontando alguma coisa?
— Não sei, a Ju tá muito mudada. Eu entendo que ela tenha motivos pra estar magoada comigo. Eu só espero que um dia ela entenda que eu nunca tive a intenção de magoá-la e me perdoe. A amizade da Ju me faz muita falta. — a voz de Lia estremeceu.
— Desculpa Lia. — o garoto se entristeceu.
— Por quê?
— Eu tenho culpa nisso também. Eu dei muitas falsas esperanças pra Ju, com todas aquelas surpresas. Acho que se eu não tivesse pedido pra voltar com ela naquela época, as coisas fossem mais fáceis para ela digerir e aceitar. Eu tinha que ter sido sincero com ela e dito que não estava apaixonado — ele afagou a mão da garota.
— Calma, a gente tá junto nessa — ela reconfortou-o.
Nesse momento Dinho viu uma estrela cadente no céu.
— Lia, uma estrela cadente. Faz um pedido.
A garota fechou os olhos e fez o pedido com tanta intensidade, que o mesmo era quase palpável. E assim, eles continuaram a noite: apreciando o luar, as estrelas e a companhia um do outro.
…
Ju havia acabado de se despedir de Gil e Marcela, que tinha chegado de uma corrida com César a pouco tempo. A garota tinha feito alguns sanduíches e guardou alguns para a professora experimentar.
Enquanto Marcela experimentava o lanche preparado por Ju, olhava de canto de olho para Gil que estava no sofá entretido com algum programa de TV.
— O que foi Dona Marcela — ele percebeu a mãe o observando.
— Nada — ela deu um sorriso irônico — Só estava me perguntando o que tá rolando entre você a Jú.
— Ué! Nós somos amigos.
— Aham, eu não estou dizendo que vocês não são.
— Qualé mãe. Existe algo de errado nisso. — o garoto estava confuso com o rumo da conversa.
— Claro que não. Só que esse lance de amizade entre homens e mulheres é sempre complicado, chega numa hora que você sempre se pergunta se é só amizade mesmo ou se rola uma atração ou algo mais. E vocês estavam na maior sintonia. Achei que tinham levado a amizade pra outro nível e estivessem namo…
— Somos apenas amigos — Gil cortou a mãe antes que ela completasse a frase.
O garoto levantou, deu um beijo no rosto da mãe e lhe desejou boa noite enquanto se dirigia ao quarto. Ali deitado na sua cama e olhando fixamente para o teto, Gil se sentia extremamente dividido e confuso, se fazendo uma única pergunta mentalmente: Será?
…
"Aprendi que amores eternos podem acabar em uma noite, que grandes amigos podem se tornar grandes inimigos, que o amor sozinho não tem a força que imaginei. Que ouvir os outros é o melhor remédio e o pior veneno, que a gente nunca conhece uma pessoa de verdade, afinal, gastamos uma vida inteira para conhecer a nós mesmos. Que os poucos amigos que te apóiam na queda, são muito mais fortes do que os muitos que te empurram. Que o "nunca mais" nunca se cumpre, que o "para sempre" sempre acaba, que minha família com suas mil diferenças, está sempre aqui quando eu preciso. Que ainda não inventaram nada melhor do que colo de mãe desde que o mundo é mundo, que vou sempre me surpreender, seja com os outros ou comigo. Que vou cair e levantar milhões de vezes, e ainda não vou ter aprendido tudo."
William Shakespeare
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