A minha vida começou numa incomum tarde fria do verão de 1995. Era um pouco mais de cinco horas da tarde, o céu tinha um azul mais escuro, o sol já estava se pondo quando minha mãe sentiu as primeiras dores. Estava sentada na sala de nossa casa, no caso, minha futura casa. Meu pai, sempre medroso, ficou mais nervoso que minha mãe e não hesitou em colocá-la no carro e se dirigirem imediatamente para a maternidade. No caminho, pelo que me disseram, não havia muitos carros, tampouco pessoas. Inesperadamente, começou uma chuva grossa, contrariando as previsões do tempo, que afirmava um dia de muito calor e ensolarado. Mesmo sem saber como e sem entender muito bem o porquê, meu pai sentia que havia uma ligação entre minha chegada e as mudanças ocorridas no dia. Chegaram não muito demoradamente ao hospital, e meu pai foi logo dizendo, em um tom próximo ao choro:

- Por favor, minha esposa está tendo bebê. O que devo fazer?

- Acalme-se, senhor. – Disse uma enfermeira que estava na recepção ao meu pai.

- Doutor? – Perguntou a recepcionista ao médico pelo telefone – Trabalho de parto. O senhor poderia vir aqui?

- Venha, senhora – Disse uma enfermeira, conduzindo minha mãe em uma cadeira de rodas.

Caminharam ao longo de um corredor de um hospital luxuoso. Era possível ver inúmeras placas de um metal brilhante com a advertência “Silêncio”.No fim do corredor, dobraram à direita, onde meu pai pode enxergar, no final, uma placa indicando “Sala de Triagem”. Alguns profissionais esperavam minha mãe e a enfermeira que a levava deixou-os conduzirem-na até o interior da sala, onde seriam feitos alguns exames na minha mãe.

- Vou examiná-la e depois ela será dirigida ao bloco cirúrgico. Pelo visto, o bebê não esperará muito. – Explicou o médico ao meu pai. – O senhor deseja ver o nascimento do seu filho?

- É... – Relutou meu pai – Quero sim – Respondeu por fim, aceitando.

Na verdade, ele não sabia mesmo se queria ver o parto. Na verdade, a ficha de que eu iria nascer nem sequer tinha caído. Como eu já disse, meu pai era um homem muito medroso, e, apesar de ter se graduado em medicina, nunca exerceu a profissão, com o receio de que seu medo pudesse piorar o paciente, em vez de melhorá-lo. A causa disso tudo, pelo que nós sabemos, deve-se ao seu medo de sangue, trauma que adquiriu na infância. Ninguém sabe, ao certo, a causa desse trauma, mas sabemos que é algo muito sério. Foram muitas as vezes que meu pai teve de ir a psicanalistas, o que de quase nada adiantou.

- Vamos, senhor, deverá de se vestir adequadamente – Disse a enfermeira, acordando meu pai de seus pensamentos.

- Ah, claro. Para onde eu... – Falava meu pai, quando foi interrompido pela enfermeira

- Siga esta médica. Ela lhe dirá onde deverá ir e como deverá se vestir. – Disse a enfermeira, apontando para uma médica jovem, que aparentava ter uns vinte e sete anos.

- O senhor é o...? – Perguntou a médica, se referindo ao nome do meu pai.

- Rogério. – Completou meu pai, mostrando-se bastante nervoso.

- Acalme-se, senhor Rogério, eu... – Falava a médica, quando foi interrompida pelo meu pai.

- Senhor não. Rogério, por favor – Disse meu pai, dando um sorriso que, por um momento, foi capaz de acalmá-lo um pouco.

- Tudo bem, Rogério. Eu sou a doutora Amanda. – Disse a médica, apresentando-se. – A propósito, o senhor, desculpe, você tem problemas com sangue, assim, porque sabemos que muita gente tem pânico...?

- Não, não – Mentiu meu pai.

A vontade de me ver nascendo parecia ser maior que o seu medo de sangue. Ele sentia que o meu nascimento traria algo diferente e novo para o mundo. Talvez lhe desse mais esperanças...

- Tudo bem, vejo que não terei problemas com você. – Riu-se Amanda.

Seguiram por outro corredor, chegando à outra sala.

- É capaz de eu me perder por aqui. Muitos corredores. – Disse meu pai, com um ar de interrogação.

- Não se preocupe. É por isso que estou o guiando. Venha, é por aqui. – Mostrou a médica.

Era uma sala bastante iluminada, embora pequena, com uns armários cheios de gavetas, todas com placas metálicas do mesmo estilo das que havia no corredor, indicando o conteúdo do seu interior.

- Tome, vista-se. – Disse Amanda, entregando uma roupa ao meu pai. – Depois lave suas mãos ali – Apontou para a torneira ao lado de um dos armários.

“Torneira?! Isso me parece um sistema de lavagem completamente complexo! Deixe-me ver, água, álcool, lenços esterilizados, ...” – Pensou meu pai, procurando ler as instruções de lavagem em um adesivo colado em cima da torneira.

- Ah, deixa eu te mostrar. Primeiro você usa este aqui, depois enxuga as mãos e usa este daqui e não toca mais em nada, para não se contaminar. – Explicou Amanda, deixando meu pai de queixo caído.

- Seria muito sério se eu tocasse em algo após lavar as mãos?

- Como você só assistirá, não seria muito sério não. Mas recomendo não tocar em nada, nunca sabemos o que nos aguarda, não é mesmo? – Disse Amanda, com um ar misterioso. – Vamos – Falou por fim.

Ao entrar na sala, o médico já havia iniciado a cirurgia. Havia de cinco a seis médicos na sala. Um deles estava no canto, como se supervisionasse, ou melhor, como se aguardasse alguma complicação para entrar em cena. Deveria ser o anestesista. Depois de arranjar um local melhor para ver a cirurgia, meu pai ficou meio conturbado e tonto, com muito sangue, sua vista começou a ficar turva. Estava sentido a mesma sensação de sempre. Começou a suar frio, ficou gélido, pálido. Cenas vieram na sua mente, passando como um filme, o qual ele não se agradou muito em ver. Estava se sentindo muito mal. Colocou a mão na cabeça, como se tentasse impedi-la de cair. Não estava conseguindo ficar em pé. Mas não podia desmaiar, não agora.

- O senhor está se sentindo bem? – Perguntou o anestesista que estava na sala.

- Não, é que eu tenho... – Tentou falar meu pai, lutando contra o trauma, mas não conseguiu e desmaiou.

O mais incrível que eu acho é que eu chorei exatamente na hora em que meu pai desmaiou. Retiraram-no da sala e o levaram para a ala de emergência, onde lhe deram uns medicamentos para se acalmar. Assim que me apresentaram o novo mundo, fui levado para os braços de minha mãe e depois para uma sala, provavelmente o berçário, onde me deram banho e vestiram uma roupa em mim.

- Já coletou o sangue dele? Embora não seja normal fazer esse tipo de exame em recém-nascidos, mas eu quero uma tomografia cerebral dele. Urgente, se possível, para daqui a algumas horas – Falou o médico à Amanda, com um tom sério.

- Já coletamos sim, senhor. O resultado deverá sair em breve. – Explicou a médica. – Trarei o resultado da tomografia em breve. Mas, essa preocupação toda, doutor…?

- Ótimo. O pré-natal dela não foi dos melhores. – Falou o médico – Percebi algumas alterações no feto, não sei bem o que é. Bom, quando saírem os resultados, me chame.

Meu pai foi acordado e o levaram até mim. Ele se emocionou bastante e lamentou muito não ter podido ouvir meu choro. Foi conversar com a minha mãe depois.

- Estou me sentindo tão estranho... Não sei direito o que é... – falou meu pai à minha mãe.

- Deve ser a tensão misturada com a emoção, amor. Não se preocupe. – Falou minha mãe, debilitada.

- Eu nem sequer ouvi o choro do meu primeiro filho... – Lamentou meu pai.

- Amor, não se preocupe, isso é o de menos. Agora ele nasceu, temos a missão de cuidá-lo. E você ouvirá muitos choros dele, tenha certeza – Disse minha mãe, consolando meu pai, fazendo os dois rirem um pouco naquela situação.

Nesse momento, o médico entrou na sala. Trazia consigo uns papéis e uma expressão confusa.

- Tenho notícias para vocês. – Anunciou ele.

- O que, doutor? – Perguntou meu pai, agoniado, remexendo-se na cadeira.

- Seu filho infelizmente tem um problema. Mas isso é o de menos – Disse o doutor.

- O que é, doutor? – Agora a agonia do meu pai era maior, fazendo-o levantar-se.

- Doutor, nos diga logo! É muito grave? – Perguntou minha mãe, tentando virar-se na cama, ao médico.

- O problema é que não se sabe se é uma doença, anomalia, mutação... – Explicou o doutor – E o pior: é algo inédito para a ciência.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.