A Deusa do Medo
2 Um dom especial
Notas iniciais
PVO Charles
A porta se abria lentamente. Senti a mão de minha irmã agarrar meu pulso com força, mas apenas senti. Quando desviei o olhar para Silena, ela não estava lá. Mas eu ainda podia sentir sua mão em meu pulso.
--- Ué? A porta abriu sozinha? --- perguntou mamãe.
--- Deve ter sido. Preciso mandar alguém consertar essa porta --- disse papai fechando a porta novamente.
Eu estava assustado. Acabara de realizar meu sonho infantil, ficar invisível. E não fora tão legal como eu pensei que seria. Muito pelo contrário.
Silena tirou a mão de meu pulso, e eu pude vê-la novamente.
Olhei com uma cara de espanto para ela.
--- Mas o que... --- comecei, mas Silena colocou o dedo indicador nos lábios em sinal de silêncio.
--- Se Silena for o que pensamos que é, Charles é um humano comum? --- ouvi papai dizer.
--- Comum não. Circe concedeu-lhe um dom, lembra-se? --- disse mamãe.
Neste instante a cena da nossa última missão passou pela minha cabeça.
Silena havia sido levada por uma ajudante de Circe.
Eu estava sozinho com Circe. O plano estava correndo de acordo ao que havíamos planejado. Ela ofereceria a poção a mim, do jeito que oferecera a papai à alguns anos atrás, eu levantaria a espada, e reduziria a feiticeira à pó. E eu havia tomado uma das vitaminas que Hermes dera à meu pai à algum tempo atrás ( de alguma forma ainda não haviam perdido a validade), estava imune à magia de Circe. O que poderia dar errado?
Circe me levou até um espelho, neste vi meu exato reflexo, sem nenhuma mudança. De acordo com papai (que já havia passado por isso) eu ver uma versão melhorada de mim, mas a única coisa que eu via era eu, apenas eu, sem nenhuma alteração. Minhas roupas estavam sujas, meus sapatos desamarrados, meus olhos cinza continuavam idênticos, e meus cabelos louros continuavam desarrumados. Não fazia sentido! Deveria estar mais bonito, ou pelo menos mais arrumado, ou no mínimo sem minha cicatriz na mão!
“Seriam as vitaminas de Hermes” questionei mentalmente, mas Circe me respondeu como se estivesse lido minha mente.
--- Não, as vitaminas de Hermes não fariam isso. Nem mesmo as magias de minha mãe são imunes à este espelho! A não ser que... --- ela parou --- Não, não pode ser...
Ela pegou seu celular, discou um número e começou a falar:
--- Deixe o tratamento de Silena mais longo. Eu acho que achei o quem estávamos procurando. Tem que ser ele.
Ela desligou o celular, e só então notou minha cara de espanto.
--- Quando ganhei esse espelho, mamãe contou que ele refletia o lado de fora baseado no lado de dentro --- explicou ela --- Se você for uma pessoa linda, porém má, o espelho mostrará seus defeitos internos refletidos no seu lado externo, fazendo você parecer mais feio. Mas você, além de bonito é bom, por isso seu reflexo não muda --- ela olhou no fundo dos meus olhos --- De todos os homens que já vieram aqui, você é o primeiro que não tem o reflexo alterado no espelho, você é especial, e por isso, lhe considerei um dom. Muitas pessoas não vão aprovar minhas atitudes, mas você não é um trouxa comum. Com o tempo você descobrirá suas habilidades. Adeus --- por um momento a mulher estava ali falando com ele, e em outro ela tinha simplesmente sumido.
A voz de papai me trouxe de volta à realidade.
--- Mas que dom será esse?
--- Disso eu não sei --- respondeu mamãe preocupada.
Um silêncio mortal inundou a cozinha.
Ouvi os passos de papai vindo em direção à porta. Eu e Silena subimos correndo as escadas, e entramos em meu quarto, que era o mais próximo.
Sentei-me em minha cama e fiquei observando minha irmã. Uma deusa? Não era possível. Nas histórias que mamãe e papai contam, os deuses são egoístas que só pensam neles mesmos, e Silena era a garota mais meiga que eu conhecia, talvez um pouco teimosa às vezes, mas mesmo assim, nada que se compare à um deus do Olimpo
Muitas vezes, eu tinha inveja de Silena. Ela não precisava lutar, apenas fazendo contato visual com o inimigo, ela já o tirava de combate, fazendo-o recuar de medo. Já eu, tinha que lutar que nem um condenado brandindo minha espada. Agora eu sabia o porquê. Tinha a explicação para o dom sobrenatural de Silena.Ela era uma deusa. E eu apenas um humano, um humano que tinha recebido o dom da feiticeira Circe e nem sabia qual ao menos qual era esse dom.
--- Onde estão meus queridos filhos? --- perguntou papai carinhosamente entrando no quarto. Mamãe vinha logo atrás dele.
--- Mamãe! Papai! --- disse Silena abraçando-os --- Vocês vão contar as histórias?
Mamãe e papai se entreolharam.
--- Hoje não, querida --- disse mamãe --- os deuses querem te ver. Lá no Olimpo.
--- Legal! --- exclamei --- sempre quis conhecer lá!
Eles se entreolharam novamente.
--- lamento Charles, mas você não pode ir.
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