A Deusa Mãe

5 Conhecendo a raça nobre


Notas iniciais
Byakushi e Yomi saem em busca de Mariska, mas o cansaço as doma antes da hora. Uma alma bondosa resolve ajudar as Conchitanas, e o convívio com essa menina traz novidades.
O que elas irão descobrir sobre Orion?

Yomi, que sempre carregava consigo um pequeno bloco de folhas, passou a marcar o que achava interessante na conversa daqueles dois. Destacou a frase sobre o tal ano, fazendo uma comparação em baixo, que para o mal da nossa sanidade, se lia:

Ano Vermelho: Apocalipse de Aljha Rhara.

A morena era a única que parecia não se importar com o fim daquele lugar. Não tinha nada importante lá, além de sua irmã. Isso justificava tamanha calma. Mari pediu para que voltássemos para dentro das muralhas, pois aquilo estava estranho demais, mas eu, como sou teimosa, neguei a me retirar dali. Yomi também estava interessada em descobrir um pouco mais sobre os ditos Orianos, então pediu que Mariska voltasse para casa, que logo nós estaríamos de volta.

A loirinha aceitou. Cabisbaixa, desceu as escadas com temor, pois elas eram escuras e longas, e os degraus quase impossíveis de se ver. Vi quando ela saiu do farol, e também escutei seu grito agudo, quando algo puxou-a pela cintura e levantou. Pelo que ela gritava, parecia que era isso mesmo que havia acontecido.

– Yomi... A Mari...! – Eu estava com um tom desesperado na voz. Yomi entendeu o que quis dizer.

– Está certo. Vamos! – Ela correspondeu e descemos os degraus, com menos sutileza que a loira.

Ao sairmos lá fora, não Vimos Mariska e nem quem supostamente a raptou. Olhamos ao redor e parecia estar tudo normal. A população caminhava, crianças brincavam e alguns apostavam em jogos que nunca vimos antes. Entretanto, não deixamos que aquilo nos confundisse, e passamos a caminhar por entre a multidão, de mãos dadas para não nos perder, para o lado oposto de onde tínhamos entrado.

...

Horas se passaram e para meu desespero, nada da loira aparecer. Me sentei numa fonte, que jorrava uma água levemente rosada, e afundei o rosto entre as palmas. Não conseguia organizar meus pensamentos, e sabia que muita gente em Conchita não me perdoaria pela falta da princesa. Yomi estava tensa, eu sentia isso, mas a expressão era sempre serena. Girava o olhar por aí, encarando todos os que olhavam para ela, até que ouviu algo familiar.

– Oudo! Cadê você?!

– É a Eisblume! Podemos pedir ajuda!

Yomi que já estava de pé, me puxou pelo braço e me fez levantar a força. Eisblume tinha uma habilidade estranha. Não parava quieta. Uma hora você a via ali, na sua frente, mas na outra ela sumia do nada. Teletransporte?

– Eisblume! Espere! –Gritei.

A Oriana me encarou assustada, mas logo abriu um largo sorriso e colocou os braços atrás do corpo, esperando-nos. Eu queria dizer-lhe o que aconteceu, mas sua habilidade tinha me deixado pasma. Yomi explicou a situação. Falou que Mariska tinha sumido após gritar e pedir para que largassem-na no chão. A expressão da princesa era de, no mínimo, deboche. Como se quisesse dizer “As bobonas são vocês. O que eu tenho a ver com isso?” mas ela apenas se virou e seguiu caminho, com nós duas em seu encalço.

– Oudo! – Ela gritou mais uma vez.

Yomi tinha uma mente brilhante. Eu vi em seus olhos engrenagens girando e ela anexando os acontecimentos. Uma loira indefesa sumiu, que o brutamontes de estimação de Eisblume também havia sumido. Um suspiro surpreso escapou de seus lábios e ela logo nos disse o que achava. A Oriana, no entanto, nem ligou. Apenas continuava a gritar pelo nome da fera. Enfezada, resolvi tirar satisfação de sua arrogância.

– Escuta aqui! – Puxei a pelagem de sua luva, forçando sua parada e atraindo sua atenção. – Que diabos de princesa que você é?! Não pode pelo menos ajudar?!

– Escuta aqui você... – Ela puxou o braço, se libertando. Apesar da seriedade nas palavras, seu sorriso ainda estava estampado no rosto. – Nós Orianos nascemos para ser belos. Eu não preciso ajudar ninguém, pois na nossa raça, é cada um por si. – E desviou-se mais uma vez. – Oudo! Onde está?!

Eu a vi se afastar, e logo, ela sumiu. Apertei os olhos, queria chorar de raiva, mas Yomi colocou a mão em meu ombro e pediu para que me acalmasse. Estava tudo bem. Iríamos encontrar nossa amiga. Seguimos o caminho que Eisblume havia tomado, mas depois...

– Nos perdemos. – Disse, me jogando no chão. Estávamos longe das muralhas, e nem o farol se via. – É o fim.

Pra piorar, meu estomago roncava, e não havia nada nas barracas que soava convidativo. Yomi não estava nem um pouco abalada. Sem cansaço, fome, sono, eu até estava achando que ela era quase imortal. Nem a força dela me reerguia. Estava mesmo no meu extremo.

Mas para minha salvação, alguém caridoso estendeu a mão com uma fruta sobre a palma. Ela era verde escura, com espinhos grossos amarelos, e do tamanho de uma laranja. Eu até assemelhei a nova fruta com um abacaxi pequeno sem a coroa. Minha visão estava turva. Nem vi quem entregava o alimento, mas pude constatar que Yomi também tinha recebido uma. Agradeci e mordi sem demora. Seu sabor não era azedo como o de um abacaxi, e nem parecia com o sabor da laranja. Era doce. Não doce como uma maçã. Doce como suco de groselha com doses extras de açúcar.

Minha amiga parecia não ter gostado tanto. Ela nunca gostava de coisas com sabor tão açucarado. Eu já era seu oposto. Já curada da fome, o que me assustei, pois aquela coisinha era extremamente pequena, eu olhei para a nossa salvação e pude constatar que se tratava de uma Oriana pequena. Seus cabelos eram curtos e azuis. A pele também era azulada, bem diferente de Eisblume, e sua expressão era de alguém que vestia uma mascara do nariz para cima, com um sorriso delicado delineado nos lábios. Ela usava uma roupa muito fofa, roxa, com cintos também azuis. Dava para entender que ela tinha asas. A roupa dela formava asas, num belo laço.

– Ai que fofinha! –Só isso que pude exclamar. Yomi estava sem reação.

– Meu nome é Chu. – Ela disse.

– Prazer. Sou Byakushi. – Estendi a mão. Ela correspondeu o ato docemente.

Pude ver então que aquela raça não era tão odiosa. Apenas Eisblume era. Chu disse que mostraria um bom lugar para ficarmos até encontrar a loira. Seguimos seus passos delicados, até que no fim chegamos a uma cabana, onde seu pai aguardava, pacientemente. Ele parecia doce também, e ao ver o hexágono em minha testa, nos convidou para entrar. Eu fui direto para a cama, meu merecido cochilo era necessário. Yomi ficou acordada, ao lado da minha cama, perguntando inúmeras coisas para a menina, tocando em seu corpo metálico e analisando o tecido da vestimenta, o que fez com os fios dos cabelos também.

...

Quando acordei, ela estava dormindo e Chu estava sentada ao seu lado, bem desperta. Na mesa ao meu lado, havia umas cinco folhas do bloco despregadas do mesmo. Uma delas estava escrito em cima: Conhecendo a raça nobre.

Era como constatamos. A menina, que parecia ter 10 anos, tinha apenas 5. Sua inteligência, segundo minha parceira, era extremamente maior do que a de uma criança com a mesma idade e a justificativa era que eles não dormiam então tinham tempo dobrado para aprender. A pele da menina era feita de uma fina camada de metal, exceto pelas juntas, que mesmo também sendo resistentes, eram de outro material, que por enquanto nem mesmo a pequena sabia o nome.

Os fios de seus cabelos eram grossos como o náilon, e meio transparente também. Isso ajudava a entender o por que de mudarem de tonalidade de acordo com a luz. A explicação para os olhos dos Orianos, de acordo com a pequena, tinha duas versões: Religiosa e cientifica. A religiosa prega que o deus cultuado em Orion criou os servos sem íris ou pupila, pois eles só enxergam a si mesmos. Mas isso não explica o por que de alguns deles, como Eisblume, possuir íris e pupila. Então foi aí que desenvolveram a teoria cientifica: Orianos que não tem esses aspectos vivem em lugares obscuros. Logo, desenvolveram sua capacidade de sentir, e não ver as coisas ao seu redor. Normalmente são os mais fortes. Os que tinham nasceram na luz, e são mais frágeis.

A analise não parava só aí. O tecido das roupas não era poroso. Era como se fosse algum tipo de couro animal, que não veio de mamíferos. Aliás, Orianos não são mamíferos, também. A explicação de Chu para com o fato era de que a roupa era conseguia através de uma planta nada rara que nascia em térreos sombrios, cujo nome era Iida. Suas folhas grandes e brancas podiam ser pintadas da cor que bem entendesse, e ela ficaria com o ar plastificado que se via. Ao contrario das plantas terrestres, Iida não precisava de água alguma. Sobrevivia no terreno arenoso e sua fonte de vida era apenas o mineral terrestre. Por isso, a roupa não estragava, a menos que tivesse contato com água.

Li também a parte que dizia que Orianos não choravam e não comiam. Se comiam era por prazer, e não por necessidade. Também não dormiam. Se estavam cansados, só precisavam diminuir o metabolismo, o que fazia os movimentos das mãos e dos pés cessarem por alguns minutos.

O que mais me chamou atenção, no entanto, era o que estava escrito no fim da ultima folha: Orianos apreciam o canibalismo. Esse é a punição mais severa que pode se haver lá.

Estremeci ao sentir a mão de alguém tocando meu ombro. Vi os dedinhos azulados e sorri, ao ver que se tratava de Chu. Apenas de ela ser delicada e indefesa, o que sabia sobre sua raça me amedrontava. No entanto, não poderia deixar que ela descobrisse que eu a temia.

– Olá, Chu. Parece que se divertiu bastante com Yomi enquanto eu dormia.

– Ela só me fez umas perguntas. Ainda não sabe tudo sobre nós.

– Eu suponho que não, mesmo. Mal sabemos tudo sobre nós mesmos...

Por um momento, uma imagem de Mari sofrendo nas mãos de alguém me passou pela cabeça e eu voltei a ficar preocupada. Chu soltou um ruído pela garganta, solidaria com minha preocupação toda, e acariciou meus cabelos, delicadamente. Logo, carente, pediu colo e eu deixei que ela se sentasse no meu colo, para que eu possa fazer carinho nela. Sorri. Pois é, os Orianos realmente não são maus.

– Sua amiga pode ter sido levada por Oudo. – Ela comentou, com a voz manhosa como se estivesse em estado de transe.

– Imagino isso. Mas para onde?

– Quer que eu te leve para os Jardins de Eisblume? – Ela disse, com força revigorada, olhando para mim.

Minha expressão era como se eu perguntasse por que ela demorou a me responder. Ela reparou esse olhar e respondeu de imediato que não sabia se Eisblume estava indo para lá, e por isso não havia sugerido antes. Sorri, entendendo seu ponto de vista. Ela desceu do meu colo e estendeu a mão, me convidando para seguir a viagem.

...

Estávamos subindo um morro em alta montaria, que Chu disse que era típica do planeta de onde veio. Eles tinham o corpo de um cavalo qualquer, mas continham cauda de peixe e escamas. Era desconfortável permanecer sobre um deles. O meu quimera relinchou quando uma brisa gélida bateu forte contra nós, e Chu disse que estávamos perto.

– Então quer dizer que os jardins são frios...?

Chu abaixou a cabeça e gemeu com a garganta mais uma vez. Ela só sabia como chegar lá, mas nunca havia invadido o território. Tinha medo de Oudo, mas agora estava protegida pela escolhida.

Por fim, chegamos ao destino. Os portões eram prateados com um grande losango onde dava para pular caso tomasse o impulso certo. Primeiro, Chu o fez, caminhando para trás com a quimera e batendo em seu traseiro para que o animal atravesse a vaga. Depois, imitei-a, com a mesma velocidade.

Os Jardins de Eisblume era uma ironia. Não havia uma flor sequer, a não ser arvores congeladas. Não importava para onde você olhava, era o mesmo cenário: Uma imensidão branca. Ordenamos aos quimeras para avançar contra o terreno gelado. Eles caminharam em meio a tropeços por mais ou menos 15 minutos, até chegarmos no local onde a paisagem mudava. Havia algumas ovelhas espalhadas pela neve e como se fosse uma passagem para algo, pequenas elevações na terra faziam a porta do labirinto. Continuamos a seguir.

Era fácil se perder ali, então marcamos bem o cenário conforme passamos. Eu fiz um mapa mental das esquinas cruzadas, levando em conta uma ou outra ovelha que passasse em nossa frente. Chu parecia não ter frio, mas eu tremia muito por baixo daquela manta branca que carregava comigo. Já arrependida de ter invadido o lugar e quase ordenando à minha quimera que volte ao inicio, a neve ficou ainda mais densa e os flocos acompanhado pelo vento violento queria nos arrastar para trás. Cobri meu rosto com o capuz, mas Chu parecia também não ligar, fechando apenas um dos olhos.

Por fim, enxergamos uma placa semi-congelada escrito perfeitamente WELCOME TO BLUE ICE CASTLE!.

Ao atravessar, podemos constatar a maior riqueza do mundo Oriano: O grande palácio de Oudo e Eisblume, que fazia jus ao nome. Da torre central, uma enorme quantidade de flocos de neve era despejada ao vento, fazendo aquela terrível tempestade. Ele era inteiro azul, com inúmeros losangos em suas inúmeras torres, pintadas de preto.

Havia uma ultima armadilha ali, para visitantes desinformados. Como o único meio de transporte de Eisblume era Oudo, ele não escorregava, mas nossas quimeras, ao primeiro passo, caíram e se feriram no piso de gelo que ligava a entrada até o castelo.

– Ah...

– Meu...

– Deus! – Eu concluí. Chu estava realmente tão espantada quanto eu. Será que Oudo estava ali? Será que Mari estava lá?

Saímos dos animais e deitamos ambos na neve fofa, ao lado da estrada de gelo. Seguiríamos a viagem a pé.


Notas finais
Esse capitulo foi viajado. Muitas pessoas me ajudaram a criar a aparência oriana e também a contar um pouco da historia dessas criaturas. Ainda tenho um pouco a criar...
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