A Destruição de um Anjo
2 Caçada
Notas iniciais
Meus pés ziguezagueavam à medida que eu corria, meu corpo já não aguentava a imensa sensação de desfalecimento. Raios e trovões permutavam no céu em acordo com a chuva que caía sobre a minha cabeça. A água que escorria sobre o meu rosto misturava-se a camada expeça de sujeira que havia sobre ele, limpando-o pouco a pouco.
Tropecei e cai sobre uma pequena poça de lama, ergui-me e continuei novamente a correr. Quando já era impossível prosseguir, minhas pernas estremeceram fazendo-me cair com os joelhos fincados na terra molhada, senti a água fria passar por entre elas fazendo uma espécie de choque percorrer todo o meu corpo. Não demoraria muito até que me alcançassem.
Fiquei de pé lentamente e numa tentativa esperançosa, arrisquei uma última vez valer-se de minhas asas. Dois pequenos cortes começaram a fluir na altura do meu dorso como barras inclinadas na vertical, uma para a direita e outra para a esquerda logo acima dos meus declives, formando uma espécie de V invertido, aumentando cada vez mais, à medida que a pelugem escura começava a aparecer.
Prontamente, minhas asas revelaram-se, arremessando um jato de ar ao meu redor. Tentei alçar voo, mas era inútil, a dor alucinante me impedia de fazer qualquer esforço.
Tentei outra vez, subindo vagarosamente por meio de pequenos impulsos dados com os pés, que ajudava as asas em seus constantes movimentos. Já estava a poucos metros do chão quando senti algo pontiagudo fincar-se por entre elas, puxando-me com força para baixo. Avigorei ainda mais, debatendo-me freneticamente e tentando elevar-me ao mesmo tempo.
Com um empuxão dado enfraqueci e tombei sobre o lamaçal. Puseram-me de joelhos. Alguém segurou meus ombros, pressionando com força para baixo, não distingui o seu rosto, devido à noite que o ofuscava, outros dois aproximaram-se pelos lados, um em cada lateral agarrando as pontas das minhas asas.
Senti um leve tremor quando alguém encostou a mão no gancho que estava penetrado em minhas costas e puxou sem indulgência, fazendo-me soltar um urro estriduloso. Vi de relance quando retirou do cinto uma lâmina de porte médio e passou sobre o meu rosto. Senti o metal gélido cortar minha bochecha num movimento lento e preciso. O líquido prata começou a escorrer sobre minha face, pingando cada vez mais rápido sobre o meu ombro. O pior ainda estava por vir, eu já sabia exatamente o que estava prestes a acontecer. O mortal atrás de mim aproximou-se lentamente e sussurrou algo incompreensível ao meu ouvido. Pude sentir sua respiração calma e o ar quente da mesma.
Num movimento rápido e preciso a lâmina corta as minhas asas. Posso sentir o enorme peso delas sendo tirado de mim a medida que são puxadas sem piedade. A dor é dilacerante, solto um grito abafado e só então despenco. Na minha cabeça tenho apenas uma lembrança: Noah.
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