A Dança do Amor

1 Capítulo Único


Na última semana de aula, na escola de Ichigo, não se falava em outra coisa: o baile promovido pela associação dos estudantes, como brinde ao encerramento do terceiro ano.

Indiferente a isto, Ichigo andava com as mãos no bolso, pelo corredor. Pensando apenas como estudaria para as duas provas finais, sendo que seu tempo livre estava dedicado a lojinha, em que ele trabalhava meio período.

Desde que havia perdido seus poderes, em sua derradeira luta contra Aizen, Ichigo havia perdido um pouco de seu entusiasmo, pelas coisas pequenas.

E, para ele aquele baile idiota, não tinha nenhum significado.

Diferente da garota, que mesmo esforçando-se para fazer o contrário, não conseguia tirar os olhos de seu “amigo”.

— Vai arrancar pedaço, se continuar, o olhando assim. – Tatsuki zombara mais uma vez, pondo um rubor nas bochechas da ruivinha que se encolheu um pouco na cadeira.

— É fácil falar... O garoto que você gosta vai levá-la ao baile.— Orihime respondeu, com um sorriso nos lábios de divertimento, ao ver a “durona” Tatsuki se derreter feito gelatina.

Foi algo bastante inesperado, mas ela e Ishida estavam namorando, a mais tempo do que ambos queriam admitir. Mas, Orihime sentia-se feliz, por seus amigos.

Mas, ela queria uma felicidade similar como aquela... E isto, ela só conseguiria viver com a pessoa que mal a olhava nos olhos.

Era como se fosse sua culpa, ele ter perdido seus poderes, e ela não. Era como se fosse sua culpa, ele ter sido esquecido pela Soul Society, por um ano. Era como se fosse sua culpa... Parara de pensar nessas coisas, quando o professor chegara, anunciando o início de mais uma aula chata.

A última de suas vidas. Aquilo lhe causava certa melancolia.

Em uma hora e meia, tudo estaria acabado. Sua jornada escolar no ensino médio se encerraria e não haveria ninguém do outro lado do portão, lhe dando um aplauso, por ela ter sido uma boa menina, e concluído os estudos.

Quantas experiências os jovens vivem nesse período? O primeiro amor, o primeiro beijo, uma dança ao fim de tudo. E, ela não teria nenhuma dessas coisas, porque o garoto que ela gostava, se quer a notava.

...

Ichigo rabiscava de qualquer jeito, as palavras ditas pelo professor. Mas, não era nisso que estava em seus pensamentos.

Na verdade, seu pensamento vagava por tudo e por nada. O passado, o eminente futuro... Escolhas que ele tinha de fazer, na esperança de dessa vez, ele conseguir acertar... Mas, no fim ele voltava aquela estupida letargia, causada pela frustração de não poder mais salvar o dia.

Essas eram as palavras de Uryuu.

E, mesmo ele detestando ter de dar o braço a torcer, ele sabia que seu amigo estava certo.

Foi quando um par de olhos castanhos, fixos em si, o tiraram de seus pensamentos e ele pela primeira vez em algum tempo, levantara a cabeça e notara algo que não fosse sua própria dor.

Orihime nem acreditou quando Ichigo enfim a olhou. E seu primeiro reflexo foi sorrir, mas logo arrependeu-se, e baixou a cabeça constrangida.

Ichigo vira Orihime lhe sorrir, mas logo ela baixara a cabeça, parecendo arrependida disto, e Ichigo não sabia por que ela ficava tão hesitante em torno dele.

Era quase como se quisesse lhe dizer algo... Será que ele deveria perguntar?

Quando o sinal tocou, diferente do habitual, muitos soltaram um murmúrio de pesar, aquele era o indício de que tudo estava chegando ao fim.

— Foi um prazer estar com vocês. – O sensei fizera então uma reverencia, e todos os alunos fizeram o mesmo, repetindo o gesto.

Até mesmo Ichigo sentira os olhos marejarem-se. Um ciclo estava se encerrando, e outro estava começando, muito diferente do que ele tinha imaginado.

Então, seus olhos voltaram para a garota, e um muito esquecido desejo veio à tona: a vontade de lhe falar sobre seus sentimentos.

Mas, Orihime era linda demais e dificilmente iria querer um zero à esquerda feito ele.

Mesmo assim, quando todos caminhavam para o corredor, ele não resistiu à tentação de chama-la:

— ORIHIME! – Ele a chamou uma, duas, três vezes... Mas, ela não o escutou, seguiu seu caminho sem olhar para trás.

...

Sabe, quando a mente prega peças, você acha que alguém está lhe chamando, mas quando olha para trás, não tem ninguém?

Isso havia acontecido muitas vezes com ela, mas toda vez que a jovem olhava para trás, achando que era ele a chamando... Normalmente o via dobrar o caminho em outra direção, ou apenas seguir seu caminho carrancudo, sem nem notá-la ou pior, ignorando que ela estava bem ali, louca por um “oi” da sua parte.

Por isto, dessa vez ela seguiu seu caminho, recusando-se a cair na pegadinhas de sua mente. Recusando-se a continuar agarrando-se como um naufrago, a vã esperança de que Ichigo iria corresponder a seus sentimentos.

Seguiu seu caminho rumo à sua casa. Tiraria seu uniforme escolar, guardaria em um canto de seu armário. Então, se sentaria a frente da televisão, assistir filmes de comédia pastelona, e esperaria aquele dia terminar.

Sem baile.

Sem beijo.

Sem ele.

Sem o seu amor.

Triste assim.

...

Era impressão a dele, ou Orihime havia o ignorado? Aquilo pusera um gosto amargo em sua boca.

A única pessoa com quem ele queria conversar naquele momento, estava o ignorando. E, ele tentava entender o que havia feito de errado?

— Pior cego é aquele que não quer ver. – Para seu total espanto, Ishida se materializara quase como se fosse um dos muitos espíritos que o assombravam, fazendo-o quase ter um treco, por causa disto.

— CRUZES, DE ONDE VOCÊ APARECEU, CRETINO? – Ichigo perguntou soltando raios pelo olhos, e fumaça pelas narinas de tanta irritação.

Porém, o seu namoro com Tatsuki, haviam deixado Ishida em modo zen, tanto que ele conseguiu ignorar o imperdoável rompante de seu pior amigo.

— Há, ficar aqui gritando comigo, feito um demente... Vá atrás dela, é isso que você quer fazer... – Ishida dissera ao seu melhor modo zen, pena que ele teve de mexer em seus óculos.

— ISHIDA... – Ichigo trincou os dentes chegando a bolar uma dezena de xingamentos, contra o Quincy, mas então enfim a ficha caiu, e ele compreendeu o que Ishida estava querendo dizer... “Vá atrás dela, é o que você quer fazer”. Sim, era o que ele queria fazer.

— Maldito, uma vez na vida você falou a coisa certa. – O ruivo disse fazendo um gesto obsceno para Ishida, que ficou injuriado por causa disso.

“Como assim? Eu sempre digo a coisa certa!” – O Quincy pensou remexendo em seus óculos, mas toda sua irritação, se desfez quando um par de braços enlaçaram sua cintura, colocando em modo zen de novo.

— Uryuu, vamos tomar um sorvete? – Ainda mais quando vira sua linda garota, com as bochechas rubras, cheia de carinho para dar... Ele, era um sujeito de muita sorte, ele pensara com um sorriso no rosto, abraçando sua namorada e dando-lhe um discreto selinho nos lábios.

...

Ichigo correra os sete quarteirões, ansioso por chegar à casa de Orihime, nem sabia o que iria dizer, ele nem sabia direito o que pretendia falar, para começo de conversa... Apenas queria vê-la, quem sabe assim, ele tivesse uma luz, a respeito do que é que estava dando de errado entre eles dois.

“Eles dois”. – Era um pensamento estranho para se ter com relação a uma garota, que até então era apenas uma amiga.

Mas, a julgar pelo tamborilar, de seu coração, pelo ofegar de sua respiração, pelo aquecer de suas bochechas, ele sabia que estava apaixonado por aquela garota, sempre esteve, mas a sua estupida mania de manter as pessoas afastadas, por medo de perdê-las, a fez ironicamente se afastar.

“Seria a hora de dizer?” – Perguntava-se antes de mesmo de chegar até a casa dela, antes de parar na soleira de sua porta, com o punho fechado, pronto para bater na porta, até que ela abrisse.

Orihime estava na frente abraçada a uma bacia de pipoca, com cubos de banana, azeitona e mostarda. Seus olhos nem piscavam diante do televisor, o filme em sua cabeça era mais vivido, e mais emocionante ao ponto de fazer rir e chorar ao mesmo tempo.

A menina boba e inocente que se apaixonava pelo badboy número um da escola. Já havia lido muitos shoujos do tipo, e eles sempre tinham um final feliz, mas a sua história com Ichigo naufragou antes de começar, porque eles estavam fadados a friendzone.

Foi então que ele escutou sua campainha tocar, com certa insistência.

Ela queria continuar quieta no sofá, chorando as mágoas, mas aquele bip, estava sendo deveras irritante.

Por isso se levantou, tentando fazer uma cara de menina má. Caminhara a passos duros até a porta, pensando que desse jeito afastaria qualquer visitante inoportuno. Mas, todas suas intenções de más-criações se foram ao chão, junto com seu pote de pipoca.

— Yoruichi-san, o que faz aqui? – A menina perguntou surpresa por ver Yoruichi na forma humana ali parada na sua porta, como se fosse “uma pessoa normal”.

— Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou com certa urgência, geralmente a presença da ex shinigami na soleira e sua porta, era indicativo de que algum incidente espiritual estava acontecendo, e que ela precisava curar alguém.

— Nossa, nem parece que alguém tem um baile de encerramento hoje? – A mais velha falou em seu tom jocoso, de sempre, mas seu olhar demonstrava carinho, coisa rara de acontecer.

Inoue encolheu-se mais, já arrependida de ter comentado com Yoruichi e Urahara sobre o baile.

— Eu não tenho com quem ir. – A menina disse, sendo parcial naquela afirmação. Convites é que não faltaram, mas a única pessoa que ela queria a companhia não estava interessada, naquelas coisas.

— Acho que você precisa de um vestido novo, para se animar. – A mulher disse puxando a ruivinha pela mão, Inoue piscou confusa com a atitude da mulher que parecia não ter entendido que ela não iria ao famigerado baile.

Mas, Yoruichi quando botava uma coisa na cabeça, fazia as coisas a seu jeito, e agora ela praticamente arrastou Orihime para um baile, onde ela compraria um vestido e ela iria aquele baile, porque querendo ou não esse era o tipo de coisa que acontecia, apenas uma vez na vida.

...

Vinte minutos depois, Ichigo chegara a porta de Orihime absolutamente ofegante.

Havia corrido da escola até ali, sem nenhum motivo aparente. Ele tinha ciência de que não havia sido legal, com nenhum de seus amigos ultimamente, especialmente Orihime.

O problema é que ele não tinha nem ideia do que iria falar. Na verdade, ele deveria estar ficando maluco, porque havia corrido até ali a toa.

Mas, a verdade é que quando ele chamou “Orihime”, e ela não o ouviu ele sentiu-se desesperado com a possibilidade de perde-la, por algum motivo.

No entanto, a sorte parecia querer lhe dar um corretivo. Já que ele batia e batia na porta da garota, apertando com insistência sua campainha e nada de ela atender.

Estava quase desistindo quando a figura extravagante de Urahara aparecera por ali, como quem não queria nada.

— O que você está fazendo aqui? – O ruivo perguntou com desconfiança, porque sempre que um deles aparecia na casa de Orihime, era porque ela precisava usar seus poderes curativos em alguém.

Mas, certamente não era esse caso, já que Urahara lhe sorrira languidamente, enquanto segurava a aba de seu ridículo chapéu.

— Acho que alguém saiu para comprar um vestido para o baile. – Urahara comentou casualmente.

— Hein? E, porque Orihime faria algo assim? – Ichigo perguntou amuado, ainda encarando Urahara com desconfiança.

Esse por sua vez apenas o olhou como se perguntasse “você é um idiota?”

— Garotas sonham o ensino médio todo com esse baile. Ao menos, foi o que Yoruichi-san, me disse antes de me convencer a lhe dar o dinheiro para que ela levasse Orihime para comprar um vestido. – Urahara disse dando uma risada de divertimento para a expressão de cachorrinho perdido que Ichigo fazia.

— E você não sonha com algo assim? – Urahara perguntou casualmente, sentindo-se péssimo em ter de fazer aquele trabalho meia boca de cupido, mas as alegrias que certa abelha estava lhe proporcionando entre quatro paredes, estava o tornando generoso o bastante, para que contribuir para que as pessoas ao seu redor, soubessem uma vez na vida: o que era o amor.

— E pra que é que eu iria comprar um vestido, caso não saiba garotos não usam um. -Ichigo disse quase que histericamente, o que fez com que Urahara voltasse a olhá-lo “como se ele fosse um idiota”.

— Humanos e suas convicções estranhas. – O cientista disse em meio a um demorado suspiro. – O que eu estou perguntando é se... Você não gostaria de ir ao baile?

Urahara perguntou calmamente, olhando o ruivo diretamente nos olhos para que ele entendesse bem sua pergunta, e não ficasse inventando desculpas idiotas.

— E, porque eu iria querer fazer algo tão... – A palavra enrolara-se em sua língua e não saíra.

— Normal? – Urahara perguntou arqueando a sobrancelha, e fitando-o sabendo que tinha chegado ao ponto.

Desde que conheceu Rukia, sua vida tomou um caminho extraordinário. Mas, agora que as coisas haviam se normalizado, ele sentia que não queria mais colocar os dois pés no chão, e viver uma vida comum.

Tudo naquela monotonia o afligia. Ele não se sentia mais necessário, como outrora. Na verdade, a teoria de Uryuu de que ele estava sofrendo da “síndrome do ego murcho”, fazia todo o sentido e isto o deixava ainda mais mal consigo mesmo.

— Você tem dezessete anos, criatura. E nem devo dizer que só se vive dezessete anos, uma vez. – Urahara disse sorrindo, antes de lhe dar as costas.

— Orihime parece ter percebido isto hoje. – Urahara falou com a mão nos bolsos, e suas palavras estavam um pouco desajeitadas, afinal ele não tinha nascido para aquele tipo de coisa, mas Yoruichi estava certa, se eles não dessem um pequeno empurrão, aqueles dois iriam passar aquela noite abraçados no travesseiro, o que para os dois shinigamis centenários, era um sacrilégio.

— Ela não tem ninguém para ir ao baile. – Ichigo disse vermelho de raiva, só a ideia de sua Hime dançando com outro cara, lhe enfurecia inexplicavelmente, Urahara sorriu de canto, satisfeito de ter conseguido plantar a semente.

— Acho que ainda dá tempo de... – O ex-capitão nem conseguiu terminar de falar, porque Ichigo como se fosse um furacão saíra correndo em disparada até sua casa, para ver com seu velho a possibilidade de conseguir um terno, meio que de última hora.

Preferia ficar um século lutando às cegas no inferno, do que ver sua hime, dançando cinco minutos com outro cara.

Assustou-se com esse pensamento, e sentiu-se um idiota, por causa dele ao mesmo tempo.

...

Yoruichi podia ser avoada, relapsa e um tanto egoísta, mas quando ela queria conseguia ser bem eficiente.

A prova é que naquele mesmo dia, elas conseguiram comprar um bonito vestido vermelho, tomara que caia de um tecido leve e brilhante. O único detalhe que ela não gostara muito, foi a fenda ousada que cortava o tecido na lateral esquerda, dando-lhe um aspecto sensual e ousado, que não combinava muito com a personalidade da garota, que fora para casa se arrumar.

Mas, Yoruichi já estava lá a postos, com uma moça muito simpática, que ela descobriu se tratar de uma cabelereira, que era tão versátil que cuidou de sua maquiagem também, deixando-a tão diferente, que momentaneamente ela não se reconheceu frente ao espelho.

— Parece uma princesa. – Yoruichi disse batendo palmas, e sorrindo com satisfação.

— Hai. – Orihime balançara a cabeça, emocionada pela súbita gentileza da ex-taichou.

— Mas, ainda falta o toque final. – Yoruichi disse puxando um estojo que continha uma bonita gargantilha dourada em forma de coração com uma pequena pérola no meio, e um delicado brinco também de pérolas.

Era tão bonito e refinado, parecia ter custado muito dinheiro. Orihime chegou a abrir a boca para protestar, mas prevendo a intenção da menina, Yoruichi apenas a virou, para colocar os acessórios.

— Baka, quando você recebe uma gentileza, aproveite a oportunidade para agradecer e não para reclamar. – Yoruichi disse no fim dando uma risada que se assemelhava mais a sua velha personalidade.

Orihime acabou sorrindo, em agradecimento embora estivesse fazendo um esforço sobre-humano, para não chorar e estragar a maquiagem.

— Para completar, só falta ele. – A menina disse com sinceridade, embora não quisesse parecer mal-agradecida.

— A noite está recém-começando, muita coisa pode acontecer.

Orihime disserasorrindo para Yoruichi e aquilo de algum modo aqueceu seu coração, então uma buzina do lado de fora da casa, anunciara a hora de partir e Urahara até tirara seu carro da garagem, para a ocasião.

O que aumentara ainda mais a gratidão de Orihime, pela generosidade de seus amigos naquele momento. Eles estavam subitamente agindo como se fossem seus pais. E, essa ideia a deixou ainda mais reconfortada, e menos solitária.

...

O grande ginásio da escola, estava irreconhecível, com todas aquelas serpentinas e balões. O tapete, as luzes, vários alunos espalhados pelo salão ao ritmo de uma música eletrônica, parecia o cenário de um filme para Orihime que inicialmente se sentiu totalmente deslocada ali.

E, ela não era a única. Naquele instante Isshin parara o carro em frente à escola, o que aumentou ainda mais a carranca de Ichigo que vinha no banco do carona, literalmente amarrado por uma corda. Na sua concepção foi um erro, pedir dinheiro para o velhote para comprar um terno. Pior, ainda foi lhe contar que ele pretendia ir ao baile.

Isshin, então se deu o direito de não só o levar, mas procurar a velha câmera fotográfica, mais do que esquecida da família, para tirar uma foto de seu filho com “a sua futura nora”. Coisa que Ichigo não queria de jeito nenhum, entrar com seu pai dentro do baile, seria um mico que até ele que não era ligado na opinião alheia, não queria pagar.

— Me desamarra velho idiota, está amarrotando todo meu terno. – Ichigo dissera soltando fogo pelas ventas literalmente.

— Que bonitinho está tão nervoso, que está todo vermelho. Mas, fique tranquilo é só você seguir o manual do conquistador infalível, de minha autoria que tudo ficara bem.

Ichigo não sabia se ria ou chorava com as esquisitices de seu pai. Então, ele ficara tentado a fazer o que sempre fazia: enfiar a mão na cara dele, mesmo sendo seu pai.

— Me desamarra velho idiota... Está amarrotando todo meu terno. – Ichigo disse preocupado em não fazer feio para Orihime.

— Vai deixar eu tirar uma foto sua e de sua namoradinha? – O outro perguntou com os olhos brilhando.

— Caso não tenha notado, isso aqui não é baile da quinta série, não. – Ichigo estava indignado, por tanta atrapalhação em algo que já era naturalmente atrapalhado.

Urahara insinuou que Orihime iria ao baile, e ele agiu por impulso, mas agora que estava ali... Sua vontade era voltar para trás. Se sua hime ia ao baile, é porque tinha alguém mais interessante para acompanha-la e não um idiota, com um pai mais idiota ainda, como ele.

Por sorte, uma batida no vidro chamou atenção de Isshin que se deparou com os olhos dourados e o sorriso cheshire de Yoruichi.

— Yoruichi-san? – Pai e filho perguntaram em uníssono surpresos pela presença da morena ali vestida com um bonito vestido roxo que frente única que deixava parte de sua bela silhueta amostra, dando um aspecto bem diferente a ex-taichou.

— Então, meninos bonitos... Que tal, invés de ficar brigando, vocês não aproveitam a noite? – A mulher perguntou dando uma piscadinha, para a dupla que o encarou cada qual de uma maneira.

— Depois de eu tirar uma foto dele, e da namoradinha quem sabe... – Isshin dissera com fogo nos olhos de tanta determinação, mas este se extinguiu quando Yoruichi se aproximou tão perto dele, que ele ficou embriagado pelo cheiro maravilhoso que ela estava exalando.

Então, sem dó nem piedade ela apertara fortemente sua bochecha, dizendo-lhe com um sorriso charmoso:

— É agora ou nunca, Isshin-san. – A ex-taichou assim compelira Isshin a segui-la e deixar Ichigo ali mesmo, mas com um pequeno problema, ele ficou amarrado no carro.

...

Enquanto isto, Orihime que havia roubado quase todos os holofotes com sua entrada triunfal no salão, chamou a atenção de inúmeros rapazes que vieram lhe pedir a mão para dançar, mas a ruivinha sempre desconversava dizendo que estava esperando alguém.

Parte dela estava dizendo a verdade, mas havia um outro lado, mais racional que desacreditava desse sonho.

— A deixa, essa garota metida ela não quer dançar com ninguém... – Um aluno, tentou consolar um amigo que queria insistir pela sétima vez para que Inoue dançasse com ele, mas a garota não queria e aquilo a fez se sentir mal.

Não queria fazer desfeita com seus amigos, mas não conseguia entrar no clima.

Estava pensando seriamente em ir embora, quando virou para atrás e se deparara com alguém inesperado vindo na sua direção.

...

— Kurosaki-kun?! – Orihime dissera embasbacada.

— Inoue... – Ichigo respirou fundo, percebendo tudo que queria dizer, esvair-se de sua mente, como água escorrendo pelo ralo.

A garota estancou no mesmo lugar, e ficara encarando-o em um misto de ansiedade e constrangimento. Ichigo não estava muito melhor do que ela neste sentido.

Após algum tempo respirando e inspirando como um idiota, diante da garota que gentilmente o observava, ele caminhara resoluto em sua direção, pousando suas mãos sobre seus ombros, e fitando-a profundamente em seus olhos, ao mesmo tempo que Orihime sentia-se subitamente sem fôlego, com a aproximação de Ichigo da sua pessoa.

— Orihime-san, me desculpe. – Ele disse transbordando tanta sinceridade, que seus olhos se marejaram imediatamente.

Embora, ela não soubesse o porque ele estava pedindo desculpas, só o fato de estar ali na sua frente, tão perto de si, pela primeira vez em tanto tempo, já era motivo para emoção.

— Kurosaki-kun, eu... – A linha de seu raciocínio foi interrompida, quando ele a puxou para um abraço, e com a voz trêmula, e aparentemente fora do lugar ele murmurara.

— Não quero mais ficar longe de você. – Ele dissera ainda com sinceridade, com as bochechas encobertas por um blush, o que o tornara adorável aos olhos da garota, que mal conseguia acreditar no que ele estava dizendo, tão pouco no fato de ele estar ai tão perto dela.

— Eu estou aqui, Kurosaki-kun. Por isso eu peço, que não se afaste, sem aviso de novo. – Ela disse com os olhos marejando-se e ele se sentiu culpado por fazê-la chorar.

— Nunca, hime. – Ele disse se afastando um pouco para tomar suas duas mãos entre as suas, e beijá-las. Inoue fechara os olhos sentindo a sensação dos lábios dele na sua pele, embora uma parte mais ousada de sua vontade quisesse que ele estivesse beijando seus lábios naquele momento.

— Eu sei que tenho agido como um idiota com você. – O rapaz disse dando um sorriso sincero, embora seus cabelos estivessem ainda mais espetados e sua roupa amarrotada.

— Ai. – Porém, Inoue o surpreendeu com um doloroso beliscão.

— Gomensai, eu ainda não acredito que você está aqui. – Ela murmurara com uma expressão que era um misto de constrangimento e alegria.

— Nem eu. – Ichigo dissera se referindo ao sufoco que ele passou dentro do carro amarrado, tentando sair. Por sorte, Kon estava escondido no banco do passageiro, e concordou desamarrá-lo, apenas se Ichigo permitisse que ele fosse também ao baile.

Claro, que o ruivo não cumpriu sua parte do acordo, e prendeu o urso antropomorfo no carro novamente. Mas, Inoue certamente iria ralhar consigo então ele resolveu deixar essa parte de lado, e apenas lhe estendeu a mão, e mesmo sendo uma versão desgrenhada de um príncipe encantado, Inoue estava mais que realizada em aceitar seu convite para uma dança.

A música que estava tocando era uma eletro dance bem agitada, mas os dois como se tivessem uma força invisível os atraindo não conseguiram separar seus corpos. Ficaram ali grudadinhos no meio do salão, movendo-se ao próprio ritmo, embevecidos, pela esperada e ao mesmo tempo inesperada, aproximação dos dois que sorriam como dois apaixonados.

Percebendo isto, o DJ, contratado aquela noite, resolvera dar uma forcinha para o casal, que chamara sua atenção, por serem dois ruivos grudadinhos na ponta mais extrema da pista de dança, e tocara uma balada mais romântica.

Ichigo nem de longe era um bom dançarino, mas fez o seu melhor para não fazer feio para a garota que amava.

A garota que amava. Essa ideia repetiu-se em sua mente e ele quase acostumava-se com a ideia, se não fosse o receio de fracassar com ela, do mesmo jeito que fracassou com todo o resto.

Quer dizer, ele conseguiu deter Aizen, ele conseguiu evitar que o mundo acabasse... Quantos garotos de dezessete anos, fazem algo assim, na vida real?

Mas, para Ichigo aquilo não era o bastante. Ele sentia que tinha de ser forte para proteger Orihime, para ser útil para as pessoas que o rodeavam... Como se adivinhasse seus pensamentos, Orihime o encarou nos olhos e dirigira-lhe o olhar mais doce.

Aquele pedido de desculpas, dele ficara repercutindo em sua mente, e foi naquele instante que ela tivera o insight.

— Kurosaki-kun. – Ela murmurara bem baixinho o nome do garoto, ainda tendo de lidar com a timidez de seu coração. Mas, quando os olhos castanhos dele encontraram os seus, ela teve certeza do que queria dizer.

— Você é tudo o que eu preciso. – Ela dissera com a voz embargada, e uma lágrima caíra de seus olhos, tornando sua maquiagem um borrão, ainda assim ela nunca ela parecera tão bela perante os olhos de Ichigo que lhe sorriu com ternura, e sem pensar direito no que estava fazendo...

Aproximou seu rosto do dela, e Orihime fechara os olhos, esperando pelo tão aguardado beijo que acontecera de um jeito que ela sentiu como se fosse ganhar asas e voar naquele salão... E se duvidasse ela iria mesmo.

Os dois ficaram com o rosto coladinho, entre sorrisos e uma emoção que os levava ao limiar que só eles entendiam e sabiam que apesar de todos os percalços, valera a pena chegar ali até ali...

O momento durara não mais que dois segundos, mas logo eles aprofundaram seus lábios movidos pelo que sentiam um pelo outro, e enfim ele a conduziu pelo salão, onde eles dançaram ao ritmo do amor que sentiam e que agora conseguiam partilhar um com o outro.

Afinal, o baile duraria apenas umas horas... Mas, sua história, uma vida inteira.

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