A Dama e o Pierrot
1 Capítulo unico
Veneza, década de 40.
Andava pelo elegante aposento sem pressa. Depois de uma longa viagem, com tudo no lugar, só lhe sobrava agora tranqüilizar-se. Voltara ao lar, era o que importava. Sabia que não poderia sair dali.
Ouvia os gritos ruidosos vindos da rua, e sorriu. Sempre admirou o Carnaval, festa pagã que juntava as mais diversas pessoas, das mais diferentes culturas e classes.
“Protegidas por máscaras...” pensou ela.
Kagome Higurashi, herdeira de um império de empresas diversas, comandadas por seu avô. O pai morrera a muito tempo, e ficara a ela o pesado fardo de manter a história de sua família em comércio de jóias. Entretanto, era inteligente, mas muito ingênua. Fatalmente seria enganada nos jogos de poder. Achava que seria respeitada, mesmo sendo mulher e muito jovem.
Mesmo assim, percebeu seu avô que só lhe restava encaminhar sua neta ao apoio de alguém de confiança, pois ela se enganara muito. Yuri Minamino, amigo de infância do pai de Kagome, pareceu ser a pessoa ideal. Assumiu a educação da moça, deixando o avô de Kagome em paz para ir junto aos seus antepassados.
Notara o Sr. Yuri que a moça era refinada e culta, mas não fora criada para um mundo exigente e traiçoeiro. Decidira então assumir a empresa da moça, e casá-la posteriormente com alguém de nobre posição, que pudesse administrar a empresa se fosse de absoluta confiança. Assim, evitaria maiores transtornos a garota.
E assim, Kagome fora enviada para um colégio na Itália, maior comprador das empresas de seu avô. Aprendera italiano, cantar piano, portar-se com uma dama distinta e refinada. Parecia que era treinada para assumir as empresas. Mas não. Tudo era porque estava noiva. De alguém com quem mal falava.
Conhecera seu pretendente na ultima viagem que fizera ao país natal, Japão. De tanto tempo longe, nem imaginara que aquele era seu lar, e seria futuramente. Considerava Itália seu verdadeiro país. Ao chegar, soube que teria uma festa a comparecer no dia seguinte. Arrumou-se no rigor da moda européia, assombrando os convidados pela beleza e educação. Foi apresentada a diversos membros da empresa. O Sr. fizera com que se sentisse amparada.
Após o jantar, seu tutor dirigiu-se a todos, anunciando o casamento de seu filho Kurama, rapaz de longos cabelos avermelhados e olhos verdes, com sua protegida. A moça entrou em choque. O rapaz não lhe desagradava,ao contrário. Mas nem fora consultada, e agora sentindo o insulto à sua família pela sua incapacidade, chorou e pediu para voltar a Itália o mais rápido possível. Alegou que queria terminar logo seus estudos.
Agora, de volta aquela que considerava sua casa, tranqüilizou-se. Ninguém a levaria dali sem que terminasse tudo que viera fazer. A diretora do colégio sabia da situação, mas compreensiva, permitiu Kagome ficar além do que devia. Mas ela não poderia fugir por muito tempo. Agora, olhava da janela o movimento das pessoas na rua. Ria como criança. Ali era o refúgio seguro, de alguém que não tinha para onde ir.
De repente viu um pierrot olhando para ela fixamente. Envergonhada, virou o rosto, mas voltou logo em seguida. O homem vinha em uma esplendida fantasia branca, com uma rosa nas mãos.
Aproximou-se dela, que ia fechando a janela.
- Querida dama, permite a este vagabundo enamorado por tua beleza te dar esta singela flor, colhida por mãos tão vulgares?
A jovem corou. Aceitou tímida, mas respondeu:
- Duvido que tuas mãos sejam mais ordinárias que as minhas, gentil senhor.
Ele puxou a mão da moça, e beijou.
- Em nada o seria, querida dama. Tuas mãos são mais delicadas que mil flores com esta que colhi. Permitis que colha de teus lábios um sorriso?
Ela sorriu então, enlevada. Ela então saiu gritando e correndo, dançando e pulando de felicidade. Kagome o viu correr nesta coreografia divertida até virar a esquina e sumir.
Rindo maravilhada, fechou a janela. Quem seria? Não importava...
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Dormia.
Noite quente. Não suportando, abriu a janela que dava para um muro, tendo confiança de que ninguém por ela entraria. Assim, o quarto esfriou e ela conseguira enfim dormir.
Mas um barulho acordou-a.
“Que foi isso? Alguém entrou! Escuto passos!”
Levantou e vestiu o roupão, tomou uma vassoura e foi ao encontro do barulho, tremendo. Viu então a cena mais estranha que já presenciara.
Um pierrot comendo alucinado no chão da cozinha. Tomava toda a sangria espanhola preparada para o jantar, e comia pão de forma a quase não mastigar.
- Na-ham... – pigarreou Kagome.
- Ah querida dama!!! Desculpe-me o atrevimento! Eu estava... – puxou a mascara de volta e ficou em pé.
- Que pensas que estás fazendo? É louco?
- Ah me apresento: Seiya Kou, muito prazer! Eu estava com fome e resolvi entrar... lembrei-me de você, achei que não ia se zangar...
- Quer me matar de susto? Fora!!! Eu sou uma moça de respeito!
- Não duvido, gentil dama. A prova é que entrei em sua casa sabendo que não ias me expulsar...
A moça parou congelada. Como ele percebera? Era assim tão boba?
- Eu...
- Hum? – O rapaz de boca cheia olhava para ela curioso.
- Sou Kagome. Kagome Higurashi.
- Muito prazer, nobre senhorita. Tens por acaso cerveja em teus aposentos?
- O que??? Seu...
- Estava brincando. Se tivesse, manteria na cozinha, não?
Ela riu. Ele também.
- Então está fugindo de alguém...polícia talvez.
- De modo algum! Estava apenas com fome! Daí entrei aqui...
- Mentiroso! Não tens casa? Ou trabalho?
- Tenho sim. Tenho tudo isso, mas não aqui em Veneza. Queria aproveitar esta festa tão divertida sem pensar no amanhã. E gosto de emoções fortes. Como vês, não sou uma pessoa normal. A polícia não se conforma, correm atrás de mim que nem raposas!
- Ah não és mesmo alguém normal...
- E você também não – piscou para a moça – é alguém especial.
- Não. Estás enganado.
- Não estou – num pulo, levantou a mascara e beijou a moça de maneira frenética.
Nunca tinha sido beijada antes. E aquele beijo elevava sua alma. Sentia-se quente e estranha, como se derretesse. E como se crescesse. Não era uma menina, afinal. Ou era?
O rapaz largou a garota dando risada.
- Meu charme irresistível...
- Ora seu! – deu um empurrão nele – como foi capaz? – e chorou.
- Ei não chore...não fiz por mal...eu...
- Eu sou um fracasso! Sou fraca! Sou boba! – chorava Kagome ajoelhando no chão.
Aproximou-se dela, apiedado.
- Não quis te machucar, querida dama. Apenas...
- Não é você...sou eu! Eu sou uma tola!!! Eu... – engasgou.
- Importa-se de me contar? O que te aflige? Se não posso nada por ti, pelo menos podes contar comigo.
E contou. Em enxurrada de palavras, Kagome destilou toda sua frustação por não poder assumir os negócios de seu avô. Por ser fraca e mulher, boba e ingênua. Que iria se casar em breve com um homem que a principio lhe trataria bem, o que era um alivio, já que no seu país mulheres não tinham direito a coisa alguma, exceto ter filhos. Que a empresa bem administrada honraria seus antepassados, mas sua posição simbólica seria sempre notada.
- Sei que não posso fazer nada. Esse é meu destino.
- Claro que pode fazer algo! Minha dama, só podem passar sobre você se você deixar! Mostre que tens a sabedoria e a postura que precisa para dominar esta empresa!
- Você não entende? Eu sou fraca! Sou mulher! Não fui criada para isso!
- Acreditas mesmo que não consegue? Se achas isso, não conseguirá nunca!!!
Ela parou boquiaberta. Sentiu que conseguiria. Não sabia explicar mas sentia. Era forte! Era uma mulher de fibra!
- Você acredita que eu posso conseguir? Mas eu não sei por onde começar...
- Simples: case comigo e viva aqui em Veneza, num eterno carnaval!
Ela sorriu maravilhada.
- E porque deveria, se não conheço teu rosto? Com esta mascara, nada vejo...
- Ah então espere!
Foi ao banheiro e voltou recomposto. Quando retornou, Kagome viu um belo rapaz, de olhos azuis como o mais profundo céu e longos cabelos negros.
- Agora aceita? Casa comigo? Neste carnaval?
- Sim! Aceito sim... – e se curvou brincando.
O rapaz a agarrou. Ela correspondeu. Ela se deixou levar para o quarto, aos tropeços.. O rapaz bebera além da conta, percebera, mas não se importava.
E ele a fez sua. Amou-a sabendo que o dia de amanhã era uma ilusão. Ela sabia que não o veria mais. Seu perfume seria uma lembrança, seu rosto uma visão e sua voz apenas música.
Assim dois jovens, testemunhados pela noite, entregaram as suas almas ao Destino, não querendo saber do que ele seria capaz de fazer...
Ao amanhecer, acordou Kagome sozinha.
Olhou em volta serenamente, já esperava por isso. Viu uma rosa e um bilhete preso a ela:
“Se lutares pelo que buscas, me verá de novo...eu irei te achar....minha querida dama...
Teu pierrot”
Decidiu-se. Ia começar a viver. Sorrindo, ligou para o Japão.
- Sr. Yuri Minamino? Como vais? É Kagome...Preciso falar a ti o quanto antes...
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Passaram dois anos.
Kagome andava sem pressa pelo quarto. Ao longe, barulhos de pessoas comemorando um carnaval.
Sorriu.
Assumiu o desafio. Ao retornar ao Japão, desmanchou o noivado. Seu tutor foi as lágrimas, implorando que repensasse. Não. Ela não quis. Resolveu ele então abandoná-la a sorte, para mostrar que estava certo.
Enfrentando preconceitos e machismos, aos poucos ela mostrou-se ser uma líder forte e capaz. Sua delicadeza e feminilidade eram armas contra os jogos de poder. Os homens não resistiam a sua doçura, e aqueles que o faziam eram surpreendidos pelo seu jeito para negócios. Em pouco tempo, a empresa fortaleceu-se e seu cargo de chefe fora estabelecido com sucesso.
E agora, retornando para aquele lugar, lembrava-se de tudo que passou, e sorriu enlevada mais uma vez. Conseguiu afinal.
“Meu pierrot...estava certo...”.
Nunca mais soube dele. Nem quis. Certas pessoas o Destino nos traz quando conveniente.
Lembrando arrumava-se para o baile de máscaras, em um lindo vestido vermelho que lembrava uma princesa vitoriana, antes de sair lembrou-se de colocar uma rosa nos cabelos, vermelha como o fogo.
Ao entrar, foi cumprimentada calorosamente. Amigos, família e alguns de seus sócios foram chamados àquela reunião de gala.
No entanto, após andar algum passo viu um pierrot. De roupa branca. Uma rosa em mãos. De máscara.
Seu coração deu pulos.
Ele então se aproximou.
- Querida dama?
Ela então sorriu. Não podia ser mas era. Era ele!!! Seu pierrot!!
- Você! O que você...
- Ah Srta. Higurashi... Lhe apresento meu sobrinho, Seiya... – disse-lhe seu tutor, Sr. Yuri, agora de pazes com a moça.
- Sobrinho?
- Sim. Ele também estudava aqui na Itália, na mesma época que você. Tive que fazer isso, porque ele aprontava demais – suspirou – mas agora se redimiu e trabalha em comércio marítimo...
- Ah sim...
Ele se aproximou dela. Beijou-lhe a mão.
- Gentil dama, não te esqueci. Mas jamais poderia me aproximar de você se falasse quem era, ias me repelir. Agora que tens o controle da tua vida em mãos tão delicadas, aceitas este marujo ordinário?
- Com certeza... – Kagome sorria – sempre seria tua, meu amado pierrot...
- Jamais te deixaria, minha dama amada.
- Eu sei...Sempre soube que o Destino ia me fazer te ver outra vez...
- E gostaria de saber...
- Ahn?
- Posso ir na tua casa de madrugada roubar comida, apenas como pretexto de me satisfazer em teus braços?
- Ora que atrevido!...Seu... – e gargalhou, feliz...
FIM
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