A Dama Branca
27 Reflexo Conturbado
Notas iniciais

A noite se encontrava fria, o céu que antes se encontrava com algumas nuvens, tornara-se extremamente nublado. A sensação de frio era intensificada ainda mais pelas lufadas do vento, que gradativamente iam se tornando mais fortes, aumentando assim a sensação térmica de frio. Em virtude disso, muitas pessoas fechavam seus casacos quando sentiam a potente corrente de ar gélida passar por seus corpos. Os flocos de neve que a pouco caíam lentamente, começavam a despencar do céu noturno com intervalos menores e de forma mais vigorosa. Várias pessoas caminhavam pela calçada, algumas se encontravam emersas em seus pensamentos ou problemas pessoais, e por isso possuíam um expressão séria, fria, ou até mesmo triste. Já outros, que estavam acompanhados, sorriam abertamente e conversavam com amigos ou amantes. Porém a maior parte das pessoas que transitavam por ali, estavam de alguma forma conectadas ao celular, seja falado com alguém do outro lado da linha, ouvindo música, ou até mesmo enviando mensagens. Aquelas pessoas se encontravam tão ocupadas e preocupadas com suas vidas cheias de conflitos e estresse, que mal tinham tempo de sequer olhar para o lado, a fim de notar o que se passava com o outro, ou até mesmo para notar, a garota de cabelos brancos, que transitava entre eles com suas vestes sujas de sangue.
A jovem de cabelos brancos caminhava cabisbaixa entre aquelas pessoas, o que impossibilitava visualizar sua expressão com clareza. Seus longos cabelos brancos movimentavam-se intensamente conforme o vento soprava. Ela se encontrava trajada com um vestido branco de alças finas, o qual possuía rendas em sua extremidade e que também se retorcia contra o vento frio. Sua branca pele se encontrava suja de sangue em muitos pontos, como as suas mãos, pés, parte do rosto, pescoço e braços. Sua veste se encontrava quase que completamente suja, com algumas pequenas partes rasgadas. Era possível ver no centro e nas extremidades do vestido manchas de sangue, que possuíam tamanho e formas variadas. As mesmas que antes possuíam um aspecto vivido de sangue, foi aos poucos, influenciado pela pouca luminosidade, adquirindo um aspecto amarronzado escuro, se assemelhando ao barro. A única coisa que diferenciava aquelas manchas de marcas de barro, era o cheiro e o aspecto fluído.
A garota albina caminhava lentamente, seus pés sujos e nus se impactavam contra a gélida calçada de concreto. Ela desviava das pessoas que vinham em sua direção, porém sem sequer erguer sua cabeça, era como se ela já soubesse ou sentisse que alguém vinha em sua direção. Conforme ela transitava entre aquelas pessoas, seu rosto antes inexpressivo começou a adquirir certa expressão, uma expressão de raiva. Era como se a jovem se sentisse incomodada de estar cercada de tanta gente, tantos seres que se julgavam humanos, mas ela sabia que o que lhes faltava era justamente humanidade. Então porque o nome humanos, pensava consigo. Ela mais do que ninguém sentira na pele o preço da “humanidade”, e sabia mais do que qualquer um que esse termo não se passava de uma mentira. Todos eram tão selvagens quanto os leões que habitam as savanas e devoram os mais fracos, os humanos também o fazem, devoram ou subjugam os mais fracos. E consigo não era diferente, a garota sempre fora manipulada e subjugada, mas nunca contra sua vontade, pois se a jovem realmente quisesse já teria acabado com aquilo a muito tempo.
Isso não a tornava muito distinta daqueles que passavam ao seu lado, muito pelo contrário, ela era pior. Apesar dos pesares, algumas delas ainda possuía, nem que fosse uma pequena fagulha ou um pequeno resquício de humanidade, o que não podia ser encontrado nela. A jovem tivera tudo de bom consumido por sua dor, restando somente sentimentos ruins como ódio, ira e dor. Tais sentimentos não surgiam com frequência, afinal foram os únicos que lhe restaram, e os mesmos só emergiam em casos particulares. Como se isso não bastasse, ela não podia desistir de tudo, e esse era mais um ponto que a diferenciava de todos. A albina não podia se dar a esse luxo, considerado por ela desta forma. A mesma tentara diversas vezes, e de diversas formas interromper seu sofrimento, porém o resultado era sempre igual, ela ainda continuava vivendo da mesma forma e do mesmo jeito, ela era literalmente imortal. Enquanto muitos eram frágeis como papel, ela também era, porém ela era um papel que se reconstruía e se regenerava em poucos minutos, se não segundos. Desta forma, o desejo de muitos era sua maldição, o seu maior tormento.
Durante o tempo em que se encontrava emersa em seus pensamentos, a garota de longos cabelos brancos caminhava sem rumo, desviando de todos em seu caminho, porém permanecendo invisível a todos, como sempre fora. No entanto, em determinado momento de seu trajeto a jovem passou paralelamente a um grande edifício de doze andares, o qual era possível ver somente vidros em sua fachada, e todos tinham uma alta taxa de reflexão. E em conjunto com sua arquitetura espelhada, sua portaria não era diferente. Na mesma havia um pequeno jardim, que continha diminutos arbustos e flores, que iam sendo gradativamente pigmentados de branco, o branco da neve. Apesar do jardim ser belo, a adornação suprema era uma gigantesca vidraça, que se encontrava ao fundo. Aquela vidraria refletia tudo o que se passava por ela, e quando se encontrava no centro da mesma a garota notou o seu reflexo, parou o seu caminhar, e voltou-se para aquele vidrino. Nesse momento a jovem erguera levemente sua cabeça, passando a fitar sua imagem refletida no grande vidro, que mais parecia um espelho. Seus olhos possuíam uma cor vermelha vibrante e vivida como sangue, porém eles não transmitiam essa vivacidade. Pelo contrário, eles transmitiam frieza e eram completamente inexpressivos, demonstrando assim, justamente o que ela era capaz de sentir... nada.
Diversos pensamentos vinham em sua mente mas não lhe causavam nenhuma reação ou emoção real, que fizesse seu corpo reagir. Seja através de uma mudança em sua expressão facial, ou até mesmo em uma alteração em sua frequência respiratória ou cardíaca. A jovem não possuía sequer uma modificação. Ela era realmente algo deplorável.
Enquanto se fitava no espelho e se encontrava emersa em suas lembranças, algo imprevisto aconteceu. A garota teve sua linha de pensamento quebrada por risadas simplórias, porém fortes, alegres e vividas. Aquelas malditas risadas possuíam características que ela jamais teria, e como se isso não bastasse os risos ecoavam por todo aquele local, começando a reverberar também em sua mente. A albina começou a procurar com os olhos, através do reflexo, a origem daquela alegria irritante. Após alguns segundos de busca ela finalmente encontrara em uma praça que se localizava literalmente em frente ao edifício e consequentemente em frente a grande vidraça, era de lá que os risos e sorrisos provinham.
A praça possuía diversas árvores com folhas verde-escuro vibrante, troncos robustos, que aos poucos iam se impregnando de branco, o branco puro, singelo e gélido da neve. A mesma já começava a deixar suas marcas, não só na copa das árvores mas também nos grandes canteiros que acomodavam arbustos e flores, sendo as últimas das mais variadas cores. Haviam diversas pessoas transitando por aquele local, porém não eram elas as responsáveis pelas risadas, aqueles seres se encontravam ocupados demais com sua vida agitada, tão ocupados que sequer olhavam para os lados. Podia se ver diversos bancos espalhados pela praça que quando não ocupados, começavam a ser cobertos pela neve. Porém em alguns deles haviam pessoas sentadas, algumas solitárias, outras em pares ou grupos. A origem das risadas era especificamente um desses grupos, um grupo composto por um rapaz e três jovens garotas, todos aparentavam ter por volta de 19 anos. Duas das três garotas se encontravam sentadas, uma delas encarava a neve e não aparentava muito interesse na conversa dos demais. Essa jovem caucasiana possuía cabelos curtos em tom roxo claro, trajava uma blusa de lã lilás, uma calça jeans e sapatilhas marrons, seus olhos amarelos curiosos acompanham algumas pessoas que passavam por ali. Ela sim prestava a atenção, até demais, no que se encontrava a sua volta. Ao lado da jovem de olhos amarelos, havia sua amiga, a qual possuía cabelos loiros, pele branca e olhos azul-esverdeados. A loira trajava um cardigã vinho, por baixo do mesmo uma blusa de gola alta preta, uma saia xadrez com detalhes em azul-marinho, branco, vermelho e preto. Devido ao frio ela usava uma meia calça preta por baixo da saia, e em seus pés era possível ver uma bota da mesma cor da meia calça. A loira trocava olhares com o rapaz, e em outros intervalos olhava para a última jovem daquele grupo, uma garota de cabelos negros, olhos violetas e pele clara. Ela se encontrava de pé e trajava um vestido azul escuro e por baixo do mesmo uma meia calça cor da pele, combinando harmonicamente com suas vestes ela calçava um coturno preto. A jovem de cabelos negros se encontrava paralelamente ao rapaz, que aparentava ser seu amigo, porém a mesma parecia possuir sentimentos para com o garoto. O rapaz caucasiano possuía cabelos e olhos castanhos, trajava uma jaqueta de moletom bege com detalhes brancos em suas mangas, uma calça jeans e calçava um tênis esportivo preto. Todos, com exceção da garota de cabelos roxo, riam abertamente.
Aqueles sorrisos eram diferentes dos comumente vistos, eram sorrisos sinceros, despreocupados e que demonstravam felicidade. Normalmente as pessoas sempre sorriem para esconder algo, por educação ou até mesmo para disfarçarem certa intenção negativa. Porém aquelas gargalhadas eram realmente distintas, e isso despertou certo sentimento ruim na albina.
Aquela alegria transmitida e expressada por aqueles sorrisos, mostravam para ela algo que a mesma nunca seria capaz de sentir... a felicidade. Em seu interior começava a brotar uma ponta de inveja de tudo aquilo, não só do círculo de amizades que aquelas pessoas formavam, mas também da alegria e do fato de estarem rindo, algo que ela não era mais capaz de fazer. Infelizmente ela não conseguia se recordar de nenhum momento em que ela tenha se sentido daquela forma, a única coisa que ela se recordava eram de momentos de dor, angústia, ira e morte. Seria a felicidade, pura em si, uma coisa boa? Esse sentimento se assemelharia a algo? Tais perguntas se repetiam diversas vezes em sua mente, e ela não conseguia chegar a uma resposta, pois nunca sentira aquilo, era algo completamente desconhecido. Porém a jovem conseguiu elaborar uma linha de pensamento. Seria a felicidade equivalente à satisfação? Se fosse ela poderia ao menos entender um pouco como ela era, pois isso ela já chegara a sentir. Tal sensação sempre invadia o seu ser quando ela matava alguém, e aquele poderia ser o momento para ela experimentar essa emoção. Afinal, haviam diversas pessoas ali, mais especificadamente aquele pequeno grupo, que ainda continuava com aquelas risadas desagradáveis.
A garota albina perguntava a si mesma se eles passassem pelo que ela passou, permaneceriam eles daquela mesma forma, com aquela expressão deplorável em suas faces. Ela realmente odiava a felicidade, pois era algo que nunca fora ou ia ser capaz de sentir... não mais. Ao pensar nisso ela sentiu certa raiva, não daqueles desconhecidos, mas de si mesma por ser tão incapaz. Ela era capaz de fazer tantas coisas, mas aquela era uma exceção. A jovem já se encontrava machucada e ferida demais para isso. Em virtude de sua ira ela cerrou os punhos e rangeu os dentes, tornando a olhar para o seu reflexo. Seus olhos vermelhos antes inexpressivos, brilhavam intensamente e dessa vez transmitiam raiva. Se eles sentissem o que ela sentiu... eles deveriam sofrer como ela, pensou a albina voltando seu olhar para a imagem do grupo refletido na gigantesca vidraça. Aquilo era algo ao qual ela poderia providenciar, assim, diversos meios e métodos passaram pela mente da garota, porém ela não se encontrava disposta hoje. A jovem queria somente aproveitar seu tempo acordada e livre, sem “brincar” com as pessoas. Afinal, se ela o fizesse poderia atrair os Homens de Preto, eles eram desagradáveis e não lhe davam nem um pouco de diversão, era entediante lutar contra eles, seres frágeis e deploráveis. Os Homens trajados em Preto não eram muito diferentes de todos que a cercavam, porém o que a irritava era que eles se acham superiores, e senso de superioridade sempre fora algo que ela detestava.
Nesse momento, alguns momentos com os Sakamaki invadiram sua mente, algo inesperado e que a pegou desprevenida. Eles eram um tanto peculiares chegando a ser estranhos, se achavam únicos e detentores da verdade absoluta. Não era desagradável estar com eles, cada um possuía sua singularidade e traços fortes de personalidade, e podiam até ser identificados por isso. Porém o melhor de tudo não era isso, o melhor era que apesar dos pesares eles não a torturavam ou a machucavam. O que eles faziam, realmente, não representava isso para ela.
Somente Reiji, Ayato e Subaru vieram a mente da jovem, embora ela lembrasse de todos. Provavelmente só surgiram lembranças dos mesmos, pois ela despertara em certos momentos com eles. Ela sentia algo diferente de ódio ou raiva quando pensava neles, especialmente Ayato e Subaru. Aquele sentimento era algo peculiar, e por não conhecê-lo resolveu os afastar de seus pensamentos.
Assim, a jovem tornou a olhar mais uma vez o seu reflexo naquela grande vidraça, seus olhos vermelhos reluziam, e alguns flocos de neve já começavam a se fixar e camuflar em seus longos cabelos brancos. O vento gélido batia em sua pele quente, porém a jovem não era capaz de sentir frio, porém ela gostava da neve. Era bela, singela, silenciosa e branca, e ambas compartilhavam da última característica. Porém, o que a garota mais gostava era da chuva, ela sim a fazia se sentir viva. Sentir suas gotas escorrendo por seu corpo a faziam sentir viva, além do que, era como se o céu estivesse chorando, assim como ela sempre fez, mas agora não mais. Desta forma, a albina decidiu continuar caminhando pela cidade, sem rumo, com a finalidade de aproveitar sua liberdade, pois ela nunca saberia quando voltaria novamente a dormir.
Durante esse tempo, os Soldados trajados em Cinza começaram a investigação do local. Alguns foram em direção aos veículos envolvidos no acidente, já outros fotografavam o local. Os flashes das câmeras fotográficas contrastavam com a escuridão da noite, embora houvesse iluminação pública, a luz pálida do flash se destacava. Enquanto alguns se encontravam ocupados, um dos soldados começava a caminhar para fora do círculo de contenção, sua missão era conseguir as filmagens das câmeras internas do shopping, e também as do estacionamento do mesmo. Com a finalidade de cumprir o que lhe foi ordenado, o militar caminhou até a faixa amarela e preta do círculo de contenção, a atravessou e partiu em direção ao Shopping.
Enquanto isso, o Homem de Terno observava os arredores e aos poucos ia sendo envolvido por seus pensamentos, e durante todo esse processo ele começava a girar o seu anel de prata, que continha as letras “SS”. Se o seu Senhor estivesse realmente correto, aquele seria o local onde a Número 00 teria sido vista pela última vez. Eles possuíam somente uma pista, porém antes algo do que não ter nada. Provavelmente teria sido ela que causara aquele acidente, propositalmente ou não, o homem pouco se importava, ele precisava somente encontrá-la, essas eram suas ordens. Nesse momento, o Número 01 veio a sua mente. Onde ele estaria? Sua missão era capturar e trazer a Número 00 de volta ao laboratório, viva ou morta, sendo o último, um estado ao qual ela podia entrar, porém diferente das pessoas ela não permanecia, jamais, nele. Imediatamente após recordar-se do Número 01, ele interrompeu sua ação de volver o anel, ergueu seu braço direito e fez um sinal para um dos soldados que caminhava em sua direção. Diante do sinal de seu superior o Soldado apressou seus passos, até que finalmente parou diante do Homem de Terno.
— O que deseja, senhor? – disse o soldado firmemente, posicionando-se em posição de sentido, com suas mãos espalmadas sobre a lateral da coxa.
— Vá até o carro e contate a Central. – disse o homem fazendo uma pausa e apontando com o indicador o veículo ao qual o Soldado deveria se dirigir. – Diga a eles para nos enviarem a localização do Número 01. – o homem fez outra pausa, encarando o Soldado com firmeza. – Após você receber essa informação, chame outro soldado e vá até o local enviado. Entendido? – disse ele por fim, a espera de uma resposta.
— Sim, senhor! – assentiu o militante, realizando uma pequena continência. – Mais alguma coisa, senhor? – indagou o soldado.
— Não! Por enquanto é somente isso. – respondeu resoluto o seu superior. – Porém me informe quando o encontrarem. – disse o homem por fim.
— Permissão para se retirar, senhor? – indagou o soldado.
— Permissão concedida. – respondeu firmemente o Homem trajado em Negro.
Assim, o soldado de uniforme cinza partiu, imediatamente, em direção ao veículo ordenado. Seu caminhar era apressado, porém firme e decidido, afinal aquela fora a ordem que recebera.
Durante o seu trajeto ele passara por um companheiro, o mesmo se encontrava agachado no chão próximo a uma grande poça de sangue e portava junto de si uma maleta metálica de cor preta. Aquele grande acumulo de sangue não possuía somente isso, haviam alguns pequenos indícios de que alguém estivera no centro da mesma, porém não era isso que interessava ao Militante. O que ele queria era justamente o sangue, ou melhor, uma propriedade que só aquele sangue poderia possuir, se realmente pertencesse a Número 00.
Assim, ele pousou a metálica mala no chão, próximo ao local que ele examinaria. Aquela maleta não se tratava de um simples receptáculo, ela parecia portar algo extremamente precioso, pois havia uma pequena tela com numerações variando de 0 a 9. Desta forma, após pousá-la no frio asfalto, ele digitou o que parecia ser uma senha que continha 14 dígitos, eram eles: 1-8 – 5 – 1-0 – 1 – 9; 1-8 – 8 – 9 – 8 – 1 – 9. Após inserir a senha, pode se ouvir um curto e sutil apito, e por conseguinte a maleta se destravou. O Soldado então voltou-se para a maleta e a abrindo em seguida. Nesse momento era possível visualizar o conteúdo da mesma, o mesmo era composto por um suabe envolto por um tubo de ensaio, uma seringa de vidro que continha um liquido prateado e um tubo de ensaio vedado que continha um líquido azul-claro. Comportando e dando sustentação tudo aquilo havia algo semelhante a uma espuma preta, cuja função era proteger e amortecer contra movimento bruscos ou impactos.
Assim, o homem colocou sua mão direita em seu bolso e de lá tirou um par de luvas de procedimento, muito usadas para procedimento assépticos, o objetivo daquelas luvas era impedir que ele deixasse sua marca, seja digital ou microbiológica, no que iria coletar. Após retirá-las do bolso, ele as calçou. Por conseguinte retirou o suabe do tubo, pousando o tubo de volta na mala, passou suavemente o zaragatoa no sangue espalhado pelo asfalto. Posteriormente o homem pegou o tubo de ensaio que continha o líquido azul, o destampou e inseriu no mesmo o suabe sujo de sangue, o vedando no fim daquele processo. Ele ergueu aquele tubo até a altura de seus olhos e o agitou suavemente, a fim de misturar o sangue e o líquido. Aquele fluído desconhecido para muitos se tratava de um composto formado por uma substância capaz de identificar a presença DNA (Ácido Desoxirribonucleico), molécula presente em todos ou quase todos os seres vivos. Molécula a qual era completamente ausente na número 00, por isso aquilo seria capaz de identificar se aquele sangue pertencia mesmo a ela.
Após alguns minutos o homem obteve o resultado, o líquido ficara amarelo, que correspondia a ausência maciça de DNA. Afinal haviam microrganismo no ar, e possivelmente naquele sangue, mas eles não seriam suficientes para corresponder a uma alta carga genética naquela amostra. Assim, ele havia obtido o resultado negativo, porém para ele representava positivo, afinal aquele sangue pertencia realmente à 00. Depois de obter o resultado o soldado fechou a maleta preta, a pegou com a mão esquerda e se levantou. Tornou a olhar novamente para o resultado, que se encontrava em sua mão direita. O rapaz esboçou um leve sorriso, pois finalmente eles haviam encontrado alguma pista, comprovada, da albina fugitiva. Assim, o homem pôs-se a andar em direção ao seu superior, o Homem de Terno negro e gravata prateada, que se encontrava de pé no centro de toda a investigação, e que já fitava o militante durante o seu caminhar.
Até que finalmente o mesmo se encontrava diante de seu superior.
— Permissão para falar, senhor. – pediu o soldado cabisbaixo.
— Permissão concedida. – disse o Homem firmemente, com um olhar de superioridade.
— Aqui está o resultado, senhor. E bem, ele indica negativo para a presença de DNA. – o soldado fez uma pausa, erguendo seu braço, e abrindo sua mão com a intenção de entregar ao seu superior o resultado obtido. – Porém tal resultado para nós representa algo positivo, afinal, indica que fora justamente a 00 que causara esse acidente. – concluiu o soldado com firmeza e completamente certo de seu achado.
— Ótimo. – disse o Homem de Terno. – Já que podemos ter certeza que se trata da Número 00. Vá, em conjunto com outros três homens, vasculharem os quarteirões próximos a esse local. – ele fez uma pausa. – Lembre-se qualquer indício dela, nos informe imediatamente. Entendeu? – disse o Homem em tom imperativo.
— Sim, senhor! – respondeu o soldado afirmativamente.
— Agora vá! Ela não deve estar muito longe daqui. – disse por fim.
— Com sua licença, senhor. – pediu o militante, fazendo uma continência e se retirando posteriormente.
Em seguida o soldado se dirigiu a outros de seus companheiros, que averiguavam os veículos em busca de vestígios importantes, porém o maior e mais importante deles já havia sido encontrado, e por ele. Assim, o militar os chamou para vasculharem as redondezas, os demais assentiram, partindo em seguida com a finalidade de cumprir a ordem dada a eles.
Enquanto isso, o Homem de terno colocou novamente a sua mão no bolso de sua calça, e de lá tirou um celular. Ele pôs-se a discar alguns números, e após alguns minutos conseguira obter contato com quem desejava. A pessoa do outro lado da linha correspondia a uma mulher, e parecia pertencer ao que eles chamavam de Central. O Homem então, explicou o que havia conseguido extrair das investigações, e pediu que enviassem um outro grupo de averiguação para o Hospital. Ao qual ele havia sido informado que a suposta vítima do acidente fora levada. Após obter resposta positiva à sua solicitação, ele desligou o celular e voltou a colocá-lo no bolso de sua calça preta.
Permanecendo assim, no aguardo do resultado das averiguações que ele havia solicitado, tanto da central, quanto de seus homens. Ele manteve-se então gerenciando e coordenando as investigações, embora o que eles realmente desejavam já havia sido descoberto. Porém alguma nova evidencia poderia surgir, e ele deveria estar presente quando isso ocorrer.
Durante todo esse tempo, a garota albina caminhava calmamente pelas ruas, que gradativamente ia ficando deserta. As horas iam passando, consequentemente as pessoas iam para suas casas dormir, para levantarem no outro dia com a finalidade de cumprir seus afazeres. Porém a garota não, ela não precisava daquilo, muito menos de dormir. Em virtude disso ela podia se dar ao luxo de andar por aquelas ruas, e o melhor de tudo sem se preocupar em ser assaltada ou morta, afinal ela sim representava uma ameaça.
Os postes de iluminação, em conjunto com toda aquela ambientação começavam a ser cobertos pela neve. O vento soprava vigorosamente gélido, e levava consigo aqueles pequenos porém delicados flocos brancos. As luzes de todos os edifícios e casas presentes naquela rua já se encontravam apagadas, as pessoas daquele local já se encontravam em suas camas emersas em seus sonhos ou pesadelos.
A jovem de longos cabelos brancos continuava a caminhar pela rua, até que em determinado momento, ela notou uma movimentação peculiar vinda de um dos becos daquela rua linear. Apesar disso a albina continuou a caminhar até que começou a ouvir diversos passos, que começavam a caminhar em sua direção.
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