A Dama Branca
23 Crepitar de Ossos
Notas iniciais

Enquanto Shiro olhava paralisada para Ayato e Yui, Kaname a encarava como se não estivesse entendendo o porquê de tal reação. Ela havia parado bruscamente seu caminhar, e deixara cair tudo aquilo que tinha comprado com tanto empenho e felicidade. A garota parecia chocada com algo, mas ele não sabia o que.
Durante o tempo em que ele a observava com seus profundos olhos amarelos, Kaname notou que dos olhos da albina começaram a brotar lágrimas, que ao preencher seus olhos de íris vermelha, escorriam por sua branca e delicada pele.
Na mente do jovem de cabelos verdes, se passavam várias possibilidades de o porquê de tudo aquilo, mas nenhuma parecia justificar firmemente aquelas lágrimas.
A preocupação o preenchia e o deixava inquieto. Kaname nunca gostou de ver ou fazer uma garota chorar, esse poderia ser seu ponto fraco ou seu maior charme.
― O que houve? – indagou Kaname com delicadeza. – Porque está chorando?
Apesar da sua pergunta, a garota não o respondia, e ainda continuava a olhar na mesma direção, era como se ela sequer o ouvisse. Será que ele havia feito algo que a magoou?
Ao pensar nessa possibilidade, ele notou que ela fitava fixamente um ponto, sem sequer piscar. Assim, Kaname tornou a olhar para a mesma direção que Shiro, e ao fazer isso ele se deparou com o que parecia ser um casal, sentado a uma pequena mesa de madeira castanho escuro. Havia um garoto de cabelos ruivos e olhos verde-esmeralda, e junto dele, uma garota de olhos rosas e cabelos curtos ondulados de coloração loira clara. A garota ria, e aparentava estar levemente animada com tudo aquilo, já o ruivo segurava algo em sua mão, aquele objeto parecia ser uma joia, um cordão mais precisamente, e ele o mostrava para a loira.
Após isso, Kaname tornou a olhar para Shiro, e diferente de antes, ela se encontrava com o corpo levemente encolhido e estava com as mãos pousadas sobre a lateral da cabeça, aparentemente pressionando-as.
― Por favor...para...não aguento mais... – murmurou várias vezes a albina, pressionando ainda mais forte sua cabeça.
Instintivamente, Kaname pousou sua mão sobre o topo da cabeça da garota, na esperança de poder ajudar, quem sabe assim ela não se sentiria um pouco melhor. Ela parecia sofrer de alguma forma com o que vira, seria aquele ruivo o namorado dela ou algo do tipo?! Se sim, ele estava a fazendo sofrer e isso fez Kaname ficar com certa raiva. Se tudo o que ele suspeitava fosse verdade, com toda certeza ele socaria, e muito, a cara daquele ruivo idiota.
Ao sentir o toque suave e terno da mão de Kaname, Shiro tornou a olhá-lo com os olhos e rosto molhados por suas cálidas lágrimas. De repente, ela arregalou os olhos, deu-lhe as costas e saiu correndo pela galeria do Shopping.
― Espere...! – exclamou ele em um tom mais alto, esticando seu braço direito e abrindo em seguida sua mão.
A garota havia sido mais rápida que ele, pois infelizmente, Kaname não havia conseguido agarrar o braço dela a tempo de impedi-la de correr para longe dali, e isso o fez soltar um leve suspiro de desapontamento consigo mesmo. No fim, ela fora embora sem que ele sequer soubesse o nome dela.
A exclamação dele ecoou pelas galerias de lojas e praça de alimentação. Aquilo havia chamado a atenção de todos, o que incluía o casal, no qual Shiro fitava aos prantos antes de sair correndo. Imediatamente, o ruivo e a loira olharam para a origem daquela voz, assim, bem distante deles, ele viu um homem que se encontrava de costas para eles, aparentando estar com o braço erguido e esticado até a altura de seu peito. Ele possuía cabelos verdes e trajava uma camisa de lã preta com manga longa, uma calça jeans, e um tênis esporte-fino.
Ao olhar na direção da mão do homem de cabelos verdes, ele viu no horizonte, o que parecia ser uma garota correndo, seus cabelos brancos e longos batiam vigorosamente contra o vento.
Ayato supôs que aquela garota seria Shiro, pois além dela e Subaru, ele nunca vira mais ninguém com cabelos daquela cor. Com a finalidade de assegurar que se tratava realmente de Shiro, ele inspirou profundamente. O ar passou por suas narinas, preenchendo os pulmões em seguida. Durante o ato de inspirar ele pode sentir o aroma forte, doce e lascivo do sangue de Shiro. Aquele cheiro era diferente de todos os outros que ele já sentira em sua vida imortal, e por isso ele sabia muito bem distingui-la em meio a milhares de pessoas.
Ayato obteve sua confirmação de que aquela garota era realmente Shiro, mas uma pergunta martelava em sua mente...O que diabos ela fazia com aquele homem de cabelos verdes?
Ela pertencia a ele e a ninguém mais, e ele deveria mostrar isso para todos que se aproximavam dela, e isso incluía o homem trajado de preto.
Movido por tal sentimento de posse, Ayato usou sua Rapidez para parar atrás do rapaz.
A Rapidez consistia em um movimento de corrida que chegava próximo a velocidade do som, e isso fazia com que vampiros pudessem agarrar sua presa sem que ela sequer tivesse tempo de reagir. Inegavelmente, todos os Sakamaki possuíam armas mais mortais do que as presas.
Quando ele parou atrás do rapaz, Ayato pôde ver próximo a eles, algumas sacolas que se encontravam no chão, dentre elas, havia uma no qual o seu conteúdo fora derrubado. Tal conteúdo consistia em uma caixa pequena revestida em veludo preto, e nessa caixa se encontrava uma etiqueta com o nome “Reiji Sakamaki”.
Aquilo, definitivamente, confirmava a teoria de Ayato, não que ele precisasse de mais provas do que o cheiro dela, mas aquilo era inegavelmente um fato importante.
― Ora, ora... – disse Ayato rangendo os dentes, de pé com os braços cruzados atrás do jovem de cabelos verdes.
O rapaz pareceu se assustar levemente com a voz que vinha de suas costas, afinal aquilo o pegara de surpresa.
Kaname se virou rapidamente, e ao olhar para quem proferia tais palavras, ele notou que se tratava do ruivo, que a albina encarava enquanto lágrimas escorriam sobre sua face. Ao perceber de quem se tratava, uma raiva tênue começou a crescer em seu interior, mas ele se controlou, afinal ele desconhecia quem era ele ou porquê de todo o acontecido.
Assim, ele tentou ser o mais receptivo e simpático que pôde.
― O-olá... – disse Kaname um pouco desajeitado. – Meu nome é Kaname Ichinouse, e você é?... – disse ele se apresentando e deixando em aberto para que o ruivo fizesse o mesmo.
― Tsc... meu nome não é da sua conta! – respondeu Ayato de forma ríspida, o encarando com ar de superioridade.
Kaname odiava pessoas cheias de si, e o pior era que havia grande possibilidade de o rapaz, que estava diante dele, ter feito a garota albina chorar, o que fez sua raiva aumentar significativamente. Ele encarava o ruivo da mesma forma que era encarado, assim, os dois trocavam olhares de raiva e superioridade, porém tal clima foi parcialmente quebrado por uma voz feminina.
― O que está acontecendo aqui, Ayato? – disse Yui aparentando estar confusa, se aproximando dos dois, e olhando para ambos os rapazes que trocavam olhares de fúria.
― Entendo...então esse é o seu nome. – disse Kaname com um tom de sarcasmo. – Acho que a loirinha lhe entregou! – concluiu ele abrindo um sorriso de zombaria.
Aquela atitude de Kaname fez os olhos de Ayato ferverem em ódio, e movido por tal sentimento, ele agarrou o rapaz de cabelos verdes pela gola da blusa de lã, e o ergueu do chão com uma só mão.
― Vou direto ao assunto...o que estava fazendo com a Marshmallow? – indagou Ayato o encarando com os olhos ardendo em raiva.
― Você está se referindo a encantadora garota de cabelos brancos? – perguntou Kaname, o encarando com olhar provocativo.
Kaname sabia que os dois tinham algum tipo de ligação e o que ele havia dito tinha sido proposital, pois tais palavras fariam Ayato revelar exatamente o tipo de relação dos dois.
― Como ousa se referir a ela de tal forma?! – exclamou Ayato com o tom de voz alterado, apertando ainda mais a gola do rapaz, a ponto de quase estrangulá-lo. – Ela é minha, entendeu?! Minha! – concluiu ele com o mesmo tom de antes.
Inesperadamente, Ayato sentiu uma mão de toque suave encostar em seu braço que erguia Kaname, e ele sabia que se tratava de Yui tentando apaziguar a situação. Assim, Ayato tornou a fita-la com um olhar de repreensão, era nítido no olhar dele que aquilo não acabaria com aquela atitude dela.
― Não se meta nisso, Yui! – disse ele de forma rude, a encarando firmemente e tornando a voltar sua atenção para Kaname.
― Acho melhor acabarmos com a brincadeira, certo?! Afinal estamos chamando bastante atenção – disse Kaname com um tom sério, pousando suas mãos sobre o punho de Ayato.
Em um movimento extremamente rápido e forte, ele agarrou o punho do ruivo, o empurrou, afastando-o de si, conseguindo assim livrar-se de Ayato.
Tal reação pegara o ruivo de surpresa, e em reação a isso ele arregalou levemente os olhos, mas em seguida seu expressão voltou ao normal, para então, ele esboçar um sorriso de diversão. Parecia que ele havia encontrado algo peculiar, um humano com uma força e tanto.
― Bom, creio que você deva ser parente dela ou algo do tipo. Então... aquilo ela comprou para seus familiares. – disse ele apontando para as sacolas que se encontravam no chão. – Acho que seria educado da sua parte devolver. Provavelmente isso o redimiria, em partes, pelo que você e essa garotinha fizeram. – continuou ele olhando para Ayato e em seguida para Yui, porém a palavra garotinha, proferida por ele, possuía um forte tom pejorativo. – E outra... – disse ele colocando as mãos no bolso, dando alguns passos, parando em seguida e virando-se para encarar Ayato. – Se ela fosse minha, eu jamais a deixaria sozinha... – disse Kaname por fim dando as costas para os dois e voltando a caminhar pela galeria de lojas.
A noite se encontrava fria, o céu com muitas nuvens, impossibilitando ver o brilho da lua e das estrelas. Alguns flocos de neve já começavam a cair, anunciando a todos que o inverno chegara a seu ápice. O vento soprava álgido pelas ruas e avenidas da cidade, e devido a isso, muitas pessoas fechavam as portas e janelas de suas casas, para evitar que o frio a invadisse sem permissão.
Apesar da baixa temperatura, era possível ver muitas pessoas nas ruas. O natal se aproximava, e esse poderia ser um dos motivos para tamanha movimentação, outro provável motivo era o fato de ser final de semana.
Dessas pessoas que caminhavam no centro, muitas iam em direção a um Shopping que ficava próximo. Algumas delas se encontravam em grupos de amigos, outras em casais e haviam aquelas solitárias, que pareciam não se importar muito com a época ou estação do ano.
Dentre essas pessoas solitárias, se destacava um homem de cabelos castanho escuro e olhos negros como a noite. Ele trajava um sobretudo de lã marrom escuro, que se encontrava fechado, calças e sapatos, ambos sociais e brancos, e carregava consigo uma maleta de couro preto. Sua expressão era de extremo cansaço, que era confirmado pelas profundas olheiras próximas ás suas orbitas oculares. Possivelmente ele trabalhara além de suas capacidades naquela semana.
Apesar de o natal ser uma época feliz, o solitário homem não parecia se importar muito, afinal só era mais uma data comemorativa, assim pensava ele.
O homem trajado em marrom caminhava calmamente pela calçada, e desviava das inúmeras pessoas que também transitavam por ali.
Paralelamente a calçada por onde ele andava havia um espaço destinado ao estacionamento de carros, e nele podia se ver alguns veículos estacionados. Lateralmente a esse espaço, era possível ver uma movimentada avenida de pista dupla, na qual os veículos transitavam em alta velocidade, já do outro lado da mesma, se encontrava um Shopping. Muitas pessoas entravam e saíam daquele lugar, mas nenhuma delas ousava atravessar a frenética e movimentada pista.
De repente o homem viu um vulto branco, que parecia ter invadido a avenida. Ao olhar na direção do que lhe chamara a atenção, ele viu, parada no centro de uma das duas pistas, uma garota. Ela aparentava ter por volta de 17 anos, possuía longos cabelos brancos como a neve, e trajava um vestido de alcinha, também branco, que ia até a altura de seus joelhos. Os cabelos brancos da jovem, batiam vigorosamente contra o vento frio, porém apesar da baixa temperatura, ela não trajava nenhum agasalho.
A garota se encontrava levemente curvada, com as mãos sobre a cabeça, aparentemente pressionando-as.
Repentinamente, ele viu uma frota de carros vir na direção dela, e instintivamente ele gritou na tentativa de impedir uma possível tragédia.
― Cuidado! – gritou o homem, tentando alertar a jovem que se encontrava no centro da pista.
Aquele grito de alerta, chamara a atenção de todos os que passavam por ali, e os olhares dessas pessoas foram direcionados para ele.
Alguns desses olhares eram de espanto, outros de surpresa ou curiosidade, e haviam aqueles de desaprovação devido a perturbação alheia.
Porém, a única pessoa que, possivelmente, não havia ouvido era a garota, a pessoa para qual ele gritara, aparentemente sequer deu atenção.
Alguns poucos segundos após o grito do homem, para a surpresa dele, a jovem retirou as mãos da cabeça, ficou ereta e tornou a olhar na direção de um dos veículos que avançava velozmente rumo a ela. No entanto, a garota parecia não perceber do que se tratava.
Em um piscar de olhos, o veículo já se encontrava a pouquíssimos centímetros da jovem, o motorista do carro tentou frear, para evitar o impacto, mas já era tarde demais, o frágil corpo da garota se chocou contra o veículo. A brutal colisão ocorrera inicialmente na parte frontal do Infiniti FX37 preto. O corpo dela foi lançado sutilmente para o alto, se chocando em seguida contra o para-brisa, trincando-o, e sendo mais uma vez arremessado ao ar. Devido a freada brusca do Infiniti, ele derrapou no asfalto parando diagonalmente no centro da pista dupla.
O corpo da garota girou disforme no ar, e foi de encontro a um segundo carro que vinha logo atrás do FX37, impactando contra o vidro traseiro do Bruick Regal GS branco. Por fim, após trincar o vidro traseiro do Regal, o corpo da jovem rolou sobre a traseira do mesmo, e foi de encontro ao frio e duro asfalto. A única reação que o motorista do Bruick teve foi de frear, o que ocasionou uma breve perca de controle do carro. Os freios não responderam a tempo de parar o veículo completamente, e somado ao descontrole do mesmo ele foi de encontro aos carros que se encontravam estacionados na lateral.
Os outros três carros que vinham atrás conseguiram frear a tempo, mas como consequência disso, também derraparam na pista. Todos aqueles automóveis envolvidos no acidente formaram um anel ao redor do corpo da garota, que se encontrava estirado ao chão.
Ao presenciar aquele acidente, algumas pessoas saíram correndo, outras se afastaram mas continuaram olhando parcialmente curiosas e comovidas com o acontecido, mas ninguém ousou se aproximar muito. Era possível ouvir o zumbido de várias pessoas falando ao mesmo tempo, como se tivessem comentando, horrorizadas, sobre o ocorrido. Felizmente, o anel que os carros formaram acidentalmente, impossibilitou que todos vissem o estado da vítima, ou causadora, de tudo aquilo.
Instintivamente, o homem de cabelos castanhos correu na direção em que ele vira o corpo da garota cair. Assim, ele contornou o anel de carros, passando pelo capô do Bruik branco, chegando por fim onde a pobre jovem se encontrava.
O corpo dela se encontrava contorcido de maneira totalmente disforme, dava para duvidar que naquele corpo um dia existiram ossos. Além disso, ela possuía várias feridas graves distribuídas pelo mesmo. Seu rosto se encontrava inexpressivo e jazia mergulhado em uma poça de sangue, que era advindo de sua boca, nariz e de cortes profundos.
Os olhos dela se encontravam entreabertos, e eles possuíam a cor vermelha, tão vermelha quanto seu sangue. Porém o brilho daqueles olhos vermelhos vibrantes, estava se esvaindo lentamente, e o vermelho que a pouco era vibrante estava se tornando opaco e sem vida.
O homem notou que ela ainda respirava, mas com extrema dificuldade. Então rapidamente ele abriu sua maleta, dela retirou um celular, discando em seguida para a emergência.
― Urgência e emergência, em que posso ajudá-lo? – soou um voz feminina do outro lado da linha.
― Bem... aqui é o Doutor Miyamoto, acabei de presenciar um acidente, mais precisamente um atropelamento. Isso ocorreu na avenida em frente ao Shopping Sawatari, mais especificamente na entrada. – disse ele apressadamente. – Preciso de uma ambulância imediatamente, pois o estado da vítima é grave. – concluiu ele olhando para a garota, que se encontrava com seus olhos já fechados.
― Certo, senhor Miyamoto. – assentiu a voz feminina em tom sério. – Estaremos enviando, o mais rápido possível, uma equipe para o local. – disse a voz. – Posso lhe dar instruções do que fazer enquanto a equipe não che-... – porém, antes mesmo de a mulher terminar de falar ele a interrompeu.
― Está tudo bem... não há necessidade, sou médico e farei o que puder enquanto a equipe não chega. – disse o homem virando as costas para a jovem, se abaixando ao chão, colocando sua maleta sobre o mesmo e a abrindo em seguida. – Estarei no aguardo! – concluiu ele, desligando em seguida o telefone celular.
Após abrir sua maleta de couro, ele guardou seu celular, retirou um respirador manual e um estetoscópio. Ele possuía outros instrumentos naquela maleta, mas nenhum seria de muita utilidade. Infelizmente, apesar da sua experiência clínica, sem equipamentos não havia muito o que fazer. O mais importante era não mover o corpo da vítima.
Enquanto o médico encaixava os mecanismos do respirador manual, ele ouviu, atrás de si, barulhos estranhos, semelhantes ao estalar de ossos. Os ruídos eram seguidos uns dos outros, e chegava a causar arrepios ouvir aquele som. Um pouco curioso e receoso a respeito do que se tratava, ainda agachado ele virou-se, afinal o barulho vinha de suas costas.
Assim, quando ele se voltou para checar do que se tratava, ele viu o impossível. Aquele frágil e branco corpo, que estava até a pouco tempo, estirado no chão com seus ossos quase que completamente em pedaços, começava a se levantar.
Quando ele se virou para encará-la ela já se encontrava sentada, suas pernas que a pouco tempo se encontravam totalmente fora das suas posições comuns, já tinham voltado para seu lugar. A coluna dela se encontrava em formato de S, até que ela moveu sutilmente seu quadril, mais um estalo soou, e em seguida a coluna havia ficado alinhada.
Seu pescoço se encontrava totalmente deslocado do tronco, e em uma posição inumana, seus braços se encontravam quebrados em vários pontos, o que incluía o ponto de ligação deles ao torso. A garota balançou de forma brusca seu tronco, fazendo com que seu braço esquerdo se fixasse novamente ao torso, tal movimento fez soar, novamente, o barulho de estalo. Em seguida ela girou seu pulso, fazendo-o voltar ao lugar. Com seu braço esquerdo restaurado, ela forçou o retorno do osso da fratura externa do antebraço direito, para sua posição normal e após isso pôde se ouvir, mais uma vez o ranger dos ossos.
A visão daquilo era aterradora, a garota se contorcia de forma inumana, conforme ela o fazia seus ossos iam voltando ao lugar, e quando isso acontecia, o som do estalo podia ser ouvido.
Esse som macabro podia ser escutado repetidas vezes, uma após a outra, sempre que ela se contorcia de forma assombrosa.
Com os braços, coluna e pernas totalmente restaurados ela se colocou de pé, naquele momento a única coisa deslocada era seu pescoço. A garota então ergueu seus braços a altura do peito e pousou suas mãos sobre a cabeça transposta. Ela começou a move-la para a posição inicial e conforme o fazia se ouvia o som sinistro do crepitar de ossos.
Até que depois poucos minutos, lá estava ela ereta como se nada tivesse acontecido. Como se isso não bastasse, as feridas profundas que até a pouco sangravam, começaram a se fechar e regenerar sem sequer deixar uma cicatriz. O único vestígio que podia comprovar que em algum momento houveram ferimentos, era o sangue.
Presenciar aquilo fez o médico que estava agachado, perder todo o equilíbrio devido ao tremor de pavor que percorria todo o seu corpo. Em virtude disso, seus olhos se encontravam extremamente arregalados, e sua boca aberta, porém dela nenhuma palavra saia.
Enquanto o homem a encarava em pânico, a garota ergueu seu braço direito, e passou sua mão sobre sua boca, limpando a mesma de forma sútil. Os lábios que antes se encontravam emersos em sangue, agora se encontravam parcialmente limpos, pois o líquido rubro havia deixado um rastro, que acompanhava o movimento da mão da garota.
Após limpar superficialmente sua boca, ela voltou seu olhar para sua mão, que se encontrava manchada de sangue, seu sangue.
O vestido dela se encontrava sujo de poeira em alguns pontos, e além da poeira havia também sangue, proveniente de suas feridas, que após coagular deixavam marcas vermelhas escuras no vestido, que era inicialmente branco.
Após alguns segundos encarando sua mão suja com seu sangue, a garota pousou essa mesma mão em sua cabeça e desapareceu logo em seguida, bem diante dos olhos do médico.
Dentro do Shopping, Ayato observava, rangendo os dentes, Kaname caminhar para longe dele e de Yui. Enquanto observava aquela cena, ele sentiu um cheiro extremamente forte, do sangue de Shiro. O aroma doce e lascivo era tão intenso que o fez contorcer levemente seu corpo e pousar sua mão sobre o nariz e a boca, na tentativa de abafar um pouco o cheiro que ele sentia. Os olhos de Ayato queimavam em desejo de sangue. O ruivo estava prestes a entrar emFrenesi, quando sentiu uma mão leve pousar sobre seu braço.
― Controle-se, Ayato... – disse Yui um pouco receosa.
Ela temia que ele fosse agredi-la de alguma forma, como ele sempre fazia. Apesar de não a agredir de forma física, as palavras duras dele sempre a afetavam de forma negativa, e isso inegavelmente era uma agressão.
― Tsc... não me toque! – exclamou ele rispidamente. – Não é porque lhe chamei para me ajudar a comprar um cordão pra ela, que você pode se dirigir a mim com intimidade. – Concluiu Ayato afastando a mão dela de seu braço, abaixando-se ao chão, pegando as sacolas que Shiro havia deixado e por fim saiu correndo na direção do forte cheiro de sangue.
Apesar de ter acontecido o que ela tinha receio, no fundo Yui se sentia bem, afinal, ela havia impedido, mesmo que momentaneamente, que Ayato entrasse em Frenesi.
Assim, Yui começou a correr, em um ritmo mais lento, na mesma direção que Ayato.
Após percorrer correndo as galerias de lojas do Shopping, Ayato finalmente chegara na porta automática de entrada e saída. Ao se aproximar da mesma ela se abriu, e nesse momento um vento frio passou por ele. Aquela lufada de vento levava consigo o intenso cheiro do sangue de Shiro, porém aquele aroma estava muito mais forte do que antes. Seus olhos verde-esmeralda cintilaram de desejo de sangue, mas não se tratava de qualquer sangue, ele desejava aquele sangue. Ayato estava entrando em Frenesi, um estado no qual ele ficaria incontrolável e faria de tudo para alcançar o que lhe deixara dessa forma, e isso incluía usar todas as suas armas de caçador. Afinal, eles eram os caçadores e os humanos a caça.
Instintivamente, Ayato usou sua Rapidez, e em menos de uma segundo lá estava ele, de frente para o que parecia ser um acidente.
O transito se encontrava parado em ambos os sentidos. No centro da pista dupla havia um anel de carros, e ele podia sentir que o aroma lascivo vinha daquele local. Porém, ao olhar para os lados, Ayato viu seus irmãos. Kanato se encontrava cochichando algo com Teddy, Laito passava a mão em seus cabelos, já Reiji ajeitava seus óculos retangulares. Shuu havia retirado seus fones do ouvido, e os mesmo se encontravam apoiados ao redor da base do seu pescoço. Subaru estava com algum objeto na mão, mas ele apertava tanto a mesma, que já havia amassado o que ele segurava. Todos os Sakamaki estavam prestes a entrar no estado de Frenesi por causa daquele maldito, intenso e apetitoso sangue.
Ao longe podia se ouvir, o barulho de uma ambulância. O som da mesma ia se afastando, e provavelmente ela levava a vítima daquele acidente para ser socorrida. Os Sakamaki se olharam entre si, seus olhos ardiam em sede...Será que Shiro estava dentro daquela ambulância?
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