Rony ficou mais tranquilo, apesar da bronca da mãe, por ter ido buscar Harry. O amigo parecia encantado com tudo que via na Toca. Molly cuidava de suas roupas e o fazia repetir a comida três vezes e Arthur sentava-se do lado de Harry e perguntava tudo sobre a vida dos trouxas.

— Fascinante! – exclamou, quando Harry lhe contou como se usava o telefone. – Engenhoso, verdade, quantas maneiras os trouxas encontraram de viver sem o auxílio da magia.

Uma semana se passou desde o resgate de Harry e numa bela manhã, Harry e Rony desceram para tomar café. Seus pais e Gina já estavam à mesa e, como sempre, ao ver Harry, sua irmã ficou nervosa, e dessa vez derrubou a tigela de mingau no chão. Rony ignorou aquilo com um rolar de olhos, embora achasse um pouco de graça, e assim que se sentou para comer seu pai passou a ele e Harry envelopes idênticos de pergaminho amarelado, endereçados em tinta verde.

— Cartas da escola. — disse o Sr. Weasley — Dumbledore já sabe que você está aqui, Harry, ele não perde um detalhe, aquele homem. Vocês dois também receberam – acrescentou, quando Fred e Jorge entraram descontraídos, ainda de pijamas.

Durante alguns minutos fez-se silêncio enquanto todos liam as cartas. Rony passou o olho pela dele, que trazia o dia de embarque no Expresso de Hogwarts e a lista dos novos livros que ia precisar para o próximo ano letivo — o livro de feitiços para segunda série, que provavelmente iria usar dos irmãos, e a coleção de Gilberto Lockhart, que então sim seriam um problema: teriam que ser comprados.

Fred, espiou a lista de Harry e logo comentou:

— Mandaram você comprar todos os livros de Lockhart também! – admirou-se. – O novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas deve ser fã dele, aposto que é uma bruxa.

— Esse material não vai sair barato – comentou Jorge, lançando um olhar rápido aos pais. – Os livros de Lockhart são bem carinhos...

— Daremos um jeito – disse a Sra. Weasley, embora tivesse a expressão preocupada. – Espero poder comprar a maioria do material de Gina de segunda mão.

Com isso, Rony voltou-se para o café da manhã, mas ficara um pouco preocupado. Seria mesmo um problema para os pais comprar todos aqueles livros, mais o material de Gina, que desta vez iria para Hogwarts também. Alguns deles certamente ficariam sem certos materiais dessa vez — e o garoto se distraiu tanto ponderando sobre isso que sequer percebera quando Percy entrou na cozinha, sentou-se na cadeira a seu lado, e de um susto, levantou rapidamente.

— Errol! – exclamou Rony, recolhendo a coruja inerte da mão de Percy e extraindo uma carta que ela trazia presa sob a asa. Vendo o endereço e a letra com que ele estava escrito, logo soube: – Finalmente chegou a resposta de Hermione. Escrevi a ela avisando que íamos tentar salvar você dos Dursley.

Ele explicou e em seguida levou Errol até um poleiro na porta dos fundos, tentando fazê-lo encarrapitar-se, mas a coruja tornou a desmontar. Por isso Rony a deitou na tábua de escorrer, resmungando um "Patético". Em seguida abriu a carta de Mione e leu-a em voz alta.

Queridos Rony, e Harry se estiver aí.

Espero que tudo tenha corrido bem, que Harry esteja bem e que você não tenha feito nada ilegal para tirá-lo de lá, Rony, porque isso criaria problemas para o Harry também. Tenho estado realmente preocupada e, se Harry estiver bem, por favor, mande me dizer logo, mas talvez seja melhor usar outra coruja, porque acho que mais uma entrega talvez mate essa aí.

Estou muito ocupada, estudando, é claro...

— Como é que pode! – exclamou Rony, horrorizado. – Estamos de férias!

... e vamos a Londres na próxima quarta-feira comprar os livros novos. Por que não nos encontramos no Beco Diagonal?

Mande notícias do que está acontecendo, assim que puder.

Afetuosamente,

Mione.

— Bom, isso se encaixa perfeitamente. Podemos ir comprar todo o material de vocês, também – disse sua mãe, começando a tirar a mesa. – Que é que vocês estão planejando fazer hoje?

Harry, Rony, Fred e Jorge estavam pensando em subir o morro até um pequeno prado que pertencia aos Weasley. Era cercado de árvores que bloqueavam a visão da cidadezinha embaixo, o que significava que podiam praticar quadribol lá, desde que não voassem muito alto. Não podiam usar bolas de quadribol de verdade, pois seria difícil explicar se escapulissem e sobrevoassem a cidade; em vez disso, atirariam maçãs uns para os outros e revezariam-se para montar a Nimbus 2000 de Harry, que era, sem nenhum favor, a melhor vassoura; a velha Shooting Star de Rony muitas vezes perdia na corrida para as borboletas que apareciam.

Cinco minutos depois os garotos estavam subindo o morro, as vassouras nos ombros. Tinham perguntado a Percy se queria acompanhá-los, mas ele respondera, como sempre, que estava ocupado.

— Gostaria de saber o que ele está aprontando – disse Fred, franzindo a testa. – Está tão mudado. O resultado das provas dele chegou um dia antes de você; doze N.O.M.s e ele nem cantou vitória.

Rony também havia notado os modos (ainda mais) estranhos do irmão mais velho nos últimos dias — mais quieto do que o usual, sem retrucar às brincadeiras dos gêmeos ou se vangloriar sobre seu desempenho na escola, sempre voltando ao quarto com pressa -, mas não era como se quisesse muito saber o que quer que fosse porque, de toda forma, as coisas que diziam respeito a Percy nunca eram interessantes o bastante para valer a curiosidade.

— Níveis Ordinários em Magia – explicou Jorge, vendo o olhar intrigado de Harry, e o mais novo enfim deixou de pensar sobre Percy – Gui recebeu doze também. Se não nos cuidarmos vamos ter outro monitor-chefe na família. Acho que não iríamos suportar a vergonha.

— Não sei como mamãe e papai vão poder comprar todo o nosso material escolar este ano – disse Jorge depois de algum tempo. – Cinco conjuntos de livros do Lockhart! E Gina precisa de vestes, uma varinha e todo o resto...

Rony levantou as sobrancelhas e suspirou levemente como um lamento: se ele achara que estiveram numa saia justa em sua vez de ir para Hogwarts, agora estavam muito mais. Mas, ele não pôde deixar de pensar também que pelo menos Gina ganharia uma varinha e não herdaria de alguém, como fora com ele — que definitivamente era o mais azarado daquela família.

A noite Rony escreveu a resposta para Hermione e a deixara em sua mesa escrivaninha, lembrando-se de pedir a seu pai para enviar do Ministério no dia seguinte, já que Errol não estava recuperado o suficiente para outra viagem e Percy se recusava a emprestar Hermes.

Olá Mione,

Harry já está aqui conosco há quase uma semana. Correu tudo bem: Fred, Jorge e eu fomos buscá-lo com o carro voador de papai, e tirando a bronca de mamãe não tivemos problemas.

Ainda bem que fomos atrás dele. Além de um regime horrível que ele estava sendo obrigado a fazer, os trouxas estavam o mantendo trancado no quarto, e não respondeu às nossas cartas porque não as recebeu — mas isso ele vai te explicar depois.

Mamãe gostou da ideia e vamos todos na quarta-feira ao Beco Diagonal. Nos encontramos em frente ao Gringotes, tudo bem?

Até lá,

Rony.

PS: Harry está dizendo "oi" também.

(...)

Na quarta-feira a Sra. Weasley acordou-os bem cedo. Eles comeram rápido, vestiram os casacos e foram para a lareira: iriam viajar via pó de flu.

— Estamos com o estoque baixo, Arthur – disse sua mãe ao olhar no pote que continha o pó. – Teremos que comprar mais hoje... — ela refletiu, mas logo voltou a falar animadamente — Ah, muito bem, hóspedes primeiro! Pode começar, Harry querido!

E ela lhe ofereceu o vaso de flor.

Harry olhou para os Weasley, que o observavam.

— Q-que é que eu tenho que fazer? – gaguejou ele.

— Ele nunca viajou com Pó de Flu – disse Rony de repente, se lembrando. – Desculpe Harry, eu me esqueci.

— Nunca? – admirou-se o Sr. Weasley. – Mas como foi que você chegou ao Beco Diagonal para comprar seu material escolar no ano passado?

— Fui de metrô...

— Verdade?! – exclamou o Sr. Weasley animado. – Havia escapadas rolantes? Como é que...

— Agora não, Arthur – interviu a Sra. Weasley. – O Pó de Flu é muito mais rápido, querido, mas meu Deus, se você nunca o usou antes...

— Ele vai conseguir, mamãe – disse Fred, confiante. – Harry observe a gente primeiro.

Fred apanhou uma pitada de pó brilhante no vaso de flor, foi até a lareira e atirou o pó no fogo.

Com um rugido, as chamas ficaram verde-esmeralda e mais altas do que Fred, que entrou nelas e gritou "Beco Diagonal!" e desapareceu.

— Você precisa falar bem claro, querido – disse a Sra. Weasley a Harry quando Jorge mergulhou a mão no vaso. – E se certifique se está saindo na grade certa...

— Na o quê certa? – perguntou Harry nervoso enquanto as chamas rugiam e arrebatavam Jorge de vista.

— Bem, há um número enorme de lareiras de bruxos para você escolher, sabe, mas se você falar com clareza...

— Ele vai acertar, Molly, não se preocupe – disse o Sr. Weasley, servindo-se de Pó de Flu também. Enquanto o observava, Rony mal podia imaginar o medo que aquela história toda devia estar dando no amigo: ele mesmo não era muito fã de Pó de Flu, que os deixava ridiculamente encardidos depois, e toda a ideia de fazer um movimento ou dizer uma coisa que os fizesse cair no lugar errado. Mas, estava acostumado. Para Harry era diferente: ele nunca fizera aquilo na vida, e devia mesmo querer qualquer coisa que não fosse se perder justamente no dia de comprar seu material no Beco Diagonal.

Além do mais, na primeira vez que Rony viajara daquele jeito ainda era pouco mais novo do que Gina agora, e fora pra visitar sua tia Muriel — uma senhora tão agradável que ele se lembrava de ter desejado por um momento cair na lareira errada.

— Mas, querido, se ele se perder, como é que iríamos explicar à tia e ao tio dele? — Molly continou, preocupada.

— Eles não se importariam – tranquilizou-a Harry. – Duda ia achar que teria sido uma piada genial se eu me perdesse dentro de uma lareira, não se preocupe.

— Bem... está bem... você vai depois de Arthur – disse a Sra. Weasley, cedendo hesitantemente – Agora, quando entrar no fogo, diga aonde vai...

— E mantenha os cotovelos colados ao corpo – aconselhou Rony.

— E os olhos fechados – recomendou a Sra. Weasley. – A fuligem...

— Não se mexa – disse Rony com tom de aviso – Ou pode acabar caindo na lareira errada...

— Mas cuidado para não entrar em pânico e sair antes da hora; espere até ver Fred e Jorge.

Harry apanhou uma pitada de Pó de Flu e avançou até a beira do fogo. Inspirou profundamente, lançou o pó nas chamas e entrou; dizendo engasgado: – B-be-co Diagonal – tossiu e sumiu.

—Por Merlim, que foi que ele disse? — perguntou Molly ao filho.

—Não sei, não. — disse Rony, franzindo o cenho com a dúvida.

—Bem, espero que tenha dado certo... — ela fitou a lareira, incerta, mas voltou-se para os filhos com pressa logo depois — Vamos, Rony, vá você que Gina irá em seguida.

Assim, Rony pegou o pó, jogou e avançou nas chamas, dizendo: "Beco Diagonal". Ao chegar na lareira do local avistou os irmãos e o pai, mas nada de Harry.

—Harry não chegou? — perguntou ele, tossindo levemente ao sair da lareira, e batendo as mãos nas vestes para tirar a fuligem.

—Não. Ele veio antes de você? — perguntou Fred, olhando ao redor.

—Veio, mas não falou direito "Beco Diagonal". Ele gaguejou um pouco, eu acho. — o mais novo explicou, levemente preocupado agora.

—Estou começando a achar que Harry gosta de se meter em aventuras quase tanto quanto nós, Fred. — Jorge cotovelou o irmão, fazendo graça, e os dois riram antes de retomar o tom sério — Vamos procurá-lo, deve ter saído em outra lareira perto daqui.

—Esperem! — Arthur interviu, vendo os garotos a caminho da porta — Vamos esperar os outros e saímos todos juntos à procura. Se dermos sorte, talvez ele só tenha ultrapassado uma grade. — pediu ele, segundos antes de Gina aparecer.

Depois que todos tinham chegado, foram à procura de Harry — com uma Molly apavorada entre eles.

—Vamos até o Gringotes, combinamos com Hermione de encontrarmos com ela lá. É capaz que Harry vá até lá, se não estiver longe . — falou Rony, já se adiantando aos outros.

Conforme eles andavam, ficavam de olho para todos os lados na esperança de ver Harry, até que, ao se aproximarem do banco, Rony viu Harry, Hermione e Hagrid parados ao pé da escadaria do banco. Com isso, logo gritou pra sua família:

—–Ali! Lá está ele! — e todos os Weasley correram.

— Harry – ofegou o Sr. Weasley. – Tivemos esperança de que você só tivesse ultrapassado uma grade de lareira... – Ele enxugou a careca reluzente. – Molly está alucinada... aí vem ela.

— Onde foi que você saiu? – perguntou Rony.

— Na Travessa do Tranco – informou Hagrid de cara feia.

— Que ótimo! – exclamaram Fred e Jorge juntos, animadamente.

— Nunca nos deixaram entrar lá – comentou Rony, com inveja.

— Ainda bem – rosnou Hagrid.

A Sra. Weasley aproximava-se correndo, a bolsa balançando loucamente em uma das mãos, Gina agarrada à outra.

— Ah, Harry, ah, meu querido, você podia ter ido parar em qualquer lugar...

Tomando fôlego, sua mãe tirou uma grande escova de roupas da bolsa e começou a escovar a fuligem da roupa de Harry. O seu pai apanhou os óculos de Harry, deu-lhes uma batida com a varinha e os devolveu, como se fossem novos.

— Bom, tenho que ir andando – disse Hagrid, cuja mão era apertada pela Sra. Weasley ("Travessa do Tranco! Se você não o tivesse encontrado, Hagrid!"). – Vejo vocês em Hogwarts! – E o guarda-caça se afastou a passos largos, a cabeça e os ombros mais altos do que os de todo mundo na rua cheia.

— Adivinhem quem eu encontrei na Borgin & Burkes? – perguntou Harry a Rony e a Hermione enquanto subiam as escadas do Gringotes. Os dois o deram olhares de dúvida para que continuasse – Malfoy e o pai dele.

— Lúcio Malfoy comprou alguma coisa? – perguntou o Sr. Weasley sério, logo atrás deles.

— Não, ele estava vendendo.

— Então está preocupado – comentou o Sr. Weasley com cruel satisfação. Rony quase sorriu. – Ah, eu adoraria pegar Lúcio Malfoy por alguma coisa...

— Tenha cuidado, Arthur – disse a Sra. Weasley com severidade, quando eram cumprimentados pelo duende à porta do banco. – Aquela família significa confusão. Não abocanhe mais do que você pode mastigar.

— Então você não acha que sou adversário para o Lúcio Malfoy? – respondeu o Sr. Weasley indignado, mas foi distraído quase no mesmo instante pela visão dos pais de Hermione, que estavam parados nervosos no balcão que ia de uma ponta a outra do saguão de mármore, esperando que Hermione os apresentasse.

— Mas, vocês são trouxas! – exclamou o Sr. Weasley encantado. – Precisamos tomar um drinque! Que é que têm aí? Ah, estão trocando dinheiro de trouxas. Molly, olhe! – Ele apontou excitado para as notas de dez libras na mão do Sr. Granger.

— Te encontro lá no fundo – disse Rony a Hermione quando os Weasley e Harry foram conduzidos aos cofres subterrâneos por outro duende de Gringotes.

Foram primeiro ao cofre dos Weasley, Rony viu que a mãe pegou todo o conteúdo do cofre — que na verdade não era muita coisa, uma pequena pilha de sicles de prata e apenas um galeão de ouro. Depois foram ao cofre de Harry que, Rony notou, até tentou disfarçar pegando o dinheiro rapidamente, mas tinha uma considerável fortuna. Seguindo os outros, Rony se deixou esquecer o pensamento de comparação, dizendo a si mesmo que aquele talvez fosse o preço de se fazer parte de uma família tão numerosa.

De volta aos degraus de mármore, eles se separaram. Percy murmurou qualquer coisa sobre a necessidade de comprar uma pena nova, ainda naquele comportamento estranho. Fred e Jorge tinham visto um amigo de Hogwarts, Lino Jordan. A Sra. Weasley e Gina iam a uma loja de vestes de segunda mão, enquanto o Sr. Weasley insistia em levar os Granger ao Caldeirão Furado para tomar um drinque.

— Vamos nos encontrar na Floreios e Borrões dentro de uma hora para comprar o material escolar – disse a Sra. Weasley, se afastando com Gina. – E nem pensar em entrar na Travessa do Tranco! – gritou ela para os gêmeos, que seguiam na direção oposta.

Harry, Rony e Hermione caminharam pela rua tortuosa. Harry comprou três grandes sorvetes de morango e manteiga de amendoim, que os três lamberam felizes enquanto subiam o beco, examinando as vitrines fascinantes das lojas. Rony admirou, cobiçoso, um conjunto completo de vestes da grife Chudley Cannon, na vitrine da Artigos de Qualidade para Quadribol, até que Hermione puxou os dois para irem comprar tinta e pergaminho na loja ao lado.

Na Gambol & Japes – Jogos de Magia, eles encontraram Fred, Jorge e Lino Jordan, que estavam fazendo um estoque de fogos de artifício Dr. Filibusteiro, que disparavam molhados e não aqueciam, e num brechó cheio de varinhas quebradas, balanças de latão empenadas e velhas capas manchadas de poções, os garotos deram de cara com Percy, profundamente absorto na leitura de um livro muito chato intitulado "Monitores-chefes que se tornaram poderosos".

— Um estudo dos monitores-chefes de Hogwarts e suas carreiras – leu Rony alto na quarta capa, e zombou com um rolar de olhos – Parece fascinante...

— Deem o fora – disse Percy com rispidez.

— É claro que ele é muito ambicioso, o Percy já planejou tudo... Quer ser Ministro da Magia... – comentou Rony para Harry e Hermione em voz baixa quando deixaram o irmão sozinho. Às vezes ele realmente se perguntava como Percy fora parar na Grifinória e não na Sonserina, com toda aquela ambição gritando de dentro dele.

Uma hora depois eles rumaram para a Floreios e Borrões. Não eram de maneira alguma os únicos que se dirigiam à livraria: ao se aproximarem viram, para sua surpresa, uma quantidade de gente que se acotovelava à porta da loja, tentando entrar. A razão disso estava anunciada em uma grande faixa estendida nas janelas do primeiro andar.

GILDEROY LOCKHART autografa sua autobiografia O MEU EU MÁGICO hoje das 12:30 às 16:30

— Vamos poder conhecê-lo! – gritou Hermione esganiçada. – Quero dizer, ele é o autor de quase toda a nossa lista de livros!

Rony desconfiou que não fosse bem esse o motivo do ânimo súbito de Hermione, não podendo evitar de pensar em sua mãe: ela era realmente louca por Lockhart. Ele mesmo já havia visto tantos livros de sua autoria nas mãos da mãe, que recorria às suas dicas para praticamente qualquer coisa que se fizesse e estivesse num livro, que ele fora um dos raros nomes que reconhecera de cara na lista de livros, sem pensar.

A aglomeração parecia ser formada, em sua maioria, por bruxas mais ou menos da idade da Sra. Weasley. Um bruxo de ar atarantado estava postado à porta, dizendo:

— Calma, por favor, minhas senhoras... Não empurrem, isso... cuidado com os livros, agora...

Harry, Rony e Hermione espremeram-se para entrar na loja. Uma longa fila serpeava até o fundo da loja, onde Gilderoy Lockhart autografava seus livros. Cada um dos meninos apanhou um exemplar de Livro padrão de feitiços, 2a série, e se enfiaram sorrateiros no início da fila onde já aguardavam os outros meninos com o Sr. e a Sra. Weasley.

— Ah, chegaram, que bom! – disse a Sra. Weasley. Ela parecia ofegante e não parava de ajeitar os cabelos. Rony sabia bem o por quê. – Vamos vê-lo em um minuto...

Aos poucos Gilderoy Lockhart se tornou visível, sentado a uma mesa, cercado de grandes cartazes com o próprio rosto, todos piscando e exibindo dentes ofuscantes de tão brancos. O verdadeiro Lockhart estava usando vestes azul-miosótis que combinavam à perfeição com os seus olhos; seu chapéu cônico de bruxo se encaixava em um ângulo pimpão sobre os cabelos ondulados.

Um homenzinho irritadiço dançava à sua volta, tirando fotos com uma máquina enorme que soltava baforadas de fumaça púrpura a cada flash enceguecedor.

— Saia do caminho, você aí – rosnou ele para Rony, recuando para se posicionar em um ângulo melhor. – Trabalho para o Profeta Diário.

— Grande coisa – disse Rony, esfregando o pé que o fotógrafo pisara, com mau-humor.

Gilderoy ouviu-o e ergueu os olhos. Viu Rony – e em seguida viu Harry Potter. Encarou-o. Então se levantou de um salto e decididamente gritou:

— Não pode ser Harry Potter!

A multidão se dividiu, murmurando agitada, enquanto Rony ainda estava se recuperando do susto com a exclamação de Lockhart, que adiantou-se, agarrou o braço de Harry e puxou-o para a frente. A multidão prorrompeu em aplausos. Lockhart apertou sua mão para o fotógrafo, que batia fotos feito louco, dispersando fumaça sobre os Weasley. Rony tossiu irritado e se afastou um pouco.

— Minhas senhoras e meus senhores – disse Lockhart em voz alta, ao mesmo tempo que pedia silêncio com um gesto. – Que momento extraordinário este! O momento perfeito para anunciar uma novidade que estou guardando só para mim há algum tempo!

"Quando o jovem Harry entrou na Floreios e Borrões hoje, ele queria apenas comprar a minha autobiografia, com a qual eu terei o prazer de presenteá-lo agora." — a multidão tornou a aplaudir — Ele não fazia ideia, — continuou Lockhart, dando uma sacudidela em Harry que fez os óculos do menino escorregarem para a ponta do nariz, e Rony desejar sorte ao amigo mentalmente — que em breve estaria recebendo muito, muito mais do que o meu livro "O meu eu mágico". Ele e seus colegas irão receber o meu eu mágico em carne e osso. Sim, senhoras e senhores, tenho o grande prazer de anunciar que, em setembro próximo irei assumir a função de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!"

A multidão deu vivas e bateu palmas, e Harry se viu presenteado com as obras completas de Gilderoy Lockhart.

Rony e Hermione, sobraçando pilhas de livros de Lockhart, lutaram para chegar até Harry que estava com Gina e...

— Ah, é você! – exclamou Rony, olhando para Malfoy como se ele fosse uma coisa desagradável, grudada na sola do sapato – Aposto como ficou surpreso de ver Harry aqui, hein?

Realmente, era só o que lhe faltava: Lockhart e Malfoy no mesmo cômodo, no mesmo dia. Ele logo soube que custaria a se acostumar com as aulas de DCAT em Hogwarts nesse ano, com aqueles enormes egos dos dois se exibindo lá e cá, num lugar só, por minutos a fio.

— Não tão surpreso como estou de ver você numa loja, Weasley – retrucou Malfoy. – Imagino que seus pais vão passar fome um mês para pagar todas essas compras.

Rony ficou escarlate. A primeira coisa que lhe veio à cabeça quando fechou as mãos em punho foi que Malfoy merecia outra surra àquela altura.

Com isso, de repente largou os livros no caldeirão de Gina e partiu para cima do garoto loiro, mas Harry e Hermione o agarraram pelo casaco.

— Rony! – chamou o Sr. Weasley, que procurava se aproximar com Fred e Jorge. – Que é que está fazendo? Está muito cheio aqui, vamos para fora.

— Ora, ora, ora, Arthur Weasley.

Era o Sr. Malfoy. Estava parado com a mão no ombro de Draco, com um sorriso de desdém idêntico ao do filho.

— Lúcio – disse o Sr. Weasley, dando um frio aceno com a cabeça.

— Muito trabalho no Ministério, ouvi dizer – falou o Sr. Malfoy. – Todas aquelas blitze... Espero que estejam lhe pagando hora extra!

Ele meteu a mão no caldeirão de Gina e tirou, do meio dos livros de capa lustrosa de Lockhart, um exemplar muito antigo e surrado de um "Guia da transfiguração para principiantes".

— É óbvio que não – concluiu o Sr. Malfoy. – Ora veja, de que serve ser uma vergonha de bruxo se nem ao menos lhe pagam bem para isso?

O Sr. Weasley corou com mais intensidade que Rony.

— Nós temos ideias muito diferentes do que é ser uma vergonha de bruxo, Malfoy.

— Visivelmente – disse o Sr. Malfoy, seus olhos claros desviando-se para o Sr. e Sra. Granger, que observavam apreensivos. – As pessoas com quem você anda, Weasley... e pensei que sua família já tinha batido no fundo do poço...

Ouviu-se uma pancada metálica quando o caldeirão de Gina saiu voando; o Sr. Weasley se atirara sobre o Sr. Malfoy, derrubando-o contra uma prateleira. Dúzias de livros de soletração despencaram com estrondo em sua cabeça; ouviu-se um grito "Pega ele, papai" – dado por Fred e Jorge; Rony ouviu sua mãe gritar repetidamente "Não, Arthur, não"; a multidão estourou, recuando e derrubando mais prateleiras. Rony estava dividido demais para gritar qualquer coisa: ele bem que queria que Lucio Malfoy levasse uma surra — como seu filho, ele merecia -, e ainda mais que fosse seu pai a fazê-lo; mas sabia que ele enfrentaria um baita problema no trabalho se fizesse qualquer coisa contra Malfoy, que era da alta sociedade e bizarramente influente.

— Senhores, por favor, por favor! – pedia o assistente, e, depois, mais alto que a algazarra reinante. – Vamos parar com isso, cavalheiros, vamos parar com isso...

Hagrid caminhava em direção aos dois atravessando um mar de livros. Num instante ele separou o Sr. Weasley e o Sr. Malfoy. O Sr. Weasley com o lábio cortado e o Sr. Malfoy fora atingido no olho por uma Enciclopédia dos sapos. Ele ainda segurava o livro velho de Gina sobre transfiguração. Atirou-o nela, os olhos brilhando de malícia.

— Aqui, tome o seu livro, é o melhor que seu pai pode lhe dar...

E, desvencilhando-se da mão de Hagrid, chamou Draco e saíram da loja.

— Você devia ter fingido que ele não existia, Arthur – disse Hagrid, quase erguendo o Sr. Weasley do chão enquanto este endireitava as vestes. – Podre até a alma, a família toda, todo mundo sabe disso. Não vale a pena dar ouvidos a nenhum Malfoy. Sangue ruim, é o que é. Vamos agora, vamos sair daqui.

O assistente parecia querer impedi-los de sair, mas mal chegava à cintura de Hagrid e pareceu pensar duas vezes. Eles subiram apressados a rua, os Granger tremendo de susto e a Sra. Weasley fora de si de fúria.

— Um belo exemplo para os seus filhos...! — praguejou ela, negando com a cabeça — Saindo no tapa em público... Que é que o Gilderoy Lockhart deve ter pensado...

— Ele estava satisfeito – informou Fred. – Você não ouviu o que ele disse quando estávamos saindo? Perguntou àquele cara do Profeta Diário se ele podia incluir a briga na notícia, disse que tudo era publicidade.

Rony caminhava ao lado de Harry e Hermione, as mãos fechadas, tentando se acalmar: afinal, não pudera surrar Draco, mas sinceramente, pelo menos seu pai havia pego aquele Malfoy nojento por alguns segundos — não o bastante para se dar mal depois, mas o suficiente para gerar alguma satisfação.

Hermione o olhava disfarçadamente e, vendo sua postura e seu rosto franzido, sabia que ele estava nervoso — não à toa, é claro. Depois que vira o pai de Malfoy, Hermione entendeu de quem aquele garoto havia puxado toda a arrogância e crueldade, e não pôde deixar de sentir-se um pouco grata ao Sr. Weasley, que se segurara ao máximo com as provocações de Malfoy até este insinuar sobre seus pais.

Enfim, após alguma caminhada sob os comentários dos gêmeos em contrapartida aos da mãe — que, em dado momento, abstraiu-se de sua fúria o bastante para notá-los e então, finalmente, os calou — ao chegarem no Caldeirão Furado, Harry e os Weasley se despediram dos Granger. O Sr. Weasley começou a perguntar ao casal como funcionavam os pontos de ônibus, mas parou de repente ao ver o olhar da Sra. Weasley, o que seguiu-se de Hermione saindo do bar com os pais rumo ao mundo trouxa, e os Weasley e Harry se encaminhando à lareira para retornar à Toca.

Notas finais
Se cuidem e até o próximo capítulo! ♥