Harry e Rony desceram correndo as escadas do dormitório, torcendo para que Hermione ainda estivesse na sala comunal. Por sorte, ela ainda lia seus apontamentos. Os dois foram rápido até ela, o que a assustou.

— Credo! O que deu em vocês dois? — disse, zangada.

Os dois sentaram-se próximos a ela e começaram a falar baixinho.

— Harry está delirando! Disse que foi Hagrid que abriu a câmara há cinquenta anos, mas não quis me explicar até virmos falar com você.

— Hagrid? Não pode ser! Por que diz isso, Harry? — ela perguntou a Harry.

— Vou explicar do início. — disse o garoto.

— Quando o tinteiro virou nas minhas coisas só o diário ficou limpo, então resolvi escrever nele, para ver o que acontecia. Daí Riddle me escreveu de volta. Disse que era uma lembrança e podia me mostrar tudo sobre a Câmara Secreta. Então foi como se eu estivesse em Hogwarts há cinquenta anos atrás, e ninguém podia me ver.

—Riddle me mostrou que iam fechar a escola por causa dos ataques, que daquela vez tinham matado uma garota, e que ele não podia permitir isso porque também dependia da escola, como eu. Logo ele foi atrás de um estudante, que escondia um animal no armário. Ele discutiu com esse aluno e tentou pegar o animal, um tipo de bicho gigante e cabeludo, e quando ia tentar de novo o bicho o derrubou e fugiu. Riddle levantou, ergueu a varinha, mas o garoto grande segurou ele, tirou sua varinha e o derrubou de novo. Depois disso fui trazido de volta.

Rony e Hermione estavam boquiabertos.

—Mas, por que tem certeza que era Hagrid? — perguntou Hermione.

—Bem, porque Riddle o chamou de Rúbeo, o garoto era gigante, além de guardar e defender bichos estranhos. O que acha?

Ninguém falou mais nada. Harry, Rony e Hermione sempre souberam que Hagrid tinha uma lamentável queda por criaturas grandes e monstruosas, e que se o jovem Rúbeo tivesse ouvido falar que havia um monstro escondido em algum lugar do castelo, ele com certeza faria o possível para dar uma espiada e ajudá-lo a escapar para um passeio. Mas, jamais para matar alguém.

Rony e Mione fizeram Harry repetir várias vezes o que vira, tentando arranjar uma explicação lógica para tudo aquilo.

— Riddle pode ter apanhado a pessoa errada – disse a garota, pensativa. – Talvez fosse outro o monstro que estava atacando as pessoas...

— Quantos monstros vocês acham que cabem aqui no castelo? – perguntou Rony, abobado.

— Sempre soubemos que Hagrid foi expulso – disse Harry, infeliz. – E os ataques devem ter parado depois que o mandaram embora. Do contrário, Riddle não teria ganho um prêmio.

Rony tentou pensar por um ângulo diferente.

— Riddle se parece com o Percy, afinal quem pediu a ele para dedurar o Hagrid?

— Mas o monstro tinha matado alguém, Rony – lembrou Mione.

— E Riddle ia voltar para um orfanato de trouxas se fechassem Hogwarts – disse Harry. – Não posso culpá-lo por querer ficar aqui...

— Você encontrou o Hagrid na Travessa do Tranco, não foi, Harry? — perguntou a garota.

— Ele estava comprando um repelente para lesmas carnívoras – respondeu Harry, depressa.

Os três se calaram. Hermione ficou evitando perguntar o que lhe via a cabeça, mas não encontrava outra saída.

— Vocês acham que devemos perguntar ao Hagrid o que aconteceu?

— Ia ser uma visita animada – disse Rony, ironicamente, imaginando a cena. – "Olá, Hagrid. Conte para a gente, você andou soltando alguma coisa selvagem e peluda no castelo, ultimamente?"

— É... não podemos fazer isso com ele — disse Harry, sem poder evitar de concordar — Não diremos nada, a não ser que haja outro ataque. Pode ser que tudo tenha acabado. — afinal, já haviam se passado quatro meses desde o último ataque.

Os três, então, não falaram mais no assunto de Hagrid, e as coisas pareciam ter voltado ao normal. Até Ernie tinha parado de implicar com Harry e Pirraça não cantava mais "Ah, Potter podre".

Durante o feriado de Páscoa, os três tiveram que ocupar suas cabeças com as matérias que escolheriam para o terceiro ano — assunto que pelo menos Hermione levou muito a sério.

— Pode afetar todo o nosso futuro – disse ela a Harry e Rony enquanto examinavam as listas das novas matérias, marcando-as com tiques.

— Eu só quero desistir de Poções – falou Harry.

— Não podemos – contrapôs Rony desanimado. – Continuamos com todas as matérias antigas ou eu teria descartado Defesa Contra as Artes das Trevas.

— Mas essa é muito importante! – exclamou Mione chocada.

— Não do jeito que o Lockhart ensina – disse Rony. – Eu não aprendi nada com ele a não ser que é perigoso deixar diabretes soltos.

Como não conseguia se decidir qual poderia descartar sem ter uma perda em seu aprendizado, Hermione matriculou-se em todas. Rony escolheu aquelas que considerou que não dariam muito trabalho cursar e Harry recebeu orientação, não solicitada, de Percy Weasley:

— Depende aonde você quer chegar, Harry – disse. – Nunca é cedo demais para pensar no futuro, por isso eu recomendo Adivinhação. As pessoas dizem que Estudo dos Trouxas é moleza, e pessoalmente acho que os bruxos deviam ter uma compreensão total da comunidade não mágica, particularmente se estão pensando em trabalhar em contato com eles, olhe só o meu pai, tem que tratar de assuntos dos trouxas o tempo todo. Meu irmão Carlinhos sempre foi uma pessoa que gostou do ar livre, por isso se especializou na Criação de Criaturas Mágicas. Favoreça suas inclinações, Harry.

Mas, a única coisa em que Harry se achava muito bom era no quadribol. Por fim ele acabou escolhendo as mesmas matérias novas que Rony, achando que se fosse mal, pelo menos teria um amigo para ajudá-lo.

O jogo Grifinória X Lufa-Lufa estava se aproximando, o que significava ausência de Harry em alguns momentos. Nessas ocasiões, Rony se sentava com Hermione para fazer os deveres, mas acabava desistindo de fazer logo, dando a desculpa de que esperaria Harry.

Na véspera do jogo, Hermione estava revisando seus deveres, que já estavam prontos, antes de começar sua leitura diária, e Rony, que tinha desistido de continuar o seu, foi jogar xadrez com Dino, Neville e Simas.

O combinado era: quem perdesse sairia do jogo, e basicamente Rony jogou com todos. Dino foi o primeiro, conseguindo jogar por dez minutos. Depois foi a vez de Neville, que em menos de cinco minutos já estava levantando da mesa e indo para o dormitório. Quando Rony jogava com Simas, Harry chegou do treino, os cumprimentou e subiu ao dormitório.

Rony o ouviu falando alguma coisa com Neville, mas não deu importância — estava prestes a vencer Simas também, o que levou mais duas jogadas apenas. Quando acabaram, ele, Dino e Simas subiram ao dormitório para perguntar a Harry como tinha sido o treino.

Ao entrarem no quarto, viram que estava uma completa bagunça. O conteúdo do malão de Harry estava espalhado por todos os lados, até as roupas de cama tinham sido arrancadas, e a gaveta puxada do armário ao lado da cama, e seu conteúdo espalhado em cima do colchão.

Dino disse um palavrão em voz alta.

— Que aconteceu, Harry?

— Não faço ideia – disse Harry. Mas, Rony examinava as vestes de Harry. Todos os bolsos tinham sido revirados.

— Alguém andou procurando alguma coisa – disse Rony. – Tem alguma coisa faltando?

Harry começou a apanhar as coisas e a atirá-las para dentro do malão. Somente quando ele atirou o último livro de Lockhart foi que se deu conta do que estava faltando.

— O diário de Riddle desapareceu – disse em voz baixa a Rony.

— Quê? — Rony replicou, incrédulo.

Harry indicou com a cabeça a porta do dormitório, e Rony o seguiu para fora.

Juntos desceram correndo até a sala comunal da Grifinória, quase vazia àquela hora, e se reuniram a Mione, que estava sentada sozinha, lendo um livro chamado Runas antigas sem mistérios.

— Mione, roubaram o diário. — disse Harry baixo, mas aflito.

— Como assim, "roubaram"?

— Ué, revistaram as coisas de Harry e levaram. — disse Rony, com tom óbvio.

— Mas... só outro aluno da Grifinória poderia ter roubado, ninguém mais sabe a senha.

— Exatamente – disse Harry.

Os três se entreolharam. Poderia ter sido qualquer pessoa da Grifinória.

—Você precisa comunicar o roubo, Harry, isso é uma coisa muito grave. — disse Hermione, perplexa com o acontecido.

— Não posso, Mione, teria que contar a um professor o que sei sobre o diário, e quem será que sabe sobre a expulsão de Hagrid há cinquenta anos? Não quero trazer isso à tona de novo e prejudicar Rúbeo.

— É, tem razão. Podemos acabar pondo Hagrid numa fria de novo. — ela concordou, preocupada e Rony assentiu com um semblante parecido.

Na manhã seguinte, quando saíam do salão Principal para ir ao salão comunal pegar a vassoura de Harry para o jogo, ainda nas escadarias de mármore, Harry deu um grito alto, assustando Rony e Hermione. Antes que Rony pudesse xingá-lo, o garoto disse:

— A voz! – disse Harry, espiando por cima do ombro. – Acabei de ouvi-la de novo, vocês não ouviram?

Rony sacudiu a cabeça, os olhos arregalados. Hermione, porém, deu uma palmada na testa. Tudo tinha, subitamente, clareado-se em sua mente. Todas as partes que vinha tentando interligar nos últimos dias, e agora aquilo parecia conectar todas de uma maneira que, assustadoramente, não parecia coincidência. Mas, precisava ter certeza.

— Harry, acho que acabei de entender uma coisa! Tenho de ir até a biblioteca!

E, deixando os amigos, subiu as escadas correndo.

— Que é que ela entendeu? – perguntou Harry distraído, ainda olhando à volta, tentando descobrir de onde vinha a voz.

— Muito mais do que eu – disse Rony com sinceridade, sacudindo a cabeça.

— Mas por que ela tem de ir à biblioteca?

— Porque é isso que Mione faz – disse Rony, sacudindo os ombros. – Quando tiver uma dúvida, vá à biblioteca.

Harry ficou parado, indeciso, os alunos agora vinham saindo do Salão Principal às suas costas, falando alto, dirigindo-se à porta da frente a caminho do campo de quadribol.

— É melhor você ir andando – aconselhou Rony. – São quase onze horas, o jogo...

Harry correu escada acima para pegar sua Nimbus 2000, e Rony seguiu a multidão para a arquibancada. Ficou junto com seus companheiros de dormitório, mas era estranho não ter Hermione ali. Que será que ela tinha descoberto que não podia esperar o fim do jogo?

Os times entraram em campo sob aplausos estrondosos. Madame Hooch lançou as bolas. Os jogadores da Lufa-Lufa, que jogavam de amarelo-canário, estavam amontoados num bolinho, discutindo táticas de última hora. Rony viu Harry prestes a montar a vassoura quando a Profa McGonagall foi na direção dele, quase correndo, com um enorme megafone púrpura na mão.

— O jogo foi cancelado – ela anunciou pelo megafone, dirigindo-se ao estádio.

Rony pensou na mesma hora: alguma coisa muito grave devia ter acontecido dessa vez, para até mesmo cancelarem o jogo. Além disso, era estranho que a professora tivesse se dirigido especificamente até Harry.

Com uma sensação estranha, sem entender por que, Rony correu para se juntar a Harry em meio aos gritos e vaias que se espalhavam.

A professora falou novamente pelo megafone:

— Todos os alunos devem se dirigir às salas comunais de suas casas, onde os diretores das casas darão maiores informações. O mais rápido que puderem, por favor!

Quando Rony conseguiu se afastar da multidão, viu que Harry acompanhava a professora para o castelo e correu mais para alcançá-los. Achou que a professora iria brigar com ele por ir atrás, mas ela não se importou.

— É, talvez seja melhor você vir também, Weasley... — disse ela, ao vê-lo chegar. Rony franziu o cenho, de repente preocupado com o que aquilo poderia dizer, e com o tom aflito que ela havia usado.

Harry e Rony acompanharam a Profa McGonagall de volta à escola e subiram a escadaria de mármore. Rony sentiu seu estômago revirar: ele não sabia por que, mas havia uma sensação e, é claro, aquilo não podia ser nada de bom.

Foi quando a professora virou-se para o lado da Ala Hospitalar e informou em um tom gentil que seria um pouco chocante para eles, que ele teve certeza de que algo muito ruim havia acontecido.

— Houve mais um ataque... mais um ataque duplo. — ela continuou a falar.

Rony nem havia visto ainda, e McGonagall não dissera nada, mas seu tom, o suspense e a sensação que havia consigo: ele não pôde evitar de pensar em Hermione. E, assim que pensou, não quis pensar outra vez, mas, a professora logo abriu a porta e eles, de repente, já estavam lá dentro.

Madame Pomfrey estava curvada sobre a menina Corvinal a quem por acaso perguntaram onde ficava a sala da Sonserina. E na cama ao lado achava-se...

— Mione! – gemeu Rony, como se tivesse sido atingido por um grande e indesejado susto. Seu estômago embrulhou-se por completo e ele teve certeza que seu rosto estava completamente sem cor. Então, era mesmo ela, como no pensamento mais fugaz e indesejado que acabara de ter. Mione quem havia sido atacada.

Ainda que estivesse bem ali, o garoto, de fato, não conseguia acreditar: ele a encarava perplexo, a garota deitada, absolutamente imóvel, os olhos abertos e vidrados, e parecia querer acreditar que era uma brincadeira de muito mau gosto.

— Elas foram encontradas perto da biblioteca – disse a Profa McGonagall. – Suponho que nenhum dos dois tenha uma explicação para isto. Estava no chão ao lado delas...

Ao ouvir isso, ele tirou os olhos da amiga e olhou para a professora, que mostrava um pequeno espelho circular. Depois, voltou o olhar para Hermione, balançando negativamente.

— Vou acompanhá-los de volta à Torre da Grifinória – continuou a professora, deprimida. – Tenho mesmo que falar com os alunos.

A professora entrou com eles na sala, desenrolou um pergaminho e começou a ler:

— Todos os alunos devem voltar à sala comunal de suas casas até as seis horas da tarde. Nenhum aluno deve sair dos dormitórios depois dessa hora. Um professor os acompanhará a cada aula. Nenhum aluno deve usar o banheiro a não ser escoltado por um professor. Todos os treinos e jogos de quadribol estão adiados. Não haverá mais atividades noturnas.

Todos estavam em silêncio, a notícia do ataque já tinha se espalhado. A professora enrolou o pergaminho e disse com a voz um tanto embargada:

— Não preciso acrescentar que raramente me senti tão aflita. É provável que fechem a escola a não ser que o autor desses ataques seja apanhado. Eu pediria a quem achar que talvez saiba alguma coisa que me procure.

Assim que a professora saiu Lino Jordan, amigo dos gêmeos, disse indignado:

— São dois alunos da Grifinória atacados, sem contar o nosso fantasma, um aluno da Corvinal e um da Lufa-Lufa. Será que nenhum professor reparou que os alunos da Sonserina não foram tocados? Não é óbvio que essa coisa toda está vindo da Sonserina? O herdeiro de Slytherin, o monstro da Sonserina, por que é que eles não mandam embora todo o pessoal da Sonserina? – vociferou ele, em meio a acenos de concordância e aplausos.

Percy Weasley estava sentado em uma poltrona atrás de Lino, mas desta vez não parecia ansioso para dizer o que pensava. Parecia pálido e atordoado. A menina da Corvinal que foi atacada era monitora também.

Rony, por sua vez, não dava atenção a nada que diziam: a visão de Hermione petrificada não saia de sua cabeça, e ele não deixava de amaldiçoar a si mesmo mentalmente por não tê-la impedido, com qualquer motivo idiota, de ir à biblioteca. Agora, também não parava de se perguntar por que, afinal, ela precisava sequer ter tido a ideia de ir à biblioteca: essa sim era uma pergunta que não saía de sua cabeça.

Além disso, ele, Harry e Hermione haviam combinado que não falariam com Hagrid, a menos que houvesse outro ataque. E bem, agora havia tido um ataque duplo, e ainda mais, envolvendo Hermione. E o diário de T.S.Riddle ainda estava sumido. Eles precisavam fazer alguma coisa com todas essas partes soltas da história, pensou Rony. Precisavam, na verdade, simplesmente fazer alguma coisa, porque ele realmente não achava que aguentaria ficar ali parado enquanto Hermione estava petrificada na Ala Hospitalar, lembrando a eles que o perigo estava cada vez mais perto e mais avassalador.

— Que é que vamos fazer? – perguntou baixinho, então, ao ouvido de Harry. – Você acha que eles suspeitam de Hagrid?

— Precisamos ir falar com ele – disse Harry, decidindo-se. – Não posso acreditar que desta vez ele seja o culpado, mas se soltou o monstro da última vez saberá como entrar na Câmara Secreta, e isto é um começo.

— Mas McGonagall disse para ficarmos em nossa torre a não ser na hora das aulas...

— Acho – disse Harry, mais baixinho ainda – que está na hora de tirar outra vez da mala a velha capa do meu pai.

Naquela noite, os dois foram se deitar no horário de sempre, esperaram os amigos dormirem e então vestiram-se novamente e saíram sob a capa da invisibilidade.

Os corredores estavam lotados. Professores, monitores e fantasmas andavam aos pares, olhando tudo atentamente, à procura de alguma atividade incomum. A capa da invisibilidade não os impedia de fazer barulho, e houve um momento particularmente tenso em que Rony deu uma topada a poucos metros do lugar onde Snape estava montando guarda. Felizmente, Snape espirrou quase ao mesmo tempo que Rony xingou. Foi com alívio que chegaram às portas de entrada e as abriram devagarinho.

Eles correram em direção a cabana iluminada de Hagrid e despiram a capa somente na porta de entrada. Hagrid escancarou a porta com um arco apontado para eles, enquanto Canino dava fortes latidos.

— Ah! – exclamou ele, baixando a arma os encarando. – Que é que vocês estão fazendo aqui?

— Para que é isso? – perguntou Harry, ao entrarem, apontando para o arco.

— Nada... nada... – murmurou Hagrid. – Estava esperando... não faz mal... Sentem... Vou preparar um chá...

Ele parecia não saber muito bem o que estava fazendo. Quase apagou a lareira ao derramar água da chaleira e em seguida amassou o bule com um movimento nervoso da mão enorme.

— Você está bem, Hagrid? – perguntou Harry. – Soube do que aconteceu com a Mione?

— Ah, soube, soube, sim – respondeu Hagrid, com a voz ligeiramente falha.

Ele não parava de olhar nervoso para as janelas. Serviu aos meninos dois canecões de água fervendo (esquecera-se de pôr chá na chaleira) e ia servindo uma fatia de bolo de frutas num prato quando ouviram uma forte batida na porta.

Hagrid deixou cair o bolo de frutas. Harry e Rony se entreolharam em pânico, mas logo se cobriram com a capa e se retiraram para um canto. Hagrid se certificou de que os garotos estavam escondidos, apanhou o arco e escancarou mais uma vez a porta.

— Boa-noite, Hagrid. — disse Dumbledore entrando. Estava muito sério e vinha acompanhado do Ministro da Magia.

— É o chefe do papai! – cochichou Rony, sabendo que o amigo não devia conhecê-lo – Cornélio Fudge, Ministro da Magia! — e acabou levando uma cotovelada de Harry para ficar quieto.

Hagrid estava visivelmente em pânico. Deixou-se cair em uma cadeira e olhava de Dumbledore para Cornélio Fudge.

— Problema sério, Hagrid – disse Fudge em tom seco. – Problema muito sério. Tive que vir. Quatro ataques em alunos nascidos trouxas. As coisas foram longe demais. O Ministério teve que agir.

— Eu nunca – disse Hagrid, olhando suplicante para Dumbledore. – O senhor sabe que eu nunca, Prof. Dumbledore...

— Quero que fique entendido, Cornélio, que Hagrid goza de minha inteira confiança – disse Dumbledore fechando a cara para Fudge.

— Olhe, Alvo – respondeu Fudge, constrangido. – A ficha de Hagrid depõe contra ele. O Ministério teve que fazer alguma coisa, o conselho diretor da escola entrou em contato...

— Contudo, Cornélio, continuo a afirmar que levar Hagrid não vai resolver nada – disse Dumbledore.

— Procure entender o meu ponto de vista – disse Fudge, manuseando o chapéu-coco. – Estou sofrendo muita pressão. Precisam ver que estou fazendo alguma coisa. Se descobrirmos que não foi Hagrid, ele voltará e não se fala mais no assunto. Mas tenho que levá-lo. Tenho. Não estaria cumprindo o meu dever...

— Me levar? – perguntou Hagrid, começando a tremer. – Me levar aonde?

— Só por um tempo – disse Fudge sem encarar Hagrid nos olhos. – Não é um castigo, Hagrid, é mais uma precaução. Se outra pessoa for apanhada, você será solto com as nossas desculpas...

— Não para Azkaban? – lamentou Hagrid, rouco.

Antes que Fudge pudesse responder, ouviram outra batida forte na porta. Dumbledore atendeu-a.

Harry deixou escapar uma exclamação audível quando viu Lúcio Malfoy à porta e foi Rony que lhe deu uma cotovelada. O Sr. Lúcio Malfoy entrou decidido na cabana de Hagrid, envolto em uma longa capa de viagem, com um sorriso frio e satisfeito. Canino começou a rosnar.

— Já está aqui, Fudge – disse em tom de aprovação. – Muito bem...

— Que é que o senhor está fazendo aqui? – perguntou Hagrid furioso. – Saia da minha casa!

— Meu caro, por favor, acredite em mim, não me dá nenhum prazer estar no seu... hum... você chama isso de casa? – disse Lúcio Malfoy, desdenhoso, correndo os olhos pela pequena cabana. – Simplesmente vim à escola e me disseram que o diretor se encontrava aqui.

— E o que era exatamente que você queria comigo, Lúcio? – perguntou Dumbledore. Falou com cortesia mas a intensidade ainda encandecia os seus olhos azuis.

— É lamentável, Dumbledore – disse Malfoy sem pressa, puxando um rolo de pergaminho –, mas os conselheiros acham que está na hora de você se retirar. Tenho aqui uma Ordem de Suspensão, com as doze assinaturas. Receio que o Conselho pense que você está perdendo o jeito. Quantos ataques houve até agora? Mais dois hoje à tarde, não foi? Nesse ritmo, não sobrarão alunos nascidos trouxas em Hogwarts, e todos sabemos que perda horrível isto seria para a escola.

— Ah, olhe aqui, Lúcio – disse Fudge, parecendo assustado –, Dumbledore suspenso, não, não, a última coisa que queremos neste momento...

— A nomeação, ou a suspensão de um diretor é assunto do Conselho, Fudge – disse o Sr. Malfoy suavemente. – E como Dumbledore não conseguiu fazer parar os ataques...

— Olhe aqui, Malfoy, se Dumbledore não consegue fazê-los parar – disse Fudge, cujo lábio superior estava úmido de suor –, eu pergunto, quem vai conseguir?

— Isto resta ver – disse o Sr. Malfoy com um sorriso desagradável. – Mas como todo o Conselho votou...

Hagrid levantou-se de um salto, a cabeça desgrenhada raspando o teto.

— E quantos você precisou ameaçar e chantagear para concordarem hein, Malfoy? – vociferou.

— Ai, ai, ai, sabe, esse seu mau gênio ainda vai lhe causar problemas um dia desses, Hagrid – disse o Sr. Malfoy. – Eu aconselharia você a não gritar assim com os guardas de Azkaban, eles não vão gostar nadinha.

— Você não pode afastar Dumbledore! – gritou Hagrid, fazendo Canino se agachar e choramingar no cesto de dormir. – Afaste ele, e os alunos nascidos trouxas não terão a menor chance. Vai haver mortes em seguida.

— Acalme-se, Hagrid – ordenou Dumbledore. Virou-se então para Lúcio Malfoy. – Se o Conselho quer que eu me afaste, Lúcio, naturalmente eu vou obedecer... – Mas... – gaguejou Fudge.

— Não! – disse Hagrid com raiva.

Dumbledore não tirara seus olhos azuis cintilantes dos olhos frios e cinzentos de Lúcio Malfoy.

— Porém – continuou ele, falando muito lenta e claramente de modo que ninguém perdesse uma só palavra –, você vai descobrir que só terei realmente deixado a escola quando ninguém mais aqui for leal a mim. Você também vai descobrir que Hogwarts sempre ajudará aqueles que a ela recorrerem.

— Admiráveis sentimentos – disse Malfoy fazendo uma reverência. – Todos sentiremos falta do seu... hum... modo muito pessoal de dirigir as coisas, Alvo, e só espero que o seu sucessor consiga impedir... ah... matanças.

E dirigiu-se à porta da cabana, abriu-a, fez um gesto largo indicando a porta para Dumbledore. Fudge, manuseando seu chapéu-coco, esperou Hagrid passar à sua frente, mas Hagrid continuou firme, inspirou profundamente e disse com clareza:

— Se alguém quiser descobrir alguma coisa, é só seguir as aranhas. Elas indicariam o caminho certo! É só o que digo.

Fudge olhou-o muito admirado.

— Tudo bem, estou indo – disse Hagrid, vestindo o casacão de pele de toupeira. Mas quando ia saindo para acompanhar Fudge, ele parou outra vez e disse em voz alta: – Alguém vai ter que dar comida a Canino enquanto eu estiver fora.

A porta se fechou com força e Rony tirou a capa da invisibilidade.

— Estamos enrascados agora – disse ele rouco. – Dumbledore foi-se embora. Seria melhor que fechassem a escola hoje à noite. Com a saída dele haverá um ataque por dia.

Canino começou a uivar, arranhando a porta fechada.