A Cura

7 Um ladrãozinho



Jimin se arrumava para mais um dia de aula, mas a verdade era que odiava ir para a escola. Os outros alunos o excluíam. Alguns tinham medo dele simplesmente por ele ser filho de um político influente. Outros, evitavam sua presença por causa de sua doença.

Quando Jimin passava pelos corredores, as crianças desviavam como se ele fosse contagioso. Cochichavam baixinho, soltando comentários cruéis.

"Se chegar perto, você também vai ficar careca."

"E se essa doença passar pra gente?"

Jimin fingia que não ouvia. Fingia que não se importava.

No carro, olhava para a paisagem através da janela, sentindo um aperto no peito. Definitivamente, ele não queria voltar para aquele lugar. Preferia mil vezes estar internado na Rússia, ao lado de Nikolai, do que cercado por crianças que o tratavam como um monstro.

Mas ele nunca reclamava. Nunca contou ao pai o que realmente acontecia. Sempre dizia que a escola era legal, que gostava dos colegas e que estava tudo bem. Mas não estava.

Agora, aos dez anos recém-completados, se perguntava se teria que passar seus últimos meses naquele inferno. O que adiantava? Jimin não via sentido naquilo. Ele sabia que não viveria muito mais. Então, por que precisava perder tempo com lições que nunca usaria?

Tudo o que ele queria era ficar em casa com o pai, aproveitando cada segundo ao lado dele. Mas, se Namjoon queria que ele fosse à escola, ele iria obedientemente. Se esforçaria para ser o melhor aluno. Porque, no fundo, fazia isso por ele. Por seu pai.

Chegando na escola, a diretora chamou Namjoon.

— Bom dia Senhor Namjoon — a diretora o cumprimentou, olhando por cima de seus óculos em um tom sério.

— Bom dia, Senhora Lee — respondeu Namjoon educamente.

— Tem alguns minutos?

— Sim sim, tenho sim — Namjoon ficou um pouco preocupado, com certeza ela iria falar algo de Jimin.

— Ótimo, precisamos conversar.

Uma moça jovem veio pegar Jimin para levá-lo para sua sala. Namjoon acompanhou a diretora, que andava a passos calmos no corredor. Chegando na sala, ela encostou a porta e olhou para ele, com uma expressão séria.

— Sente-se, Senhor Namjoo. Serei breve, sei que é um homem ocupado.

— Não se incomode, Senhora Lee. Todos somos pessoas ocupadas. Tenho algum tempo antes do meu próximo compromisso — Namjoon se sentou.

A diretora foi até a mesa e se sentou à sua frente, arrumando seus óculos.

— É sobre o Jimin…

— Aconteceu alguma coisa com meu Jimin? — Namjoon a interrompeu.

Ela apenas deu uma olhada ainda mais séria para ele.

— Desculpe, pode continuar — Namjoon sorriu sem graça.

— Estou preocupada com o Jimin. Ele é um menino muito doce, gentil e amoroso. É esforçado e muito inteligente mas… — Ela fez uma pausa — Ele não está conseguindo socializar com as outras crianças. Ele se isola. As únicas pessoas que ele conversa são com os professores, com os faxineiros e comigo. Apenas com os adultos. Ele não interage com nenhuma criança. Andei o observando e vi que outras crianças são maldosas com ele. Já conversei com essas crianças, mas temo que Jimin se sinta mal por isso. Só peço que o Senhor dê atenção a isso. Jimin é um menino gentil que não gosta de preocupá-lo, por isso estou lhe comunicando.

Namjoon sentiu um aperto no coração ao descobrir a verdade. Saber que Jimin não tinha bons momentos na escola fez seu peito doer de uma forma que ele não conseguia descrever.

Jimin nunca havia lhe contado. Nunca reclamou. Sempre sorria e dizia que gostava dos colegas. Mas agora, Namjoon sabia. Sabia que Jimin era excluído. Que as crianças o evitavam. Que falavam coisas cruéis sobre ele.

Sua vontade era tirá-lo da escola naquele mesmo minuto. Levá-lo para um lugar bonito, encher a mesa com todos os doces que ele amava, deixá-lo aproveitar o tempo que tinha da forma mais feliz possível. Mas ele hesitou.

Por mais que quisesse protegê-lo de tudo, sentia que tinha que ser responsável. A escola era importante, e Jimin sempre se esforçou. Ele não queria privá-lo de uma vida normal, mesmo que fosse difícil.

Mas, no fundo, o que significava “ser responsável” quando se tratava do pouco tempo que restava para seu filho?

— Obrigado, Senhora Lee. Vou conversar com meu Jimin e dar o apoio necessário a ele. Peço pra que cuide dele aqui na escola, por favor.

— Sim, Senhor Namjoon. Gostamos muito dele e vamos ficar de olho.

Namjoon deixou Jimin na escola e seguiu para o trabalho. O dia prometia ser longo e cansativo, mas, além de todas as responsabilidades, sua mente estava em outro lugar. Estava preocupado com Jimin.

Queria que as horas passassem rápido, que logo chegasse o momento de buscá-lo e tê-lo novamente ao seu lado.

Antes de seguir para o escritório, estacionou o carro em frente a uma cafeteria. Precisava de um café forte para encarar o dia.

Ao entrar, dirigiu-se ao balcão e fez seu pedido, mal prestando atenção na jovem atendente. Seu olhar alternava entre o celular e a rua, a mente distante.

O aroma do café recém-passado preenchia o ambiente, e ele se perdeu em seus próprios pensamentos. Até que, de repente, um impacto forte o tirou de seu devaneio.

— Opa!

Um menino passou correndo por ele, esbarrando com força suficiente para quase derrubá-lo. Namjoon tropeçou para trás, mas conseguiu se equilibrar antes de cair.

O garoto, no entanto, não parou. Disparou em direção à saída da cafeteria, sem olhar para trás.

Ainda confuso com o que acabara de acontecer, Namjoon instintivamente levou as mãos aos bolsos. Seu coração afundou. A carteira não estava mais ali.

— Ladrãozinho! — sussurrou para si mesmo — Já volto moça!

Ele correu o mais rápido que podia na direção em que o menino fugiu.

— Tenho documentos importantes, não posso perder... ladrãozinho de merda! — Namjoon xingava enquanto corria.

O menino parecia muito novo, talvez um pouco mais velho que Jimin. Suas roupas estavam sujas e rasgadas, os cabelos desgrenhados, e seu corpo magro indicava que ele vivia nas ruas há muito tempo.

Apesar do tamanho pequeno e da aparência frágil, ele era incrivelmente veloz. Corria sem esforço, desviando dos pedestres, pulando obstáculos na calçada com agilidade impressionante.

Namjoon, por outro lado, já sentia o suor escorrer pela testa. Ele se esforçava ao máximo para alcançá-lo, mas o garoto era ágil demais.

— Ei! Para! — Namjoon gritou.

O menino não olhou para trás, nem hesitou. Namjoon tentou negociar, desesperado.

— Te dou dinheiro! Muito mais do que tem na carteira! Só me devolve e eu te ajudo!

Mas o menino ignorou cada palavra e acelerou ainda mais. Foi então que Namjoon o viu dobrar em um beco estreito. Sem pensar duas vezes, entrou atrás dele, mas dessa vez com mais cautela.

Seus olhos varreram o ambiente ao redor, atento a qualquer possível ameaça. Ao chegar ao fim do beco, deparou-se com uma cena quase engraçada. O beco era sem saída. O menino tentava, desesperadamente, pular um muro alto, mas não conseguia alcançá-lo. Ele estava encurralado.

— Será que dá pra você parar de fugir? — Namjoon implorou, ofegante, quase colocando o coração para fora. Seu peito subia e descia rapidamente, e ele sentia que poderia infartar a qualquer momento.

— Não tenho mais idade pra isso… — murmurou, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

O menino, ainda encurralado contra o muro, se virou para ele como um gato arisco, os olhos atentos, prontos para qualquer movimento.

Namjoon ergueu as mãos em um gesto pacífico.

— Calma, eu não vou te machucar nem te fazer nenhum mal. — disse, tentando regular a respiração. — Só quero minhas coisas. Tenho documentos importantes.

Ele escolhia bem as palavras, mantendo o tom suave e sem ameaças.

— Podemos fazer uma troca, o que acha?

O menino permaneceu em silêncio, os olhos desconfiados fixos nele. Namjoon podia ver que ele estava pronto para correr a qualquer segundo. Mesmo sem dizer nada, sua postura denunciava tudo. Ele estava acostumado a fugir, a se defender.

Foi só então que Namjoon notou os detalhes que antes haviam passado despercebidos. O pequeno rosto do garoto estava sujo, mas o que mais chamou sua atenção foram os olhos fundos, os lábios rachados e ressecados. O menino estava extremamente magro. Seus ossos pareciam frágeis demais, e sua pele, pálida e sem vida, denunciava um problema óbvio. Ele estava desnutrido. Provavelmente não comia direito há dias.

Namjoon sentiu um aperto no peito.

A raiva por ter sido roubado se dissipou no mesmo instante, substituída por algo mais forte. Compaixão.

Namjoon tentava recuperar o fôlego, sentindo cada músculo do corpo reclamar depois daquela corrida absurda.

— Se você me devolver a carteira, eu te dou esse relógio… — disse, erguendo o pulso para mostrar a peça valiosa. — E todo o dinheiro que está dentro da carteira. O que acha?

O menino permaneceu em silêncio, apenas o encarando.

Namjoon revirou os olhos, exausto.

— Sei que deve estar faminto. — acrescentou, tentando outra abordagem. — Posso te levar para almoçar em um lugar muito bom.

Ele forçou um sorriso e ergueu as mãos num gesto pacífico.

— Hum? Temos um acordo?

Dessa vez, o menino hesitou.

Seus olhos escuros demonstravam dúvida. Ele parecia estar realmente considerando a oferta.

Namjoon percebeu o quanto ele estava faminto. O estômago roncando devia estar sendo sua maior batalha interna naquele momento.

Foi então que Namjoon resolveu tentar algo diferente. Ele suavizou o tom, deixando de lado a postura rígida e assumindo um ar mais amistoso.

— Diga-me, pequeno rapazinho… como você se chama?

O menino estreitou os olhos, desconfiado. Por alguns segundos, Namjoon achou que ele continuaria calado. Mas, então, o garoto respirou fundo e finalmente tomou coragem para responder.

— Meu nome é Jeon Jungkook… seu velho idiota! — disparou com petulância, cruzando os braços.

Namjoon arqueou as sobrancelhas, surpreso com a resposta atrevida. E, por um instante, não conseguiu conter um pequeno sorriso. Aquele garotinho tinha tenacidade.

Notas finais
OLHA SÓ QUEM APARECEU! Nosso coelho entra em cena... Alguém já tem uma teoria do que acontecerá a seguir? Hum?